sexta-feira, 28 de agosto de 2026

ELISÂNGELA

 


Quarenta anos já se passaram desde a manhã daquele  ‘primeiro de janeiro’, o dia em que cheguei àquela casa.

De Juiz de Fora, nas Minas Gerais, fui de mudança para Mauá, na Grande São Paulo, levando toda a minha “fortuna” numa única mochila. Ali couberam minhas roupas, um ou dois livros e algumas quinquilharias -- coisa de que só gente pobre gosta ou precisa, e conserva. Lembro de haver dois cabides de plástico que não couberam por inteiro na mochila, ficando à mostra como se fossem ‘criaturas insubmissas e curiosas’.  

Naquela casa moravam Afonso e Elza, meus tios maternos, e os filhos, Wendell e Elisângela. O menino tinha a idade de uns seis anos, e a menina dez. Eram duas crianças doces e dóceis, que nunca me aborreceram -- o que não posso dizer o mesmo em relação a elas. Minha fama de ‘pessoa difícil’ é verdadeira  e não me é muito favorável. Contudo, espero não ter aborrecido ninguém durante os ‘cinco anos, seis meses e quinze dias’ passados ali.

Não, eu não morei na casa deles, mas nos fundos do imóvel. Era um pequeno aposento, que seria um híbrido de ‘quarto, sala e cozinha’, mais um banheiro privativo  e uma pequena área com pia e fogão. Um espaço mais do que suficiente para mim, mas que já chegou a acomodar duas ou mais pessoas.

Cheguei àquela cidade para trabalhar e estudar. Foi um tempo difícil, embora eu já tivesse passado por dias mais áridos. Meu dia a dia era intenso. Inicialmente, eu saía de casa antes das ‘cinco da manhã’ para entrar no serviço às seis em outra cidade. Depois, meu trabalho ficou  noturno e passei a sair ao anoitecer. Primeiramente para a escola, e de lá para a estação ferroviária onde eu pegava o último trem para descer em Santo André. Dali, eu percorria a pé um trecho de uns dois quilômetros até chegar à empresa. Minha jornada começava exatamente à meia-noite, sendo essa uma dura rotina de longos anos.

Aqui entra uma questão, a mais importante. Trabalhando à noite, de segunda a sábado, além dos estudos, eu não tinha tempo para nada. Dormia mal, mal me alimentava e não conseguia cuidar das minhas coisas. Mas eu tinha o apoio dos tios, que me ajudaram muito. Lembro que a tia  fez questão de lavar as minhas roupas e ainda vigiava os meninos para não me acordarem. Muitas vezes fui despertado, não pelas crianças, mas pela mãe. Zelosa de meu sono diurno, a tia bradava: “Parem com esse barulho, senão vocês vão acordar o filipe!!!!”

E a Elisângela?... Pois bem, essa prima foi bastante sacrificada nesse período. Ela e seu irmãozinho tinham os coleguinhas com os quais dividiam as tarefas escolares e com quem gostavam de brincar, mas tiveram pouca liberdade para isso. Criança gosta de correr, pular, falar, cantar, gritar... Criança é naturalmente barulhenta! Mas naquela casa isso ficou prejudicado por uma situação que  durou ao menos três anos.  

Fora o desconforto descrito acima, tenho ao menos duas dívidas com a Elisângela. Uma: certa vez, cheguei todo feliz com o livro “A história da Matemática”, que comprei na faculdade, e ela o encapou para mim. Outra: as minhas camisas, que ela fazia questão de passar, eu as recebia impecáveis num dos cabides trazidos naquela mochila da viagem.

Na noite do último sábado, dia ‘vinte e dois’, recebi a triste notícia do falecimento da Elisângela. 


filipe

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM -- PARTE 14

 

27) Passado um tempinho sem dar sequência nas ‘memórias’, resolvi retomar o assunto agora, no silêncio desta noite -- sem música e apenas ouvindo o tique-taque de um velho carrilhão, o ladrar de cães da redondeza e o canto triste de uma carimbamba, dizendo repetidas vezes que  “amanhã eu vou”. Aprecio os sons noturnos de grilos, sapos, corujas e que tais. De vez em quando, paro tudo que estou fazendo à noite apenas para me encantar com o ‘corujar triste’  de uma ‘corujinha-do-mato’.

