sábado, 14 de fevereiro de 2026

O "LOUVA-DEUS"

 


A imagem do simpático louva-deus, ou ‘louva-a-deus’ para os eruditos, não tem nada a ver com a história aqui narrada, mas tem muito a ver com o protagonista.

 

Gosto do silêncio. Ouço músicas durante o dia enquanto cuido dos afazeres, mas à noite prefiro ouvir o cricrilar dos grilos, o lamento das corujinhas-do-mato e os coaxares de sapos que habitam um pequeno “lago” aqui ao lado, enquanto leio ou escrevo.

Ontem, a minha bucólica rotina noturna foi perturbada por gritos lancinantes. O pedido de socorro vinha de uma casa vizinha, do outro lado da rua. Fiquei aturdido, sem saber o que fazer. Tive o ímpeto de descer, mas uma voz interior me desaconselhou; pensei em chamar a polícia, mas fui demovido por outra voz.

Antes de decidir fazer uma coisa ou outra, fui à varanda e olhei para aquela casa desditosa e percebi, pelas vozes, que lá havia um casal.  E essa não foi a primeira vez que ouvi alaridos naquela casa.

Há uns tempos, duas crianças me procuraram, pedindo um celular emprestado. “Para que o celular?” “Pra chamar a polícia!” “Mas o que está acontecendo? O seu pai não está em casa?”  “Ele não é meu pai e a minha mãe quer chamar a polícia pra ele.”

Era por volta do meio-dia quando aquelas crianças me chamaram ao portão. Por ser assim tão cedo, tão dia, pensei ser algum exagero delas, ou da mãe, e não dei curso às minhas preocupações. A luz do sol parece afastar certos perigos, que se supõem afeitos à escuridão. Com esse entendimento, eu disse apenas que os pais deveriam se acertar e, não havendo acerto, que a mãe fosse à delegacia de polícia para registrar queixa. Por isso, não emprestei o celular nem chamei a polícia, mas deveria ter feito uma coisa ou outra.

Há um ditado idiota que diz: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher.” Discordo cabalmente. Mete-se a colher, o garfo e a faca! Foi pensando nesses “talheres”, que dias depois procurei uma advogada para notificar extrajudicialmente o sujeito. A advogada foi muito simpática, mas preferiu “não se meter” e me orientou a fazer denúncia anônima no site do Ministério da Justiça. Procurei outra advogada, que também se esquivou, alegando razões semelhantes às da colega. “A cidade é pequena... todo mundo se conhece... fica difícil... você sabe como é, né?...” Pensei: “Puxa vida... mas nem pagando?!”

Todo aquele redemoinho de más recordações que me assaltaram durou uma fração de minuto, e eu tinha de fazer alguma coisa. Então resolvi gritar, mas gritar alto, cada vez mais alto. Voltei à varanda e berrei a plenos bofes: “O QUE FOI, VIZINHA? O QUE ESTÁ ACONTECENDO? VOU CHAMAR A AMBULÂNCIA! PODE FICAR TRANQUILA, PORQUE A AMBULÂNCIA ESTÁ VINDO!”.

A minha voz tonitruou por vales e montes, alarmou a vizinhança, mas me trouxe de volta o silêncio noturno. Não sei por quê, mas naquela casa está reinando uma inquietante quietude.

 

Por que louva-deus? Porque aquele desinfeliz pontua todas as suas frases com um “Glória a Deus”, e não há glória nos seus atos nem parece haver Deus na sua vida. Para mim ele é um ‘louva-deus’, mas não o inocente inseto.

FILIPE


domingo, 8 de fevereiro de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – SÉTIMA PARTE

