domingo, 28 de junho de 2026

DESPEDIDA DA SAPO

 


Minha história com a plataforma Sapo começou em fevereiro de 2014. Desde então, foram ‘trezentos e setenta’ textos, alguns deles em periodicidade semanal; outros quinzenais.

Desde o começo eu já me sentia bem aqui, e passei a me sentir melhor ainda depois que ganhei proximidade com alguns colegas blogueiros. Aquela espécie de “salinha de leitura”, que a plataforma Sapo oferece, não se encontra em outros sites – e ela faz toda a diferença porque ali se veem as postagens daqueles a quem se segue.

Muitos dos meus colegas já dispersaram, enquanto eu continuei por aqui até hoje, mas é chegada a hora de eu também esvaziar minha gaveta, pegar minha mochila, apagar a luz e fechar a porta.

Embora bastante desanimado, continuo postando em outro endereço. Caso alguém queira me dar o prazer de uma visita, bastar clicar no link que deixarei ao pé deste texto. 

Agradeço aos gestores da Sapo, que muito gentilmente me abrigaram ao longo desses anos, e agora, na finitude, ainda tiveram o cuidado de me dar instruções para eu sair com segurança e apresentaram sugestões de endereços onde eu pudesse encontra abrigo. E é exatamente por isso que não me sinto despejado, mas convidado a sair. Até porque essa casa será demolida em breve e os meus companheiros, que se anteciparam, já se vão apressados e bem longe na estrada.

Um abraço a todos.



Essa foi minha cartinha de despedida da plataforma Sapo, que tem sede em Portugal e será fechada no dia 30 deste mês.

filipe

terça-feira, 16 de junho de 2026

O ADEUS DE PITUKA

 


Foi um momento muito difícil para nós, menos para a Pituka, porque ela não tinha ideia do que estava acontecendo.

Passava das três da tarde quando entrei na clínica com essa cadelinha nos braços. Ali fui atendido pela secretária, que me conduziu a uma salinha onde havia apenas lavatório e uma mesa metálica. Depois aquela funcionária trouxe uma flanela, que foi posta na mesa, onde deitei a 'amiguinha'. A veterinária estava atendendo alguém noutra sala, mas minutos depois ela veio. Muito simpática, foi logo conversando com a sua ‘paciente, apalpando aqui e ali, enquanto me fazia perguntas e apresentava ponderações. A solução não poderia ser outra, porque a Pituka estava em sofrimento. Há uma semana ela parou de andar, não conseguindo sequer parar em pé, mas se alimentava. Ontem ela comeu menos do que o de costume e mal conseguia erguer a cabeça. Hoje ela não conseguiu se alimentar, tremia muito e parecia ter dor.

Antes de sair de casa, quando fui pegar a Pituka para levar ao carro, a Maneka sentou-se ao lado e olhou tudo contemplativa, quase premonitória. O Pitoko, sempre desconfiado, ficou à distância. O Tiziu não percebeu nada, mas esse coitado é assim mesmo: devagar em tudo.

Assim que abrimos o portão, enquanto o carro avançava para a rua, os três ficaram nos olhando lá de cima, mas num silêncio... Parece que até o Tiziu percebeu, naquele momento, que estava havendo ali uma triste despedida.

Mas preciso voltar algumas horas antes dessa partida. 

Ainda pela manhã, antes de o dia clarear, fui ver a Pituka. Inerte, ela não se moveu ao meu toque, mas seu corpo estava quente. Pensei: ela acabou de morrer, e não vou dar notícia triste à Rosana nessas horas. Tomado de tristeza, decidi fazer minhas preces e esperar o dia amanhecer para ver o que fazer.

Com o dia claro, eu ainda não havia terminado as orações, pensei: será mesmo?... Fui conferir. Não é que a ‘menina’ estava vivinha!? Talvez tenha se convulsionado, não sei.

De volta à clínica.


