terça-feira, 23 de dezembro de 2025

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO



Na semana passada havíamos planejado viagem para uma pequena cidade de Minas Gerais, onde passaríamos o dia de hoje. Eu estava animado no começo, mas fui desistindo aos poucos, até abandonar a ideia.

E o meu dia começou cedo. Tão cedo, que seu início se deu à meia-noite (pra quem é da noite), ou zero-hora (pra quem é do dia). Isso se deu quando fui ao celular mandar mensagem para um tio que também faz aniversário hoje. Tenho a alegria de compartilhar com ele a data natalícia, não o ano. Nos tempos antigos ele era bem mais velho do que eu. Quando fiz nove, ele fez dezoito! Hoje essa diferença é relativamente bem pequena – somos, os dois, uns velhotes.

O dia amanheceu e me levantei para as preces e a caminhada. Abri a porta e a Maneka, minha cadelinha, já me esperava; os outros três me aguardavam à meia-distância. Ao meu bom-dia, todos se aproximaram e começaram a me disputar. Dei um ralho e todos se afastaram, menos a Maneka, que continuou roçando meus calcanhares enquanto eu caminhava pelo quintal.

O dia avançou para a hora do almoço. Havia planos de ir ao restaurante, mas desistimos e resolvemos requentar sobras de ontem. Tinha arroz, que “batizei” com cebola frita e um fio de azeite. Tinha também batata-doce, quiabo, feijão e linguiça calabresa – que fora cozida, depois frita e assada. Assim foi o nosso almoço, que comemos alegremente neste dia especial.

A sobremesa, que dificilmente como, dessa vez foi chocolate. Não quero fazer propaganda, mas a Cacau Show me faz ‘cometer o pecado da gula’ com suas trufas. Comi duas após o almoço, e só não comi mais porque não sou afeito a arroubos à mesa (mentira).

Depois veio a sesta, que tomou deliciosas duas horas de minha tarde. Em seguida, uma caminhada com parte da matilha: a Pituka e o Tiziu – ela uma anciã e ele um idosinho. Deixamos a Maneka e o Pitoko aos prantos, como sempre, e nos esgueiramos pelas ruas do bairro, uma delas muito íngreme e esburacada. Próximo a uma casa em construção, no mato, havia duas tábuas em meio a cupins que devoravam um tronco de madeira. Bati bem as tábuas, livrando-as dos insetos e as peguei, voltando pra casa com os cães e a pequena “fortuna” nos ombros. Essa sucata será muito brevemente transformada num pequeno móvel.

A tarde, que chegara ligeira, despediu-se apressada e veio a noite. A minha companheira perguntou se eu não queria sair. Havíamos planejado ir a um barzinho – aqui na cidade há vários e muito bons. Não, não vamos sair. Ficar em casa é o melhor programa que se tem. Essa decisão foi aprovada por unanimidade.

Agora, pra terminar o dia, decidi registrar esses pequenos traços de um cotidiano, que se faz pleno exatamente pela sua rotina frugal.

Ah, e o ‘presente de aniversário’? Sim, houve um presente. Ele está na foto que abre o texto. Uma pequena prateleira feita com retalhos de madeira, que fiz ontem e hoje instalei. Ela terá grande utilidade para nós, onde poremos os remedinhos do dia a dia.

FILIPE


domingo, 7 de dezembro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM -- QUARTA PARTE

10) Estou chegando à casa da tia Geni. Ela já me viu, mas sei que terei de esperar um pouquinho, porque antes de receber alguém, a tia costuma dar uma espiada no espelho para acariciar o cabelo, que ela faz com a palma das mãos. Dependendo de quem chega, isso pode demorar desde uns poucos minutinhos a um tempo mais dilatado.

Não houve demora. A tia Geni vem devagarinho pela casa e ouço movimento na fechadura. Ela abre a porta da sala, caminha com dificuldade até o gradil do alpendre e me entrega a chave. Ela sempre faz assim devido à sua dificuldade com a pequena escada que dá acesso à casa. Abro o portão não sem antes a chave me escapar da mão, que recupero com dificuldade porque o cadeado fica do lado oposto de quem chega. A tia me olha, esperando em silêncio com as mãos apoiadas na grade enquanto eu fecho o portão e caminho na sua direção.

Ao subir a pequena escada que dá acesso à varandinha, os gatos que estavam por ali, partiram em tresloucada disparada. Eram muitos gatos. Dez? Bem mais que dez, mas não vinte. Houve um tempo em que havia uns trinta gatos, mas os cães da vizinhança deram cabo de alguns, outros sumiram, de forma que ficaram “apenas esses”, conforme a tia diz. Por sorte minha, os gatos saíram, mas não a tia, que continuou amuada, dando impressão de que não estava a fim de receber visitas.

Entrego a chave, ela a recolhe e ensaia um movimento de entrada, como se a minha presença ali fosse uma rotina como a do leiteiro, entregando a garrafa de leite, ou a do rapazinho do mercado em frente com as mercadorias que ela pediu – encomenda essa que ela sempre faz pela janela da sala, de onde ela chama o vendeiro, que a atende ligeiro e prestimoso.

Quando lhe dei a mão para a bênção, ela me abençoou sem entusiasmo e, mesmo desanimado, puxei assunto, mas a “velhinha” estava agarrada, quase muda. Falei que eu havia viajado pra ficar uns dois dias com ela e que seria na casa dela que eu me hospedaria. Ela expressou espanto e me perguntou: “Uai.. você não está indo pra roça? Pensei que fosse pra casa das suas irmãs...” “Não, tia. Eu vim pra ver a senhora, ficar com a senhora. Posso até visitar minhas irmãs, mas é aqui que quero ficar. Só não quero incomodar. Depois de amanhã já estou indo embora.” “Ô diacho...  Eu não sabia que você vinha pra ficar aqui. Por que ninguém me falou?” “Ah, tia. Eu que pedi pra não falar. A culpa é minha”.

 

11) Depois a tia se soltou um pouco, até sorriu, e entramos. Deixei a mochila no sofá da sala e segui com ela para a cozinha, onde havia dois ou três gatos que, ao me verem, voaram pela janela e sumiram para o quintal. A tia me disse que eles não gostam de visitas, e isso me deixou bastante animado. Uma observação: amo animais, mas ‘cada qual com seu igual’.

O fogão da tia estava com uma panela em fogo baixo. Desconfiado de que ela estivesse fazendo comida, e pra não atrapalhar, eu disse que gostaria de levá-la pra almoçar fora, poderia ser no restaurante daquele bairro. Ela foi assertiva, dizendo que estava entojada de comida de restaurante e que por isso mesmo decidiu ela própria fazer sua comida. Desta vez, ela estava fazendo um macarrão com ‘um restinho de frango de ontem’. Disse que tinha feijão cozido na geladeira e que a comida daria pra nós dois. Resistindo ao convite, tentei declinar, mas a tia foi incisiva e tive que almoçar do almoço dela.

Aqui um segredo para os meus raros e caros leitores: a comidinha da tia não estava me agradando. O macarrão, muito branco, se desfazia junto ao frango, também muito pálido. Ela tinha um pouco de feijão batido e temperado na geladeira, que fez voltar ao fogo e o engrossou, ficando bastante saboroso, mas estava faltando algo.

A tia, agora animadinha por eu não ter desistido da comida dela, pegou dois pratos, me deu um e ordenou que eu almoçasse. Perguntei se tinha ovos. Tinha na geladeira. Peguei três ovos, ela me deu uma frigideira e ficou me espiando. Pus óleo e despejei os três ovos para uma fritada única. Ela ficou alarmada: “Uai, eu frito um de cada vez...” “Não, tia, eu frito tudo junto e vai dar certo!” Pus a fritura num prato e dividi ao meio: metade pra ela e metade pra mim. Almoçamos bem. Ela não reclamou do ovo, mas disse que o feijão, que ela mesma tinha preparado, estava meio salgado. Eu não achei, mas não tenho isenção para falar de ‘salinidade à mesa’.

(continua...)

FILIPE

domingo, 23 de novembro de 2025

SERIAM 'NOVENTA E CINCO'

 



Já era noite. Talvez neblinasse ou fizesse frio – disso já não me recordo. Lembro que estávamos na cozinha quando um irmão disse ter ouvido um ‘toque-toque’ na porta da sala. Diante disso, ficamos apreensivos, mas não estávamos indefesos. Tínhamos o papai conosco e nele a confiança para lidar com a situação, seja ela qual fosse, era certa. Estávamos protegidos.

