domingo, 31 de maio de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 12

 

22) Você, raro leitor, não se agaste por eu me arrastar na descrição desse meu desatino na tentativa de descer daquele telhado. Saiba que a minha aflição deve ter sido bem maior do que a sua. Nunca alguém se comprouve por passar longas horas a sol a pino sobre um telhado, refém do medo de despencar de telhas escorregadias e acossado pela sede que lhe seca todas as mucosas. Pois bem, essa era a situação em que eu me encontrava.

Num esforço, a custo, alcancei o primeiro degrau. Senti meu pé direito se firmar e, com um movimento trêmulo, consegui alcançar o outro degrau, que estava um pouco longe. Explico: a escada, além de ser “perneta” conforme já disse linhas acima, tem os degraus muito distanciados uns dos outros, o que dificulta seu uso, particularmente para quem sente pavor de altura e estando em iminente perigo como eu.

Ainda com os pés mal postos sobre os degraus e na tentativa de estabilizar a escada, que teimava em deslizar, deitei-me-sobre as telhas e fui firmando devagarinho. Pois justo agora o suor veio abundante, embaçando os óculos, e eu precisava secar as lentes. Mas com que mão eu faria isso se as duas estavam espalmadas sobre o telhado, agarrando firmemente as protuberâncias das telhas?...

Finalmente consegui descer. Ufa!

O serviço ficou pronto, não sem antes eu voltar lá repetidas vezes para levar uma telha ou uma ferramenta. Ainda bem que aquela luta agônica de subir e descer foi sendo amenizada e eu já não me afligia tanto na peleja.

 

23) Terminado o telhado, chegou a vez do banheiro. Sempre ao usar o lavatório, alguma coisa impedia a torneira de abrir, girando tudo, seja para a direita ou para a esquerda. Para uar a torneira, teria de ocupar as duas mãos: uma para abri-la e a outra para segurar o cano junto à louça a fim de que a coisa funcionasse. Havia tempos que a pia estava assim e parecia que ninguém se incomodava com ela.  Menos eu, porque aquela coisa foi me dando nos nervos. Veja se pode: uma trabalheira danada pra lavar as mãos, essa que a coisa mais prosaica de se fazer... Dessa vez nem perguntei à tia se queria ou não que eu trocasse a torneira. Ousei.

Fui à lojinha de materiais de construção, que fica a poucos metros dali, escolhi uma torneira simples, mas bonita, arranquei a antiga e instalei a nova. Depois do serviço pronto, chamei a tia, que veio desconfiada, olhando de longe. Depois se aproximou e aprovou com um sorriso e palavras de gratidão.

Passado um tempinho, enquanto eu preparava o almoço, vi a tia entrar no banheiro. Fiquei na expectativa de receber uma boa nota para o serviço, agora testado por ela. A tia demorou um pouco, e quando ela abriu a porta, perguntei: “O que a senhora achou da nova torneira?” “Eu não usei a torneira, mas deve ter ficado boa.” “Tia, a senhora foi ao banheiro e não lavou as mãos?!” Constrangida, a pobrezinha se desculpou, apontando para um frasco de álcool sobre a mesa. “Eu uso álcool pra lavar as mãos. Esse aqui é muito bom. Antes tinha aquele parecido com um mingauzinho, mas eu não gostava dele, não.”

(continua)

filipe

 

domingo, 24 de maio de 2026

SERIAM OITENTA E SETE, MAS...

 


Essa fotografia foi tirada há exatos três anos, um dia após mamãe festejar ‘oitenta e quatro anos’ – aquele que seria seu último aniversário.

Nunca, antes dessa imagem, ninguém jamais viu essa senhora usando chapéu. “Cruz credo, isso é coisa de homem... Não uso de jeito nenhum!”, eis uma possível reação a alguém que a tenha oferecido tal adereço.

Comigo, no entanto, a coisa aconteceu um pouco diferente. Naquele momento, eu estava ao lado dela, falando coisas desimportantes. Quem me conhece um pouquinho sabe das minhas ‘dificuldades cognitivas’, e também da minha falta de assunto.  Quem me conhece melhor, já sabe um pouco mais de mim. Sabe que, além da minha inabilidade para discorrer sobre assuntos sérios, sou um homem que prefere assuntar sobre “a vida alheia”, um tema que costumo explorar com discreta culpa e indisfarçável volúpia.  Mas com a mamãe não havia nenhuma fofoca, não. Embora a mãe não se afeiçoasse por muita gente, e esse é um traço herdado por este seu filho, o hábito nefasto de espinafrar as pessoas não lhe era costumeiro. Mamãe era íntegra!