Ao trabalho, portanto.

28) Terminado o almoço, que descrevi parágrafos atrás como sendo um ‘frango meio ensopado’ e que a tia surpreendentemente apreciou, consultei o relógio e vi que estava quase na hora de sair para uma visita a parentes. Eu, que costumo cochilar depois do almoço, tive que declinar da minha sesta e me arrumar para sair sonolento naquelas “horas tão impróprias”. O taxista mandara mensagem de que estaria a caminho e eu tive de me apressar.

Então fui ao quarto, peguei a carteira e o celular e me despedi da tia, que estava lavando louças. Desci os dois degraus que separam a cozinha da varanda e fui a passos rápidos para a rua. Adiantado, já no portão, a tia me chamou lá de dentro e disse alguma coisa. Sem entender as suas palavras, tive que voltar, embora o motorista já estivesse me esperando, para saber o que ela queria. “Oi, tia. O que a senhora disse? Eu não ouvi direito.” “Nada não. Só falei pra você ir ‘com Deus e Nossa Senhora’.” “Amém, tia. Amém”. Saí.

29) A porta do carro estava aberta e o motorista não me pareceu apressado. Com o celular na mão, parecia digitar algo, talvez respondendo a mensagens. Assim que me viu, cumprimentou-me, pôs o aparelho num buraco do painel próximo ao volante e me perguntou se alguém mais iria comigo. Eu disse que não e pedi pra sentar no banco da frente. Ele permitiu. Então entrei, ele virou a chave, deu partida no carro e saímos para o distrito de Córrego Preto, que fica a uns dez quilômetros dali.

Preciso fazer uma pequena observação. O nome oficial do lugarejo em que nasci e fui criado é ‘vilas boas’ – que escrevo com iniciais minúsculas porque me recuso a usar essa nomenclatura. Como o nome original é Córrego Preto, uso a denominação. Vez ou outra digo Corgo Preto, mas no dia a dia a forma costumeira é “Corpreto” mesmo, e todo mundo entende.

(continua)

filipe

domingo, 9 de agosto de 2026

O QUINTO ENCONTRO

 

À sombra dessa jabuticabeira, que foi plantada por meu pai e cuidada por ele com tanto zelo, fizemos essa foto.

Papai já não está entre nós, e neste Dia dos Pais a sua memória certamente será contemplada pelos onze filhos – todos reunidos na imagem acima, num registro de nosso ‘quinto encontro’.

Foi nesse pedacinho de chão, onde hoje se regala o “arbusto jabuticabeiro”, que papai chegou com a família para morar, isso lá pelos idos dos ‘anos sessenta’, mais precisamente em meados do ano de 1964. Éramos papai, mamãe e quatro filhos – o mais novo ainda de colo. Na ocasião eu tinha a idade de dois anos e meio, por isso são poucos os fiapos de lembrança que me restam, mas bastante reforçados pelos relatos vívidos da irmã mais velha.

Lembro que a nossa “nova casa” era bem pequena – um casebre com pouco mais de vinte metros quadrados, onde se espremiam cinco cômodos: sala, salinha, cozinha e dois quartos. Banheiro não tinha, porque naquele tempo esse era um luxo lá da cidade.  

Sobre as medidas dos cômodos, particularmente dos quartos, uso como parâmetro uma cama de adulto que, naquele tempo, tinha no máximo dois metros de comprimento e ocupava um espaço que ia de uma parede a outra de um quarto. E esse era um padrão de quase todas as casas rurais. Os cômodos tinham em média quatro metros quadrados, mas o quarto de nossos pais era um pouco maior, e nele cabiam a cama do casal e a caminha da irmã.

Com o tempo, papai aumentou a casa. Quebrou paredes, levantou paredes, fez outro quarto e uma cozinha mais ampla. E assim a nossa casa pôde acomodar melhor a prole, que aumentava a cada dois anos.

Nos quinze anos em que moramos nessa casa, mamãe deu à luz sete crianças. Ali também foi velado o corpinho do Genádio, falecido antes de completar dois aninhos. Esse irmãozinho, caso tivesse sido internado num hospital, poderia estar na foto que abre a crônica. Mas aqueles eram tempos difíceis.