Então decidimos pela eutanásia. Enquanto a doutora preparava a seringa e os fármacos, eu massageava as orelhas da pobrezinha. Meus dedos roçavam aquela pelagem macia, cor de mel, enquanto uma agulha era introduzida numa de suas pernas. Ali eu tentava disfarçá-la para que ela não sofresse com a fisgada e, para isso, eu movia mais freneticamente as mãos no pescoço e na cabeça. Olhando fixamente para ela, sabendo que aquela seria a última vez, pude perceber que seus olhinhos brilhavam de contentamento, piscando a cada vez que meus dedos tocavam suas pálpebras. Naquele momento, a Pituka parecia feliz, realizada mesmo, porque o que ela mais amava na vida era carinho de mãos humanas, não importando de quem seriam as mãos.

Finalmente, aqueles olhinhos anuviaram-se.

filipe

sábado, 13 de junho de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 13

 

24) Eu mal terminara de fazer o almoço e a tia já se aproximou com um prato. Ela estava com fome, até porque a hora já avançava para o meio-dia e o costume ali é de almoço mais cedo. Eu havia preparado um pimentão, prato de que gosto muito, acrescido de feijão, arroz e um frango meio ensopado. Fiquei temeroso de que a tia não gostasse do frango, talvez ela o achasse salgado ou até mesmo insosso. Mas dessa vez tivemos um ‘final feliz’ no almoço, com a tia provando e aprovando tudo.

 

25) Houve uma vez em que as coisas não fluíram assim tão bem. Era Quaresma, a tia comprou um bacalhau e me pediu pra fazer. Eu disse que teria de deixá-lo de molho de um dia para o outro para dessalgar, mas ela tinha pressa e queria comer o peixe naquela hora. “Não, não precisa deixar de molho. É só ferventar, que o sal sai todinho. Pode fazer assim, eu sempre fiz desse jeito...”, ela disse isso na certeza de que o sobrinho não falharia, mas falhei miseravelmente.

Ferventei o peixe conforme ela me orientou, escorri a água e preparei uma panela com o tempero que eu tinha à mão: alho, óleo e só – cheiro-verde, não tinha; coentro, não havia; pimenta, nem pensar; sal eu não pus porque suspeitei de que o peixe pudesse ainda estar salgado. Então fritei o alho no óleo (não tinha azeite) e forrei o fundo da panela com pimentão, cebola e tomate – azeitona não existia. Depois, por sobre esses ingredientes, fiz um mosaico com as postas de bacalhau e tampei a panela sobre fogo brando. De vez em quando eu abria, mexia bem devagar pra não desmontar aquele arranjo e fechava novamente. Passados mais uns minutos, a tia se aproximou com uma colher, abriu a panela quase que furtivamente, deu uma mexidinha, pegou alguma coisa e saiu na direção da pia. Eu fiquei a observando à meia distância. Animada, ela soprou o petisco, que estava pelando de quente, e o levou à boca. Eu fiquei de olho naquela cena. Seu rosto, antes sereno, turvou-se. Em seguida, este pobre cozinheiro recebeu a temida reprovação, que veio numa pequena frase, mas suficiente para minar os brios de um ‘mestre-cuca’, que nunca fui. “Está muito salgado!” “Mas tia... Eu não pus mais sal. A fervura foi insuficiente, mas vou dar um jeito”.  Nisso, ela se recompôs e ficou na expectativa, tentando entender o que eu faria para recuperar o seu almoço.

Fui à geladeira e peguei alguns tomates, lavei, cortei em rodelas não muito grossas nem finas e as pus sobre o peixe. Foram muitas rodelas de tomate, tanto que a tia me alertou: “Não é muito, não?” “Não, tia. É o necessário para equilibrar o tempero.” Esperei uns minutos e provei antes dela. Estava perfeito para este plebeu, mas não para ‘patrícios’ que detêm a arte de preparar frutos do mar, particularmente bacalhau.

 

26) Encerro esta parte com um texto pouco inspirado, isso é sabido. Todavia, não espere o raro leitor que os demais capítulos sejam melhores, porque não serão. Adianto-lhe que há coisas mais aprazíveis pra se fazer ao invés de desperdiçar precioso tempo com meus delírios. E tem mais: não pretendo parar tão brevemente, porque muitas das minhas errâncias deverão ser registradas nas tortas linhas deste ‘memorial’.

(continua)

filipe