sábado, 1 de março de 2025

UM ANO SEM ELA

 


Numa bela passagem bíblica, o pregador adverte: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”

Como não refletir sobre isso? Como entender que muitos de nós ainda nos mantemos agarrados aos prazeres mais comezinhos desta vida?...  Parece que não compreendemos que a vida pode e deve ser bela, mas a sua brevidade é espantosa.

A foto acima é da minha mãe no seu último aniversário, quando ela completava ‘oitenta e quatro’ anos. Ali, mamãe já estava bastante debilitada, usando cânulas de oxigênio, mas continuava bem-humorada e fazendo suas orações cotidianamente.

Tenho pensado bastante sobre a efemeridade da vida. Não me parece ser tão distante o passado em que eu era criança e minha mãe uma jovem mulher de vinte e poucos anos. O tempo passou, eu cresci e mamãe envelheceu; o tempo passou mais um pouquinho, eu envelheci e mamãe partiu. E assim a roda foi girando, está girando e vai continuar girando.

Lembro dos tempos de minha mãe com seus adágios que entraram para o folclore da família. Um deles, mamãe usava quando estava descrente de que uma promessa não lhe seria cumprida. Ela dizia: “Ah, sim... Só se for no dia 30 de fevereiro!” Interessante que eu ficava pensando: por que mamãe diz sempre essa data? Há algo de especial nela? Somente depois de crescidinho descobri que ’30 de fevereiro’ não está no calendário. Descobri também que o mês de fevereiro é o mais pobrinho dos “doze irmãos”, e que o coitado tem apenas ‘vinte e oito dias’; com sorte, costuma ter ‘vinte e nove’, mas só de vez em quando. Enquanto isso, alguns de seus irmãos sortudos têm a fortuna de 31 dias.

E foi justamente no ‘bissexto 29 de fevereiro’ que mamãe nos deixou. Até imagino o papai a recebendo lá no céu. Aqui, um parêntese. Gente, existe céu e não é pra todo mundo, tá?! É melhor a gente tomar alguns cuidados nesta vida, senão... Mas os meus pais estão no céu e disso eu tenho a mais absoluta certeza. Porque ‘quem faz o bem, recebe o bem’. E há de haver outra vida pra essa conta fechar.

Voltando ao céu, onde papai chegara há pouco tempo e estando ali meio sem ter o que fazer, ele dá uma voltinha e avista, lá longe, uma senhora baixinha de passos apressados. Reconhece a mamãe e se agita esfregando as mãos, já caminhando na direção dela.  “Vem, minha Nega, estamos te esperando. Então você resolveu vir pra cá logo no dia 29 de fevereiro?! Vai ficar difícil pros meninos celebrar esse aniversário, não?...” Mamãe, ainda meio esbaforida e com o rosto corado de sol, passa a mão na testa para afastar o suor que lhe embaça a vista, olha profundamente para o papai e diz sorrindo: “Sei lá como é que é...” Eles riem à farta e entram para a festa há muito preparada pra minha mãe.

Um ano sem mamãe – com saudade, mas sem tristeza. Conforta-me saber que fizemos por ela o que os filhos devem fazer pelos pais. Alegra-me a feliz certeza de que a mamãe está bem.

FILIPE


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