Preciso registrar que estou falando de um tempo distante, e aqui rememoro algo acontecido há mais de meio século. Naquela ocasião, morávamos num sítio do meu avô paterno, numa pequena casa sem vizinhos próximos, sem água encanada nem luz elétrica. A iluminação era por lamparina a querosene. Tínhamos duas lamparinas: uma era exclusiva da minha mãe, que, adoentada, gostava de ficar reclusa no seu quarto; a outra era para o restante da família e ficava na cozinha. Era na cozinha que sempre ficávamos, particularmente à noite. Alguns sentados no banco de madeira, outros ao redor do fogão a lenha. Era na cozinha que tomávamos as refeições, conversávamos e fazíamos orações. Aquele pequeno cômodo com chão de terra batida era para nós quase um templo de convivência doméstica. Ali o papai, todas as noites, cansado de sua jornada, rezava o terço e lutava com o sono. Por vezes, numa cochilada mais forte, o terço caía de suas mãos, mas ele o apanhava e retomava a prece. Terminada a oração, ele dava ordem para que fôssemos para a cama. Ele também, após lavar os pés, partia para seus aposentos, encontrando mamãe já ‘no terceiro sono’, como se dizia.

Na noite em que se deu o fato aqui narrado, papai estava conosco, mas isso não era comum. Sendo pedreiro, ele costumava trabalhar longe de casa, e como sempre andava a pé, era demorada a sua volta.  Mesmo trabalhando perto, papai costumava sair de tardinha para aplicar injeções. Ele era uma espécie de enfermeiro muito requisitado naquele ‘córrego’. Além das injeções intramusculares, ele sabia, como poucos, aplicar também as intravenosas. E ainda havia os pedidos de reza nas casas, que nunca deixou de atender. São essas as razões por que nosso pai nem sempre estava em casa nas primeiras horas da noite.

A batida na porta continuou espaçada e suave – essa era uma forma educada de chamar alguém da casa. Mas, para nossa tranquilidade, papai estava conosco naquele dia e ele foi à sala para atender a quem batia na porta. À frente, com a lamparina à altura dos olhos, papai girou a tramela da porta e tentou enxergar a visita. Naquele momento um misto de orgulho e medo nos assomou. Orgulho pelo destemor do pai, um homem corajoso; medo pelo que pudesse acontecer com ele e conosco, pois a lamparina poderia ser apagada com um simples bafejo, e todos ficaríamos no escuro a mercê de um possível invasor. 

Felizmente não estávamos em perigo. Quem chegava era uma mulher. Negra, alta, magra, ela trazia consigo uma criança e pedia abrigo. Papai mandou que entrasse e, após obter algumas informações, ajeitou pra ela uma cama na sala, que era o único lugar disponível. Num canto do quarto da sala havia uma esteira artesanal, feita de taboa, que papai sempre mantinha para alguma eventualidade. Ele estendeu a esteira, cobriu com um lençol, pegou um cobertor e acolheu a mulher e o seu filhinho naquela noite.

O nome da mulher, eu soube depois de moço, é Isolina. Ela morava numa comunidade de gente muito pobre, na entrada da cidade. O filho dela, que era especial, tinha apelido de Pilorino. Essa era uma alcunha maldosa, preconceituosa, racista. A pele negra do garoto fora associada ao pelourinho – um tronco onde os escravizados eram açoitados. De pelourinho, através da ignorância infame de gente branca, bem alimentada e maldosa, veio o apelido do menino, que depois o vi rapaz. O tempo passou e eu nunca mais soube notícias dele nem da mãe.

Neste ano, no Dia de Zumbi dos Palmares, papai teria completado ‘noventa e cinco anos’. Deixo aqui essa homenagem a ele e àquela descendente de escravizados a quem socorreu. Papai não precisa de homenagens nem a dona Isolina de abrigo, mas eu preciso expressar carinho pelos dois, que já estão na Casa do Pai.

FILIPE


domingo, 9 de novembro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM – TERCEIRA PARTE

7) Saio da padaria, ando uns dez minutos e chego à rodoviária. Como o ônibus demoraria, aproveitei para visitar uma tia que mora nas cercanias. Não tendo o endereço, mas sabendo que é perto da rodoviária, fui procurar. Entrei numa casa de produtos agrícolas e perguntei: “Você sabe onde mora a dona Aparecida?” O homem me olhou, olhou do lado e perguntou à colega. Ela não conhecia nenhuma ‘dona Aparecida’. Arrisquei ‘Cida”; não deu. ‘Cidinha’; não também. “Aquela mulher que cuidava do irmão que morreu recentemente...” “Ah, sim. Ela mora ali!”. Os dois saíram pra calçada e apontaram para um prédio. Andei um pouco e me enrolei, perdendo o rumo dado por dedos tão dedicados.

Parei numa farmácia e fiz a pergunta, mas agora da maneira certa. “Ali, naquele prédio, em cima da padaria”, respondeu o funcionário. Fui lá e vi que havia vários números de apartamentos no interfone. Pensei que poderia ser o 303 e apertei uma, depois outra vez – nunca aperto três vezes. Não deu. Entrei na padaria, comprei um bolinho de fubá e perguntei onde mora a dona Aparecida, aquela que cuidava (...), fui interrompido com a resposta: “No 202!”

 

8) Aperto o número 202, que talvez seja 203 (já esqueci) e fui atendido por uma voz familiar: “Quem é?” “Seu sobrinho filipe. Lembra de mim?” “Track!!”, essa foi a resposta dada, mas pelo portão, que destravou para, em seguida, a voz daquele interfone pedir pra eu subir.

A tia Aparecida me recebeu com sorriso e abraço calorosos, mas parecia pronta pra sair. Desconfiado, já fui dizendo que a minha passagem seria ligeira e que meu ônibus já estava quase saindo. Senti que a tia ficou aliviada com minha pressa, contudo, me convidou pra entrar e sentar, mas fiquei de pé na sala, achando que seria mais acertado. Apenas quis saber como ela está, como foram seus dias com o irmão de quem ela cuidou por onze anos, essas coisas. Ela me contou detalhes dos cuidados finais com o irmão enfermo, da ausência da família nuclear dele, mas se disse tranquila por fazer o que tinha de ser feito. Disse também que uma filha, que mora no prédio, foi sua companheira nos momentos mais agudos da lida.

Passados uns vinte minutos, tempo suficiente para que eu soubesse segredos esquisitos de família e passagens difíceis da vida dela, encerrei a prosa e quis me despedir. Ela disse que teria de ir à fisioterapia, então fechou a porta, desceu comigo até a rua e nos despedimos. Dali, marchamos em sentidos opostos: ela para a clínica e eu para a rodoviária.

 

9) Chegando à rodoviária, vi que o meu ônibus sairia às dez e meia, e eu esperaria ainda por uma hora. Com tanto tempo livre, resolvi pegar o livro, e foi nesse momento que apareceu o gari Mário, cuja história contei neste blog. Saiu o Mário, chegou o ônibus. Subi, paguei a passagem e me sentei lá no fundo. Pensei: vou chegar às onze e vai dar pra eu fazer o almoço pra tia Geni.

O ônibus arranca comigo e outros poucos passageiros, avançando pelas ruas estreitas e acidentadas da pequena Visconde. Não me animei a ler. Preferi contemplar a paisagem urbana repleta de casebres malcuidados: alguns no alto do barranco, outros nas íngremes ribanceiras. E o ônibus vai bamboleando enquanto eu tento me segurar para não escapar do banco. Ao lado, era a minha mochila que tremia temendo ir ao chão num escorregão.

O ônibus alcança a zona rural e vejo a paisagem desolada, com os pastos ressequidos devido à longa estiagem. O inverno é sempre assim, mas nunca me acostumo e vivo sempre ansiado pelas chuvas e pelas cores da primavera, que logo vêm.

De repente, a embarcação entra no perímetro urbano da minha cidade e eu começo a ficar preocupado se já não seria a hora de “apear”, como diria papai. Cismei que tinha de descer e puxei a corda, que buzinou na orelha do motorista, que freou e parou bruscamente. Desci, mas desci errado e tive que caminhar por longa distância, talvez uns cem metros, até o ponto onde eu deveria parar. Essa não foi a primeira vez que erro a parada.

Caminhei, caminhei, caminhei e cheguei à casa da tia Geni. Contudo, dessa vez ela não estava no alpendre me esperando como da outra vez. Mal apertei a campainha e já apareceu uma carinha redonda e desconfiada numa das janelas. Era a tia, que não me parecia tão receptiva como antes.

(continua...)

FILIPE


domingo, 26 de outubro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM – SEGUNDA PARTE

 4) ‘Apeei do ônibus’, como diria papai, às sete e quinze da manhã, perdendo o outro que saíra às sete e me levaria a Guiricema. A próxima condução seria somente às dez e meia, de forma que eu teria que pegar táxi ou esperar um tempão. Decidi esperar e aproveitei para visitar uma amiga que mora naquela cidade e se encontra adoentada.  Procurei um táxi, mostrei o endereço e o trajeto, que obtive por um aplicativo a fim de não ser enganado, mas o taxista me pareceu honesto, dizendo que “a rua ficava logo ali, mas o problema é a numeração”. E me provou, apontando o número 53, por exemplo, ao lado do 123; depois do 123 já vinha o 65, seguido pelo 215 etc. Uma loucura!

