sábado, 19 de setembro de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 15

 

30) O taxista, embora jovem, é um velho conhecido da família. Na adolescência, convivi com seus já falecidos avós paternos, de quem fui amigo.

O carro avançava pelas ruas estreitas de Guiricema rumo à “Praça”, como dizem os locais em referência ao centro da cidade. De lá, partimos em direção à Rua Nova, mas não seguimos adiante, pois descemos à direita e pegamos a ponte que dá acesso à “Estrada Nova”, que é uma das vias que ligam a sede do município ao arraial de Corgo Preto.

Percorridos uns dois quilômetros, paramos na vendinha da minha irmã, um mercadinho de “secos e molhados” que atende as famílias camponesas daquela redondeza. Desci, cumprimentei a mana, perguntei pelos filhos e esposo. Eles estavam cada qual na sua ocupação: trabalho ou estudo. Foi uma parada rápida, porque eu teria de fazer uma série de visitas e meu tempo era bem escasso. Voltei ao carro e o motorista, que me aguardava pacientemente, arrancou para o próximo destino, dessa vez a casa de outra irmã.

Menos de dez minutos depois, saímos daquela “estrada nova” e entramos numa vicinal que dá acesso ao sítio da família, onde fui criado. Ao ouvir barulho de um automóvel chegando, a irmã, que certamente estava à máquina de costura, saiu para ver quem chegava.

Sorridente, como sempre, ela veio calorosa e nos convidou a entrar. Não, eu não poderia entrar, mas apenas dar uma passadinha e seguir para Corgo Preto – declinei do convite. Foi aí que me surgiu uma ideia reluzente: convidar a irmã para nos acompanhar. Ela agradeceu, disse que estava apertada de serviço, tinha muita costura pra entregar etc. Aproveitei esse aperto de serviço dela pra vazar rápido e seguir viagem. Despedimo-nos e saímos apressados.

 

31) Chegamos a Corgo Preto, mas decidi ir além. Eu precisava fazer três visitas rápidas: a um casal de tios, a um casal de amigos adoentados e a uma senhora, também adoentada, a quem visito com relativa frequência. Antes, porém, decidi avançar para Dom Silvério – um outro povoado situado ao pé da serra. Na verdade, eu não iria até Dom Silvério, mas próximo dali. Eu quis rever uma ex-professora, com quem nunca mais tive contato desde os tempos de ginásio. O motorista sabia o caminho, mas eu não.

A certa altura, saímos da estrada principal que liga Corgo Preto a Dom Silvério e entramos numa estradinha estreita. Passamos por uma porteira, que eu abri e fechei; depois outra, que abri e deixei aberta. Enfim, chegamos a uma bela casa próxima a um pomar de mangueiras gigantes. Aquilo ali é realmente um encanto!

Quando o taxista estacionou no terreiro, dois cachorros apareceram para um alarme, mas se recolheram em seguida. Depois veio a professora e, um pouco atrás dela, o esposo. Eu me apresentei, mas foi desnecessário. Ela disse que me reconheceu de cara, mas só nunca imaginava que eu fosse aparecer ali pra essa visita.

Pretendo escrever um texto exclusivo sobre essa professora, mas isso será num outro momento. 


(continua)

filipe

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

ELISÂNGELA

 


Quarenta anos já se passaram desde a manhã daquele  ‘primeiro de janeiro’, o dia em que cheguei àquela casa.

De Juiz de Fora, nas Minas Gerais, fui de mudança para Mauá, na Grande São Paulo, levando toda a minha “fortuna” numa única mochila. Ali couberam minhas roupas, um ou dois livros e algumas quinquilharias -- coisa de que só gente pobre gosta ou precisa, e conserva. Lembro de haver dois cabides de plástico que não couberam por inteiro na mochila, ficando à mostra como se fossem ‘criaturas insubmissas e curiosas’.  

Naquela casa moravam Afonso e Elza, meus tios maternos, e os filhos, Wendell e Elisângela. O menino tinha a idade de uns seis anos, e a menina dez. Eram duas crianças doces e dóceis, que nunca me aborreceram -- o que não posso dizer o mesmo em relação a elas. Minha fama de ‘pessoa difícil’ é verdadeira  e não me é muito favorável. Contudo, espero não ter aborrecido ninguém durante os ‘cinco anos, seis meses e quinze dias’ passados ali.

Não, eu não morei na casa deles, mas nos fundos do imóvel. Era um pequeno aposento, que seria um híbrido de ‘quarto, sala e cozinha’, mais um banheiro privativo  e uma pequena área com pia e fogão. Um espaço mais do que suficiente para mim, mas que já chegou a acomodar duas ou mais pessoas.

Cheguei àquela cidade para trabalhar e estudar. Foi um tempo difícil, embora eu já tivesse passado por dias mais áridos. Meu dia a dia era intenso. Inicialmente, eu saía de casa antes das ‘cinco da manhã’ para entrar no serviço às seis em outra cidade. Depois, meu trabalho ficou  noturno e passei a sair ao anoitecer. Primeiramente para a escola, e de lá para a estação ferroviária onde eu pegava o último trem para descer em Santo André. Dali, eu percorria a pé um trecho de uns dois quilômetros até chegar à empresa. Minha jornada começava exatamente à meia-noite, sendo essa uma dura rotina de longos anos.

Aqui entra uma questão, a mais importante. Trabalhando à noite, de segunda a sábado, além dos estudos, eu não tinha tempo para nada. Dormia mal, mal me alimentava e não conseguia cuidar das minhas coisas. Mas eu tinha o apoio dos tios, que me ajudaram muito. Lembro que a tia  fez questão de lavar as minhas roupas e ainda vigiava os meninos para não me acordarem. Muitas vezes fui despertado, não pelas crianças, mas pela mãe. Zelosa de meu sono diurno, a tia bradava: “Parem com esse barulho, senão vocês vão acordar o filipe!!!!”

E a Elisângela?... Pois bem, essa prima foi bastante sacrificada nesse período. Ela e seu irmãozinho tinham os coleguinhas com os quais dividiam as tarefas escolares e com quem gostavam de brincar, mas tiveram pouca liberdade para isso. Criança gosta de correr, pular, falar, cantar, gritar... Criança é naturalmente barulhenta! Mas naquela casa isso ficou prejudicado por uma situação que  durou ao menos três anos.  

Fora o desconforto descrito acima, tenho ao menos duas dívidas com a Elisângela. Uma: certa vez, cheguei todo feliz com o livro “A história da Matemática”, que comprei na faculdade, e ela o encapou para mim. Outra: as minhas camisas, que ela fazia questão de passar, eu as recebia impecáveis num dos cabides trazidos naquela mochila da viagem.