15) Um pouco cansado, deixei a pia e saí para tomar um ar. Nisso a tia voltou a me interpelar sobre a acompanhante, que já deveria ter chegado e ainda não apareceu. Eu disse pela quarta ou quinta vez que a moça não viria, e quem ficaria de acompanhante naquela noite seria eu. Mas a tia não se deixou vencer. “Meu Deus, eu estou pagando para ela vir todos os dias, e agora não vem?... Então vou descontar os dias que ela faltar...” Nesse momento eu fiquei bravo, mas tentei mitigar minha brabeza, apenas dizendo que a moça precisa descansar. E que todas as vezes que eu estivesse ali, ela não precisaria vir. A tia decidiu ser mais direta e atacou: “Pois ela teria de vir, sim, ao menos pra catar os cocôs dos gatos aqui no quintal!” “Ah, tia... então essa é a sua preocupação?! Pois está resolvido. Vou catar agora!” Ao ouvir isso, aquela senhora entrou em parafuso, não sabendo se comemorava ou embrabecia. “Ah, não acredito que você vai fazer isso!...” “Vou, sim. E me fale como devo fazer”. Ela me deu as instruções, apontando para uma vassoura e uma pazinha, que eram as ferramentas exclusivas dessa obra. Então peguei a vassoura e a pá, recolhi as fezes da gataiada e joguei dentro de uma sacola que ficava num tambor na varanda. Nessa hora a coisa azedou pra mim. “Você jogou ali dentro?! Ah, meu Deus, não era pra pôr ali, não. Aquilo ali é reciclagem. Ah, meu Deus!!!”, lastimava a pobre mulher. “Calma, tia. Eu pego de volta.” “Não tem jeito. Vocês não poderiam dispensar a funcionária. Ela que sabe fazer isso. Ah, meu Deus!...”

Abri o tambor, virei, espalhei tudo no chão e fui recolhendo cuidadosamente o material reciclável para pôr de volta, enquanto deixava ao lado os excrementos. Ao final, deixei tudo como estava, recolhi mais uma vez a titica dos gatos e a joguei além do alambrado.

De novo a tia: “Olha o que você fez!... Sujou toda a reciclagem!” “Não sujei nada, tia. O cocô está sequinho. Se eu pegasse sem luvas, a mão continuaria limpinha”, eu disse num quase sorriso – mais de aflição que contentamento.  A tia até parecia achar graça no que ouviu, mas não quis rir e emendou: “Onde jogou o cocô?” Apontei orgulhoso para os lados além da cerca. Ela nublou-se novamente: “Ali é o quintal do vizinho! Ah, meu Deus... Que falta faz a minha funcionária!...” “Não, tia, pode deixar que eu dou um jeito.” Passei para o lado do vizinho, peguei todos aqueles cocôs, que a essa altura já deveriam estar bastante “cansados” de tanta mudança, e os joguei pra bem longe, lá num matagal. Minha tia me olhou com uma pontinha de desconfiança, mas não quis perguntar mais nada e entrou.  

Aqui chego ao fim dessa labuta, mas tem mais.

(continua)

FILIPE

 

 

 

 

 

 


domingo, 1 de fevereiro de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM -- SEXTA PARTE

 

14) A pia da cozinha estava entupida, mas não era uma calamidade porque, embora muito vagarosamente, a água ainda escoava. Mas aquilo foi me incomodando a ponto de me deixar irritado. Sempre que eu fosse lavar uma coisinha, formava-se um lago cuja placidez me bambeava os nervos. Então, fui ao mercado e comprei um ‘desentupidor de pia’, que é algo semelhante a uma ‘saia de borracha’ de onde ergue um cabo de plástico. Eu peguei aquele treco e dei várias bombadas no ralo, mas em vão foi meu esforço. Quanto mais eu mexia mais a coisa emperrava e o bojo, de tão cheio, já começou a transbordar a ponto de eu ter de tirar um pouco da água com uma caneca para evitar um dilúvio na cozinha. A tia acompanhava tudo bem de perto e com uma atenção que me paralisava.   De repente, ela se lembrou de uma solução: “Deixe eu pôr cloro aí, porque dizem que desentope mesmo.” Aceitei a sugestão de pronto. Vai que a tia tem razão..., pensei. Então ela derramou certa quantidade de cloro e me pediu pra esperar aquilo fazer efeito. Aguardei por um tempo e a pia foi esvaziando, mas numa vagarosidade...

Perguntei à tia se ela tinha arame. Tinha, e um bom arame. De aço, forte e comprido. Pequei um pedaço de pano e amarrei na ponta daquele arame e chuchei no encanamento. Inicialmente, da pia para baixo, e soquei, fui socando, mas nada da coisa desentupir. Depois, resolvi fazer o percurso inverso. Do lado de fora, abri a tubulação de forma que eu pudesse enfiar aquele arame até alcançar a pia. Foi uma luta. Já escurecia e as lojas iam fechar. Caso eu precisasse de comprar algo, só no dia seguinte. E fui socando e observando aflitivamente. Eu não estava tendo êxito, mas insisti. De súbito, um jorro veio de encontro a mim, molhando minhas mãos e reacendendo meus ânimos. Retirei o arame e a água fluiu “sorridente”, esvaziando a pia.

