Na sala-corredor de espera de um
ambulatório, eu aguardava a médica para avaliação de um exame quando fiz a foto
que abre este texto. A imagem é apenas uma ilustração, e aqui não farei conexão
com o exame nem com a consulta. Quero é navegar em águas mais densas; quero o
mar.
Há tempos que eu vinha me
preparando psicologicamente para um procedimento médico. Após dois dias e meio
de intensa dieta, que foi finalizada com um rigoroso jejum, fui conduzido ao ambulatório
por minha companheira. Estacionamos no pátio e desci do carro, mas percebi que
eu não conseguiria andar. Cambaleante, tentei dominar as passadas, mas tudo
começou a girar e me agachei para não cair. Nisso, uma jovem senhora se aproximou
e ofereceu ajuda. Seu nome é Gorete e
trabalha ali como enfermeira, ela me disse depois.
A Gorete, que nem tinha começado
seu turno, já entrou na lida, oferecendo-me uma cadeira de rodas, que aceitei
agradecido. Essa foi a primeira vez que usei uma cadeira de rodas, uma
experiência humanizadora! E assim, enquanto
a Rosana fazia a burocracia na recepção, eu era conduzido pela Gorete a uma
sala de enfermagem.
Num canto daquela sala havia uma
maca e pedi à enfermeira para ficar nela, porque meu desconforto na cadeira era
enorme. “Claro”, assentiu e me ajudou a
subir naquele equipamento. Ela mediu minha pressão (8,0 por 4,0), mediu a minha
glicose (normal) e quis saber o que mais eu sentia e o porquê de eu ter ido ao
ambulatório.
Embora deitado, o mal-estar
continuava me afligindo. A enfermeira tentava me tranquilizar, dizendo que logo
passaria, e pegou alguma coisa, talvez uma almofada, e a pôs embaixo de meus
pés enquanto abanava-me o rosto com meu chapéu. Passados uns minutos, melhorei
um pouco e ela me conduziu a uma sala ampla, com várias macas e pacientes. As
enfermeiras me acolheram ternamente, mas uma delas furou meu braço para o tal
acesso. Na primeira espetada ela já alcançou uma veia bem bacana, me poupando
de outras agulhadas. Nesse momento me veio forte a imagem de minha mãe em suas
inúmeras internações: quantas vezes ela teve de suportar essas fincadas... Fui
testemunha do sofrimento da mamãe, que debatia, gritava, chorava. A enfermeira
não achava veia... Então ela chamava outra enfermeira, que também não achava,
tornando-se essa uma rotina agônica na vida da minha mãe.
Depois de tudo acertado, veio-me
o soro. Foram duas “sacolas” daquelas de um litro, ou quase. Enquanto o soro
gotejava na minha veia eu pensava na vida e no final dela, que não me parecia
muito distante. Em certo momento, outra enfermeira chegou e me pediu que
entregasse relógio, aliança e demais pertences. Eu não tinha mais nada pra
entregar. Então ela disse que era pra eu retirar toda a roupa. Jogou sobre mim
uma “camisola”, que me cobriu por inteiro, e me despi. Ali, naquele momento, eu
estava completamente despido de tudo. Em mim não havia pudor nem vaidade; e não
havia saúde também; nem orgulho nem mágoas. Eu era apenas um corpo frágil à espera
do sedativo, que viria sem tardar.
Enquanto eu pensava na brevidade
da vida, alguém chegou: “Voltei. Você está bem melhor, até mais corado...
Lembra de mim? Eu que te socorri.” “Ah, a Gorete!” “Então, eu que vou te
acompanhar no procedimento.” A Gorete, agora uniformizada, me conduziu à outra
sala. Nesse momento eu trajava camisola azul clara, tinha um monitor de pressão
e outro de não sei o quê, depois recebi uma cânula de oxigênio e, antes da
injeção que me sedaria, tive uma breve epifania: bateu-me forte a imagem do meu
pai no leito da UTI. Papai estava exatamente assim e isso me trouxe grande
conforto.
Enquanto o médico fazia umas anotações,
a enfermeira me ajeitava na maca e disse que me daria uma pequena fisgada no
braço para a sedação. Eu fechei os olhos num esforço pra não sentir... e abri
logo em seguida ao ser tocado por uma pessoa: “Você já está liberado.” Era a
enfermeira Gorete.
FILIPE