Na noite do último sábado, dia ‘vinte e dois’, recebi a triste notícia do falecimento da Elisângela. 


filipe

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM -- PARTE 14

 

27) Passado um tempinho sem dar sequência nas ‘memórias’, resolvi retomar o assunto agora, no silêncio desta noite -- sem música e apenas ouvindo o tique-taque de um velho carrilhão, o ladrar de cães da redondeza e o canto triste de uma carimbamba, dizendo repetidas vezes que  “amanhã eu vou”. Aprecio os sons noturnos de grilos, sapos, corujas e que tais. De vez em quando, paro tudo que estou fazendo à noite apenas para me encantar com o ‘corujar triste’  de uma ‘corujinha-do-mato’.

Ao trabalho, portanto.

28) Terminado o almoço, que descrevi parágrafos atrás como sendo um ‘frango meio ensopado’ e que a tia surpreendentemente apreciou, consultei o relógio e vi que estava quase na hora de sair para uma visita a parentes. Eu, que costumo cochilar depois do almoço, tive que declinar da minha sesta e me arrumar para sair sonolento naquelas “horas tão impróprias”. O taxista mandara mensagem de que estaria a caminho e eu tive de me apressar.

Então fui ao quarto, peguei a carteira e o celular e me despedi da tia, que estava lavando louças. Desci os dois degraus que separam a cozinha da varanda e fui a passos rápidos para a rua. Adiantado, já no portão, a tia me chamou lá de dentro e disse alguma coisa. Sem entender as suas palavras, tive que voltar, embora o motorista já estivesse me esperando, para saber o que ela queria. “Oi, tia. O que a senhora disse? Eu não ouvi direito.” “Nada não. Só falei pra você ir ‘com Deus e Nossa Senhora’.” “Amém, tia. Amém”. Saí.

29) A porta do carro estava aberta e o motorista não me pareceu apressado. Com o celular na mão, parecia digitar algo, talvez respondendo a mensagens. Assim que me viu, cumprimentou-me, pôs o aparelho num buraco do painel próximo ao volante e me perguntou se alguém mais iria comigo. Eu disse que não e pedi pra sentar no banco da frente. Ele permitiu. Então entrei, ele virou a chave, deu partida no carro e saímos para o distrito de Córrego Preto, que fica a uns dez quilômetros dali.

Preciso fazer uma pequena observação. O nome oficial do lugarejo em que nasci e fui criado é ‘vilas boas’ – que escrevo com iniciais minúsculas porque me recuso a usar essa nomenclatura. Como o nome original é Córrego Preto, uso a denominação. Vez ou outra digo Corgo Preto, mas no dia a dia a forma costumeira é “Corpreto” mesmo, e todo mundo entende.

(continua)

filipe

domingo, 9 de agosto de 2026

O QUINTO ENCONTRO

 

À sombra dessa jabuticabeira, que foi plantada por meu pai e cuidada por ele com tanto zelo, fizemos essa foto.

Papai já não está entre nós, e neste Dia dos Pais a sua memória certamente será contemplada pelos onze filhos – todos reunidos na imagem acima, num registro de nosso ‘quinto encontro’.

Foi nesse pedacinho de chão, onde hoje se regala o “arbusto jabuticabeiro”, que papai chegou com a família para morar, isso lá pelos idos dos ‘anos sessenta’, mais precisamente em meados do ano de 1964. Éramos papai, mamãe e quatro filhos – o mais novo ainda de colo. Na ocasião eu tinha a idade de dois anos e meio, por isso são poucos os fiapos de lembrança que me restam, mas bastante reforçados pelos relatos vívidos da irmã mais velha.

Lembro que a nossa “nova casa” era bem pequena – um casebre com pouco mais de vinte metros quadrados, onde se espremiam cinco cômodos: sala, salinha, cozinha e dois quartos. Banheiro não tinha, porque naquele tempo esse era um luxo lá da cidade.  

Sobre as medidas dos cômodos, particularmente dos quartos, uso como parâmetro uma cama de adulto que, naquele tempo, tinha no máximo dois metros de comprimento e ocupava um espaço que ia de uma parede a outra de um quarto. E esse era um padrão de quase todas as casas rurais. Os cômodos tinham em média quatro metros quadrados, mas o quarto de nossos pais era um pouco maior, e nele cabiam a cama do casal e a caminha da irmã.

Com o tempo, papai aumentou a casa. Quebrou paredes, levantou paredes, fez outro quarto e uma cozinha mais ampla. E assim a nossa casa pôde acomodar melhor a prole, que aumentava a cada dois anos.

Nos quinze anos em que moramos nessa casa, mamãe deu à luz sete crianças. Ali também foi velado o corpinho do Genádio, falecido antes de completar dois aninhos. Esse irmãozinho, caso tivesse sido internado num hospital, poderia estar na foto que abre a crônica. Mas aqueles eram tempos difíceis.

Não, a nossa vida não era fácil. No inverno, a coisa ficava ainda mais braba. Cobertor?... Um para o casal e outro para as crianças. Minha irmã dormia mais confortavelmente, porque tinha uma caminha só dela no quarto dos pais, mas seu cobertor era ralo também. Na cama grande, um bebezinho (sempre tinha um bebê lá em casa!) dormia com os pais. No entanto, assim que um novo rebento brotava, o antigo pequerrucho migrava da cama grande para a cama da irmãzinha e com ela dividia o cobertor.

No quarto da sala, os ‘homenzinhos mais velhos’ dormíamos embolados. O cobertor não nos agasalhava, seja porque era velho e puído ou por ser insuficiente mesmo. Não poucas vezes, papai se levantava no meio da noite e acrescentava uma colcha ou lençol para nos aquecer.

O nosso Velho Pai não está mais conosco. Todavia, ele continua nos protegendo, e estou tão certo disso que não lastimo sua ausência.

A sua bênção, meu Bom Velhinho!



filipe

domingo, 19 de julho de 2026

O ADEUS DE TIZIU

 


A cova foi rasa, mas o amigo não reclamou.

O solo duro não permitiu que eu cavasse mais. A palma da minha mão ficou dolorida e nela se formou uma bolha. Tive de parar.

Mas, para a carne pouca do pequeno defunto, essa modesta sepultura pôde ser considerada um regalo – o último, claro.

Terminado o serviço, fui à garagem e pequei no bagageiro do carro o corpinho. Com ele nos braços e tomado de tristeza, subi a escada bem devagar. O corpo do cãozinho ainda estava morno e mole. Tão mole que parecia prestes a escorrer das minhas mãos. Temi que caísse de meus braços quando tive de abrir o portãozinho que dá acesso ao quintal. Precisava liberar umas das mãos e, segurando-o firme com a mão direita, com a esquerda consegui abrir. A alguns passos dali, a Maneka tomava sol. Assim que me viu, ela se aproximou curiosa, cheirou o ‘morto’ e se afastou pesarosa; o Pitoko, ao me ver, deu uns dois passos para o meu lado, desistiu, correndo assustado. 