Enfim, achamos a casa da amiga. Paguei, desci e comecei a chamar. Gritei, bati palmas... nada! Pensei: errei o endereço, mas fazer o quê... Perguntei a uma jovem que saía da casa vizinha, mas ela não conhece a minha amiga, nem sequer sabe o nome. Em seguida, veio um senhor, talvez o pai da jovem: “Conheço, sim. Ela deve estar dormindo ainda, porque toma remédio forte.”

5) Desisti da minha amiga e desisti de voltar de táxi também. Pensei: ele cobrou quinze reais pra me trazer, serão outros quinze reais pra me levar, e tá ficando caro esse passeio... Com esses quinze reais economizados, eu tomo um bom café!

A casa da amiga fica no morro. Desci meio sem saber pra onde ia e perguntei a um senhor que pintava a fachada de uma casa que caminho me levaria à rodoviária. Ele me orientou. Mais à frente, perguntei a outra pessoa pra confirmar a informação anterior. Estava certinho.

Já estava perto das nove horas quando avistei uma padaria e parei ali para o desjejum, que normalmente é leite com chocolate e pão com manteiga.  Entrando, cumprimentei a moça do balcão e perguntei onde fica o banheiro – eu tinha uma “emergência líquida” e queria escovar os dentes também. A moça me deu a chave e apontou para um quartinho, onde seria o tal banheiro, e pra lá fui alegremente.

6) A chave que a balconista me deu tinha um pedaço de madeira como chaveiro, mas isso não tem importância aqui. Abri a porta e vi que o banheiro estava limpo e até perfumado. Acima do vaso sanitário lia-se: “respeite esse banheiro porque senhoras usam também”. Respeitei o banheiro, é claro, mas eu tinha que lavar as mãos e precisava escovar os dentes. Cadê sabonete? Não tinha. Olhei em cima de um armário e vi muitos produtos de limpeza. Detergente? Não tinha também. Abri o armário, fucei lá e não achei sequer um sabão em pó – nada que eu pudesse usar para lavar as mãos. Então peguei um desinfetante e aproveitei pra desinfetar mãos, maçaneta, chave, chaveiro, tudo... Terminado esse serviço, procurei uma mesa e esperei meu café, que nunca é café, mas achocolatado – eu já disse isso. Pedi, além do chocolate, um pedaço de broa e dois bolinhos de chuva. Já longe do banheiro, mas não do desinfetante, que se me impregnara e me acompanharia por um bom tempo ainda, regalei-me com o desjejum. Aquela broa mineira, os bolinhos de chuva, até o achocolatado, que nem tinha tanto chocolate assim, estavam uma delícia! E o melhor: aquela fartura toda me custou apenas ‘seis reais e dez centavos!’ Repito: ‘seis reais e dez centavos!” Gostei muito e gastei pouco.

(continua...) 

FILIPE

domingo, 12 de outubro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM - PRIMEIRA PARTE

 

Esse relato foi enviado a alguns contatos no ‘zap’. Para não cansá-los, o texto foi dividido em alguns capítulos e enviado em dias bastante espaçados. Contudo, optei por fazer pequenas modificações a fim de torná-lo mais adequado ao público deste blog que, embora não seja grande, é desconhecido e de tamanho indefinido.

 

1) Numa segunda-feira à tardinha, chego à rodoviária do Tietê, em São Paulo, e vou ao toalete. A torneira fecha automaticamente antes mesmo que eu termine de lavar as mãos. Insisto, apertando novamente um treco e a torneira teima em fechar novamente me impedindo de lavar sequer as pontas dos dedos. Desisto. Saio do sanitário e termino o asseio com álcool, que sempre tenho na mochila.

Em seguida, vou a um quiosque e compro um suco de abacaxi com gelo e sem açúcar. Procuro um banco mais isolado e pego meu lanche: um pão com carne e queijo, que fiz em casa antes de sair. Sempre faço assim, porque nos quiosques da rodoviária qualquer “pão com nada” custa a metade de um fígado humano.

2) Meu ônibus encosta, passo pelo funcionário e procuro a poltrona 13, que estava vazia, mas não disponível. No chão, duas bolsas enormes ocupavam o espaço onde eu descansaria os pés, impedindo-me de tomar assento. Olhei para os lados e não vi ninguém que pudesse tirá-las dali. Decidi eu mesmo removê-las e me aninhei no canto. Nisso chegou a dona das bolsas. Ela me olhou espantada e eu retribuí o olhar com ares não muito amorosos. Perguntei se ela não queria que eu pusesse uma das bolsas no bagageiro – numa tentativa de apaziguamento. “Minha bolsa não fecha!”, ela disse quase gritando. Deixei a mulher com suas bolsas que não fecham de lado e tentei cochilar, mas essa vizinha estava impossível. Ela começou a conversar com seus irmãos de igreja, depois abriu um áudio de ‘onze minutos’ (conforme o pastor mesmo disse) e, em volume bem alto, começou a pregação. Achei a coisa tão medonhamente inusitada, que gravei uma parte daquilo.

3) Espremido entre as bolsas da mulher, segui viagem sem ao menos poder me esticar mais confortavelmente. Por fim, a pregação do pastor acabou, as conversas com os irmãos de igreja também, mas a lanterna do celular e o mexe-mexe da vizinha nas suas bolsas me aturdiam. E assim, já bastante moído, cheguei a Visconde do Rio Branco, que ainda não seria meu destino final.
(continua...)

FILIPE

domingo, 28 de setembro de 2025

NO AMBULATÓRIO

 


Na sala-corredor de espera de um ambulatório, eu aguardava a médica para avaliação de um exame quando fiz a foto que abre este texto. A imagem é apenas uma ilustração, e aqui não farei conexão com o exame nem com a consulta. Quero é navegar em águas mais densas; quero o mar.

Há tempos que eu vinha me preparando psicologicamente para um procedimento médico. Após dois dias e meio de intensa dieta, que foi finalizada com um rigoroso jejum, fui conduzido ao ambulatório por minha companheira. Estacionamos no pátio e desci do carro, mas percebi que eu não conseguiria andar. Cambaleante, tentei dominar as passadas, mas tudo começou a girar e me agachei para não cair. Nisso, uma jovem senhora se aproximou e ofereceu ajuda.  Seu nome é Gorete e trabalha ali como enfermeira, ela me disse depois.

A Gorete, que nem tinha começado seu turno, já entrou na lida, oferecendo-me uma cadeira de rodas, que aceitei agradecido. Essa foi a primeira vez que usei uma cadeira de rodas, uma experiência humanizadora!  E assim, enquanto a Rosana fazia a burocracia na recepção, eu era conduzido pela Gorete a uma sala de enfermagem.

Num canto daquela sala havia uma maca e pedi à enfermeira para ficar nela, porque meu desconforto na cadeira era enorme.  “Claro”, assentiu e me ajudou a subir naquele equipamento. Ela mediu minha pressão (8,0 por 4,0), mediu a minha glicose (normal) e quis saber o que mais eu sentia e o porquê de eu ter ido ao ambulatório.

Embora deitado, o mal-estar continuava me afligindo. A enfermeira tentava me tranquilizar, dizendo que logo passaria, e pegou alguma coisa, talvez uma almofada, e a pôs embaixo de meus pés enquanto abanava-me o rosto com meu chapéu. Passados uns minutos, melhorei um pouco e ela me conduziu a uma sala ampla, com várias macas e pacientes. As enfermeiras me acolheram ternamente, mas uma delas furou meu braço para o tal acesso. Na primeira espetada ela já alcançou uma veia bem bacana, me poupando de outras agulhadas. Nesse momento me veio forte a imagem de minha mãe em suas inúmeras internações: quantas vezes ela teve de suportar essas fincadas... Fui testemunha do sofrimento da mamãe, que debatia, gritava, chorava. A enfermeira não achava veia... Então ela chamava outra enfermeira, que também não achava, tornando-se essa uma rotina agônica na vida da minha mãe.

Depois de tudo acertado, veio-me o soro. Foram duas “sacolas” daquelas de um litro, ou quase. Enquanto o soro gotejava na minha veia eu pensava na vida e no final dela, que não me parecia muito distante. Em certo momento, outra enfermeira chegou e me pediu que entregasse relógio, aliança e demais pertences. Eu não tinha mais nada pra entregar. Então ela disse que era pra eu retirar toda a roupa. Jogou sobre mim uma “camisola”, que me cobriu por inteiro, e me despi. Ali, naquele momento, eu estava completamente despido de tudo. Em mim não havia pudor nem vaidade; e não havia saúde também; nem orgulho nem mágoas. Eu era apenas um corpo frágil à espera do sedativo, que viria sem tardar.

