domingo, 23 de fevereiro de 2025

MANA VÉIA

 


Neste dia tão especial, preciso prestar uma singela homenagem à Maria Marta, minha irmã mais velha, que hoje completa... (posso falar, mana?) Não, não serei deselegante ao revelar sua idade, ainda que plena de simbolismo. Não farei isso com essa irmãzinha, que deve ter lá suas justas vaidades.

Mas preciso dizer que foi pelas mãos dessa menina que entrei pela primeira vez numa sala de aula. Isso se deu lá no final dos anos sessenta, num grupo escolar com o pomposo nome de ‘Escolas Reunidas Galdino Leocádio’, no arraial de Córrego Preto. Eu ainda não tinha idade escolar, mas insisti tanto com o papai pra me pôr na escola, que ele acedeu. Lembro muito bem do dia em que ele me disse resoluto: “Vou ao Corpreto pra te matricular”.

Com grande entusiasmo, comecei a realizar meu grande sonho, que era ir para a escola. Contudo, se não fosse essa irmã, eu teria problemas para continuar. Isso porque, morando na “roça”, éramos como “bicho do mato” e nosso contato com a “civilização”, quase inexistente, se dava apenas na escola. Minha irmã não se lembra, mas os subterrâneos da minha memória trazem o primeiro dia. Rodeado por gente estranha, eu me senti desolado, perdido e abandonado naquela sala de aula.  Eu chorava e uma aflita dona Aída, minha professora, não sabia como agir.  Por fim, ela pediu socorro à minha irmãzinha, que chegou sorrindo e disse para eu não me preocupar. E que ela estava ali pertinho, na sala ao lado, e logo mais a gente ia embora pra casa. Então eu me aquietei e voltei aos meus rabiscos sob a orientação e proteção da bondosa e paciente dona Aída.

As minhas primeiras letras não foram aprendidas na sala de aula, mas com essa mana. Quando ela chegava da escola, toda animada com as lições, eu espiava seu caderno e tentava entender aquilo que ela aprendia com a ‘dona Maria Lima’, sua professora. Eu me lembro com muita clareza: a mana pegava o caderninho brochura, daquele bem magrinho, de poucas folhas, e copiava frases ou algo assim. Encantado, acabei conhecendo as vogais e até algumas consoantes.

A escola da minha infância trouxe mais novidades além das letras. Por exemplo, o chiclete. Certa vez, minha irmã chegou da escola mascando algo que eu não conhecia e tinha curiosidade de experimentar. Ela então tirou da boca e dividiu comigo uma pequena goma com sabor de hortelã. Essa foi a minha história com o chiclete, um pouco diferente da vivida por uma figura da nossa República. Segundo o biógrafo, essa “figura” pegava chicletes mascados dos colegas, levava para casa, lavava (se é que é possível isso) e o passava no açúcar. E assim ele poderia mascá-lo ‘com mais dignidade’. No meu caso, não, porque em casa tínhamos apenas rapadura; açúcar era coisa de grã-fino.

São tempos muito distantes esses, eu sei, mas há histórias recentes que devem ser rememoradas.

Essa irmã, que cuidou dos irmãos e criou os filhos, também cuidou de nossos pais, assistindo-os na velhice até seus dias finais. Por essa razão, devotamos a ela grande admiração e respeito. Importante: não se tem notícia de que algum de nós, em momento algum, tenha se exaltado com a irmã mais velha. Nada, nem sequer uma aspereza verbal!

De todos os sentimentos humanos, este parece ser o mais nobre: a gratidão. A gratidão não vem ‘por gravidade’ como vêm as fugazes paixões e os amores vãos. Ser grato é uma decisão que se toma de forma consciente, refletida e acertada.

Parabéns, Mana Véia. A você, todos somos infinitamente gratos. E reverentes.

FILIPE


Nenhum comentário:

Postar um comentário