Continuei minha caminhada com o corpo do Tiziu até a sua ‘última casinha’. Depositei-o com cuidado naquele buraco, ajeitando suas pernas, suas patinhas e sua cabeça. Nos meus delírios, eu não poderia deixá-lo desconfortável. Enquanto eu cuidava disso, a Maneka se aproximou novamente, chegou bem perto da cova, olhou mais uma vez fixamente seu companheiro, deu uma bafejada e se afastou pra não mais voltar. O Pitoko, que já estava longe, desapareceu sem mandar condolências.

Fazia tempos que o Tiziu estava doente, mas a situação dele se agravou com a partida da Pituka, sua companheira de muitos anos. Este inverno, que veio bastante rigoroso, parece ter sido um complicador. Friorento, o Tiziu era o último a deixar a cama, levantando-se sempre após o sol raiar; não havendo sol, optava pelos seus aposentos, ficando lá o dia todo.

A crise pulmonar veio tão aguda, que o pobre cãozinho não conseguia mais deitar-se, andando aflito pelo quintal de dia e de noite. Nos últimos dias, ele mal dormia e na madrugada era o primeiro a me dar bom-dia. Ultimamente, os antibióticos não mais resolviam e o Tiziu parou de comer. Seus olhinhos marrons ficaram tristonhos e deles vinha um pungente pedido de socorro.

O socorro veio. Na clínica, caminhando a contragosto até a enfermaria, o Tiziu entrou numa sala já bem conhecida, onde por inúmeras vezes ele tomou medicamentos e fez exames. Mais uma vez foi posto na mesa de aço e mais uma vez tomou injeção – a última injeção.

A nossa história com o Tiziu é longa. Há exatos onze anos, na rodovia que liga Itapira a Amparo, nós o vimos no acostamento. O animalzinho, que mal conseguia andar, estava esquelético e bernento – e sangrava. A situação do cãozinho era pavorosa. Paramos o carro e fui ao encontro dele. Ele tentou correr, mas o alcancei sem esforço. Peguei-o. Ele tremia. Posto junto aos meus pés, no banco da frente, o pequeno cão continuava tremendo e chorava um choro sofrido – não sei se de medo ou de dor. Foi uma luta para que conseguíssemos curar suas feridas e seus traumas.

Agora esse meu velho amigo descansa à sombra de um pequeno arvoredo. Sua “caminha” está entre uma jabuticabeira e uma pitangueira. Há ali também outras árvores cujas raízes lhe farão companhia num terno e quase eterno abraço.

 


filipe

domingo, 28 de junho de 2026

DESPEDIDA DA SAPO

 


Minha história com a plataforma Sapo começou em fevereiro de 2014. Desde então, foram ‘trezentos e setenta’ textos, alguns deles em periodicidade semanal; outros quinzenais.

Desde o começo eu já me sentia bem aqui, e passei a me sentir melhor ainda depois que ganhei proximidade com alguns colegas blogueiros. Aquela espécie de “salinha de leitura”, que a plataforma Sapo oferece, não se encontra em outros sites – e ela faz toda a diferença porque ali se veem as postagens daqueles a quem se segue.

Muitos dos meus colegas já dispersaram, enquanto eu continuei por aqui até hoje, mas é chegada a hora de eu também esvaziar minha gaveta, pegar minha mochila, apagar a luz e fechar a porta.

Embora bastante desanimado, continuo postando em outro endereço. Caso alguém queira me dar o prazer de uma visita, bastar clicar no link que deixarei ao pé deste texto. 

Agradeço aos gestores da Sapo, que muito gentilmente me abrigaram ao longo desses anos, e agora, na finitude, ainda tiveram o cuidado de me dar instruções para eu sair com segurança e apresentaram sugestões de endereços onde eu pudesse encontra abrigo. E é exatamente por isso que não me sinto despejado, mas convidado a sair. Até porque essa casa será demolida em breve e os meus companheiros, que se anteciparam, já se vão apressados e bem longe na estrada.

Um abraço a todos.



Essa foi minha cartinha de despedida da plataforma Sapo, que tem sede em Portugal e será fechada no dia 30 deste mês.

filipe

terça-feira, 16 de junho de 2026

O ADEUS DE PITUKA

 


Foi um momento muito difícil para nós, menos para a Pituka, porque ela não tinha ideia do que estava acontecendo.

Passava das três da tarde quando entrei na clínica com essa cadelinha nos braços. Ali fui atendido pela secretária, que me conduziu a uma salinha onde havia apenas lavatório e uma mesa metálica. Depois aquela funcionária trouxe uma flanela, que foi posta na mesa, onde deitei a 'amiguinha'. A veterinária estava atendendo alguém noutra sala, mas minutos depois ela veio. Muito simpática, foi logo conversando com a sua ‘paciente, apalpando aqui e ali, enquanto me fazia perguntas e apresentava ponderações. A solução não poderia ser outra, porque a Pituka estava em sofrimento. Há uma semana ela parou de andar, não conseguindo sequer parar em pé, mas se alimentava. Ontem ela comeu menos do que o de costume e mal conseguia erguer a cabeça. Hoje ela não conseguiu se alimentar, tremia muito e parecia ter dor.

Antes de sair de casa, quando fui pegar a Pituka para levar ao carro, a Maneka sentou-se ao lado e olhou tudo contemplativa, quase premonitória. O Pitoko, sempre desconfiado, ficou à distância. O Tiziu não percebeu nada, mas esse coitado é assim mesmo: devagar em tudo.

Assim que abrimos o portão, enquanto o carro avançava para a rua, os três ficaram nos olhando lá de cima, mas num silêncio... Parece que até o Tiziu percebeu, naquele momento, que estava havendo ali uma triste despedida.

Mas preciso voltar algumas horas antes dessa partida. 

Ainda pela manhã, antes de o dia clarear, fui ver a Pituka. Inerte, ela não se moveu ao meu toque, mas seu corpo estava quente. Pensei: ela acabou de morrer, e não vou dar notícia triste à Rosana nessas horas. Tomado de tristeza, decidi fazer minhas preces e esperar o dia amanhecer para ver o que fazer.

Com o dia claro, eu ainda não havia terminado as orações, pensei: será mesmo?... Fui conferir. Não é que a ‘menina’ estava vivinha!? Talvez tenha se convulsionado, não sei.

De volta à clínica.


Então decidimos pela eutanásia. Enquanto a doutora preparava a seringa e os fármacos, eu massageava as orelhas da pobrezinha. Meus dedos roçavam aquela pelagem macia, cor de mel, enquanto uma agulha era introduzida numa de suas pernas. Ali eu tentava disfarçá-la para que ela não sofresse com a fisgada e, para isso, eu movia mais freneticamente as mãos no pescoço e na cabeça. Olhando fixamente para ela, sabendo que aquela seria a última vez, pude perceber que seus olhinhos brilhavam de contentamento, piscando a cada vez que meus dedos tocavam suas pálpebras. Naquele momento, a Pituka parecia feliz, realizada mesmo, porque o que ela mais amava na vida era carinho de mãos humanas, não importando de quem seriam as mãos.