Enquanto eu pensava na brevidade da vida, alguém chegou: “Voltei. Você está bem melhor, até mais corado... Lembra de mim? Eu que te socorri.” “Ah, a Gorete!” “Então, eu que vou te acompanhar no procedimento.” A Gorete, agora uniformizada, me conduziu à outra sala. Nesse momento eu trajava camisola azul clara, tinha um monitor de pressão e outro de não sei o quê, depois recebi uma cânula de oxigênio e, antes da injeção que me sedaria, tive uma breve epifania: bateu-me forte a imagem do meu pai no leito da UTI. Papai estava exatamente assim e isso me trouxe grande conforto.

Enquanto o médico fazia umas anotações, a enfermeira me ajeitava na maca e disse que me daria uma pequena fisgada no braço para a sedação. Eu fechei os olhos num esforço pra não sentir... e abri logo em seguida ao ser tocado por uma pessoa: “Você já está liberado.” Era a enfermeira Gorete.

FILIPE


domingo, 14 de setembro de 2025

CÁRMEN LÚCIA: A DAMA DA DEMOCRACIA

 


Ninguém me pediu opinião sobre a condenação da cúpula golpista, mas estou dando o meu parecer, embora não sem antes dar vivas à Carmen Lúcia, essa destemida norte-mineira que honra como poucos a toga que veste. Dona Carmen é diferente, porque ela chegou ao STF sem que tenha feito rapapés nem beija-mãos. Dos onze integrantes da corte, ela é a única que não está e nunca esteve amarrada a compadrios. A única!

Admiro o Flávio Dino, a quem atribuo qualidades de um estadista – atualmente, na minha opinião, o maior nome da nossa República. No entanto, neste momento quero exaltar a mineirinha de Montes Claros, porque foi o voto dela que selou o destino dos golpistas. Segundo os estudiosos, essa é a primeira vez que o Brasil julga e condena conspiradores que atentaram contra a democracia. E já foram vários atentados, pelo menos quinze!

Agora me surgiu uma dúvida: será que os réus vão para a gaiola? Sinceramente, penso que não. No Brasil, cadeia tem sido o destino de pobre e de preto; a grã-finagem, quando condenada, costuma “cumprir pena” em ‘prisão domiciliar’, ou seja, na mansão onde mora.

Todavia, se eu pudesse resolver essa parada, o Bozó e os seus generais não iriam para a cadeia. Sabe por quê? Porque cadeia custa caro. Qual a alternativa então? Ah, muito simples. Todos eles, sem exceção, teriam os provimentos e demais ganhos interrompidos durante o cumprimento da sentença. A pena seria a de prestação de serviços como: limpeza urbana, higienização de banheiros públicos, coleta de lixo nas ruas, pintura de guias e outros "divertimentos" – tudo isso levando-se em conta as habilidades, potencialidades ou “comorbidades” de cada apenado. A jornada deveria ser de quarenta e quatro horas semanais e na escala ‘seis por um’ como todos nós, reles mortais, suportamos e cumprimos. Ah, um benefício: ninguém passaria sede nem fome, porque o poder público se encarregaria de fornecer água e marmitas. E as férias? Nada de férias, porque já bastam os feriados, que são muitos, além dessa enormidade de domingos ao longo do ano. Pra que mais folga?! Nada mais lhes seria oferecido nem cobrado além da pena, que deveria ser cumprida integralmente.  

Voltando ao título desta, a imagem que abre a crônica me faz imaginar a dona Carmen dando uma bronca no seu colega “traíra”, uma descompostura nos conspiradores ou um chega-pra-lá naquele ‘ogro laranja’ estadunidense, que se acha o dono do universo e quer se meter no nosso país. Vi essa foto no site da Folha, gostei tanto dela que a trouxe pra cá. Porque ali está uma mulher aparentemente frágil, mas capaz de fazer chover para garantir a soberania de seu país; e de fazer parar a chuva só pra conduzir o seu povo a pés enxutos à liberdade.

Obrigado, dona Carmen!

FILIPE


domingo, 31 de agosto de 2025

MÁRIO

 


Numa manhã, em viagem de visita a familiares, ao longo de uma maratona recheada de imprevistos e já bastante fadigado, eu me sentei num banco de cimento da rodoviária e comecei a ler enquanto esperava o ônibus. Estando já imerso num conto de Clarice Lispector, um farfalhar desviou minha atenção: absorto em seu labor, um homem varria, varria e ajuntava; varria, varria e ajuntava. Depois pegava o lixo com a pá e despejava num saco plástico.

Era o Mário que se aproximava, trabalhando calado e ligeiro. O corpo esguio lhe conferia agilidade, fazendo lembrar os campeões da Corrida de São Silvestre. No entanto, o homem que varria, embora nunca tenha sido atleta, certamente tem habilidades quase olímpicas, sem as quais não sobreviveria.

Quando ele chegou mais perto, peguei meus trastes e mudei de lugar a fim de lhe facilitar o trabalho, mas não sem antes de lhe dar bom-dia. Foi a primeira vez que o Mário parou de varrer. Agora, apoiando-se no cabo da vassoura, com os olhos fixos no horizonte, ele expressou um misto de preocupação e cansaço. 

“Está tudo bem com o senhor?”, perguntei. “Um pouco cansado de fazer isso”, ele respondeu, já voltando a varrer. E continuou: “Nada para limpo aqui. Com tantas lixeiras por aí e o pessoal faz questão de jogar lixo no chão”. E assim começou um pequeno bate-papo com o homem que, pela imagem, dá para perceber ser ele de vida bastante sofrida.

O Mário é gari há trinta anos. Antes desse emprego, foi funcionário numa usina de açúcar por uns dez anos. Perguntei se já está aposentado. Não está. “Apenas no ano que vem, se tudo der certo”, ele disse pouco confiante. “A saúde não ajuda mais. Até pouco tempo atrás eu estava afastado, estive internado”, reclamou.

Não perguntei que mal lhe aflige a saúde, mas quis saber se mora longe. Ele apontou para uns lados e disse ser logo ali, “subindo aquele morro”. “Mas a sua casa é própria, você não paga aluguel...” “Eu tinha uma casa onde criei meus filhos, mas não pude continuar morando nela. Achei melhor sair.” Ele falou de uns porquês que o fizeram mudar de endereço para ter de pagar aluguel e completou: “Antes a vida era sofrida; agora está mais suave”.

Indiscreto, perguntei se a esposa mora com ele. “Infelizmente a minha mulher faleceu há onze anos. A gente vivia muito bem, eu gostava dela e sinto muita falta. A vida é assim, fazer o quê...”, lamentou.

Ofereci um lanche ao Mário. “Rapaz, até que eu já estou com fome, mas não se preocupe”, disse ele dando uma leve batidinha na barriga. “Vamos à lanchonete”, eu propus. Aceito o convite, ele se apressou em terminar a varrição daquele espaço e me acompanhou. Noutra indiscrição minha, propus que fosse ao banheiro e lavasse as mãos para comer. Obediente, ele foi lá e voltou abanando as mãos ainda molhadas. Perguntei o que queria. “Qualquer coisa...” A moça interveio, dizendo que o almoço estava prontinho: “Hoje tem frango com macarrão, seu Mário!”. Ofereci o almoço. Ele coçou a cabeça pensativo e disse: “Ah, se não for caro pra você, pode ser...”  “O que o senhor quer beber?” “Não precisa, basta a comida”. “Moça, veja o que ele gosta de beber e acrescente.  Vou pagar e preciso subir, porque o ônibus deve estar chegando”.

A moça me passou o valor, paguei e nos despedimos.

O Mário é o trabalhador braçal socialmente invisível e desprezado. Vi no Mário aquele gari recentemente assassinado na capital mineira enquanto trabalhava. O Mário representa todos os garis do mundo. Viva o Mário!

FILIPE


domingo, 17 de agosto de 2025

QUARENTA ANOS DE PADRE

 


Esse é meu irmão José de Anchieta, que completou exatos quarenta anos de presbiterato no último dia quatro. Eu deveria ter escrito algo naquele dia, mas acabei optando por minhas costumeiras desimportâncias. Ademais, esse mano costuma comemorar aniversário por vários dias, chegando a mês de festejos! Então penso estar valendo o escrito aqui.

Da irmandade, talvez eu seja aquele que tenha acompanhado mais de perto a trajetória desse irmão nos tempos de seminário. Isso porque morei por uns tempos em Juiz de Fora e lhe fazia frequentes visitas. Pelo menos de uma coisa me orgulho na exclusividade: fui o único da família que assistiu às três cerimônias de sagração desse clérigo: os Primeiros Votos, na capela do Seminário Santo Antônio; o Diaconato, numa igreja do bairro Santa Cruz, também em Juiz de Fora; e a Ordenação Presbiteral, essa acompanhada por todos os familiares, na igreja matriz de Guiricema – todos esses eventos no estado das Minas Gerais.