Mas vamos ao chapéu.

Quando a mamãe me arrancou a “cuia” da cabeça, fiquei entre assustado e curioso. Assustado, por óbvio; curioso pra saber o que ela faria com aquilo. Apenas a observei, segurando bem firme o apetrecho. Depois ela me olhou fixamente, quase num pedido de desculpas, voltou os olhos para o chapéu e ensaiou devolvê-lo à minha cabeça. Desistiu de devolver, olhou novamente o chapéu e o pôs na própria cabeça. Agora ela me pareceu enigmática, talvez pedindo minha opinião sobre seu novo visual, que, claro, aprovei e aproveitei para fazer vários cliques. Todavia ela não se deu conta de que estava sendo fotografada. Aliás, ela nem entendia dessas coisas, porque o seu tempo era outro. Na época dela, fotografias eram tiradas na cidade, em estúdios com luzes fortes sobre pessoas sisudas e em trajes elegantemente formais.

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Mamãe partiu aos ‘oitenta e quatro’ – com a mesma idade da ‘profetiza Ana’, lá da Bíblia. Como a Ana bíblica, mamãe também passava seus dias em preces: Ana orava no Templo; mamãe em casa. Inicialmente mamãe rezava na varanda ou no quarto, depois na cadeira de rodas, depois na cama e, finalmente, no leito do hospital.

Mamãe partiu deixando-nos um rico legado de gratidão e uma preciosa lição de como encarar a finitude. Minha mãe me ensinou a envelhecer, mas preciso fazer o ‘dever de casa’.

filipe


domingo, 10 de maio de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM -- PARTE 11

 

20) A manhã avançava a passos esticados, o sol já dava sinais de que o dia não seria apenas morno, mas ainda havia restos do frescor da aurora. A tia acabara de acordar e se movimentava lentamente, tentando se levantar – eu pude perceber sem que a visse. Larguei meu livro e o mate e fui até o quarto pra ver se ela queria ajuda para calçar as chinelas ou algo mais. Não precisava. Ela já estava de pé e arrumava a cama, estendendo lençóis e dobrando o cobertor. Ofereci ajuda, mas ela agradeceu. “Sempre arrumo de um jeito que me facilite depois”, pontuou.

Voltei à cozinha pra fazer um chá, que ela toma sempre sem açúcar. Terminei de preparar o chá e, enquanto ela se ajeitava, cruzei a rua pra pegar um bolo na mercearia. Ao me ver com o bolo, muito surpresa, foi logo perguntando quanto custou e pedindo pra deixar pra ela pagar. Dizia não ter dinheiro agora, mas que acertaria quando recebesse seu ‘ordenado’. “Não, tia. Eu já paguei, não se preocupe com isso”.

Sentamos, ela pegou um pedaço daquele bolo enquanto eu enchia uma caneca de chá. “Se for pra mim, não ponha açúcar!”, ordenou. “Sim, tia, não vou pôr açúcar”. Ela tomou o chá com o bolo e se disse satisfeita. Também tomei chá (açucarado!), comi bolo e fiquei igualmente satisfeito.

Terminado o desjejum, lavei as vasilhas e saí para o quintal a fim de planejar meu dia, que seria intenso.

 

21) O telhado estava avariado, com telhas soltas ou quebradas. Quando chovia, era um horror, com água entrando pelo forro, molhando a cozinha toda. A tia estava muito chateada e não conseguia alguém que consertasse. “Eu pago, não quero nada de graça, mas nem pagando...”, lamentava a pobre senhora. “Tia, eu vou tentar resolver isso, mas não sei se consigo. Tem escada?” “Eu não tenho, mas o Sebastião tem. Vou ver com ele.”

