domingo, 23 de novembro de 2025

SERIAM 'NOVENTA E CINCO'

 



Já era noite. Talvez neblinasse ou fizesse frio – disso já não me recordo. Lembro que estávamos na cozinha quando um irmão disse ter ouvido um ‘toque-toque’ na porta da sala. Diante disso, ficamos apreensivos, mas não estávamos indefesos. Tínhamos o papai conosco e nele a confiança para lidar com a situação, seja ela qual fosse, era certa. Estávamos protegidos.

Preciso registrar que estou falando de um tempo distante, e aqui rememoro algo acontecido há mais de meio século. Naquela ocasião, morávamos num sítio do meu avô paterno, numa pequena casa sem vizinhos próximos, sem água encanada nem luz elétrica. A iluminação era por lamparina a querosene. Tínhamos duas lamparinas: uma era exclusiva da minha mãe, que, adoentada, gostava de ficar reclusa no seu quarto; a outra era para o restante da família e ficava na cozinha. Era na cozinha que sempre ficávamos, particularmente à noite. Alguns sentados no banco de madeira, outros ao redor do fogão a lenha. Era na cozinha que tomávamos as refeições, conversávamos e fazíamos orações. Aquele pequeno cômodo com chão de terra batida era para nós quase um templo de convivência doméstica. Ali o papai, todas as noites, cansado de sua jornada, rezava o terço e lutava com o sono. Por vezes, numa cochilada mais forte, o terço caía de suas mãos, mas ele o apanhava e retomava a prece. Terminada a oração, ele dava ordem para que fôssemos para a cama. Ele também, após lavar os pés, partia para seus aposentos, encontrando mamãe já ‘no terceiro sono’, como se dizia.

Na noite em que se deu o fato aqui narrado, papai estava conosco, mas isso não era comum. Sendo pedreiro, ele costumava trabalhar longe de casa, e como sempre andava a pé, era demorada a sua volta.  Mesmo trabalhando perto, papai costumava sair de tardinha para aplicar injeções. Ele era uma espécie de enfermeiro muito requisitado naquele ‘córrego’. Além das injeções intramusculares, ele sabia, como poucos, aplicar também as intravenosas. E ainda havia os pedidos de reza nas casas, que nunca deixou de atender. São essas as razões por que nosso pai nem sempre estava em casa nas primeiras horas da noite.

A batida na porta continuou espaçada e suave – essa era uma forma educada de chamar alguém da casa. Mas, para nossa tranquilidade, papai estava conosco naquele dia e ele foi à sala para atender a quem batia na porta. À frente, com a lamparina à altura dos olhos, papai girou a tramela da porta e tentou enxergar a visita. Naquele momento um misto de orgulho e medo nos assomou. Orgulho pelo destemor do pai, um homem corajoso; medo pelo que pudesse acontecer com ele e conosco, pois a lamparina poderia ser apagada com um simples bafejo, e todos ficaríamos no escuro a mercê de um possível invasor. 

Felizmente não estávamos em perigo. Quem chegava era uma mulher. Negra, alta, magra, ela trazia consigo uma criança e pedia abrigo. Papai mandou que entrasse e, após obter algumas informações, ajeitou pra ela uma cama na sala, que era o único lugar disponível. Num canto do quarto da sala havia uma esteira artesanal, feita de taboa, que papai sempre mantinha para alguma eventualidade. Ele estendeu a esteira, cobriu com um lençol, pegou um cobertor e acolheu a mulher e o seu filhinho naquela noite.

O nome da mulher, eu soube depois de moço, é Isolina. Ela morava numa comunidade de gente muito pobre, na entrada da cidade. O filho dela, que era especial, tinha apelido de Pilorino. Essa era uma alcunha maldosa, preconceituosa, racista. A pele negra do garoto fora associada ao pelourinho – um tronco onde os escravizados eram açoitados. De pelourinho, através da ignorância infame de gente branca, bem alimentada e maldosa, veio o apelido do menino, que depois o vi rapaz. O tempo passou e eu nunca mais soube notícias dele nem da mãe.

Neste ano, no Dia de Zumbi dos Palmares, papai teria completado ‘noventa e cinco anos’. Deixo aqui essa homenagem a ele e àquela descendente de escravizados a quem socorreu. Papai não precisa de homenagens nem a dona Isolina de abrigo, mas eu preciso expressar carinho pelos dois, que já estão na Casa do Pai.

FILIPE


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