Ninguém sabe de um segredo, que talvez continue secreto pelo fato de esse blog ser uma ‘entidade semioculta’ (poucos o acessam). Na cerimônia dos Primeiros Votos do meu irmão, eu fiquei lá atrás da multidão que se aglomerava na pequena capela. Eu não conhecia ninguém ali, embora alguns me identificassem como ‘o irmão do Anchieta’, seja pela pequena semelhança física, seja por que ele já havia me apresentado. Mas eu me sentia aconchegado e até protegido pelo anonimato, e sorvi cada momento daquela celebração, tomado de enlevo e banhado de lágrimas. Ali pude ver meu irmão, enfim, sendo “coroado” após longos anos de estudos e privações. Sobre os estudos apenas ele pode falar, mas das privações acredito que todos nós, irmãos, podemos dar algum testemunho. O fato é que a vida de seminarista do ‘Mano Véio’ não foi nada fácil.

Chorei também na cerimônia de Diaconato, mas chorei menos – seja por que as coisas já estivessem encaminhadas para o próximo degrau, ou talvez por outro motivo. Naquela tarde, eu me lembro bem, eu sentia um mal-estar físico, não era nada emocional, o que dificultou a absorção e contemplação de algo tão belo e tão raro.

Já na cerimônia de Presbiterato eu não chorei, embora tenha ficado muito emocionado por ver meu irmão realizar o grande sonho de infância. Uma vocação que lhe nasceu nos seus primeiros anos e com ele cresceu, floresceu e frutificou. Naquele dia, eu me lembro, eu estava às voltas com questões bastante comezinhas. Infelizmente, são essas humanas preocupações que nos desviam do inefável.  

Após longos quarenta anos, a vida sacerdotal desse mano continua exuberante qual árvore frondosa, que dá sombra, abriga e produz frutos abundantemente.

Parabéns, Padre Anchieta. Muita coisa tenho para escrever sobre sua caminhada desde o dia em que saiu de casa para esse nobre compromisso, mas deixo para outro momento. Quem sabe um dia volto a rememorar aqui...

FILIPE


domingo, 3 de agosto de 2025

O BANANINHA

 


Nunca pensei que um dia eu pudesse agradecer, pelos “grandes serviços prestados”, esses dois notáveis caricaturados acima. Um pouco mais à frente tento explicar o porquê desse meu estranho contentamento com tais ‘roedores’.

Um deles, o deputado bozó, também conhecido como ‘Bananinha’ pelos que lhe são íntimos, fugiu para os ‘estados unidos’ (aqui sempre com minúsculas) a fim de preparar um golpe. Mas o golpe parece que não vai acontecer – não por falta de esforço (justiça lhe seja feita, ele é muito esforçado), mas por incompetência mesmo. Sim, o ofício da maldade exige, além de empenho, bastante inteligência, e essa parece ser escassa naquela cabeçorra.

Primeiramente, eu agradeceria ao ‘Donald’ pelos “bons serviços”, que, taxando de forma vil os produtos brasileiros, acaba dando uma preciosa contribuição ao meio ambiente. Isso porque, se a carne bovina perder mercado, a pecuária refluirá, reduzindo o desmatamento da Amazônia. Com menos gado, há menos soja e mais árvores – assim espero. Só que não há garantia disso, porque o ‘ogro laranja’ pode recuar e abraçar novamente os ‘parças’ boiadeiros.

Agora falo do Bozó Bananinha, que foi para os ‘estados unidos’ fazer futrica contra o Brasil. Veja se pode uma coisa dessas?... Pois esse “patriota” está conspirando contra os brasileiros e ainda tem apoio de brazucas! Eu não diria que o Dudu Bananinha é um ‘boçal’, porque esse termo é ofensivo ao povo escravizado. Melhor seria qualificá-lo de ‘imbecil’ mesmo, porque isso todo mundo entende e ninguém se ofende, nem o próprio. E vou tentar explicar esse porquê em apenas um parágrafo.

Pois não é que o Dudu Bananinha conseguiu a façanha de cindir o seu próprio grupo político?... Tentando promover um colapso nas instituições brasileiras a fim de livrar o genitor da cadeia, a besta praticamente quebrou o agronegócio, onde estão seus principais financiadores de campanha. Como se não bastasse o tarifaço de Trump, o “esperto” ainda disse numa de suas laives o seguinte: “Se Deus quiser, em breve, um porta-aviões chegará ao Brasil e ficará ancorado no lago Paranoá, em Brasília!”. Opa! Um parágrafo é pouco e vou gastar outro com o ‘bananinha’.

Vamos pensar num porta-aviões americano aqui, no Brasil. Esse trambolho de guerra serve para que mesmo? Para lançar mísseis e fazer decolar aviões de guerra. Mísseis e caças servem pra atacar quem? Por óbvio, instalações militares do inimigo que, nesse caso, os quartéis brasileiros seriam bombardeados. Bom, então o ‘bananinha’ está articulando para que os americanos invadam o Brasil e ataquem as forças armadas brasileiras?! Que coisa, hein?! Quem diria isso de um deputado federal brasileiro, “cristão”, “temente a Deus” e muito patriota!  Ainda não acabou, e preciso de outro parágrafo para encerrar o assunto ‘bananinha’.

O Dudu Bananinha quer que o porta-aviões seja ancorado no lago Paranoá, em Brasília! Mas como isso seria possível? Uma embarcação dessas tem aproximadamente ‘cem mil toneladas’ e só navega em grandes mares. É impossível levar um porta-aviões até Brasília, até porque o percurso em terra chega a quase ‘mil quilômetros’!

Só mesmo o “genial bozó bananinha” pra dizer e querer fazer tanta bestagem.

FILIPE


domingo, 20 de julho de 2025

O QUARTO ENCONTRO

 


Oficialmente esse foi o ‘Quarto Encontro dos Moura Lima’, mas poderia ser considerado o ‘quinto encontro’ porque, no dia seguinte ao sepultamento de nosso pai, nós nos reunimos, pela primeira vez, a fim de encaminhar a solução de algumas pendências em decorrência de sua partida.

Desde que decidimos programar esse encontro anual, resolvemos fazê-lo na varanda do papai, que se tornou um espaço sagrado para todos nós. Era ali que o Velho, nos seus últimos anos, passava as horas fazendo palavras cruzadas, jogando cartas, teclando no seu notebook. E era também ali que ele recebia os amigos para uma boa prosa e um cafezinho esperto.

Desde então e a cada inverno, nós, essas “aves migratórias” que se encontram espalhadas de norte a sul do país, peregrinamos para o ‘Rancho da Bela’ para mais um evento. O encontro é lindo, animado, mas não pense o solitário leitor que o planejamento é fácil, porque não é. No grupo do zap sai faísca de tudo quanto é jeito. Há sempre um Moura Lima ranhetando com uma coisinha ou reclamando de outra: “A viagem é longa e penosa; as pernas incham e doem; as varizes incomodam; o estômago embrulha...” É um entojamento sem fim. Fato é que estamos envelhecendo e alguns já estão bem envelhecidos. Os irmãos mais jovens é que devem se pacientar conosco, os idosinhos.

A coisa lá acontece mais ou menos assim. No sábado, logo cedo, há uma gentarada espalhada por todos os cantos e recantos da casa. Além dos irmãos, há sobrinhos, tios e toda a cunhadagem. Chegada a hora da reunião, o irmão mais velho bate palmas e diz tonitruante: “Vamos lá, gente. Precisamos começar a nossa reunião. Daqui a pouco o almoço fica pronto e já estou com fome!” Nisso, os Moura Lima vão entrando na varanda enquanto outros vão “vazando” dali. Tudo parece pronto pra começar.  São onze irmãos, mas falta um e a reunião não pode começar sem ele. Então a procura começa pelos cômodos da casa, depois no terreiro, na casa vizinha e nada de achar o ‘Moura Lima desgarrado’. De repente, ouve-se a descarga de uma privada e do banheiro surge o “foragido”, que chega assustado e toma assento numa das cadeiras em semicírculo. Ato contínuo, fecham-se as portas que dão acesso à varanda e uma oração abre os “trabalhos”. É um ato bastante solene, mas já foi muito mais. Tanto foi, que um Moura Lima maldoso apelidou aquela sessão de “conclave”.

Dessa vez foi bem diferente e até divertido. Sabe por quê? Porque um tiozinho ficou perdido no meio dos Moura Lima. Ele não se deu conta do que aconteceria e permaneceu sentadinho ali, na varanda. Todos o olhavam e ele, meio sem entender o que estava acontecendo, ficou de “queixo baixo”. A sessão foi iniciada e o tio ali, muquiado. De vez em quando ele me lançava um olhar espantado, parecendo implorar para que eu facilitasse a sua saída. Matreiro, eu o ignorava com indisfarçável gozo. A reunião prosseguiu sem que alguém o incomodasse, e ele se aquietou. Finalmente, sentindo-se acolhido, o tio “levantou o queixo” e deu um belíssimo depoimento, valorizando o nosso encontro. Eu fiquei extasiado com a presença e com as palavras do tio Simeão.

