sexta-feira, 21 de agosto de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM -- PARTE 14

 

27) Passado um tempinho sem dar sequência nas ‘memórias’, resolvi retomar o assunto agora, no silêncio desta noite -- sem música e apenas ouvindo o tique-taque de um velho carrilhão, o ladrar de cães da redondeza e o canto triste de uma carimbamba, dizendo repetidas vezes que  “amanhã eu vou”. Aprecio os sons noturnos de grilos, sapos, corujas e que tais. De vez em quando, paro tudo que estou fazendo à noite apenas para me encantar com o ‘corujar triste’  de uma ‘corujinha-do-mato’.

Ao trabalho, portanto.

28) Terminado o almoço, que descrevi parágrafos atrás como sendo um ‘frango meio ensopado’ e que a tia surpreendentemente apreciou, consultei o relógio e vi que estava quase na hora de sair para uma visita a parentes. Eu, que costumo cochilar depois do almoço, tive que declinar da minha sesta e me arrumar para sair sonolento naquelas “horas tão impróprias”. O taxista mandara mensagem de que estaria a caminho e eu tive de me apressar.

Então fui ao quarto, peguei a carteira e o celular e me despedi da tia, que estava lavando louças. Desci os dois degraus que separam a cozinha da varanda e fui a passos rápidos para a rua. Adiantado, já no portão, a tia me chamou lá de dentro e disse alguma coisa. Sem entender as suas palavras, tive que voltar, embora o motorista já estivesse me esperando, para saber o que ela queria. “Oi, tia. O que a senhora disse? Eu não ouvi direito.” “Nada não. Só falei pra você ir ‘com Deus e Nossa Senhora’.” “Amém, tia. Amém”. Saí.

29) A porta do carro estava aberta e o motorista não me pareceu apressado. Com o celular na mão, parecia digitar algo, talvez respondendo a mensagens. Assim que me viu, cumprimentou-me, pôs o aparelho num buraco do painel próximo ao volante e me perguntou se alguém mais iria comigo. Eu disse que não e pedi pra sentar no banco da frente. Ele permitiu. Então entrei, ele virou a chave, deu partida no carro e saímos para o distrito de Córrego Preto, que fica a uns dez quilômetros dali.

Preciso fazer uma pequena observação. O nome oficial do lugarejo em que nasci e fui criado é ‘vilas boas’ – que escrevo com iniciais minúsculas porque me recuso a usar essa nomenclatura. Como o nome original é Córrego Preto, uso a denominação. Vez ou outra digo Corgo Preto, mas no dia a dia a forma costumeira é “Corpreto” mesmo, e todo mundo entende.

(continua)

filipe

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