Era manhã de abril, com céu
limpo, e não fazia frio. Estávamos na varanda, papai no computador e eu tomando
chimarrão. O sol despontava timidamente, roçando a folhagem da pequena mata de
eucalipto, com a promessa de um dia quente. Papai fechou o notebook, coçou a
cabeça e passou suavemente as mãos nos cabelos embranquecidos a fim de
ajeitá-los. E, me olhando pensativo, disse: “Acho que vou dar um pulo a
Guiricema.” “Opa. Vamos, sim”, eu me prontifiquei a acompanhá-lo, embora não
tivesse sido convidado.
Organizamos as coisas, pegamos a
estradinha de terra que liga o sítio à estrada asfaltada e fomos caminhando sem
pressa. Ofegante, de vez em quando papai parava e, apoiado na bengala, apontava
para uns lados pra falar de um passado muito distante. Ele contava um pouco da
história do sítio que pertencera ao seu pai, meu avô Sebastião. Depois tornou-se
propriedade de uma tia e agora pertence a uma família de hortelãos. Papai me dizia
sobre como se deu a compra daquelas terras, que foram adquiridas em consórcio
com o irmão do meu avô, o tio Horácio. Comprado o sítio, discutiu-se como seria
feita a divisa entre os irmãos e foi meu bisavô Germano de Moura quem fez as
medições. Esse meu bisavô era um topógrafo sem diploma – um homem de pouco estudo
e muita sabença. Papai, ainda menino-moço,
ajudou a medir aquelas terras, andando pelo matagal, segurando balizas e
esticando cordas.
Chegamos à estrada e aguardamos a
condução, que não demoraria. Enfim, chegou a van com alguns poucos passageiros.
Entramos nela e papai se adiantou, pagando as duas passagens. Já estava com o
dinheiro trocado e ainda pagou com desconto, ele me disse depois. O porquê do desconto,
não me lembro mais. Acho que é por ser cliente assíduo do condutor-proprietário,
de quem era amigo.
O motorista recebeu o dinheiro e
esperou pacientemente que nos sentássemos em segurança para, somente depois, engatar
a marcha e partir. É um trajeto curto, de apenas uns cinco quilômetros,
percorrido em poucos minutos. Então, pouco tempo depois, após alguns sacolejos
nas curvas, subidas e descidas, já estávamos na cidade e apeamos da embarcação.
Papai precisava ir à agencia
bancária pegar algum dinheiro e eu fui a outro lugar, talvez ao mercado, não me
lembro. Um pouquinho depois nos encontramos novamente e nos sentamos num banco
da praça, que estava sendo reformada. Os calceteiros trabalhavam frenéticos com
enxadas, picaretas e marretas. Havia montanhas de pedras, areia e outros
materiais de calcetaria. O trabalho era pesado e os caboclos, alguns fortões,
suavam bicas sob um sol inclemente.
Estávamos ali esperando um táxi
para ir ao bairro da Taboa, a fim de visitar uma tia, irmã do meu pai. O táxi
não apareceu e decidimos ir a pé. Fomos caminhando devagar e papai contando
seus casos. Ele relembrou a história de um rico fazendeiro, o maior da
redondeza no início do século passado, que se endividou e quebrou. Com muitos
filhos pequenos, ele se mudou com a família para o município de Ervália e lá
trabalhou pesado no calçamento de ruas, manuseando marretas e chibancas.
Caminhando mais, passamos por defronte
a uma casa, onde havia uma aglomeração de pessoas. Era o velório de uma senhora,
mãe de duas colegas minhas de ginásio e de outra que se tornou nossa prima.
Papai tinha muita estima por aquela família. Paramos, entramos, prestamos as
condolências e retomamos a nossa caminhada até a Taboa.
Aquela seria a derradeira visita do
papai à irmã Geni. Naquele dia também ele poderia ter tomado seu último sorvete
de coco, o que mais apreciava. Pena que não me ative a isso e até hoje me
penitencio por essa falta.
Hoje, no dia em que se completam
quatro anos de sua partida, papai já não precisa mais da bengala. Nem do sorvete
de coco – a ele não oferecido.
FILIPE
