domingo, 24 de maio de 2026

SERIAM OITENTA E SETE, MAS...

 


Essa fotografia foi tirada há exatos três anos, um dia após mamãe festejar ‘oitenta e quatro anos’ – aquele que seria seu último aniversário.

Nunca, antes dessa imagem, ninguém jamais viu essa senhora usando chapéu. “Cruz credo, isso é coisa de homem... Não uso de jeito nenhum!”, eis uma possível reação a alguém que a tenha oferecido tal adereço.

Comigo, no entanto, a coisa aconteceu um pouco diferente. Naquele momento, eu estava ao lado dela, falando coisas desimportantes. Quem me conhece um pouquinho sabe das minhas ‘dificuldades cognitivas’, e também da minha falta de assunto.  Quem me conhece melhor, já sabe um pouco mais de mim. Sabe que, além da minha inabilidade para discorrer sobre assuntos sérios, sou um homem que prefere assuntar sobre “a vida alheia”, um tema que costumo explorar com discreta culpa e indisfarçável volúpia.  Mas com a mamãe não havia nenhuma fofoca, não. Embora a mãe não se afeiçoasse por muita gente, e esse é um traço herdado por este seu filho, o hábito nefasto de espinafrar as pessoas não lhe era costumeiro. Mamãe era íntegra!

Mas vamos ao chapéu.

Quando a mamãe me arrancou a “cuia” da cabeça, fiquei entre assustado e curioso. Assustado, por óbvio; curioso pra saber o que ela faria com aquilo. Apenas a observei, segurando bem firme o apetrecho. Depois ela me olhou fixamente, quase num pedido de desculpas, voltou os olhos para o chapéu e ensaiou devolvê-lo à minha cabeça. Desistiu de devolver, olhou novamente o chapéu e o pôs na própria cabeça. Agora ela me pareceu enigmática, talvez pedindo minha opinião sobre seu novo visual, que, claro, aprovei e aproveitei para fazer vários cliques. Todavia ela não se deu conta de que estava sendo fotografada. Aliás, ela nem entendia dessas coisas, porque o seu tempo era outro. Na época dela, fotografias eram tiradas na cidade, em estúdios com luzes fortes sobre pessoas sisudas e em trajes elegantemente formais.

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Mamãe partiu aos ‘oitenta e quatro’ – com a mesma idade da ‘profetiza Ana’, lá da Bíblia. Como a Ana bíblica, mamãe também passava seus dias em preces: Ana orava no Templo; mamãe em casa. Inicialmente mamãe rezava na varanda ou no quarto, depois na cadeira de rodas, depois na cama e, finalmente, no leito do hospital.

Mamãe partiu deixando-nos um rico legado de gratidão e uma preciosa lição de como encarar a finitude. Minha mãe me ensinou a envelhecer, mas preciso fazer o ‘dever de casa’.

filipe


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