domingo, 18 de janeiro de 2026
sábado, 3 de janeiro de 2026
INFERNO SOB TRUMP
Todos os dias eu me levanto bem
cedo, abro o celular, dou uma espiada nas mensagens e costumo dar uma olhadinha
rápida no noticiário também. Ultimamente tenho evitado as notícias e me atenho
mais a podcasts de literatura e
pequenas estórias agridoces. Também ouço muita música, mas música popular
brasileira!
O dia de hoje não seria
diferente. Após a checagem de praxe, deixo o celular, faço a toalete e saio
para cumprimentar meus cãezinhos, um por um. Em seguida, começo as minhas
preces. Enquanto rezo, vou caminhando pelo quintal num exercício físico e
espiritual que costuma passar dos três quartos de horas. Esse é um momento
muito especial em que fico tomado de enlevo, numa quase epifania.
A noite foi serena, o sono tranquilo
porque embalado por grossos pingos de chuva que começaram ao entardecer e se
estenderam noite adentro até a madrugada. Ao amanhecer, o tempo estava firme e pude
caminhar a pés enxutos. O noticiário que estava no celular quando me levantei era
anódino, nada de anormal piscava na tela.
Terminada minha “tarefa”, e ainda
sob aquele arrebatamento que só as almas monásticas conhecem, pus água na
chaleira para o chimarrão, bebida que sorvo pausadamente enquanto folheio um
livro. Enquanto a chaleira chiava, peguei novamente o telemóvel. Naquele momento, assombrado pela imagem dantesca que
abre esta crônica, fui arrancado de meu arrebatamento para tomar pé da realidade.
Logo abaixo da fotografia, lia-se “Trump invade a Venezuela”. Incrédulo, dei
uma deslizada na tela e não havia dúvidas: Trump assaltou a Venezuela! O coração
descompassou e quase chorei de tristeza. Não, eu não choraria pelo Maduro, o
opressor de seu povo e algoz da Guiana. Mas choraria pelos venezuelanos – um povo
sofrido que vê seus barcos e navios atacados e sequestrados, além dos
marinheiros assassinados pelos ianques no litoral de seu país.
Todavia, meu desalento sequer
pode ser comparado ao daquele povo. Imagine o desespero de quem, sobrevivendo
ao bombardeio, teve a casa destruída, e sob os escombros muitos corpos – alguns
em agonia.
Os Estados Unidos violentaram a
Venezuela com a fúria de um predador e não há força que os detenha. Os norte-americanos,
se quiserem, dominam militarmente toda a América e grande parte da Europa e
Ásia – exceto as potências nucleares, porque ali “o buraco é mais fundo”.
Penso que neste século deverá
haver a formação de três grandes blocos geopolíticos: a Ásia dominada pela China,
a Europa curvada à Rússia e a América subjugada pelos Estados Unidos. Quem
viver verá, e sofrerá. Descreio na civilização seja ela cristã ou pagã.
“Se não há Deus, tudo se permite”, disse Dostoievski. ‘Se não houvesse justiça divina, estaríamos
sob o reinado de Satã’, digo eu.
FILIPE
