Essa fotografia foi tirada há
exatos três anos, um dia após mamãe festejar ‘oitenta e quatro anos’ – aquele
que seria seu último aniversário.
Nunca, antes dessa imagem, ninguém
jamais viu essa senhora usando chapéu. “Cruz
credo, isso é coisa de homem... Não uso de jeito nenhum!”, eis uma possível
reação a alguém que a tenha oferecido tal adereço.
Comigo, no entanto, a coisa
aconteceu um pouco diferente. Naquele momento, eu estava ao lado dela, falando coisas
desimportantes. Quem me conhece um pouquinho sabe das minhas ‘dificuldades
cognitivas’, e também da minha falta de assunto. Quem me conhece melhor, já sabe um pouco mais
de mim. Sabe que, além da minha inabilidade para discorrer sobre assuntos
sérios, sou um homem que prefere assuntar sobre “a vida alheia”, um tema que costumo
explorar com discreta culpa e indisfarçável volúpia. Mas com a mamãe não havia nenhuma fofoca, não.
Embora a mãe não se afeiçoasse por muita gente, e esse é um traço herdado por
este seu filho, o hábito nefasto de espinafrar as pessoas não lhe era costumeiro.
Mamãe era íntegra!
Mas vamos ao chapéu.
Quando a mamãe me arrancou a “cuia”
da cabeça, fiquei entre assustado e curioso. Assustado, por óbvio; curioso pra
saber o que ela faria com aquilo. Apenas a observei, segurando bem firme o
apetrecho. Depois ela me olhou fixamente, quase num pedido de desculpas, voltou
os olhos para o chapéu e ensaiou devolvê-lo à minha cabeça. Desistiu de
devolver, olhou novamente o chapéu e o pôs na própria cabeça. Agora ela me
pareceu enigmática, talvez pedindo minha opinião sobre seu novo visual, que,
claro, aprovei e aproveitei para fazer vários cliques. Todavia ela não se deu
conta de que estava sendo fotografada. Aliás, ela nem entendia dessas coisas,
porque o seu tempo era outro. Na época dela, fotografias eram tiradas na
cidade, em estúdios com luzes fortes sobre pessoas sisudas e em trajes elegantemente
formais.
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Mamãe partiu aos ‘oitenta e
quatro’ – com a mesma idade da ‘profetiza Ana’, lá da Bíblia. Como a Ana bíblica,
mamãe também passava seus dias em preces: Ana orava no Templo; mamãe em casa. Inicialmente
mamãe rezava na varanda ou no quarto, depois na cadeira de rodas, depois na cama
e, finalmente, no leito do hospital.
Mamãe partiu deixando-nos um
rico legado de gratidão e uma preciosa lição de como encarar a finitude. Minha
mãe me ensinou a envelhecer, mas preciso fazer o ‘dever de casa’.
filipe

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