sexta-feira, 1 de maio de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – DÉCIMA PARTE

 

18) Entrei no quarto e fechei a porta para não ser incomodado por gatos. Há muitos deles no quintal, mas apenas a Pretinha dorme dentro de casa, embora naquela noite ela não estivesse por ali. O sumiço da ‘bichinha’ foi motivo de chateação da tia. Todas as vezes que me via, aquela gatinha fugia desesperadamente – para minha alegria e tristeza da dona.

Agora, já acomodada em seu leito, eu esperava que a sonolenta senhora adormecesse rapidamente, mas isso não aconteceu. Assim que se deitou, ela ficou acesa e disparou a falar. Eu tentava me desligar de tudo, queria dormir, enquanto a tia queria conversar! O aposento dela nem é bem um quarto de dormir, mas uma sala que ela transformou em dormitório. Separada de mim por uma porta, que me parecia mal fechada, qualquer movimentação poderia ser percebida. Isso era bom, porque eu poderia atendê-la em alguma necessidade, bastando apenas me chamar. E então aquela senhorinha resolveu prosear, e as horas foram subindo, subindo e nada de a prosa baixar.

Lá pelas tantas, e eu digo ‘tantas’ porque já era tarde mesmo, talvez quase meia-noite, tentei fingir que estava dormindo e não participei mais daquele ‘quase monólogo’.  Ela: “Filipe... filipe... filiiiipe!...” “Oi, tia.” “Ah, cê tá acordado? Pensei que já tava dormindo...” “A senhora precisa de alguma coisa?” “Não. Só queria saber se a Pretinha está aí.” “Não, tia. Ela não está aqui. Deve estar dormindo por aí...”. “Ô diacho. Aqui ela não tá não. Então ela sumiu mesmo!”

Depois disso, não sei se a tia me chamou nem se falou alguma coisa. Só sei que não ouvi mais nada. Adormeci.

 

19) O celular me acordou às três da manhã, o horário em que a tia teria de tomar um remédio. Houve um pedido expresso dela: “Você me chame às três horas da manhã, porque preciso tomar um comprimido, viu?!” 

Meus olhos ardiam fadigados, o corpo teso, mas com algum esforço consegui me levantar. Peguei a água e o comprimido, enquanto isso ela se sentava na cama para tomar o medicamento. Por fim, devolvendo o copo, ela deu uma esticada de olhos para os lados, provavelmente tentando encontrar a Pretinha, e deitou-se novamente – dessa vez sem dizer palavra, adormecendo logo em seguida.

Voltei para a cama, mas o sono sumiu. Peguei o celular e tentei ler as notícias, que me são sempre enfadonhas. Desisti do noticiário e abri a caixa de mensagens, mas desisti delas também. Os galos já anunciavam com entusiasmo o raiar do dia, que prometia ser quente. Levantei-me, fui ao banheiro e depois comecei a preparar o chimarrão. Tentei fazer tudo em silêncio e na penumbra, com uma lâmpada que não jogasse luz nos demais cômodos pra não acordar a tia.

Já à mesa, com o mate verdinho na cuia, retomei a leitura de Clarice  Lispector, agora ao sabor de um chimarrão divinamente saboroso. Eu estava animado e o meu dia se prometia ditoso.

(continua)

filipe

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