quarta-feira, 25 de março de 2026

CORA CINQUENTENÁRIA

 


Essa é a Maria Coraciana, minha irmã e afilhada que está completando ‘cinquenta anos de vida’. Acho que ninguém da família sabe que sou padrinho dessa menina, talvez até ela já tenha esquecido. Também, pudera. Uma afilhada que nunca ganhou presente, nem sequer no aniversário... Dizer o que de padrinhos assim?...  ’Nunca’ pode ser exagero de minha parte, porque certa vez dei a ela uma caneca de louça, embora isso não seja “aquele presente”, já é alguma coisa, né?... Ou não. Da canequinha eu me lembro bem, embora ela diga que já ganhou um estojo de maquiagem, mas não tenho lembrança.

O nome da minha irmã deve ser único no mundo. Nunca se ouviu dizer que alguém traga “Coraciana” em seus documentos – nome que acho muito bonito. No entanto, talvez não fosse assim, caso minha irmã mais velha (sempre ela!) não interviesse, participando ativamente da escolha. Isso por que, dos treze filhos do casal, doze papai nomeou “monocraticamente” – exceto a nossa aniversariante – e essa é uma história bastante inusitada. 

No meu povoado havia uma senhora que era uma espécie de guru daqueles caboclos. Mais do que guru, aquela senhora era um verdadeiro oráculo, porque sem as bênçãos dela, nada se movia naquelas paragens. Todos na redondeza procuravam a “matriarca “ para pedir conselhos, licenças, permissões ou orientações. Quando a nossa bebezinha nasceu, papai, que estava entre os aconselhados e orientados daquela vidente, ouviu dela o seguinte:  “O nome da menina será Maria Coraçana!”

Papai chegou em casa com essa novidade, mas ele não me parecia muito satisfeito – nem nós, os mais velhos. Contrafeita, a irmã mais velha foi assertiva: “Mas papai, esse nome é muito feio!” Papai olhou meio assustado pra pirralhinha, mas desanuviou o rosto e disse: “Não, filha, ela disse Coraçana porque, sendo uma mulher de “pouca leitura”, não conhece bem as palavras. Pois vou pôr “Maria Coraciana”, e assim fica bem mais bonito.” “Ah, então tá bom”, comemorou sem muito entusiasmo a exigente e protetora Mana Velha.

E a Maria Coraciana crescia. Discreta, sempre foi uma menina de muito sorriso e poucas palavras, o que lhe confere certo charme e algum temor. Alguém já balbuciou: “Mas aquela sua irmã parece brava, hein?...” “Que nada. Só não aborrecê-la!”, adverti. Pois bem, melhor não incomodar a menina e voltemos ao passado.

Chegou o dia do Batismo da Coraciana. Àquela altura eu, um pré-adolescente, ansiava ser adulto, e uma forma de alguém se sentir mais velho é ter compadre. E não há compadre sem que haja de permeio um afilhado. Então eu precisava arrumar um afilhado. Que tal ser padrinho da irmãzinha?... pensei. Perguntei ao meu pai quem seria o padrinho de Consagração (perdão, afilhada, mas não sei o que é ‘consagração’). Papai disse que seria a Mariazinha, uma vizinha. Pedi para ser o padrinho, porque no meu entendimento, se tem madrinha tem de ter padrinho. Papai assentiu. Radiante, entrei na igreja ‘menino’ e saí de lá ‘senhor’, porque depois daquele momento eu já me vi adulto, agora um homem de respeito.

Naquela mesma cerimônia, também houve a consagração do irmão da Mariazinha, do qual fui padrinho, e passei a ter dois afilhados, tendo um compadre de verdade. Mas essa é outra história e fica para uma próxima.

Hoje celebramos os ‘cinquenta anos’ da bebezinha Coraciana, que se tornou menina, que se tornou moça, que se tornou mãe, que se tornou avó, mas permanece menina-moça em todos os aspectos: bela, formosa e "frondosa" – tal como na imagem que abre esta crônica.

FILIPE


domingo, 15 de março de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – NONA PARTE

 

17) A noite chegou e com ela os pernilongos. Com as janelas abertas devido ao calor, um enxame dessas minúsculas criaturas invadiu o recinto numa medonha profusão de zumbidos. Uma loucura. A tia pediu pra eu fechar a casa porque “poderia ter musquitim”. Meu Deus! Na cozinha, no banheiro, no meu quarto... em todo canto havia desses “camicases”! E a tia tão suave, numa paz que me assustava. Eu atormentado e ela pacificada. “É... nesta hora costuma entrar algum pernilongo, por isso é bom fechar as janelas”, reforçou.

Olhei ao redor à procura de alguma arma com a qual eu pudesse me defender. Espiei em cima de armários, cômodas, guarda-roupas e nada de encontrar uma raquete elétrica – aquela que tem uma telinha com corrente de alta voltagem, própria para fazer torradinha de muriçocas. Não tinha raquete elétrica nem latinha de veneno em aerossol para debelá-los. O negócio foi quedar-se ao inimigo, que vinha sedento e faminto.

Indo ao banheiro, consegui eliminar um monte deles. Arranquei a camisa, fiz dela uma trouxa e fui acertando um a um nas paredes e no teto. Alguns escapavam, mas eu os perseguia com fúria, abatendo-os em pleno voo, e isso me dava um estranho prazer. Mantendo a porta fechada, pude cantar vitória sobre o inimigo, agora dominado e vencido.

No banheiro eu pude me divertir, mas não no quarto. Lá seria impossível acertá-los devido à existência de muitos esconderijos. Eles se refugiam atrás do guarda-roupa, embaixo da cama, por trás da cortina. Ali eu estaria sob o domínio do inimigo, mas tinha o ventilador. Ligado no máximo, uma torrente de ar seria capaz de desviar a rota dos capetinhas e eu poderia dormir em relativa paz.

Ainda antes de me dirigi aos meus aposentos, observei a tia. Ela estava sentada à mesa e tinha os olhos mortiços. “Está com sono, tia?” “Ah, eu durmo cedo!” “A senhora já rezou?” “Ainda não.” “Quer rezar o terço comigo?”  “Se você quiser, podemos rezar.”

Fomos para a sala e a tia não cochilou durante a reza, participando ativamente de cada Pai-Nosso e de cada Ave-Maria. Num certo momento, ela chegou a interromper a oração pra dizer que reza um pouco diferente de mim, que não sabe contemplar os mistérios. Respondi que isso não tem a menor importância e que ela pode continuar rezando do jeito dela.

Ao final, a tia invocou a sua ‘santa de devoção’: a ‘Senhora Desatadora dos Nós’. Disse que o padre havia recomendado, e que essa santa é muito milagrosa. Discordei. “Tia, Nossa Senhora é uma só: Maria, a mãe de Jesus! Esse negócio de muitos nomes pra uma mesma santa só nos confunde e dá razão a quem nos ataca.” “Ah, eu sei, mas acho que ajuda na nossa fé ter uma santinha de devoção, mesmo sabendo que Maria é uma só”, pontuou.

Terminada a oração, peguei a garrafinha dela, enchi com a água da talha e ela me pediu pra ajudá-la a se deitar. Ela se sentou na cama. Tirei dela as chinelas e a cobri com um lençol fino, porque fazia calor. O cobertor ficou semidobrado ao lado, de forma que a qualquer momento ela poderia cobrir-se, caso a temperatura caísse na madrugada.

Terminada essa “tarefa”, fui para o meu quarto. Cansado, esperava adormecer assim que eu me deitasse.

(continua)

Filipe