Não, a nossa vida não era fácil. No inverno, a coisa ficava ainda mais braba. Cobertor?... Um para o casal e outro para as crianças. Minha irmã dormia mais confortavelmente, porque tinha uma caminha só dela no quarto dos pais, mas seu cobertor era ralo também. Na cama grande, um bebezinho (sempre tinha um bebê lá em casa!) dormia com os pais. No entanto, assim que um novo rebento brotava, o antigo pequerrucho migrava da cama grande para a cama da irmãzinha e com ela dividia o cobertor.

No quarto da sala, os ‘homenzinhos mais velhos’ dormíamos embolados. O cobertor não nos agasalhava, seja porque era velho e puído ou por ser insuficiente mesmo. Não poucas vezes, papai se levantava no meio da noite e acrescentava uma colcha ou lençol para nos aquecer.

O nosso Velho Pai não está mais conosco. Todavia, ele continua nos protegendo, e estou tão certo disso que não lastimo sua ausência.

A sua bênção, meu Bom Velhinho!



filipe

domingo, 19 de julho de 2026

O ADEUS DE TIZIU

 


A cova foi rasa, mas o amigo não reclamou.

O solo duro não permitiu que eu cavasse mais. A palma da minha mão ficou dolorida e nela se formou uma bolha. Tive de parar.

Mas, para a carne pouca do pequeno defunto, essa modesta sepultura pôde ser considerada um regalo – o último, claro.

Terminado o serviço, fui à garagem e pequei no bagageiro do carro o corpinho. Com ele nos braços e tomado de tristeza, subi a escada bem devagar. O corpo do cãozinho ainda estava morno e mole. Tão mole que parecia prestes a escorrer das minhas mãos. Temi que caísse de meus braços quando tive de abrir o portãozinho que dá acesso ao quintal. Precisava liberar umas das mãos e, segurando-o firme com a mão direita, com a esquerda consegui abrir. A alguns passos dali, a Maneka tomava sol. Assim que me viu, ela se aproximou curiosa, cheirou o ‘morto’ e se afastou pesarosa; o Pitoko, ao me ver, deu uns dois passos para o meu lado, desistiu, correndo assustado. 

Continuei minha caminhada com o corpo do Tiziu até a sua ‘última casinha’. Depositei-o com cuidado naquele buraco, ajeitando suas pernas, suas patinhas e sua cabeça. Nos meus delírios, eu não poderia deixá-lo desconfortável. Enquanto eu cuidava disso, a Maneka se aproximou novamente, chegou bem perto da cova, olhou mais uma vez fixamente seu companheiro, deu uma bafejada e se afastou pra não mais voltar. O Pitoko, que já estava longe, desapareceu sem mandar condolências.

Fazia tempos que o Tiziu estava doente, mas a situação dele se agravou com a partida da Pituka, sua companheira de muitos anos. Este inverno, que veio bastante rigoroso, parece ter sido um complicador. Friorento, o Tiziu era o último a deixar a cama, levantando-se sempre após o sol raiar; não havendo sol, optava pelos seus aposentos, ficando lá o dia todo.

A crise pulmonar veio tão aguda, que o pobre cãozinho não conseguia mais deitar-se, andando aflito pelo quintal de dia e de noite. Nos últimos dias, ele mal dormia e na madrugada era o primeiro a me dar bom-dia. Ultimamente, os antibióticos não mais resolviam e o Tiziu parou de comer. Seus olhinhos marrons ficaram tristonhos e deles vinha um pungente pedido de socorro.

O socorro veio. Na clínica, caminhando a contragosto até a enfermaria, o Tiziu entrou numa sala já bem conhecida, onde por inúmeras vezes ele tomou medicamentos e fez exames. Mais uma vez foi posto na mesa de aço e mais uma vez tomou injeção – a última injeção.

A nossa história com o Tiziu é longa. Há exatos onze anos, na rodovia que liga Itapira a Amparo, nós o vimos no acostamento. O animalzinho, que mal conseguia andar, estava esquelético e bernento – e sangrava. A situação do cãozinho era pavorosa. Paramos o carro e fui ao encontro dele. Ele tentou correr, mas o alcancei sem esforço. Peguei-o. Ele tremia. Posto junto aos meus pés, no banco da frente, o pequeno cão continuava tremendo e chorava um choro sofrido – não sei se de medo ou de dor. Foi uma luta para que conseguíssemos curar suas feridas e seus traumas.