FILIPE                                                                         


domingo, 6 de julho de 2025

MATEMÁTICA E CIDADANIA

 


“Odeio matemática!”

Não, eu não odeio matemática. Pelo contrário, sou para ela afeto, respeito e admiração. Sem a matemática eu seria um jovem-velho aborrecido com a vida e com as pessoas. A matemática me ajuda a ser feliz.

Mas essa minha verdade está longe de ser uma verdade universal. O que ouço sobre a ‘Rainha das Ciências’ não é nada lisonjeiro. Por vezes ela é temida, muitas vezes evitada e até mesmo odiada.  

A foto que abre esta crônica foi um flagrante da última aula que dei a um sobrinho. Ele também diz não gostar de matemática, mas desconfio de que a matemática goste tanto dele quanto de mim, de você e até daquele seu vizinho chato.

A ‘matemática básica’ é aquela que usamos no dia a dia, que é uma ‘coisa muito fofa’ e está ao alcance de todos. Qualquer pessoa que foi decentemente alfabetizada consegue aprender matemática elementar. Caso isso não aconteça, tenho duas explicações não necessariamente excludentes: desinteresse do aluno, despreparo do professor ou ambos.

Na lousa acima está um simples exercício de porcentagem que fora passado ao meu sobrinho. Na apostila dele a sugestão é de que o cálculo seja feito por multiplicação de frações. Ora, fração já costuma assustar a metade da humanidade... Agora, misturar porcentagem com frações não me parece uma boa estratégia para alcançar a paz com os números. Se você não tem familiaridade com as frações, deixe-as de lado por enquanto, porque há percursos sem necessidade de tropeçar nelas.

Os antigos lavradores que conheci na minha infância faziam cálculos bastante complexos envolvendo porcentagem e até juros, tudo isso “de cabeça”. Aqueles caboclos de antanho, que nunca pisaram numa sala de aula, vendiam e compravam, pagavam e recebiam (à vista “com desconto” ou a prazo com juros) sem calculadora nem sequer lápis e papel. Alguns até sabiam medir terras. Usando estaca graduada e cordas, eles calculavam áreas de sítios e até de pequenas fazendas. Incrível, não?...

Uma observação: as aspas acima sinalizam que ‘desconto para pagamento à vista’ é uma falácia.

Há que se universalizar o ensino da ‘matemática básica’, porque essa é acessível a todos nós. Já a matemática avançada requer talento matemático, que pouca gente tem. Eu, particularmente, fiz graduação na área e nunca fui matemático. Sabe por quê? Porque eu não sou bom em exatas. Com aquela “senhora” eu até tenho uma boa convivência, mas às vezes, como em toda relação, há um ‘problema para ser resolvido’. Aí eu fico preocupado, nervoso e passo muito tempo tentando ao menos entender o assunto. Enfim, resolvido ou não aquele “problema”, voltamos pacificados à agridoce rotina.

Encerro com uma pequena observação. Quem não domina rudimentos da matemática será dominado por uma ampla ‘fração’ de comerciantes, chefes, patrões e políticos – alguns deles muito cruéis. Cuidado, porque ‘matemática é cidadania’!

FILIPE

domingo, 22 de junho de 2025

TEMPOS DIFÍCEIS

 


Na manhã de hoje, que estava nublada e fria, tentei atualizar o blog com algumas ‘coisas desimportantes’, como diria o poeta Manoel de Barros, mas não consegui. Tive alguns afazeres e me ausentei do teclado, que continuou numa longa e plácida espera pra que eu prosseguisse.

De volta aqui, tento encarar o assunto com esta reflexão: parece que tudo importa nesta vida, menos a vida – pelo menos pra muita gente, incluindo o personagem caricaturado acima.

Isso porque os jornais já anunciam a entrada dos Estados Unidos na guerra contra o Irã. O fanfarrão de cabelo laranja arrota valentia, dizendo que “apenas eles têm capacidade de agir assim”. Claro está que esse poder é bastante relativo.

Abro aqui um parêntese para uma pequena e supostamente didática ilustração. Imaginemos que num boteco haja muitas pessoas, dentre elas um fortão armado de uma garrucha e um bêbado fracote portando um canivete. O fortão cisma de desarmar o fracote e lhe dá um tiro no braço. O canivete cai e o fracote, mesmo ferido, tenta apanhá-lo no chão. Nisso, o fortão age mais uma vez, dando-lhe um safanão. O fracote cai, mas longe do canivete, e é contido pelos demais que assistem à cena. O fortão, cheio de si, brande a garrucha, olhando desafiadoramente os presentes, mas evita encarar dois “cabras” sentados num canto do salão, aparentemente indiferentes ao bafafá. O detalhe aqui é que os dois “cabras” estão bem armados, o que explica esse comportamento tão fleumático.

Corta para o Oriente Médio, que seria o nosso “boteco” na ilustração acima. Ali, Trump atira e fere Khamenei, mas evita olhar para Putin e Xi Jinping que acompanham atentamente a refrega. Esses últimos, por óbvio, não serão incomodados, e isso deriva de um fato irrefutável: a soberania de um país requer arsenal nuclear.

E a vida?... A vida importa. Mas a vida de quem é importante?

Não tem importância a vida de milhares de palestinos que morrem de sede e de fome, muitos deles enterrados vivos nos escombros de Gaza.

Não tem importância a vida de israelenses inocentes sequestrados ou assassinados por terroristas islâmicos num suposto ‘ataque de surpresa’ a Israel.

Não tem importância a vida dos iranianos pobres, que não conseguem escapar das bombas lançadas por Netanyahu e Trump.

Não tem importância a vida de soldados americanos baseados no Oriente Médio, que, com a escalada do conflito, poderão ser atacados a qualquer momento pelos aiatolás.

Tento me afastar dessas desgraceiras, evitando o noticiário, mas não dá. Nunca deu. Ouço músicas e podcasts, leio crônicas e livros de história, mas, sem querer, ou querendo não querer, volto ao noticiário e fico sabendo que esse mundo não deu certo.

Os otimistas dizem: “No final, o bem vence o mal!” Não vence! Pelo menos aqui na terra, o mal prevalece. Confirme isso com um palestino de Gaza ou com alguma vítima de regimes tirânicos, sejam eles de esquerda ou de direita.

A criatura se rebela contra o Criador numa espiral de sangue sem fim. Isso aqui não deu certo!

FILIPE


domingo, 8 de junho de 2025

OLIMPÍADA DE MATEMÁTICA


Convido o raríssimo leitor a observar o “simpático” problema acima, que foi extraído da última Olimpíada de Matemática e que provocou algum bafafá na imprensa. Peço que leia atentamente, mas sem necessidade de resolvê-lo. Por que essa questão ficou tão famosa se ela não é tão difícil? Ela foi considerada difícil pelos estudantes, mas por ter sido mal formulada. Da forma em que é apresentada, não há solução possível e explico por quê.

 

A situação-problema confunde, porque nunca saberemos se quem participou ‘está mentindo ou dizendo a verdade’. Se o cara gosta de uva e marca banana, ele mente. No entanto, mesmo mentindo, se esse sujeito marcar apenas banana (não marcando maçã nem uva), será considerado verdadeiro por ter marcado somente uma fruta conforme o “regulamento”. Pelo proposto, é impossível calcular o número de ilhéus verdadeiros ou o número de mentirosos.                                                                                                                      

 

Agora vou reformular a questão de uma forma bem simplificada para que qualquer um possa compreender e até mesmo resolver.                                                                                                                                

 

Cada um dos 250 habitantes de uma ilha prefere apenas uma fruta dentre banana, maçã e uva. Alguns desses ilhéus são ‘honestos’, outros são 'desonestos'.  Dentro de um galpão teriam ficado três cestos, cada um contendo 250 frutas, sendo que o primeiro cesto conteria apenas bananas, o segundo com apenas maçãs e o terceiro com uvas somente. Todos os 250 habitantes da ilha entrariam no galpão, um por vez e sem supervisão, mas com a recomendação de pegar apenas uma fruta. Ao final, constata-se que foram levadas 140 bananas, 120 maçãs e 110 uvas. Quantos ilhéus são desonestos?  Ops! Não dá pra calcular ainda, porque alguém poderia ter cometido "duas desonestidades", pegando  não uma nem duas, mas três frutas. A questão deveria ser anulada.

 

NOTA: Meu computador está quebrado e estou usando o celular para digitar. Mais e melhor do que isso não consigo.

 

FILIPE

                                                                                                                

sexta-feira, 23 de maio de 2025

SERIAM OITENTA E SEIS...