Finalmente, aqueles olhinhos anuviaram-se.

filipe

sábado, 13 de junho de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 13

 

24) Eu mal terminara de fazer o almoço e a tia já se aproximou com um prato. Ela estava com fome, até porque a hora já avançava para o meio-dia e o costume ali é de almoço mais cedo. Eu havia preparado um pimentão, prato de que gosto muito, acrescido de feijão, arroz e um frango meio ensopado. Fiquei temeroso de que a tia não gostasse do frango, talvez ela o achasse salgado ou até mesmo insosso. Mas dessa vez tivemos um ‘final feliz’ no almoço, com a tia provando e aprovando tudo.

 

25) Houve uma vez em que as coisas não fluíram assim tão bem. Era Quaresma, a tia comprou um bacalhau e me pediu pra fazer. Eu disse que teria de deixá-lo de molho de um dia para o outro para dessalgar, mas ela tinha pressa e queria comer o peixe naquela hora. “Não, não precisa deixar de molho. É só ferventar, que o sal sai todinho. Pode fazer assim, eu sempre fiz desse jeito...”, ela disse isso na certeza de que o sobrinho não falharia, mas falhei miseravelmente.

Ferventei o peixe conforme ela me orientou, escorri a água e preparei uma panela com o tempero que eu tinha à mão: alho, óleo e só – cheiro-verde, não tinha; coentro, não havia; pimenta, nem pensar; sal eu não pus porque suspeitei de que o peixe pudesse ainda estar salgado. Então fritei o alho no óleo (não tinha azeite) e forrei o fundo da panela com pimentão, cebola e tomate – azeitona não existia. Depois, por sobre esses ingredientes, fiz um mosaico com as postas de bacalhau e tampei a panela sobre fogo brando. De vez em quando eu abria, mexia bem devagar pra não desmontar aquele arranjo e fechava novamente. Passados mais uns minutos, a tia se aproximou com uma colher, abriu a panela quase que furtivamente, deu uma mexidinha, pegou alguma coisa e saiu na direção da pia. Eu fiquei a observando à meia distância. Animada, ela soprou o petisco, que estava pelando de quente, e o levou à boca. Eu fiquei de olho naquela cena. Seu rosto, antes sereno, turvou-se. Em seguida, este pobre cozinheiro recebeu a temida reprovação, que veio numa pequena frase, mas suficiente para minar os brios de um ‘mestre-cuca’, que nunca fui. “Está muito salgado!” “Mas tia... Eu não pus mais sal. A fervura foi insuficiente, mas vou dar um jeito”.  Nisso, ela se recompôs e ficou na expectativa, tentando entender o que eu faria para recuperar o seu almoço.

Fui à geladeira e peguei alguns tomates, lavei, cortei em rodelas não muito grossas nem finas e as pus sobre o peixe. Foram muitas rodelas de tomate, tanto que a tia me alertou: “Não é muito, não?” “Não, tia. É o necessário para equilibrar o tempero.” Esperei uns minutos e provei antes dela. Estava perfeito para este plebeu, mas não para ‘patrícios’ que detêm a arte de preparar frutos do mar, particularmente bacalhau.

 

26) Encerro esta parte com um texto pouco inspirado, isso é sabido. Todavia, não espere o raro leitor que os demais capítulos sejam melhores, porque não serão. Adianto-lhe que há coisas mais aprazíveis pra se fazer ao invés de desperdiçar precioso tempo com meus delírios. E tem mais: não pretendo parar tão brevemente, porque muitas das minhas errâncias deverão ser registradas nas tortas linhas deste ‘memorial’.

(continua)

filipe

domingo, 31 de maio de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 12

 

22) Você, raro leitor, não se agaste por eu me arrastar na descrição desse meu desatino na tentativa de descer daquele telhado. Saiba que a minha aflição deve ter sido bem maior do que a sua. Nunca alguém se comprouve por passar longas horas a sol a pino sobre um telhado, refém do medo de despencar de telhas escorregadias e acossado pela sede que lhe seca todas as mucosas. Pois bem, essa era a situação em que eu me encontrava.

Num esforço, a custo, alcancei o primeiro degrau. Senti meu pé direito se firmar e, com um movimento trêmulo, consegui alcançar o outro degrau, que estava um pouco longe. Explico: a escada, além de ser “perneta” conforme já disse linhas acima, tem os degraus muito distanciados uns dos outros, o que dificulta seu uso, particularmente para quem sente pavor de altura e estando em iminente perigo como eu.

Ainda com os pés mal postos sobre os degraus e na tentativa de estabilizar a escada, que teimava em deslizar, deitei-me-sobre as telhas e fui firmando devagarinho. Pois justo agora o suor veio abundante, embaçando os óculos, e eu precisava secar as lentes. Mas com que mão eu faria isso se as duas estavam espalmadas sobre o telhado, agarrando firmemente as protuberâncias das telhas?...

Finalmente consegui descer. Ufa!

O serviço ficou pronto, não sem antes eu voltar lá repetidas vezes para levar uma telha ou uma ferramenta. Ainda bem que aquela luta agônica de subir e descer foi sendo amenizada e eu já não me afligia tanto na peleja.

 

23) Terminado o telhado, chegou a vez do banheiro. Sempre ao usar o lavatório, alguma coisa impedia a torneira de abrir, girando tudo, seja para a direita ou para a esquerda. Para uar a torneira, teria de ocupar as duas mãos: uma para abri-la e a outra para segurar o cano junto à louça a fim de que a coisa funcionasse. Havia tempos que a pia estava assim e parecia que ninguém se incomodava com ela.  Menos eu, porque aquela coisa foi me dando nos nervos. Veja se pode: uma trabalheira danada pra lavar as mãos, essa que a coisa mais prosaica de se fazer... Dessa vez nem perguntei à tia se queria ou não que eu trocasse a torneira. Ousei.

Fui à lojinha de materiais de construção, que fica a poucos metros dali, escolhi uma torneira simples, mas bonita, arranquei a antiga e instalei a nova. Depois do serviço pronto, chamei a tia, que veio desconfiada, olhando de longe. Depois se aproximou e aprovou com um sorriso e palavras de gratidão.

Passado um tempinho, enquanto eu preparava o almoço, vi a tia entrar no banheiro. Fiquei na expectativa de receber uma boa nota para o serviço, agora testado por ela. A tia demorou um pouco, e quando ela abriu a porta, perguntei: “O que a senhora achou da nova torneira?” “Eu não usei a torneira, mas deve ter ficado boa.” “Tia, a senhora foi ao banheiro e não lavou as mãos?!” Constrangida, a pobrezinha se desculpou, apontando para um frasco de álcool sobre a mesa. “Eu uso álcool pra lavar as mãos. Esse aqui é muito bom. Antes tinha aquele parecido com um mingauzinho, mas eu não gostava dele, não.”