Entusiasmado agora, fui lá, abri a torneira e lavei bem as mãos por duas razões: uma porque estavam sujas, e outra porque eu precisava testar o funcionamento da pia. Estava tudo perfeito. No entanto, uma faísca de preocupação apagou minha alegria quando ouvi a tia dizer:  “Ô diacho, está vazando água debaixo da pia...” E estava mesmo! Havia um vazamento misterioso que, com o tempo, poderia fazer uma molhaceira danada – não apenas embaixo da pia, mas também nas adjacências. Pensei no pior: o arame deve ter perfurado a tubulação e eu não ia conseguir consertar aquilo, principalmente à noite.

Mas a ‘minha salvação’ veio da própria tia Geni, quando ela me disse: “Ah, eu pus cloro, que é terrível e deve ter provocado esse vazamento.” Dando uma de migué, fui logo concordando. “Ih, tia, é verdade! Cloro é muito corrosivo. Agora precisamos esperar pra ver como resolver isso. Se amanhã o vazamento continuar, talvez tenha de chamar um pedreiro para consertar, mas vou tentar fazer algo sem que precise dele.” Dito isso, peguei uma toalha velha, pus no piso embaixo da cuba a fim de absorver a água que marejasse e a deixei lá. No dia seguinte eu teria de buscar uma solução.

 

Continua...

 

FILIPE

sábado, 3 de janeiro de 2026

INFERNO SOB TRUMP



Todos os dias eu me levanto bem cedo, abro o celular, dou uma espiada nas mensagens e costumo dar uma olhadinha rápida no noticiário também. Ultimamente tenho evitado as notícias e me atenho mais a podcasts de literatura e pequenas estórias agridoces. Também ouço muita música, mas música popular brasileira!  

O dia de hoje não seria diferente. Após a checagem de praxe, deixo o celular, faço a toalete e saio para cumprimentar meus cãezinhos, um por um. Em seguida, começo as minhas preces. Enquanto rezo, vou caminhando pelo quintal num exercício físico e espiritual que costuma passar dos três quartos de horas. Esse é um momento muito especial em que fico tomado de enlevo, numa quase epifania.

A noite foi serena, o sono tranquilo porque embalado por grossos pingos de chuva que começaram ao entardecer e se estenderam noite adentro até a madrugada. Ao amanhecer, o tempo estava firme e pude caminhar a pés enxutos. O noticiário que estava no celular quando me levantei era anódino, nada de anormal piscava na tela.

Terminada minha “tarefa”, e ainda sob aquele arrebatamento que só as almas monásticas conhecem, pus água na chaleira para o chimarrão, bebida que sorvo pausadamente enquanto folheio um livro. Enquanto a chaleira chiava, peguei novamente o telemóvel. Naquele momento, assombrado pela imagem dantesca que abre esta crônica, fui arrancado de meu arrebatamento para tomar pé da realidade. Logo abaixo da fotografia, lia-se “Trump invade a Venezuela”. Incrédulo, dei uma deslizada na tela e não havia dúvidas: Trump assaltou a Venezuela! O coração descompassou e quase chorei de tristeza. Não, eu não choraria pelo Maduro, o opressor de seu povo e algoz da Guiana. Mas choraria pelos venezuelanos – um povo sofrido que vê seus barcos e navios atacados e sequestrados, além dos marinheiros assassinados pelos ianques no litoral de seu país.

Todavia, meu desalento sequer pode ser comparado ao daquele povo. Imagine o desespero de quem, sobrevivendo ao bombardeio, teve a casa destruída, e sob os escombros muitos corpos – alguns em agonia.

Os Estados Unidos violentaram a Venezuela com a fúria de um predador e não há força que os detenha. Os norte-americanos, se quiserem, dominam militarmente toda a América e grande parte da Europa e Ásia – exceto as potências nucleares, porque ali “o buraco é mais fundo”.