Agora esse meu velho amigo descansa à sombra de um pequeno arvoredo. Sua “caminha” está entre uma jabuticabeira e uma pitangueira. Há ali também outras árvores cujas raízes lhe farão companhia num terno e quase eterno abraço.

 


filipe

domingo, 28 de junho de 2026

DESPEDIDA DA SAPO

 


Minha história com a plataforma Sapo começou em fevereiro de 2014. Desde então, foram ‘trezentos e setenta’ textos, alguns deles em periodicidade semanal; outros quinzenais.

Desde o começo eu já me sentia bem aqui, e passei a me sentir melhor ainda depois que ganhei proximidade com alguns colegas blogueiros. Aquela espécie de “salinha de leitura”, que a plataforma Sapo oferece, não se encontra em outros sites – e ela faz toda a diferença porque ali se veem as postagens daqueles a quem se segue.

Muitos dos meus colegas já dispersaram, enquanto eu continuei por aqui até hoje, mas é chegada a hora de eu também esvaziar minha gaveta, pegar minha mochila, apagar a luz e fechar a porta.

Embora bastante desanimado, continuo postando em outro endereço. Caso alguém queira me dar o prazer de uma visita, bastar clicar no link que deixarei ao pé deste texto. 

Agradeço aos gestores da Sapo, que muito gentilmente me abrigaram ao longo desses anos, e agora, na finitude, ainda tiveram o cuidado de me dar instruções para eu sair com segurança e apresentaram sugestões de endereços onde eu pudesse encontra abrigo. E é exatamente por isso que não me sinto despejado, mas convidado a sair. Até porque essa casa será demolida em breve e os meus companheiros, que se anteciparam, já se vão apressados e bem longe na estrada.

Um abraço a todos.



Essa foi minha cartinha de despedida da plataforma Sapo, que tem sede em Portugal e será fechada no dia 30 deste mês.

filipe

terça-feira, 16 de junho de 2026

O ADEUS DE PITUKA

 


Foi um momento muito difícil para nós, menos para a Pituka, porque ela não tinha ideia do que estava acontecendo.

Passava das três da tarde quando entrei na clínica com essa cadelinha nos braços. Ali fui atendido pela secretária, que me conduziu a uma salinha onde havia apenas lavatório e uma mesa metálica. Depois aquela funcionária trouxe uma flanela, que foi posta na mesa, onde deitei a 'amiguinha'. A veterinária estava atendendo alguém noutra sala, mas minutos depois ela veio. Muito simpática, foi logo conversando com a sua ‘paciente, apalpando aqui e ali, enquanto me fazia perguntas e apresentava ponderações. A solução não poderia ser outra, porque a Pituka estava em sofrimento. Há uma semana ela parou de andar, não conseguindo sequer parar em pé, mas se alimentava. Ontem ela comeu menos do que o de costume e mal conseguia erguer a cabeça. Hoje ela não conseguiu se alimentar, tremia muito e parecia ter dor.

Antes de sair de casa, quando fui pegar a Pituka para levar ao carro, a Maneka sentou-se ao lado e olhou tudo contemplativa, quase premonitória. O Pitoko, sempre desconfiado, ficou à distância. O Tiziu não percebeu nada, mas esse coitado é assim mesmo: devagar em tudo.

Assim que abrimos o portão, enquanto o carro avançava para a rua, os três ficaram nos olhando lá de cima, mas num silêncio... Parece que até o Tiziu percebeu, naquele momento, que estava havendo ali uma triste despedida.

Mas preciso voltar algumas horas antes dessa partida. 

Ainda pela manhã, antes de o dia clarear, fui ver a Pituka. Inerte, ela não se moveu ao meu toque, mas seu corpo estava quente. Pensei: ela acabou de morrer, e não vou dar notícia triste à Rosana nessas horas. Tomado de tristeza, decidi fazer minhas preces e esperar o dia amanhecer para ver o que fazer.

Com o dia claro, eu ainda não havia terminado as orações, pensei: será mesmo?... Fui conferir. Não é que a ‘menina’ estava vivinha!? Talvez tenha se convulsionado, não sei.

De volta à clínica.


