domingo, 28 de setembro de 2025

NO AMBULATÓRIO

 


Na sala-corredor de espera de um ambulatório, eu aguardava a médica para avaliação de um exame quando fiz a foto que abre este texto. A imagem é apenas uma ilustração, e aqui não farei conexão com o exame nem com a consulta. Quero é navegar em águas mais densas; quero o mar.

Há tempos que eu vinha me preparando psicologicamente para um procedimento médico. Após dois dias e meio de intensa dieta, que foi finalizada com um rigoroso jejum, fui conduzido ao ambulatório por minha companheira. Estacionamos no pátio e desci do carro, mas percebi que eu não conseguiria andar. Cambaleante, tentei dominar as passadas, mas tudo começou a girar e me agachei para não cair. Nisso, uma jovem senhora se aproximou e ofereceu ajuda.  Seu nome é Gorete e trabalha ali como enfermeira, ela me disse depois.

A Gorete, que nem tinha começado seu turno, já entrou na lida, oferecendo-me uma cadeira de rodas, que aceitei agradecido. Essa foi a primeira vez que usei uma cadeira de rodas, uma experiência humanizadora!  E assim, enquanto a Rosana fazia a burocracia na recepção, eu era conduzido pela Gorete a uma sala de enfermagem.

Num canto daquela sala havia uma maca e pedi à enfermeira para ficar nela, porque meu desconforto na cadeira era enorme.  “Claro”, assentiu e me ajudou a subir naquele equipamento. Ela mediu minha pressão (8,0 por 4,0), mediu a minha glicose (normal) e quis saber o que mais eu sentia e o porquê de eu ter ido ao ambulatório.

Embora deitado, o mal-estar continuava me afligindo. A enfermeira tentava me tranquilizar, dizendo que logo passaria, e pegou alguma coisa, talvez uma almofada, e a pôs embaixo de meus pés enquanto abanava-me o rosto com meu chapéu. Passados uns minutos, melhorei um pouco e ela me conduziu a uma sala ampla, com várias macas e pacientes. As enfermeiras me acolheram ternamente, mas uma delas furou meu braço para o tal acesso. Na primeira espetada ela já alcançou uma veia bem bacana, me poupando de outras agulhadas. Nesse momento me veio forte a imagem de minha mãe em suas inúmeras internações: quantas vezes ela teve de suportar essas fincadas... Fui testemunha do sofrimento da mamãe, que debatia, gritava, chorava. A enfermeira não achava veia... Então ela chamava outra enfermeira, que também não achava, tornando-se essa uma rotina agônica na vida da minha mãe.

Depois de tudo acertado, veio-me o soro. Foram duas “sacolas” daquelas de um litro, ou quase. Enquanto o soro gotejava na minha veia eu pensava na vida e no final dela, que não me parecia muito distante. Em certo momento, outra enfermeira chegou e me pediu que entregasse relógio, aliança e demais pertences. Eu não tinha mais nada pra entregar. Então ela disse que era pra eu retirar toda a roupa. Jogou sobre mim uma “camisola”, que me cobriu por inteiro, e me despi. Ali, naquele momento, eu estava completamente despido de tudo. Em mim não havia pudor nem vaidade; e não havia saúde também; nem orgulho nem mágoas. Eu era apenas um corpo frágil à espera do sedativo, que viria sem tardar.

Enquanto eu pensava na brevidade da vida, alguém chegou: “Voltei. Você está bem melhor, até mais corado... Lembra de mim? Eu que te socorri.” “Ah, a Gorete!” “Então, eu que vou te acompanhar no procedimento.” A Gorete, agora uniformizada, me conduziu à outra sala. Nesse momento eu trajava camisola azul clara, tinha um monitor de pressão e outro de não sei o quê, depois recebi uma cânula de oxigênio e, antes da injeção que me sedaria, tive uma breve epifania: bateu-me forte a imagem do meu pai no leito da UTI. Papai estava exatamente assim e isso me trouxe grande conforto.

Enquanto o médico fazia umas anotações, a enfermeira me ajeitava na maca e disse que me daria uma pequena fisgada no braço para a sedação. Eu fechei os olhos num esforço pra não sentir... e abri logo em seguida ao ser tocado por uma pessoa: “Você já está liberado.” Era a enfermeira Gorete.

FILIPE


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