Penso que neste século deverá haver a formação de três grandes blocos geopolíticos: a Ásia dominada pela China, a Europa curvada à Rússia e a América subjugada pelos Estados Unidos. Quem viver verá, e sofrerá. Descreio na civilização seja ela cristã ou pagã.

Se não há Deus, tudo se permite”, disse Dostoievski. ‘Se não houvesse justiça divina, estaríamos sob o reinado de Satã’, digo eu.

FILIPE


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO



Na semana passada havíamos planejado viagem para uma pequena cidade de Minas Gerais, onde passaríamos o dia de hoje. Eu estava animado no começo, mas fui desistindo aos poucos, até abandonar a ideia.

E o meu dia começou cedo. Tão cedo, que seu início se deu à meia-noite (pra quem é da noite), ou zero-hora (pra quem é do dia). Isso se deu quando fui ao celular mandar mensagem para um tio que também faz aniversário hoje. Tenho a alegria de compartilhar com ele a data natalícia, não o ano. Nos tempos antigos ele era bem mais velho do que eu. Quando fiz nove, ele fez dezoito! Hoje essa diferença é relativamente bem pequena – somos, os dois, uns velhotes.

O dia amanheceu e me levantei para as preces e a caminhada. Abri a porta e a Maneka, minha cadelinha, já me esperava; os outros três me aguardavam à meia-distância. Ao meu bom-dia, todos se aproximaram e começaram a me disputar. Dei um ralho e todos se afastaram, menos a Maneka, que continuou roçando meus calcanhares enquanto eu caminhava pelo quintal.

O dia avançou para a hora do almoço. Havia planos de ir ao restaurante, mas desistimos e resolvemos requentar sobras de ontem. Tinha arroz, que “batizei” com cebola frita e um fio de azeite. Tinha também batata-doce, quiabo, feijão e linguiça calabresa – que fora cozida, depois frita e assada. Assim foi o nosso almoço, que comemos alegremente neste dia especial.

A sobremesa, que dificilmente como, dessa vez foi chocolate. Não quero fazer propaganda, mas a Cacau Show me faz ‘cometer o pecado da gula’ com suas trufas. Comi duas após o almoço, e só não comi mais porque não sou afeito a arroubos à mesa (mentira).

Depois veio a sesta, que tomou deliciosas duas horas de minha tarde. Em seguida, uma caminhada com parte da matilha: a Pituka e o Tiziu – ela uma anciã e ele um idosinho. Deixamos a Maneka e o Pitoko aos prantos, como sempre, e nos esgueiramos pelas ruas do bairro, uma delas muito íngreme e esburacada. Próximo a uma casa em construção, no mato, havia duas tábuas em meio a cupins que devoravam um tronco de madeira. Bati bem as tábuas, livrando-as dos insetos e as peguei, voltando pra casa com os cães e a pequena “fortuna” nos ombros. Essa sucata será muito brevemente transformada num pequeno móvel.

A tarde, que chegara ligeira, despediu-se apressada e veio a noite. A minha companheira perguntou se eu não queria sair. Havíamos planejado ir a um barzinho – aqui na cidade há vários e muito bons. Não, não vamos sair. Ficar em casa é o melhor programa que se tem. Essa decisão foi aprovada por unanimidade.

Agora, pra terminar o dia, decidi registrar esses pequenos traços de um cotidiano, que se faz pleno exatamente pela sua rotina frugal.

Ah, e o ‘presente de aniversário’? Sim, houve um presente. Ele está na foto que abre o texto. Uma pequena prateleira feita com retalhos de madeira, que fiz ontem e hoje instalei. Ela terá grande utilidade para nós, onde poremos os remedinhos do dia a dia.

FILIPE


domingo, 7 de dezembro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM -- QUARTA PARTE

10) Estou chegando à casa da tia Geni. Ela já me viu, mas sei que terei de esperar um pouquinho, porque antes de receber alguém, a tia costuma dar uma espiada no espelho para acariciar o cabelo, que ela faz com a palma das mãos. Dependendo de quem chega, isso pode demorar desde uns poucos minutinhos a um tempo mais dilatado.

