A cova foi rasa, mas o amigo não
reclamou.
O solo duro não permitiu que eu
cavasse mais. A palma da minha mão ficou dolorida e nela se formou uma bolha.
Tive de parar.
Mas, para a carne pouca do
pequeno defunto, essa modesta sepultura pôde ser considerada um regalo – o
último, claro.
Terminado o serviço, fui à
garagem e pequei no bagageiro do carro o corpinho. Com ele nos braços e tomado
de tristeza, subi a escada bem devagar. O corpo do cãozinho ainda estava morno
e mole. Tão mole que parecia prestes a escorrer das minhas mãos. Temi que
caísse de meus braços quando tive de abrir o portãozinho que dá acesso ao
quintal. Precisava liberar umas das mãos e, segurando-o firme com a mão
direita, com a esquerda consegui abrir. A alguns passos dali, a Maneka tomava
sol. Assim que me viu, ela se aproximou curiosa, cheirou o ‘morto’ e se afastou
pesarosa; o Pitoko, ao me ver, deu uns dois passos para o meu lado, desistiu,
correndo assustado.
Continuei minha caminhada com o corpo
do Tiziu até a sua ‘última casinha’. Depositei-o com cuidado naquele buraco,
ajeitando suas pernas, suas patinhas e sua cabeça. Nos meus delírios, eu não poderia
deixá-lo desconfortável. Enquanto eu cuidava disso, a Maneka se aproximou
novamente, chegou bem perto da cova, olhou mais uma vez fixamente seu
companheiro, deu uma bafejada e se afastou pra não mais voltar. O Pitoko, que
já estava longe, desapareceu sem mandar condolências.
Fazia tempos que o Tiziu estava
doente, mas a situação dele se agravou com a partida da Pituka, sua companheira
de muitos anos. Este inverno, que veio bastante rigoroso, parece ter sido um
complicador. Friorento, o Tiziu era o último a deixar a cama, levantando-se
sempre após o sol raiar; não havendo sol, optava pelos seus aposentos, ficando lá
o dia todo.
A crise pulmonar veio tão aguda,
que o pobre cãozinho não conseguia mais deitar-se, andando aflito pelo quintal
de dia e de noite. Nos últimos dias, ele mal dormia e na madrugada era o
primeiro a me dar bom-dia. Ultimamente, os antibióticos não mais resolviam e o
Tiziu parou de comer. Seus olhinhos marrons ficaram tristonhos e deles vinha um
pungente pedido de socorro.
O socorro veio. Na clínica, caminhando
a contragosto até a enfermaria, o Tiziu entrou numa sala já bem conhecida, onde
por inúmeras vezes ele tomou medicamentos e fez exames. Mais uma vez foi posto
na mesa de aço e mais uma vez tomou injeção – a última injeção.
A nossa história com o Tiziu é
longa. Há exatos onze anos, na rodovia que liga Itapira a Amparo, nós o vimos
no acostamento. O animalzinho, que mal conseguia andar, estava esquelético e bernento
– e sangrava. A situação do cãozinho era pavorosa. Paramos o carro e fui ao
encontro dele. Ele tentou correr, mas o alcancei sem esforço. Peguei-o. Ele
tremia. Posto junto aos meus pés, no banco da frente, o pequeno cão continuava
tremendo e chorava um choro sofrido – não sei se de medo ou de dor. Foi uma
luta para que conseguíssemos curar suas feridas e seus traumas.
Agora esse meu velho amigo
descansa à sombra de um pequeno arvoredo. Sua “caminha” está entre uma
jabuticabeira e uma pitangueira. Há ali também outras árvores cujas raízes lhe
farão companhia num terno e quase eterno abraço.
filipe

