27) Passado
um tempinho sem dar sequência nas ‘memórias’, resolvi retomar o assunto agora,
no silêncio desta noite -- sem música e apenas ouvindo o tique-taque de um velho carrilhão,
o ladrar de cães da redondeza e o canto triste de uma carimbamba, dizendo
repetidas vezes que “amanhã eu vou”.
Aprecio os sons noturnos de grilos, sapos, corujas e que tais. De vez em
quando, paro tudo que estou fazendo à noite apenas para me encantar com o ‘corujar
triste’ de uma ‘corujinha-do-mato’.
Ao
trabalho, portanto.
28) Terminado o almoço, que descrevi
parágrafos atrás como sendo um ‘frango meio ensopado’ e que a tia surpreendentemente
apreciou, consultei o relógio e vi que estava quase na hora de sair para uma
visita a parentes. Eu, que costumo cochilar depois do almoço, tive que declinar
da minha sesta e me arrumar para sair sonolento naquelas “horas tão impróprias”.
O taxista mandara mensagem de que estaria a caminho e eu tive de me apressar.
Então fui ao quarto, peguei a carteira
e o celular e me despedi da tia, que estava lavando louças. Desci os dois
degraus que separam a cozinha da varanda e fui a passos rápidos para a rua. Adiantado,
já no portão, a tia me chamou lá de dentro e disse alguma coisa. Sem entender
as suas palavras, tive que voltar, embora o motorista já estivesse me
esperando, para saber o que ela queria. “Oi, tia. O que a senhora disse? Eu não
ouvi direito.” “Nada não. Só falei pra você ir ‘com Deus e Nossa Senhora’.”
“Amém, tia. Amém”. Saí.
29) A porta do carro estava aberta e o
motorista não me pareceu apressado. Com o celular na mão, parecia digitar algo,
talvez respondendo a mensagens. Assim que me viu, cumprimentou-me, pôs o
aparelho num buraco do painel próximo ao volante e me perguntou se alguém mais
iria comigo. Eu disse que não e pedi pra sentar no banco da frente. Ele permitiu.
Então entrei, ele virou a chave, deu partida no carro e saímos para o distrito
de Córrego Preto, que fica a uns dez quilômetros dali.
Preciso fazer uma pequena observação. O
nome oficial do lugarejo em que nasci e fui criado é ‘vilas boas’ – que escrevo
com iniciais minúsculas porque me recuso a usar essa nomenclatura. Como o nome original
é Córrego Preto, uso a denominação. Vez ou outra digo Corgo Preto, mas no dia a dia a forma costumeira é “Corpreto” mesmo, e todo mundo entende.
(continua)
filipe
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