Não houve demora. A tia Geni vem devagarinho pela casa e ouço movimento na fechadura. Ela abre a porta da sala, caminha com dificuldade até o gradil do alpendre e me entrega a chave. Ela sempre faz assim devido à sua dificuldade com a pequena escada que dá acesso à casa. Abro o portão não sem antes a chave me escapar da mão, que recupero com dificuldade porque o cadeado fica do lado oposto de quem chega. A tia me olha, esperando em silêncio com as mãos apoiadas na grade enquanto eu fecho o portão e caminho na sua direção.

Ao subir a pequena escada que dá acesso à varandinha, os gatos que estavam por ali, partiram em tresloucada disparada. Eram muitos gatos. Dez? Bem mais que dez, mas não vinte. Houve um tempo em que havia uns trinta gatos, mas os cães da vizinhança deram cabo de alguns, outros sumiram, de forma que ficaram “apenas esses”, conforme a tia diz. Por sorte minha, os gatos saíram, mas não a tia, que continuou amuada, dando impressão de que não estava a fim de receber visitas.

Entrego a chave, ela a recolhe e ensaia um movimento de entrada, como se a minha presença ali fosse uma rotina como a do leiteiro, entregando a garrafa de leite, ou a do rapazinho do mercado em frente com as mercadorias que ela pediu – encomenda essa que ela sempre faz pela janela da sala, de onde ela chama o vendeiro, que a atende ligeiro e prestimoso.

Quando lhe dei a mão para a bênção, ela me abençoou sem entusiasmo e, mesmo desanimado, puxei assunto, mas a “velhinha” estava agarrada, quase muda. Falei que eu havia viajado pra ficar uns dois dias com ela e que seria na casa dela que eu me hospedaria. Ela expressou espanto e me perguntou: “Uai.. você não está indo pra roça? Pensei que fosse pra casa das suas irmãs...” “Não, tia. Eu vim pra ver a senhora, ficar com a senhora. Posso até visitar minhas irmãs, mas é aqui que quero ficar. Só não quero incomodar. Depois de amanhã já estou indo embora.” “Ô diacho...  Eu não sabia que você vinha pra ficar aqui. Por que ninguém me falou?” “Ah, tia. Eu que pedi pra não falar. A culpa é minha”.

 

11) Depois a tia se soltou um pouco, até sorriu, e entramos. Deixei a mochila no sofá da sala e segui com ela para a cozinha, onde havia dois ou três gatos que, ao me verem, voaram pela janela e sumiram para o quintal. A tia me disse que eles não gostam de visitas, e isso me deixou bastante animado. Uma observação: amo animais, mas ‘cada qual com seu igual’.

O fogão da tia estava com uma panela em fogo baixo. Desconfiado de que ela estivesse fazendo comida, e pra não atrapalhar, eu disse que gostaria de levá-la pra almoçar fora, poderia ser no restaurante daquele bairro. Ela foi assertiva, dizendo que estava entojada de comida de restaurante e que por isso mesmo decidiu ela própria fazer sua comida. Desta vez, ela estava fazendo um macarrão com ‘um restinho de frango de ontem’. Disse que tinha feijão cozido na geladeira e que a comida daria pra nós dois. Resistindo ao convite, tentei declinar, mas a tia foi incisiva e tive que almoçar do almoço dela.

Aqui um segredo para os meus raros e caros leitores: a comidinha da tia não estava me agradando. O macarrão, muito branco, se desfazia junto ao frango, também muito pálido. Ela tinha um pouco de feijão batido e temperado na geladeira, que fez voltar ao fogo e o engrossou, ficando bastante saboroso, mas estava faltando algo.

A tia, agora animadinha por eu não ter desistido da comida dela, pegou dois pratos, me deu um e ordenou que eu almoçasse. Perguntei se tinha ovos. Tinha na geladeira. Peguei três ovos, ela me deu uma frigideira e ficou me espiando. Pus óleo e despejei os três ovos para uma fritada única. Ela ficou alarmada: “Uai, eu frito um de cada vez...” “Não, tia, eu frito tudo junto e vai dar certo!” Pus a fritura num prato e dividi ao meio: metade pra ela e metade pra mim. Almoçamos bem. Ela não reclamou do ovo, mas disse que o feijão, que ela mesma tinha preparado, estava meio salgado. Eu não achei, mas não tenho isenção para falar de ‘salinidade à mesa’.

(continua...)

FILIPE