domingo, 19 de julho de 2026

O ADEUS DE TIZIU

 


A cova foi rasa, mas o amigo não reclamou.

O solo duro não permitiu que eu cavasse mais. A palma da minha mão ficou dolorida e nela se formou uma bolha. Tive de parar.

Mas, para a carne pouca do pequeno defunto, essa modesta sepultura pôde ser considerada um regalo – o último, claro.

Terminado o serviço, fui à garagem e pequei no bagageiro do carro o corpinho. Com ele nos braços e tomado de tristeza, subi a escada bem devagar. O corpo do cãozinho ainda estava morno e mole. Tão mole que parecia prestes a escorrer das minhas mãos. Temi que caísse de meus braços quando tive de abrir o portãozinho que dá acesso ao quintal. Precisava liberar umas das mãos e, segurando-o firme com a mão direita, com a esquerda consegui abrir. A alguns passos dali, a Maneka tomava sol. Assim que me viu, ela se aproximou curiosa, cheirou o ‘morto’ e se afastou pesarosa; o Pitoko, ao me ver, deu uns dois passos para o meu lado, desistiu, correndo assustado. 

Continuei minha caminhada com o corpo do Tiziu até a sua ‘última casinha’. Depositei-o com cuidado naquele buraco, ajeitando suas pernas, suas patinhas e sua cabeça. Nos meus delírios, eu não poderia deixá-lo desconfortável. Enquanto eu cuidava disso, a Maneka se aproximou novamente, chegou bem perto da cova, olhou mais uma vez fixamente seu companheiro, deu uma bafejada e se afastou pra não mais voltar. O Pitoko, que já estava longe, desapareceu sem mandar condolências.

Fazia tempos que o Tiziu estava doente, mas a situação dele se agravou com a partida da Pituka, sua companheira de muitos anos. Este inverno, que veio bastante rigoroso, parece ter sido um complicador. Friorento, o Tiziu era o último a deixar a cama, levantando-se sempre após o sol raiar; não havendo sol, optava pelos seus aposentos, ficando lá o dia todo.

A crise pulmonar veio tão aguda, que o pobre cãozinho não conseguia mais deitar-se, andando aflito pelo quintal de dia e de noite. Nos últimos dias, ele mal dormia e na madrugada era o primeiro a me dar bom-dia. Ultimamente, os antibióticos não mais resolviam e o Tiziu parou de comer. Seus olhinhos marrons ficaram tristonhos e deles vinha um pungente pedido de socorro.

O socorro veio. Na clínica, caminhando a contragosto até a enfermaria, o Tiziu entrou numa sala já bem conhecida, onde por inúmeras vezes ele tomou medicamentos e fez exames. Mais uma vez foi posto na mesa de aço e mais uma vez tomou injeção – a última injeção.

A nossa história com o Tiziu é longa. Há exatos onze anos, na rodovia que liga Itapira a Amparo, nós o vimos no acostamento. O animalzinho, que mal conseguia andar, estava esquelético e bernento – e sangrava. A situação do cãozinho era pavorosa. Paramos o carro e fui ao encontro dele. Ele tentou correr, mas o alcancei sem esforço. Peguei-o. Ele tremia. Posto junto aos meus pés, no banco da frente, o pequeno cão continuava tremendo e chorava um choro sofrido – não sei se de medo ou de dor. Foi uma luta para que conseguíssemos curar suas feridas e seus traumas.

Agora esse meu velho amigo descansa à sombra de um pequeno arvoredo. Sua “caminha” está entre uma jabuticabeira e uma pitangueira. Há ali também outras árvores cujas raízes lhe farão companhia num terno e quase eterno abraço.

 


filipe