A tia desceu a escadinha que dá para a varandinha e dali chamou o vizinho, que a atendeu prontamente – e já trazendo uma escada, que era bem precária, feita com varões de charrete. Sei que o raro leitor não sabe o que é isso, mas aquela escada era bem estranha e perigosa. E era nela que eu subiria para alcançar o telhado da tia.

Apoiei a escada na varanda, que me pareceu o lugar mais propício, mas a escada era “perneta”. Explico. Uma das pernas era maior, de forma que eu teria de apoiar a perna menor numa coisa para que ela não me derrubasse. A custo, consegui subir. E pra descer?... Pra descer foi bem complicado, porque a escada estava de “sacanagem” comigo. Assim que punha um pé no degrau, ela começava a deslizar, ameaçando me derrubar. Eu desistia e pensava: “Meu Deus, como vou descer?!” Enquanto eu me afligia lá em cima, cá embaixo a tia não parava de falar comigo, e eu sem entender bulhufas. Ela falava, repetia, me chamava... “Tia, estou longe, não estou ouvindo nada!”, bradei.

 

(continua)

filipe

sexta-feira, 1 de maio de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – DÉCIMA PARTE

 

18) Entrei no quarto e fechei a porta para não ser incomodado por gatos. Há muitos deles no quintal, mas apenas a Pretinha dorme dentro de casa, embora naquela noite ela não estivesse por ali. O sumiço da ‘bichinha’ foi motivo de chateação da tia. Todas as vezes que me via, aquela gatinha fugia desesperadamente – para minha alegria e tristeza da dona.

Agora, já acomodada em seu leito, eu esperava que a sonolenta senhora adormecesse rapidamente, mas isso não aconteceu. Assim que se deitou, ela ficou acesa e disparou a falar. Eu tentava me desligar de tudo, queria dormir, enquanto a tia queria conversar! O aposento dela nem é bem um quarto de dormir, mas uma sala que ela transformou em dormitório. Separada de mim por uma porta, que me parecia mal fechada, qualquer movimentação poderia ser percebida. Isso era bom, porque eu poderia atendê-la em alguma necessidade, bastando apenas me chamar. E então aquela senhorinha resolveu prosear, e as horas foram subindo, subindo e nada de a prosa baixar.

Lá pelas tantas, e eu digo ‘tantas’ porque já era tarde mesmo, talvez quase meia-noite, tentei fingir que estava dormindo e não participei mais daquele ‘quase monólogo’.  Ela: “Filipe... filipe... filiiiipe!...” “Oi, tia.” “Ah, cê tá acordado? Pensei que já tava dormindo...” “A senhora precisa de alguma coisa?” “Não. Só queria saber se a Pretinha está aí.” “Não, tia. Ela não está aqui. Deve estar dormindo por aí...”. “Ô diacho. Aqui ela não tá não. Então ela sumiu mesmo!”

Depois disso, não sei se a tia me chamou nem se falou alguma coisa. Só sei que não ouvi mais nada. Adormeci.

 

19) O celular me acordou às três da manhã, o horário em que a tia teria de tomar um remédio. Houve um pedido expresso dela: “Você me chame às três horas da manhã, porque preciso tomar um comprimido, viu?!” 

Meus olhos ardiam fadigados, o corpo teso, mas com algum esforço consegui me levantar. Peguei a água e o comprimido, enquanto isso ela se sentava na cama para tomar o medicamento. Por fim, devolvendo o copo, ela deu uma esticada de olhos para os lados, provavelmente tentando encontrar a Pretinha, e deitou-se novamente – dessa vez sem dizer palavra, adormecendo logo em seguida.

Voltei para a cama, mas o sono sumiu. Peguei o celular e tentei ler as notícias, que me são sempre enfadonhas. Desisti do noticiário e abri a caixa de mensagens, mas desisti delas também. Os galos já anunciavam com entusiasmo o raiar do dia, que prometia ser quente. Levantei-me, fui ao banheiro e depois comecei a preparar o chimarrão. Tentei fazer tudo em silêncio e na penumbra, com uma lâmpada que não jogasse luz nos demais cômodos pra não acordar a tia.

Já à mesa, com o mate verdinho na cuia, retomei a leitura de Clarice  Lispector, agora ao sabor de um chimarrão divinamente saboroso. Eu estava animado e o meu dia se prometia ditoso.

(continua)

filipe