 

A imagem que abre a crônica me transporta para um passado longínquo, já quase esquecido, quando meus pais moravam numa casinha simples, fincada na encosta de uma montanha das Gerais. Nesse pequeno recorte entrevê-se parte do cotidiano de minha mãe, que parecia pensativa, tentando lembrar algum nome ou fato. Talvez ela tenha sido interrompida em suas divagações enquanto escrevia, embora não me pareça contrafeita com isso. A pequena fotografia diz muito sobre a vida modestíssima que meus pais levavam. Mamãe está no seu quarto, tendo ao fundo a janela de tábuas rústicas; à esquerda vê-se o batente carcomido da porta; no canto, um esteio de madeira bruta revela serem as paredes feitas de pau-a-pique.   

Meus pais se mudaram para essa casa em 1979 e lá permaneceram por duas décadas. Muitas são as histórias contadas pela irmandade tendo como cenário essa “choupana”, o riacho que margeava o terreiro, o pé de manga defronte à cozinha, o campinho mais à frente onde a meninada brincava de bola, o vizinho Palmerindo, a estrada que conduzia ao povoado da Santa... Nessa casa, papai e mamãe viveram momentos felizes junto aos miudinhos, particularmente quando recebiam alegremente os graudinhos – estes morando na “cidade grande”.

Lembro do abraço que mamãe me dava quando eu chegava. Esse era um abraço diferente, que como aquele eu nunca ganhei de ninguém. Era apertado e rápido, semelhante a um pequeno empurrão, só que infinitamente carinhoso.  Aquela alegria era intensa, mas fugaz. Passado um tempinho, mamãe voltava a ficar bravinha, porque esse era o seu normal.

Na foto acima, mamãe estava escrevendo alguma coisa, mas acho que não seria carta. Sendo dos mais velhos, sou de um tempo em que ela gostava de se corresponder com uma prima que se mudara para uma terra distante. Mamãe apanhava uma folha de caderno e, pegando firme no lápis, desenhava cada letra, bordando devagarinho as palavras. Uma frase demandava minutos; uma página inteira levava dias. Se alguém se aproximasse, mamãe mal disfarçava o incômodo. Nervosa, dobrava aquele papel e o guardava, saindo dali para cuidar de outra coisa. Muitas cartas foram escritas e postadas; provavelmente outras ficaram “pra depois”, esquecidas e inconclusas.

Lembro com muita saudade das muitas vezes em que cheguei àquela casinha, sendo carinhosamente recebido pelos meus pais e os irmãos pequenos – todos esses uns maltrapilhos, e eu sem condições de lhes dar sequer um par de chinelos. E a imagem acima, com a mamãe ainda jovem, me traz essas lembranças de forma muito vívida e me faz revelar um pequeno segredo. Quando eu me despedia da mamãe, um nó na garganta me impedia de falar, mas ainda assim eu dizia: “Mãe, eu nem sei se vou achar passagem. Pode ser que não tenha ônibus pra mim, então eu volto pra ficar com a senhora, tá?...”. Enquanto eu “mentia”, ela passava uma das mãos nos olhos marejados e com a outra mão me segurava, tentando me fazer desistir.

Neste 23 de maio mamãe faria 86 aninhos. Não há festa, não há bolo nem parabéns aqui. Mas no céu, com certeza, ela está festejando o natalício com muita alegria ao lado do ‘amado Zezé’.

FILIPE


domingo, 11 de maio de 2025

BRUXA

 


Sim, pode parecer estranho, mas ‘Bruxa’ é o verdadeiro nome de Paulo Eduardo Belizário – pelo menos para o seu círculo mais íntimo, do qual orgulhosamente faço parte.

Pois é... o Bruxa, companheiro de tantas festinhas, partiu inesperadamente no anoitecer de ontem. Estávamos preparando uns petiscos para comemorar o Dia das Mães com as mães da família, mas não deu. O Bruxa decidiu ir para outra “festa”, onde a alegria não termina.

Vai ficar um enorme vazio nos nossos encontros, porque o Bruxa era o mais divertido, o mais animado e ele era também uma pessoa que ‘conseguia nos irritar sem aborrecer’. Pode parecer estranho, eu também acho, mas muitas vezes o Bruxa me irritou com suas provocações. No entanto, eu nunca fiquei aborrecido com ele. “Mas como pode isso?”, você deve estar perguntando. Vou explicar.

Quem me conhece sabe que eu não gosto de reuniões. Qualquer encontro em que se agrupam três pessoas já fico incomodado e, podendo, arrumo um jeitinho de “sair à francesa”. Mas com esse grupo do qual o nosso amigo fazia parte é diferente. Todas as vezes que alguém convida para um almoço, churrasco ou até mesmo um simples café, eu compareço de bom grado. Gosto muito de me reunir com esse povo e não é de agora. Participo desses eventos há muitos anos. Seja aniversário, Natal, Ano-Novo ou um festejo sem “grife”, lá estou eu, comendo, bebericando, discutindo política, futebol, religião... essas coisas das quais não entendo bulhufas – nem eu nem você, né Bruxa?!

O que o Bruxa tinha de interessante pra me fazer seu admirador tão devotado? Parece difícil responder essa pergunta, porque o Bruxa criticava tudo o que me é caro. Falava mal da minha igreja, das minhas fontes de informação, da minha postura política, de tudo! Sim, ele sempre me criticou, me irritava, mas nunca me aborreceu. Sabe por quê? Porque ele dizia essas coisas diretamente pra mim. Ele não falava de mim; falava comigo. E falava essas coisas em tom de mofa, porque ele sempre foi um simpático bazofeiro. Não havia nas palavras do Bruxa nenhuma intenção de ferir alguém, e disso eu tenho certeza. O Bruxa tinha um jeito “meio infantil” de se relacionar com as pessoas, e isso às vezes incomodava alguns. Mas nele não havia maldade, porque a sua espontaneidade era genuína, de uma pureza quase angelical.

Ah, tem mais. O que eu mais admirava no Bruxa é a caridade! Nunca, jamais aconteceu de algum pedinte sair da casa dele sem um lanche ou um prato de comida. O Bruxa foi um homem boníssimo. Ele dava comida aos pobres, procurava advogados ou repartições públicas para aposentar pessoas deficientes e desassistidas, participava ativamente dos embates na Câmara Municipal contra projetos lesivos aos munícipes, e muito mais.

O Bruxa vai fazer muita falta pra nós, seus amigos e familiares, e pra muita gente que nem conheço. No entanto, reitero aqui aquela máxima: “Quem faz o bem, recebe o bem e continua fazendo o bem, mesmo que esteja no Além”. Obrigado, Bruxa. Continue cuidando da sua gente e de seus bichinhos.

FILIPE


domingo, 27 de abril de 2025

TITIA GENI



A comida deve estar boa, né tia?...  Também... Eu que fiz!

Essa foi a primeira vez que me arrisquei numa bacalhoada e sem seguir receita alguma, apenas confiando no meu tirocínio.  E deu certo! Tanto é que a tia comeu, gostou e, meio às escondidas, premiou um de seus muitos gatinhos com um petisco.

Era manhã de Domingo de Ramos. A tia Geni estava com vontade de comer o bacalhau que comprara, na expectativa de que eu fizesse. Tremi de preocupação. Costumo cozinhar, mas nunca fiz nada além do básico. Olhei aquele peixe, que me pareceu agradável, dei uma escapada até a mercearia, comprei uns pimentões, batatas, tomates e alho. Chegando, comecei a fervura do bacalhau para o dessalgue enquanto os demais ingredientes eram preparados à parte. Enquanto uma panela de pressão chiava a fogo brando com o feijão, noutras panelas eu fritava alho e demais temperos para o que viria ser o nosso almoço. “O arroz tem de ser feito com água fervente!”, recomendava a exigente dona da casa. Após duas fervuras, drenei e desossei o bacalhau e o misturei àquele cozido de batatas, tomates e pimentões... Mas esqueci da cebola!

Não demorou mais do que uns três quartos de hora e o almoço já estava pronto. A tia pegou um prato e começou a se servir. Receoso do resultado, fiquei observando-a à meia-distância: vai saber se o arroz não ficou grudento?... Se o peixe ficou salgado... ou sem sal?... Se o feijão ficou cru ou cozido demais?... Olhei para a tia e para seu prato. Pelo que eu via, ela estava animada, mas poderia se frustrar. No entanto, para minha suprema alegria, minutos depois aquele prato estava limpinho – gente, ela comeu tudoooo! Terminada a refeição, a tia foi para mim só elogios. Disse que eu sou um bom cozinheiro, que eu poderia ser ‘garçom’ ou abrir um restaurante etc.