(continua)

filipe

 

domingo, 24 de maio de 2026

SERIAM OITENTA E SETE, MAS...

 


Essa fotografia foi tirada há exatos três anos, um dia após mamãe festejar ‘oitenta e quatro anos’ – aquele que seria seu último aniversário.

Nunca, antes dessa imagem, ninguém jamais viu essa senhora usando chapéu. “Cruz credo, isso é coisa de homem... Não uso de jeito nenhum!”, eis uma possível reação a alguém que a tenha oferecido tal adereço.

Comigo, no entanto, a coisa aconteceu um pouco diferente. Naquele momento, eu estava ao lado dela, falando coisas desimportantes. Quem me conhece um pouquinho sabe das minhas ‘dificuldades cognitivas’, e também da minha falta de assunto.  Quem me conhece melhor, já sabe um pouco mais de mim. Sabe que, além da minha inabilidade para discorrer sobre assuntos sérios, sou um homem que prefere assuntar sobre “a vida alheia”, um tema que costumo explorar com discreta culpa e indisfarçável volúpia.  Mas com a mamãe não havia nenhuma fofoca, não. Embora a mãe não se afeiçoasse por muita gente, e esse é um traço herdado por este seu filho, o hábito nefasto de espinafrar as pessoas não lhe era costumeiro. Mamãe era íntegra!

Mas vamos ao chapéu.

Quando a mamãe me arrancou a “cuia” da cabeça, fiquei entre assustado e curioso. Assustado, por óbvio; curioso pra saber o que ela faria com aquilo. Apenas a observei, segurando bem firme o apetrecho. Depois ela me olhou fixamente, quase num pedido de desculpas, voltou os olhos para o chapéu e ensaiou devolvê-lo à minha cabeça. Desistiu de devolver, olhou novamente o chapéu e o pôs na própria cabeça. Agora ela me pareceu enigmática, talvez pedindo minha opinião sobre seu novo visual, que, claro, aprovei e aproveitei para fazer vários cliques. Todavia ela não se deu conta de que estava sendo fotografada. Aliás, ela nem entendia dessas coisas, porque o seu tempo era outro. Na época dela, fotografias eram tiradas na cidade, em estúdios com luzes fortes sobre pessoas sisudas e em trajes elegantemente formais.

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Mamãe partiu aos ‘oitenta e quatro’ – com a mesma idade da ‘profetiza Ana’, lá da Bíblia. Como a Ana bíblica, mamãe também passava seus dias em preces: Ana orava no Templo; mamãe em casa. Inicialmente mamãe rezava na varanda ou no quarto, depois na cadeira de rodas, depois na cama e, finalmente, no leito do hospital.

Mamãe partiu deixando-nos um rico legado de gratidão e uma preciosa lição de como encarar a finitude. Minha mãe me ensinou a envelhecer, mas preciso fazer o ‘dever de casa’.

filipe


domingo, 10 de maio de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM -- PARTE 11

 

20) A manhã avançava a passos esticados, o sol já dava sinais de que o dia não seria apenas morno, mas ainda havia restos do frescor da aurora. A tia acabara de acordar e se movimentava lentamente, tentando se levantar – eu pude perceber sem que a visse. Larguei meu livro e o mate e fui até o quarto pra ver se ela queria ajuda para calçar as chinelas ou algo mais. Não precisava. Ela já estava de pé e arrumava a cama, estendendo lençóis e dobrando o cobertor. Ofereci ajuda, mas ela agradeceu. “Sempre arrumo de um jeito que me facilite depois”, pontuou.

Voltei à cozinha pra fazer um chá, que ela toma sempre sem açúcar. Terminei de preparar o chá e, enquanto ela se ajeitava, cruzei a rua pra pegar um bolo na mercearia. Ao me ver com o bolo, muito surpresa, foi logo perguntando quanto custou e pedindo pra deixar pra ela pagar. Dizia não ter dinheiro agora, mas que acertaria quando recebesse seu ‘ordenado’. “Não, tia. Eu já paguei, não se preocupe com isso”.

Sentamos, ela pegou um pedaço daquele bolo enquanto eu enchia uma caneca de chá. “Se for pra mim, não ponha açúcar!”, ordenou. “Sim, tia, não vou pôr açúcar”. Ela tomou o chá com o bolo e se disse satisfeita. Também tomei chá (açucarado!), comi bolo e fiquei igualmente satisfeito.

Terminado o desjejum, lavei as vasilhas e saí para o quintal a fim de planejar meu dia, que seria intenso.

 

21) O telhado estava avariado, com telhas soltas ou quebradas. Quando chovia, era um horror, com água entrando pelo forro, molhando a cozinha toda. A tia estava muito chateada e não conseguia alguém que consertasse. “Eu pago, não quero nada de graça, mas nem pagando...”, lamentava a pobre senhora. “Tia, eu vou tentar resolver isso, mas não sei se consigo. Tem escada?” “Eu não tenho, mas o Sebastião tem. Vou ver com ele.”

A tia desceu a escadinha que dá para a varandinha e dali chamou o vizinho, que a atendeu prontamente – e já trazendo uma escada, que era bem precária, feita com varões de charrete. Sei que o raro leitor não sabe o que é isso, mas aquela escada era bem estranha e perigosa. E era nela que eu subiria para alcançar o telhado da tia.

Apoiei a escada na varanda, que me pareceu o lugar mais propício, mas a escada era “perneta”. Explico. Uma das pernas era maior, de forma que eu teria de apoiar a perna menor numa coisa para que ela não me derrubasse. A custo, consegui subir. E pra descer?... Pra descer foi bem complicado, porque a escada estava de “sacanagem” comigo. Assim que punha um pé no degrau, ela começava a deslizar, ameaçando me derrubar. Eu desistia e pensava: “Meu Deus, como vou descer?!” Enquanto eu me afligia lá em cima, cá embaixo a tia não parava de falar comigo, e eu sem entender bulhufas. Ela falava, repetia, me chamava... “Tia, estou longe, não estou ouvindo nada!”, bradei.

 

(continua)

filipe

sexta-feira, 1 de maio de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – DÉCIMA PARTE

 

18) Entrei no quarto e fechei a porta para não ser incomodado por gatos. Há muitos deles no quintal, mas apenas a Pretinha dorme dentro de casa, embora naquela noite ela não estivesse por ali. O sumiço da ‘bichinha’ foi motivo de chateação da tia. Todas as vezes que me via, aquela gatinha fugia desesperadamente – para minha alegria e tristeza da dona.

