Já se completam três anos neste
13 de abril, mas parece que foi ontem. Aliás, parece que nem houve partida. Fica
a impressão de que o Velho está ainda lá na sua casinha, que ele mesmo
construiu, esperando a chegada de algum filho. Aquela casa foi a única que o
papai, pedreiro por tantos anos, fez para si. Muitas outras foram feitas ou
reformadas, mas como laborioso ganha-pão. Ao longo da vida, papai sempre morou
em casas bem precárias. Essa, no entanto, embora muito simples, foi
meticulosamente planejada por ele e dela muito se orgulhava. Foi ali que meus
pais passaram seus últimos anos numa vida sem luxo, mas confortável.
Três anos atrás, em fins de
março, cheguei para mais uma visita. Papai havia me pedido que adiasse aquela
viagem para julho, por ser muito “sacrificada”, segundo disse, mas mantive a
programação e cheguei um dia antes de registrar a imagem que abre a crônica. O
Velhinho estava bem e me recebeu todo alegroso;
a frágil mãezinha me abençoou com a ternura de sempre. Apesar das recorrentes “crises de ansiedade”, que
soubemos tardiamente não ser ansiedade, papai estava bem-disposto. Conversamos,
jogamos baralho e ouvimos músicas antigas.
No segundo ou terceiro dia da
minha chegada, mamãe teve de ser internada; poucos dias depois, foi a vez do papai.
Ver internados simultaneamente o pai e a mãe é por demais doloroso. No
hospital, papai estava relativamente bem, apenas tomando soro e alguns
medicamentos; já mamãe dava sinais de terminalidade. Eu pressentia perder a minha
mãe e apostava na recuperação do meu pai, mas deu-se o contrário. Papai, que passara
por uma crise respiratória aguda, foi levado à UTI e de lá não mais voltou.
Mamãe foi melhorando devagarinho, recobrou os sentidos e voltou para casa,
mesmo num quadro clínico ainda preocupante.
Deixando a mamãe para outra hora
e voltando ao papai, quero rememorar minha última noite com ele naquela
enfermaria. Preciso registrar algumas dessas vivências, porque esses retalhos de
memória vão se esfiapando e se esfarelando até desaparecer – para mais tarde
retornarem como fantasia ou delírio.
Naquele último dia, eu saí à
tardinha de casa e fui para Visconde do Rio Branco no ônibus das dezoito horas
– sendo essa a minha rotina diária. Eu sempre tinha pressa, porque a substituição
do acompanhante, que era o Frei Gabriel, teria de ser às dezenove horas.
Chegando à rodoviária, desci do ônibus e marchei apressadamente para o hospital.
A meio-caminho havia uma quitanda onde eu já tinha comprado alguma coisa. Dessa
vez eu quis levar frutas para o papai e vi umas bananas-prata muito bonitas,
embora não me parecessem tão maduras ainda. Pensei: levo essas e amanhã já
estarão no ponto. Comprei uma grande penca, que continha cerca de dúzia e meia.
Chegando ao hospital, o porteiro
liberou, subi as intermináveis rampas e entrei na enfermaria. O frei me reservou
sua marmita, que o hospital dava aos pacientes e acompanhantes. Eu quis
declinar, mas ele insistiu. Papai já terminava a boia dele, raspando ruidosamente
a vasilha de isopor. Pensei: ele está com fome ainda, então vou lhe dar essa
marmitinha. Ele não quis. “Eu vou é comer uma banana dessas” – disse, já pegando
uma na mesinha ao lado.
Terminada a refeição, conversamos
um pouco. Papai trocou algumas mensagens com “suas amigas e amigos” da rede
social e adormeceu. Mas aquela noite não foi de ‘sono leve e suave’. Ele teve um
sono atormentado, com aquilo que se denomina ‘sonilóquio’, que é a ‘fala
durante o sono’. Às vezes eu tentava interagir, pensando que precisasse de
algo, mas ele não respondia. Estava dormindo profundamente.
Amanheceu, o Freizinho chegou
para me render, mas papai não estava bem. Após voltar do banheiro, ele teve uma
grande crise respiratória. Um médico chegou, avaliou e recomendou urgência de tratamento
intensivo. Apanhamos às pressas os pertences de meu pai, ele me entregou o
celular e o seguimos, agora conduzido numa cadeira de rodas. Chegando a uma espécie de sala de espera que
dá acesso à UTI, a cadeira de rodas virou para a esquerda, e, sem que houvesse
tempo de o Bom Velhinho nos acenar em despedida, a porta de vidro foi fechada.
Fechou-se ali uma porta de vidro,
mas não apenas ela. Dias depois também se fecharia um livro com uma grande
história. Só que esse livro seria fechado para sempre.
FILIPE

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