domingo, 15 de março de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – NONA PARTE

 

17) A noite chegou e com ela os pernilongos. Com as janelas abertas devido ao calor, um enxame dessas minúsculas criaturas invadiu o recinto numa medonha profusão de zumbidos. Uma loucura. A tia pediu pra eu fechar a casa porque “poderia ter musquitim”. Meu Deus! Na cozinha, no banheiro, no meu quarto... em todo canto havia desses “camicases”! E a tia tão suave, numa paz que me assustava. Eu atormentado e ela pacificada. “É... nesta hora costuma entrar algum pernilongo, por isso é bom fechar as janelas”, reforçou.

Olhei ao redor à procura de alguma arma com a qual eu pudesse me defender. Espiei em cima de armários, cômodas, guarda-roupas e nada de encontrar uma raquete elétrica – aquela que tem uma telinha com corrente de alta voltagem, própria para fazer torradinha de muriçocas. Não tinha raquete elétrica nem latinha de veneno em aerossol para debelá-los. O negócio foi quedar-se ao inimigo, que vinha sedento e faminto.

Indo ao banheiro, consegui eliminar um monte deles. Arranquei a camisa, fiz dela uma trouxa e fui acertando um a um nas paredes e no teto. Alguns escapavam, mas eu os perseguia com fúria, abatendo-os em pleno voo, e isso me dava um estranho prazer. Mantendo a porta fechada, pude cantar vitória sobre o inimigo, agora dominado e vencido.

No banheiro eu pude me divertir, mas não no quarto. Lá seria impossível acertá-los devido à existência de muitos esconderijos. Eles se refugiam atrás do guarda-roupa, embaixo da cama, por trás da cortina. Ali eu estaria sob o domínio do inimigo, mas tinha o ventilador. Ligado no máximo, uma torrente de ar seria capaz de desviar a rota dos capetinhas e eu poderia dormir em relativa paz.

Ainda antes de me dirigi aos meus aposentos, observei a tia. Ela estava sentada à mesa e tinha os olhos mortiços. “Está com sono, tia?” “Ah, eu durmo cedo!” “A senhora já rezou?” “Ainda não.” “Quer rezar o terço comigo?”  “Se você quiser, podemos rezar.”

Fomos para a sala e a tia não cochilou durante a reza, participando ativamente de cada Pai-Nosso e de cada Ave-Maria. Num certo momento, ela chegou a interromper a oração pra dizer que reza um pouco diferente de mim, que não sabe contemplar os mistérios. Respondi que isso não tem a menor importância e que ela pode continuar rezando do jeito dela.

Ao final, a tia invocou a sua ‘santa de devoção’: a ‘Senhora Desatadora dos Nós’. Disse que o padre havia recomendado, e que essa santa é muito milagrosa. Discordei. “Tia, Nossa Senhora é uma só: Maria, a mãe de Jesus! Esse negócio de muitos nomes pra uma mesma santa só nos confunde e dá razão a quem nos ataca.” “Ah, eu sei, mas acho que ajuda na nossa fé ter uma santinha de devoção, mesmo sabendo que Maria é uma só”, pontuou.

Terminada a oração, peguei a garrafinha dela, enchi com a água da talha e ela me pediu pra ajudá-la a se deitar. Ela se sentou na cama. Tirei dela as chinelas e a cobri com um lençol fino, porque fazia calor. O cobertor ficou semidobrado ao lado, de forma que a qualquer momento ela poderia cobrir-se, caso a temperatura caísse na madrugada.

Terminada essa “tarefa”, fui para o meu quarto. Cansado, esperava adormecer assim que eu me deitasse.

(continua)

Filipe

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