sábado, 13 de junho de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 13

 

24) Eu mal terminara de fazer o almoço e a tia já se aproximou com um prato. Ela estava com fome, até porque a hora já avançava para o meio-dia e o costume ali é de almoço mais cedo. Eu havia preparado um pimentão, prato de que gosto muito, acrescido de feijão, arroz e um frango meio ensopado. Fiquei temeroso de que a tia não gostasse do frango, talvez ela o achasse salgado ou até mesmo insosso. Mas dessa vez tivemos um ‘final feliz’ no almoço, com a tia provando e aprovando tudo.

 

35) Houve uma vez em que as coisas não fluíram assim tão bem. Era Quaresma, a tia comprou um bacalhau e me pediu pra fazer. Eu disse que teria de deixá-lo de molho de um dia para o outro para dessalgar, mas ela tinha pressa e queria comer o peixe naquela hora. “Não, não precisa deixar de molho. É só ferventar, que o sal sai todinho. Pode fazer assim, eu sempre fiz desse jeito...”, ela disse isso na certeza de que o sobrinho não falharia, mas falhei miseravelmente.

Ferventei o peixe conforme ela me orientou, escorri a água e preparei uma panela com o tempero que eu tinha à mão: alho, óleo e só – cheiro-verde, não tinha; coentro, não havia; pimenta, nem pensar; sal eu não pus porque suspeitei de que o peixe pudesse ainda estar salgado. Então fritei o alho no óleo (não tinha azeite) e forrei o fundo da panela com pimentão, cebola e tomate – azeitona não existia. Depois, por sobre esses ingredientes, fiz um mosaico com as postas de bacalhau e tampei a panela sobre fogo brando. De vez em quando eu abria, mexia bem devagar pra não desmontar aquele arranjo e fechava novamente. Passados mais uns minutos, a tia se aproximou com uma colher, abriu a panela quase que furtivamente, deu uma mexidinha, pegou alguma coisa e saiu na direção da pia. Eu fiquei a observando à meia distância. Animada, ela soprou o petisco, que estava pelando de quente, e o levou à boca. Eu fiquei de olho naquela cena. Seu rosto, antes sereno, turvou-se. Em seguida, este pobre cozinheiro recebeu a temida reprovação, que veio numa pequena frase, mas suficiente para minar os brios de um ‘mestre-cuca’, que nunca fui. “Está muito salgado!” “Mas tia... Eu não pus mais sal. A fervura foi insuficiente, mas vou dar um jeito”.  Nisso, ela se recompôs e ficou na expectativa, tentando entender o que eu faria para recuperar o seu almoço.

Fui à geladeira e peguei alguns tomates, lavei, cortei em rodelas não muito grossas nem finas e as pus sobre o peixe. Foram muitas rodelas de tomate, tanto que a tia me alertou: “Não é muito, não?” “Não, tia. É o necessário para equilibrar o tempero.” Esperei uns minutos e provei antes dela. Estava perfeito para este plebeu, mas não para ‘patrícios’ que detêm a arte de preparar frutos do mar, particularmente bacalhau.

 

26) Encerro esta parte com um texto pouco inspirado, isso é sabido. Todavia, não espere o raro leitor que os demais capítulos sejam melhores, porque não serão. Adianto-lhe que há coisas mais aprazíveis pra se fazer ao invés de desperdiçar precioso tempo com meus delírios. E tem mais: não pretendo parar tão brevemente, porque muitas das minhas errâncias deverão ser registradas nas tortas linhas deste ‘memorial’.

(continua)

filipe

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