A minha alegria de estar com a tia Geni foi bem além desse ‘momento gastronômico’. Embora eu estivesse ali com uma senhora já um pouco alquebrada e enferma, pude rememorar uns tempos antigos de quando morei com ela na minha adolescência. Naquele tempo, a tia pouco conversava comigo. Apenas dizia alguma coisa, que era imediatamente repetida pela minha avó; ou o contrário: a vovó dizia e a tia repetia. Essa prosa não ia muito além de conselhos, muitos conselhos. Um deles, o mais frequente, era sobre economia. É preciso guardar dinheiro para que consiga alguma coisa na vida. “Sebastião sempre economizou!”, dizia vovó sobre o falecido esposo; a tia reforçava: “Papai nunca gastou dinheiro à toa.”

Dessa vez, no entanto, não houve sermões nem conselhos. A tia me falou de assuntos nunca dantes dito. Falou de suas tristezas atuais e frustrações antigas. Discorreu sobre a sua juventude, a relação com os irmãos mais velhos e das pequenas traquinagens desses. Também falou de seus encantos na mocidade, da opção de ficar solteira e o consequente desencanto de pretendentes. E citou nomes!

O dia avançou. Já era começo de tarde quando o táxi chegou e tive que me despedir, deixando a tia em pranto. Consternado, prometi, sem muita convicção e sem convencer, que voltaria em breve e que estaria mais presente na vida dela a partir de agora. Assim quero e espero.

Obrigado, tia. Até a próxima.

FILIPE 

domingo, 13 de abril de 2025

HÁ TRÊS ANOS...

 


Já se completam três anos neste 13 de abril, mas parece que foi ontem. Aliás, parece que nem houve partida. Fica a impressão de que o Velho está ainda lá na sua casinha, que ele mesmo construiu, esperando a chegada de algum filho. Aquela casa foi a única que o papai, pedreiro por tantos anos, fez para si. Muitas outras foram feitas ou reformadas, mas como laborioso ganha-pão. Ao longo da vida, papai sempre morou em casas bem precárias. Essa, no entanto, embora muito simples, foi meticulosamente planejada por ele e dela muito se orgulhava. Foi ali que meus pais passaram seus últimos anos numa vida sem luxo, mas confortável.

Três anos atrás, em fins de março, cheguei para mais uma visita. Papai havia me pedido que adiasse aquela viagem para julho, por ser muito “sacrificada”, segundo disse, mas mantive a programação e cheguei um dia antes de registrar a imagem que abre a crônica. O Velhinho estava bem e me recebeu todo alegroso; a frágil mãezinha me abençoou com a ternura de sempre.  Apesar das recorrentes “crises de ansiedade”, que soubemos tardiamente não ser ansiedade, papai estava bem-disposto. Conversamos, jogamos baralho e ouvimos músicas antigas.   

No segundo ou terceiro dia da minha chegada, mamãe teve de ser internada; poucos dias depois, foi a vez do papai. Ver internados simultaneamente o pai e a mãe é por demais doloroso. No hospital, papai estava relativamente bem, apenas tomando soro e alguns medicamentos; já mamãe dava sinais de terminalidade. Eu pressentia perder a minha mãe e apostava na recuperação do meu pai, mas deu-se o contrário. Papai, que passara por uma crise respiratória aguda, foi levado à UTI e de lá não mais voltou. Mamãe foi melhorando devagarinho, recobrou os sentidos e voltou para casa, mesmo num quadro clínico ainda preocupante.

Deixando a mamãe para outra hora e voltando ao papai, quero rememorar minha última noite com ele naquela enfermaria. Preciso registrar algumas dessas vivências, porque esses retalhos de memória vão se esfiapando e se esfarelando até desaparecer – para mais tarde retornarem como fantasia ou delírio.

Naquele último dia, eu saí à tardinha de casa e fui para Visconde do Rio Branco no ônibus das dezoito horas – sendo essa a minha rotina diária. Eu sempre tinha pressa, porque a substituição do acompanhante, que era o Frei Gabriel, teria de ser às dezenove horas. Chegando à rodoviária, desci do ônibus e marchei apressadamente para o hospital. A meio-caminho havia uma quitanda onde eu já tinha comprado alguma coisa. Dessa vez eu quis levar frutas para o papai e vi umas bananas-prata muito bonitas, embora não me parecessem tão maduras ainda. Pensei: levo essas e amanhã já estarão no ponto. Comprei uma grande penca, que continha cerca de dúzia e meia.

Chegando ao hospital, o porteiro liberou, subi as intermináveis rampas e entrei na enfermaria. O frei me reservou sua marmita, que o hospital dava aos pacientes e acompanhantes. Eu quis declinar, mas ele insistiu. Papai já terminava a boia dele, raspando ruidosamente a vasilha de isopor. Pensei: ele está com fome ainda, então vou lhe dar essa marmitinha. Ele não quis. “Eu vou é comer uma banana dessas” – disse, já pegando uma na mesinha ao lado.

Terminada a refeição, conversamos um pouco. Papai trocou algumas mensagens com “suas amigas e amigos” da rede social e adormeceu. Mas aquela noite não foi de ‘sono leve e suave’. Ele teve um sono atormentado, com aquilo que se denomina ‘sonilóquio’, que é a ‘fala durante o sono’. Às vezes eu tentava interagir, pensando que precisasse de algo, mas ele não respondia. Estava dormindo profundamente.

Amanheceu, o Freizinho chegou para me render, mas papai não estava bem. Após voltar do banheiro, ele teve uma grande crise respiratória. Um médico chegou, avaliou e recomendou urgência de tratamento intensivo. Apanhamos às pressas os pertences de meu pai, ele me entregou o celular e o seguimos, agora conduzido numa cadeira de rodas.  Chegando a uma espécie de sala de espera que dá acesso à UTI, a cadeira de rodas virou para a esquerda, e, sem que houvesse tempo de o Bom Velhinho nos acenar em despedida, a porta de vidro foi fechada.

Fechou-se ali uma porta de vidro, mas não apenas ela. Dias depois também se fecharia um livro com uma grande história. Só que esse livro seria fechado para sempre.

FILIPE


sábado, 29 de março de 2025

ENSINANDO PADRE-NOSSO A VIGÁRIO

 


Estimado Dom Felipe, paz e bem!

Diria minha saudosa mãe: “Quer ensinar padre-nosso ao vigário, menino?” Não, não quero e não devo, mas gostaria de fazer uma pequena observação. Aliás, nem é observação, mas um lamento. Também não é apenas um lamento, mas uma profusão de choramingos. A eles.

Lamento que o senhor não faça qualquer menção à Campanha da Fraternidade deste ano, tão rica e necessária. A atual CF contempla a ‘ecologia’, que é um assunto urgente. O planeta, que é a nossa ‘Casa Comum’, agoniza numa crise climática sem precedentes e não podemos ficar omissos. A Igreja se move; nós devemos segui-la.

Lamento também que o senhor não se manifeste sobre este ‘Ano Jubilar’ instituído pelo Papa Francisco em cumprimento ao calendário da nossa Igreja. Este é o ‘Ano Santo’ da ‘Santa Madre’, que jamais poderia ser ignorado!

Espero que neste ano o senhor promova a ‘Coleta da Solidariedade’, distribuindo os envelopes aos fiéis, para que possamos colaborar materialmente com a Igreja em suas missões mundo afora. O nosso sertão semiárido e os rincões da África clamam por esse apoio!

Essas observações eu as faço e o senhor sabe por quê. Porque no ano passado a Campanha da Fraternidade não foi contemplada; no ano passado, o ‘Óbolo de São Pedro’ não foi recomendado aos fiéis; o ano passado foi sinodal, e não houve sequer uma palavrinha sobre o Sínodo nas suas homilias.

Resumindo: o ‘Ano Sinodal’ foi esquecido, o ‘Ano Jubilar’ está sendo ignorado, a ‘Campanha da Fraternidade’ continua abandonada... Mas a nossa igreja não é una?... Pois então devemos estar em sintonia com a CNBB e viver em unidade com o Papa Francisco!

Recentemente o senhor proferiu uma bonita frase na homilia sobre a Transfiguração, que foi exatamente assim: “Devemos ser transfigurados sempre, mesmo nas situações mais difíceis, que são momentos de provação. Precisamos ser amigos da cruz de Cristo, e jamais inimigos dela!”

Então, caro pastor, como estamos vivendo momentos difíceis e de provação, não seria urgente abraçar o Santo Madeiro? E abraçá-lo é abrir os braços para todos: para ‘quem pensa diferente’, para ‘quem é diferente’ e para ‘quem é indiferente’ também. Porque somente assim poderemos alcançar a tão necessária e sonhada paz.

Agradeço sua atenção, Dom Felipe, e deixo aqui o meu contato, pondo-me à disposição para uma conversa franca e fraterna, se assim o senhor desejar.

Por fim, peço que aceite o meu abraço e me dê a sua bênção.

NOTA: “Dom Felipe” é fictício. Não a mensagem, que foi respondida com a velocidade e violência de um raio.

FILIPE