Agora, já acomodada em seu leito, eu esperava que a sonolenta senhora adormecesse rapidamente, mas isso não aconteceu. Assim que se deitou, ela ficou acesa e disparou a falar. Eu tentava me desligar de tudo, queria dormir, enquanto a tia queria conversar! O aposento dela nem é bem um quarto de dormir, mas uma sala que ela transformou em dormitório. Separada de mim por uma porta, que me parecia mal fechada, qualquer movimentação poderia ser percebida. Isso era bom, porque eu poderia atendê-la em alguma necessidade, bastando apenas me chamar. E então aquela senhorinha resolveu prosear, e as horas foram subindo, subindo e nada de a prosa baixar.

Lá pelas tantas, e eu digo ‘tantas’ porque já era tarde mesmo, talvez quase meia-noite, tentei fingir que estava dormindo e não participei mais daquele ‘quase monólogo’.  Ela: “Filipe... filipe... filiiiipe!...” “Oi, tia.” “Ah, cê tá acordado? Pensei que já tava dormindo...” “A senhora precisa de alguma coisa?” “Não. Só queria saber se a Pretinha está aí.” “Não, tia. Ela não está aqui. Deve estar dormindo por aí...”. “Ô diacho. Aqui ela não tá não. Então ela sumiu mesmo!”

Depois disso, não sei se a tia me chamou nem se falou alguma coisa. Só sei que não ouvi mais nada. Adormeci.

 

19) O celular me acordou às três da manhã, o horário em que a tia teria de tomar um remédio. Houve um pedido expresso dela: “Você me chame às três horas da manhã, porque preciso tomar um comprimido, viu?!” 

Meus olhos ardiam fadigados, o corpo teso, mas com algum esforço consegui me levantar. Peguei a água e o comprimido, enquanto isso ela se sentava na cama para tomar o medicamento. Por fim, devolvendo o copo, ela deu uma esticada de olhos para os lados, provavelmente tentando encontrar a Pretinha, e deitou-se novamente – dessa vez sem dizer palavra, adormecendo logo em seguida.

Voltei para a cama, mas o sono sumiu. Peguei o celular e tentei ler as notícias, que me são sempre enfadonhas. Desisti do noticiário e abri a caixa de mensagens, mas desisti delas também. Os galos já anunciavam com entusiasmo o raiar do dia, que prometia ser quente. Levantei-me, fui ao banheiro e depois comecei a preparar o chimarrão. Tentei fazer tudo em silêncio e na penumbra, com uma lâmpada que não jogasse luz nos demais cômodos pra não acordar a tia.

Já à mesa, com o mate verdinho na cuia, retomei a leitura de Clarice  Lispector, agora ao sabor de um chimarrão divinamente saboroso. Eu estava animado e o meu dia se prometia ditoso.

(continua)

filipe

segunda-feira, 13 de abril de 2026

NAQUELA MANHÃ...

 


Era manhã de abril, com céu limpo, e não fazia frio. Estávamos na varanda, papai no computador e eu tomando chimarrão. O sol despontava timidamente, roçando a folhagem da pequena mata de eucalipto, com a promessa de um dia quente. Papai fechou o notebook, coçou a cabeça e passou suavemente as mãos nos cabelos embranquecidos a fim de ajeitá-los. E, me olhando pensativo, disse: “Acho que vou dar um pulo a Guiricema.” “Opa. Vamos, sim”, eu me prontifiquei a acompanhá-lo, embora não tivesse sido convidado.

Organizamos as coisas, pegamos a estradinha de terra que liga o sítio à estrada asfaltada e fomos caminhando sem pressa. Ofegante, de vez em quando papai parava e, apoiado na bengala, apontava para uns lados pra falar de um passado muito distante. Ele contava um pouco da história do sítio que pertencera ao seu pai, meu avô Sebastião. Depois tornou-se propriedade de uma tia e agora pertence a uma família de hortelãos. Papai me dizia sobre como se deu a compra daquelas terras, que foram adquiridas em consórcio com o irmão do meu avô, o tio Horácio. Comprado o sítio, discutiu-se como seria feita a divisa entre os irmãos e foi meu bisavô Germano de Moura quem fez as medições. Esse meu bisavô era um topógrafo sem diploma – um homem de pouco estudo e muita sabença. Papai, ainda menino-moço, ajudou a medir aquelas terras, andando pelo matagal, segurando balizas e esticando cordas.

Chegamos à estrada e aguardamos a condução, que não demoraria. Enfim, chegou a van com alguns poucos passageiros. Entramos nela e papai se adiantou, pagando as duas passagens. Já estava com o dinheiro trocado e ainda pagou com desconto, ele me disse depois. O porquê do desconto, não me lembro mais. Acho que é por ser cliente assíduo do condutor-proprietário, de quem era amigo.

O motorista recebeu o dinheiro e esperou pacientemente que nos sentássemos em segurança para, somente depois, engatar a marcha e partir. É um trajeto curto, de apenas uns cinco quilômetros, percorrido em poucos minutos. Então, pouco tempo depois, após alguns sacolejos nas curvas, subidas e descidas, já estávamos na cidade e apeamos da embarcação.

Papai precisava ir à agencia bancária pegar algum dinheiro e eu fui a outro lugar, talvez ao mercado, não me lembro. Um pouquinho depois nos encontramos novamente e nos sentamos num banco da praça, que estava sendo reformada. Os calceteiros trabalhavam frenéticos com enxadas, picaretas e marretas. Havia montanhas de pedras, areia e outros materiais de calcetaria. O trabalho era pesado e os caboclos, alguns fortões, suavam bicas sob um sol inclemente.

Estávamos ali esperando um táxi para ir ao bairro da Taboa, a fim de visitar uma tia, irmã do meu pai. O táxi não apareceu e decidimos ir a pé. Fomos caminhando devagar e papai contando seus casos. Ele relembrou a história de um rico fazendeiro, o maior da redondeza no início do século passado, que se endividou e quebrou. Com muitos filhos pequenos, ele se mudou com a família para o município de Ervália e lá trabalhou pesado no calçamento de ruas, manuseando marretas e chibancas.

Caminhando mais, passamos por defronte a uma casa, onde havia uma aglomeração de pessoas. Era o velório de uma senhora, mãe de duas colegas minhas de ginásio e de outra que se tornou nossa prima. Papai tinha muita estima por aquela família. Paramos, entramos, prestamos as condolências e retomamos a nossa caminhada até a Taboa.

Aquela seria a derradeira visita do papai à irmã Geni. Naquele dia também ele poderia ter tomado seu último sorvete de coco, o que mais apreciava. Pena que não me ative a isso e até hoje me penitencio por essa falta.

Hoje, no dia em que se completam quatro anos de sua partida, papai já não precisa mais da bengala. Nem do sorvete de coco – a ele não oferecido.

FILIPE

quarta-feira, 25 de março de 2026

CORA CINQUENTENÁRIA

 


Essa é a Maria Coraciana, minha irmã e afilhada que está completando ‘cinquenta anos de vida’. Acho que ninguém da família sabe que sou padrinho dessa menina, talvez até ela já tenha esquecido. Também, pudera. Uma afilhada que nunca ganhou presente, nem sequer no aniversário... Dizer o que de padrinhos assim?...  ’Nunca’ pode ser exagero de minha parte, porque certa vez dei a ela uma caneca de louça, embora isso não seja “aquele presente”, já é alguma coisa, né?... Ou não. Da canequinha eu me lembro bem, embora ela diga que já ganhou um estojo de maquiagem, mas não tenho lembrança.

