sexta-feira, 23 de maio de 2025

SERIAM OITENTA E SEIS...

 

A imagem que abre a crônica me transporta para um passado longínquo, já quase esquecido, quando meus pais moravam numa casinha simples, fincada na encosta de uma montanha das Gerais. Nesse pequeno recorte entrevê-se parte do cotidiano de minha mãe, que parecia pensativa, tentando lembrar algum nome ou fato. Talvez ela tenha sido interrompida em suas divagações enquanto escrevia, embora não me pareça contrafeita com isso. A pequena fotografia diz muito sobre a vida modestíssima que meus pais levavam. Mamãe está no seu quarto, tendo ao fundo a janela de tábuas rústicas; à esquerda vê-se o batente carcomido da porta; no canto, um esteio de madeira bruta revela serem as paredes feitas de pau-a-pique.   

Meus pais se mudaram para essa casa em 1979 e lá permaneceram por duas décadas. Muitas são as histórias contadas pela irmandade tendo como cenário essa “choupana”, o riacho que margeava o terreiro, o pé de manga defronte à cozinha, o campinho mais à frente onde a meninada brincava de bola, o vizinho Palmerindo, a estrada que conduzia ao povoado da Santa... Nessa casa, papai e mamãe viveram momentos felizes junto aos miudinhos, particularmente quando recebiam alegremente os graudinhos – estes morando na “cidade grande”.

Lembro do abraço que mamãe me dava quando eu chegava. Esse era um abraço diferente, que como aquele eu nunca ganhei de ninguém. Era apertado e rápido, semelhante a um pequeno empurrão, só que infinitamente carinhoso.  Aquela alegria era intensa, mas fugaz. Passado um tempinho, mamãe voltava a ficar bravinha, porque esse era o seu normal.

Na foto acima, mamãe estava escrevendo alguma coisa, mas acho que não seria carta. Sendo dos mais velhos, sou de um tempo em que ela gostava de se corresponder com uma prima que se mudara para uma terra distante. Mamãe apanhava uma folha de caderno e, pegando firme no lápis, desenhava cada letra, bordando devagarinho as palavras. Uma frase demandava minutos; uma página inteira levava dias. Se alguém se aproximasse, mamãe mal disfarçava o incômodo. Nervosa, dobrava aquele papel e o guardava, saindo dali para cuidar de outra coisa. Muitas cartas foram escritas e postadas; provavelmente outras ficaram “pra depois”, esquecidas e inconclusas.

Lembro com muita saudade das muitas vezes em que cheguei àquela casinha, sendo carinhosamente recebido pelos meus pais e os irmãos pequenos – todos esses uns maltrapilhos, e eu sem condições de lhes dar sequer um par de chinelos. E a imagem acima, com a mamãe ainda jovem, me traz essas lembranças de forma muito vívida e me faz revelar um pequeno segredo. Quando eu me despedia da mamãe, um nó na garganta me impedia de falar, mas ainda assim eu dizia: “Mãe, eu nem sei se vou achar passagem. Pode ser que não tenha ônibus pra mim, então eu volto pra ficar com a senhora, tá?...”. Enquanto eu “mentia”, ela passava uma das mãos nos olhos marejados e com a outra mão me segurava, tentando me fazer desistir.

Neste 23 de maio mamãe faria 86 aninhos. Não há festa, não há bolo nem parabéns aqui. Mas no céu, com certeza, ela está festejando o natalício com muita alegria ao lado do ‘amado Zezé’.

FILIPE


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