Neste dia tão especial, preciso
prestar uma singela homenagem à Maria Marta, minha irmã mais velha, que hoje
completa... (posso falar, mana?) Não, não serei deselegante ao revelar sua idade,
ainda que plena de simbolismo. Não farei isso com essa irmãzinha, que deve ter
lá suas justas vaidades.
Mas preciso dizer que foi pelas
mãos dessa menina que entrei pela primeira vez numa sala de aula. Isso se deu lá
no final dos anos sessenta, num grupo escolar com o pomposo nome de ‘Escolas
Reunidas Galdino Leocádio’, no arraial de Córrego Preto. Eu ainda não tinha
idade escolar, mas insisti tanto com o papai pra me pôr na escola, que ele acedeu.
Lembro muito bem do dia em que ele me disse resoluto: “Vou ao Corpreto pra te matricular”.
Com grande entusiasmo, comecei a
realizar meu grande sonho, que era ir para a escola. Contudo, se não fosse essa
irmã, eu teria problemas para continuar. Isso porque, morando na “roça”, éramos
como “bicho do mato” e nosso contato com a “civilização”, quase inexistente, se
dava apenas na escola. Minha irmã não se lembra, mas os subterrâneos da minha
memória trazem o primeiro dia. Rodeado por gente estranha, eu me senti desolado,
perdido e abandonado naquela sala de aula. Eu chorava e uma aflita dona Aída, minha professora,
não sabia como agir. Por fim, ela pediu socorro
à minha irmãzinha, que chegou sorrindo e disse para eu não me preocupar. E que
ela estava ali pertinho, na sala ao lado, e logo mais a gente ia embora pra
casa. Então eu me aquietei e voltei aos meus rabiscos sob a orientação e
proteção da bondosa e paciente dona Aída.
As minhas primeiras letras não
foram aprendidas na sala de aula, mas com essa mana. Quando ela chegava da
escola, toda animada com as lições, eu espiava seu caderno e tentava entender
aquilo que ela aprendia com a ‘dona Maria Lima’, sua professora. Eu me lembro
com muita clareza: a mana pegava o caderninho brochura, daquele bem magrinho,
de poucas folhas, e copiava frases ou algo assim. Encantado, acabei conhecendo
as vogais e até algumas consoantes.
A escola da minha infância trouxe
mais novidades além das letras. Por exemplo, o chiclete. Certa vez, minha irmã
chegou da escola mascando algo que eu não conhecia e tinha curiosidade de experimentar.
Ela então tirou da boca e dividiu comigo uma pequena goma com sabor de hortelã.
Essa foi a minha história com o chiclete, um pouco diferente da vivida por uma
figura da nossa República. Segundo o biógrafo, essa “figura” pegava chicletes
mascados dos colegas, levava para casa, lavava (se é que é possível isso) e o passava
no açúcar. E assim ele poderia mascá-lo ‘com mais dignidade’. No meu caso, não,
porque em casa tínhamos apenas rapadura; açúcar era coisa de grã-fino.
São tempos muito distantes esses,
eu sei, mas há histórias recentes que devem ser rememoradas.
Essa irmã, que cuidou dos irmãos
e criou os filhos, também cuidou de nossos pais, assistindo-os na velhice até seus
dias finais. Por essa razão, devotamos a ela grande admiração e respeito.
Importante: não se tem notícia de que algum de nós, em momento algum, tenha se
exaltado com a irmã mais velha. Nada, nem sequer uma aspereza verbal!
De todos os sentimentos humanos, este
parece ser o mais nobre: a gratidão. A gratidão não vem ‘por gravidade’ como vêm
as fugazes paixões e os amores vãos. Ser grato é uma decisão que se toma de
forma consciente, refletida e acertada.
Parabéns, Mana Véia. A você,
todos somos infinitamente gratos. E reverentes.
FILIPE