O nome da minha irmã deve ser único no mundo. Nunca se ouviu dizer que alguém traga “Coraciana” em seus documentos – nome que acho muito bonito. No entanto, talvez não fosse assim, caso minha irmã mais velha (sempre ela!) não interviesse, participando ativamente da escolha. Isso por que, dos treze filhos do casal, doze papai nomeou “monocraticamente” – exceto a nossa aniversariante – e essa é uma história bastante inusitada. 

No meu povoado havia uma senhora que era uma espécie de guru daqueles caboclos. Mais do que guru, aquela senhora era um verdadeiro oráculo, porque sem as bênçãos dela, nada se movia naquelas paragens. Todos na redondeza procuravam a “matriarca “ para pedir conselhos, licenças, permissões ou orientações. Quando a nossa bebezinha nasceu, papai, que estava entre os aconselhados e orientados daquela vidente, ouviu dela o seguinte:  “O nome da menina será Maria Coraçana!”

Papai chegou em casa com essa novidade, mas ele não me parecia muito satisfeito – nem nós, os mais velhos. Contrafeita, a irmã mais velha foi assertiva: “Mas papai, esse nome é muito feio!” Papai olhou meio assustado pra pirralhinha, mas desanuviou o rosto e disse: “Não, filha, ela disse Coraçana porque, sendo uma mulher de “pouca leitura”, não conhece bem as palavras. Pois vou pôr “Maria Coraciana”, e assim fica bem mais bonito.” “Ah, então tá bom”, comemorou sem muito entusiasmo a exigente e protetora Mana Velha.

E a Maria Coraciana crescia. Discreta, sempre foi uma menina de muito sorriso e poucas palavras, o que lhe confere certo charme e algum temor. Alguém já balbuciou: “Mas aquela sua irmã parece brava, hein?...” “Que nada. Só não aborrecê-la!”, adverti. Pois bem, melhor não incomodar a menina e voltemos ao passado.

Chegou o dia do Batismo da Coraciana. Àquela altura eu, um pré-adolescente, ansiava ser adulto, e uma forma de alguém se sentir mais velho é ter compadre. E não há compadre sem que haja de permeio um afilhado. Então eu precisava arrumar um afilhado. Que tal ser padrinho da irmãzinha?... pensei. Perguntei ao meu pai quem seria o padrinho de Consagração (perdão, afilhada, mas não sei o que é ‘consagração’). Papai disse que seria a Mariazinha, uma vizinha. Pedi para ser o padrinho, porque no meu entendimento, se tem madrinha tem de ter padrinho. Papai assentiu. Radiante, entrei na igreja ‘menino’ e saí de lá ‘senhor’, porque depois daquele momento eu já me vi adulto, agora um homem de respeito.

Naquela mesma cerimônia, também houve a consagração do irmão da Mariazinha, do qual fui padrinho, e passei a ter dois afilhados, tendo um compadre de verdade. Mas essa é outra história e fica para uma próxima.

Hoje celebramos os ‘cinquenta anos’ da bebezinha Coraciana, que se tornou menina, que se tornou moça, que se tornou mãe, que se tornou avó, mas permanece menina-moça em todos os aspectos: bela, formosa e "frondosa" – tal como na imagem que abre esta crônica.

FILIPE


domingo, 15 de março de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – NONA PARTE

 

17) A noite chegou e com ela os pernilongos. Com as janelas abertas devido ao calor, um enxame dessas minúsculas criaturas invadiu o recinto numa medonha profusão de zumbidos. Uma loucura. A tia pediu pra eu fechar a casa porque “poderia ter musquitim”. Meu Deus! Na cozinha, no banheiro, no meu quarto... em todo canto havia desses “camicases”! E a tia tão suave, numa paz que me assustava. Eu atormentado e ela pacificada. “É... nesta hora costuma entrar algum pernilongo, por isso é bom fechar as janelas”, reforçou.

Olhei ao redor à procura de alguma arma com a qual eu pudesse me defender. Espiei em cima de armários, cômodas, guarda-roupas e nada de encontrar uma raquete elétrica – aquela que tem uma telinha com corrente de alta voltagem, própria para fazer torradinha de muriçocas. Não tinha raquete elétrica nem latinha de veneno em aerossol para debelá-los. O negócio foi quedar-se ao inimigo, que vinha sedento e faminto.

Indo ao banheiro, consegui eliminar um monte deles. Arranquei a camisa, fiz dela uma trouxa e fui acertando um a um nas paredes e no teto. Alguns escapavam, mas eu os perseguia com fúria, abatendo-os em pleno voo, e isso me dava um estranho prazer. Mantendo a porta fechada, pude cantar vitória sobre o inimigo, agora dominado e vencido.

No banheiro eu pude me divertir, mas não no quarto. Lá seria impossível acertá-los devido à existência de muitos esconderijos. Eles se refugiam atrás do guarda-roupa, embaixo da cama, por trás da cortina. Ali eu estaria sob o domínio do inimigo, mas tinha o ventilador. Ligado no máximo, uma torrente de ar seria capaz de desviar a rota dos capetinhas e eu poderia dormir em relativa paz.

Ainda antes de me dirigi aos meus aposentos, observei a tia. Ela estava sentada à mesa e tinha os olhos mortiços. “Está com sono, tia?” “Ah, eu durmo cedo!” “A senhora já rezou?” “Ainda não.” “Quer rezar o terço comigo?”  “Se você quiser, podemos rezar.”

Fomos para a sala e a tia não cochilou durante a reza, participando ativamente de cada Pai-Nosso e de cada Ave-Maria. Num certo momento, ela chegou a interromper a oração pra dizer que reza um pouco diferente de mim, que não sabe contemplar os mistérios. Respondi que isso não tem a menor importância e que ela pode continuar rezando do jeito dela.

Ao final, a tia invocou a sua ‘santa de devoção’: a ‘Senhora Desatadora dos Nós’. Disse que o padre havia recomendado, e que essa santa é muito milagrosa. Discordei. “Tia, Nossa Senhora é uma só: Maria, a mãe de Jesus! Esse negócio de muitos nomes pra uma mesma santa só nos confunde e dá razão a quem nos ataca.” “Ah, eu sei, mas acho que ajuda na nossa fé ter uma santinha de devoção, mesmo sabendo que Maria é uma só”, pontuou.

Terminada a oração, peguei a garrafinha dela, enchi com a água da talha e ela me pediu pra ajudá-la a se deitar. Ela se sentou na cama. Tirei dela as chinelas e a cobri com um lençol fino, porque fazia calor. O cobertor ficou semidobrado ao lado, de forma que a qualquer momento ela poderia cobrir-se, caso a temperatura caísse na madrugada.