Então decidimos pela eutanásia. Enquanto a doutora preparava a seringa e os fármacos, eu massageava as orelhas da pobrezinha. Meus dedos roçavam aquela pelagem macia, cor de mel, enquanto uma agulha era introduzida numa de suas pernas. Ali eu tentava disfarçá-la para que ela não sofresse com a fisgada e, para isso, eu movia mais freneticamente as mãos no pescoço e na cabeça. Olhando fixamente para ela, sabendo que aquela seria a última vez, pude perceber que seus olhinhos brilhavam de contentamento, piscando a cada vez que meus dedos tocavam suas pálpebras. Naquele momento, a Pituka parecia feliz, realizada mesmo, porque o que ela mais amava na vida era carinho de mãos humanas, não importando de quem seriam as mãos.

Finalmente, aqueles olhinhos anuviaram-se.

filipe

sábado, 13 de junho de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 13

 

24) Eu mal terminara de fazer o almoço e a tia já se aproximou com um prato. Ela estava com fome, até porque a hora já avançava para o meio-dia e o costume ali é de almoço mais cedo. Eu havia preparado um pimentão, prato de que gosto muito, acrescido de feijão, arroz e um frango meio ensopado. Fiquei temeroso de que a tia não gostasse do frango, talvez ela o achasse salgado ou até mesmo insosso. Mas dessa vez tivemos um ‘final feliz’ no almoço, com a tia provando e aprovando tudo.

 

25) Houve uma vez em que as coisas não fluíram assim tão bem. Era Quaresma, a tia comprou um bacalhau e me pediu pra fazer. Eu disse que teria de deixá-lo de molho de um dia para o outro para dessalgar, mas ela tinha pressa e queria comer o peixe naquela hora. “Não, não precisa deixar de molho. É só ferventar, que o sal sai todinho. Pode fazer assim, eu sempre fiz desse jeito...”, ela disse isso na certeza de que o sobrinho não falharia, mas falhei miseravelmente.

Ferventei o peixe conforme ela me orientou, escorri a água e preparei uma panela com o tempero que eu tinha à mão: alho, óleo e só – cheiro-verde, não tinha; coentro, não havia; pimenta, nem pensar; sal eu não pus porque suspeitei de que o peixe pudesse ainda estar salgado. Então fritei o alho no óleo (não tinha azeite) e forrei o fundo da panela com pimentão, cebola e tomate – azeitona não existia. Depois, por sobre esses ingredientes, fiz um mosaico com as postas de bacalhau e tampei a panela sobre fogo brando. De vez em quando eu abria, mexia bem devagar pra não desmontar aquele arranjo e fechava novamente. Passados mais uns minutos, a tia se aproximou com uma colher, abriu a panela quase que furtivamente, deu uma mexidinha, pegou alguma coisa e saiu na direção da pia. Eu fiquei a observando à meia distância. Animada, ela soprou o petisco, que estava pelando de quente, e o levou à boca. Eu fiquei de olho naquela cena. Seu rosto, antes sereno, turvou-se. Em seguida, este pobre cozinheiro recebeu a temida reprovação, que veio numa pequena frase, mas suficiente para minar os brios de um ‘mestre-cuca’, que nunca fui. “Está muito salgado!” “Mas tia... Eu não pus mais sal. A fervura foi insuficiente, mas vou dar um jeito”.  Nisso, ela se recompôs e ficou na expectativa, tentando entender o que eu faria para recuperar o seu almoço.

Fui à geladeira e peguei alguns tomates, lavei, cortei em rodelas não muito grossas nem finas e as pus sobre o peixe. Foram muitas rodelas de tomate, tanto que a tia me alertou: “Não é muito, não?” “Não, tia. É o necessário para equilibrar o tempero.” Esperei uns minutos e provei antes dela. Estava perfeito para este plebeu, mas não para ‘patrícios’ que detêm a arte de preparar frutos do mar, particularmente bacalhau.

 

26) Encerro esta parte com um texto pouco inspirado, isso é sabido. Todavia, não espere o raro leitor que os demais capítulos sejam melhores, porque não serão. Adianto-lhe que há coisas mais aprazíveis pra se fazer ao invés de desperdiçar precioso tempo com meus delírios. E tem mais: não pretendo parar tão brevemente, porque muitas das minhas errâncias deverão ser registradas nas tortas linhas deste ‘memorial’.

(continua)

filipe