Terminada essa “tarefa”, fui para o meu quarto. Cansado, esperava adormecer assim que eu me deitasse.

(continua)

Filipe

sábado, 28 de fevereiro de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – OITAVA PARTE

 

16) Terminada a “grande luta” com as titicas gatinas, fui para o fogão a fim de preparar uma janta. Peguei os pimentões e tomates que eu havia comprado, pus numa vasilha e comecei a lavá-los com detergente. A tia, muito espantada com aquilo, me disse: “Uai, lavando com sabão?! Não precisa. Eu lavo só com água...” “Não tia, precisa ser lavado com sabão, sim. A senhora não sabe como homem é bicho porco: faz xixi, não lava as mãos e depois colhe tomate e pimentão pra vender, e a gente compra sem saber. Isso aqui é sujo e precisa ser lavado direitinho.” A tia não se conteve, fez uma carinha de nojo e quase confessou um segredo dela, já fossilizado na memória: “Engraçado... Você está caprichoso!...” Pensei: Só faltou a ela dizer que o sobrinho sempre foi porcão, e agora, já bem velho, meteu-se a asseios desnecessários. Se ela pensou, não disse; se dissesse, eu não me importaria porque isso é bem verdadeiro.

Enquanto eu lavava os tomates e pimentões, esfregando e enxaguando cada um, a tia foi à geladeira e voltou com um pãozinho na mão. “Aqui, eu vou jantar esse pão e você come o que sobrou do almoço. Não precisa fazer comida.” “Não, tia. Eu quero fazer uma janta pra nós.” “Uai, eu achei que você tinha gostado da comida que fiz pro almoço, e achei que você ia comer a sobra agora na janta. E pra mim, esse pão basta.” “Tia, eu gostei do almoço, mas quero fazer uma comida diferente para o jantar. Então vou caprichar aqui e a senhora deixe esse pãozinho pra amanhã. E aquele restinho do almoço, a senhora dê para os gatinhos. Eles também precisam provar da comidinha gostosa que a senhora faz, né não?!”

Pensativa, a tia ficou um bom minuto olhando para o desolado pãozinho, não sabendo se o guardava ou se o comia. Depois fitou enigmaticamente o “cozinheiro” sem muito o que dizer. Sei disso porque, enquanto eu lavava e cortava os legumes, eu a espiava com o “rabo dos olhos”. Por fim, ela desistiu do pão e o pôs de volta na geladeira, e se sentou pra esperar a comida que eu estava começando a fazer.

Pronta a comida, fizemos uma pequena prece em agradecimento pelo alimento e nos sentamos à mesa para jantar. O nosso “banquete” era bastante frugal: arroz, feijão, pimentão refogado e uma salada de tomates com cebola. A tia ainda se resignou a aceitar que eu lhe fizesse o prato, e o fiz no capricho. Em silêncio e em poucos minutos, ela pôs abaixo aquela pequena “montanha”; eu também, à mesa e no lado oposto ao dela, devorei a minha janta com uma devoção nada franciscana.    

Terminado o jantar, a tia fez questão de lavar a louça. Enquanto isso, eu fiquei por ali, pensando no vazamento da tubulação. Dei uma espiada embaixo da pia, mas o pano que pus parecia seco e isso seria um bom sinal de não haver mais marejamento.    

(continua)

filipe

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O "LOUVA-DEUS"

 


A imagem do simpático louva-deus, ou ‘louva-a-deus’ para os eruditos, não tem nada a ver com a história aqui narrada, mas tem muito a ver com o protagonista.

 

Gosto do silêncio. Ouço músicas durante o dia enquanto cuido dos afazeres, mas à noite prefiro ouvir o cricrilar dos grilos, o lamento das corujinhas-do-mato e os coaxares de sapos que habitam um pequeno “lago” aqui ao lado, enquanto leio ou escrevo.

Ontem, a minha bucólica rotina noturna foi perturbada por gritos lancinantes. O pedido de socorro vinha de uma casa vizinha, do outro lado da rua. Fiquei aturdido, sem saber o que fazer. Tive o ímpeto de descer, mas uma voz interior me desaconselhou; pensei em chamar a polícia, mas fui demovido por outra voz.

Antes de decidir fazer uma coisa ou outra, fui à varanda e olhei para aquela casa desditosa e percebi, pelas vozes, que lá havia um casal.  E essa não foi a primeira vez que ouvi alaridos naquela casa.

Há uns tempos, duas crianças me procuraram, pedindo um celular emprestado. “Para que o celular?” “Pra chamar a polícia!” “Mas o que está acontecendo? O seu pai não está em casa?”  “Ele não é meu pai e a minha mãe quer chamar a polícia pra ele.”

Era por volta do meio-dia quando aquelas crianças me chamaram ao portão. Por ser assim tão cedo, tão dia, pensei ser algum exagero delas, ou da mãe, e não dei curso às minhas preocupações. A luz do sol parece afastar certos perigos, que se supõem afeitos à escuridão. Com esse entendimento, eu disse apenas que os pais deveriam se acertar e, não havendo acerto, que a mãe fosse à delegacia de polícia para registrar queixa. Por isso, não emprestei o celular nem chamei a polícia, mas deveria ter feito uma coisa ou outra.

Há um ditado idiota que diz: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher.” Discordo cabalmente. Mete-se a colher, o garfo e a faca! Foi pensando nesses “talheres”, que dias depois procurei uma advogada para notificar extrajudicialmente o sujeito. A advogada foi muito simpática, mas preferiu “não se meter” e me orientou a fazer denúncia anônima no site do Ministério da Justiça. Procurei outra advogada, que também se esquivou, alegando razões semelhantes às da colega. “A cidade é pequena... todo mundo se conhece... fica difícil... você sabe como é, né?...” Pensei: “Puxa vida... mas nem pagando?!”

Todo aquele redemoinho de más recordações que me assaltaram durou uma fração de minuto, e eu tinha de fazer alguma coisa. Então resolvi gritar, mas gritar alto, cada vez mais alto. Voltei à varanda e berrei a plenos bofes: “O QUE FOI, VIZINHA? O QUE ESTÁ ACONTECENDO? VOU CHAMAR A AMBULÂNCIA! PODE FICAR TRANQUILA, PORQUE A AMBULÂNCIA ESTÁ VINDO!”.

A minha voz tonitruou por vales e montes, alarmou a vizinhança, mas me trouxe de volta o silêncio noturno. Não sei por quê, mas naquela casa está reinando uma inquietante quietude.

 

Por que louva-deus? Porque aquele desinfeliz pontua todas as suas frases com um “Glória a Deus”, e não há glória nos seus atos nem parece haver Deus na sua vida. Para mim ele é um ‘louva-deus’, mas não o inocente inseto.

FILIPE