domingo, 29 de dezembro de 2024

JAQUEIRA DE NATAL

 


Foi neste dezembro, numa manhã molhada e de sol forte, quando peguei um enxadão e a mudinha de jaqueira, que há meses esperava por isso. Subi uma íngreme ladeira, aqui perto, e cheguei ao topo do morro. Ali tem várias casas sendo construídas, algumas quase prontas e já com moradores. Nas franjas do loteamento, há áreas destinadas a arborização. Na verdade, são pequenos espaços meio despencados e de difícil acesso, que não são adequados para construção de casas. Caminhando por lá, encontrei um bom lugar para plantar a minha jaqueira.  

Com aquele enxadão, limpei a área, cortei a braquiária e cavouquei o solo barrento. Na orelha, o fone de ouvido tocava um podcast. Preciso dizer que ouço vários podcasts todos os dias. Antigamente, gostava muito de rádio; hoje ouço apenas alguns programas de uma rádio paulistana, que toca MPB, e só. Durante minha labuta com o enxadão, eu ouvia um episódio sobre o lendário ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Aquele homem é um exemplo para todos nós. Quem não o conhece, procure se informar. Mas o assunto aqui é a jaqueira e a ela retorno.

Participo de um grupo de oração no bairro e costumamos nos reunir mensalmente para as preces. Não é segredo que não aprecio reuniões. Três ‘humanos’ numa sala, a depender de quem ali esteja, já é uma multidão para mim.  Não são muitas as pessoas com as quais eu me sinto bem conversando em tempo mais esticado. Normalmente, alguns minutos de conversa já são suficientes para que eu saia “à francesa”. Há exceções, é claro, embora bastante raras.

Eu estava falando sobre o ’grupo de oração’ e me perdi. Pois volto a ele. Esse grupo já existe há um bom tempo e fui convidado a integrá-lo. Acontece que sou um mau devoto, de fé rasa e gosto de fazer minhas preces solitariamente. No entanto, parece que Jesus mandou que seus seguidores se reunissem para rezar, dizendo que, "se dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei com eles”. Não sei se foi exatamente isso que o Mestre disse, mas é assim que entendi, de forma que aceitei participar daquele grupo.

E eis que houve uma novena de Natal. No último dia dessa novena, o livrinho de preces trouxe a sugestão para que fosse plantada uma árvore. Alguém sugeriu um limoeiro, dizendo que limão está caro; outro quis plantar maracujá, que também está caro. Não entrei na questão do preço do limão nem na “frondosa árvore” que seria um pé de maracujá, mas propus que plantássemos uma jaqueira.  Eu disse que tinha a muda e eu mesmo a plantaria. Alguém observou que ‘quem planta jaqueira não vai viver para colher a jaca’. Respondi que estou colhendo frutos de uma jaqueira que eu mesmo plantei. Mas eu não disse que desta vez as coisas talvez sejam um pouquinho diferentes: estou velho e a jaqueira não tem pressa de crescer nem de frutificar.

Ah, e o José Mujica?... Vou falar dele, mas só um pouquinho. O Velho Pepe não perdeu a fé na vida. Doente, morando como sempre na sua pequena e pobre choupana com telhado de zinco, cuida como pode de suas plantas e de sua esposa. Segundo ele, a vida é bonita e breve; e o sentido da vida está na luta pelo amor, não no ódio. A vida, conforme poeticamente diz, brota do silêncio de um mineral; depois acaba e tudo volta ao silêncio original daquele mesmo mineral.

Diferentemente do intrépido Mujica, que voltará corajosamente para a existência fria de um mineral, eu gostaria de ser eternizado na beleza verde e frágil de uma árvore. Talvez a minha jaqueira.

FILIPE

 


domingo, 15 de dezembro de 2024

ENFIM, UM GENERAL

 


Espero que o raro leitor não se aborreça com esta crônica, mas estou maravilhado com a prisão de um ‘quatro estrelas’. Ao contrário do que se diz, esta não é a primeira vez que um militar com essa patente é preso. A história registra casos, como Hermes da Fonseca e Teixeira Lott. Na verdade, Henrique Teixeira Lott era um marechal que foi injustamente preso em 1961. Legalista, Lott tentava garantir a posse de João Goulart devido à renúncia de Jânio Quadros, quando foi preso pelos seus colegas militares – os mesmos “gorilas” que três anos depois assaltaram a Presidência e nela se instalaram por intermináveis vinte e um anos.  

A novidade aqui é bastante alentadora, porque esta é a primeira vez que um militar no topo da carreira é preso por autoridades civis, e por motivos justíssimos. Nos demais casos, eram obscuras as prisões de oficiais e quase sempre feitas pela milicada. Todavia, como sinal dos tempos ou prenúncio civilizatório, militares têm sido conduzido às grades por civis e por justas razões.  

A prisão do general ocorrida ontem foi emblemática, porque esse homem poderá ter sido o mais poderoso militar na história recente do país. Antes de ser ministro, ele teve poderes imperiais no Rio de Janeiro como interventor na Secretaria de Segurança Pública.  Depois, já no governo do “imbrochável”,  como ministro da Defesa, fez história numa reunião com os comandantes das três forças, que estavam de saída.  Histérico, o ministro bufou tão ferozmente com os três generais, que fez os provectos senhores tremerem como “coelhinhos” diante de uma besta-fera.

Não, raro e caro leitor, não me repreenda por tamanho gozo diante dessa que seria a mais esperada das prisões. Muito se diz que oficial preso em quartel não é apenado, mas hóspede. Ali ele teria de graça o melhor dos mundos: da mesa farta ao leito aconchegante; do banho quente à sala-de-estar com ar-condicionado. Que seja. Acho melhor assim e explico por quê.

Imagine esta cena. Um general chega ao quartel para uma visita e a sua presença é anunciada por um clarim. Em seguida, o estado-maior, que é composto pelos oficiais mais antigos da unidade, vai ao encontro do general e o acompanha até o pátio interno, onde está toda a soldadesca perfilada. Nesta hora, a banda militar começa rufando os tambores e segue com um hino. Após isso, o empertigado general empina o corpo, estufa o peito, faz cara de bravo e, acompanhado pelo comandante da unidade, passa em revista à tropa. Durante a passagem, o silêncio é quase absoluto e nada se ouve além da respiração do colega ao lado. Enfim, terminada a inspeção, aquele “César da Roma Antiga” volta ao palco e dirige algumas palavras de patriotismo afetado ao batalhão. Encerrada a cerimônia, o cortejo segue para o refeitório enquanto os soldados para as oficinas e que tais.

Corta para hoje. Nesse mesmo quartel o mesmo general chega, agora disfarçado com óculos escuros e escondido numa viatura com cortinas fechadas.  Os soldados são providencialmente deslocados para as “oficinas e que tais” a fim de preservar o anonimato do novo hóspede, que é conduzido ao mais recôndito dos aposentos daquele prédio.  

Isso não é ótimo?... Pois eu acho.

FILIPE


domingo, 1 de dezembro de 2024

UMA SUGESTÃO DE PENA PARA GOLPISTAS

 



Todos os dias, ao abrir o noticiário no notebook, tropeço nas ‘novas’ do golpe. Sinceramente, sempre que posso, evito lê-las. Isso porque uma tristeza profunda me abate, e, como disse o Poetinha, “é melhor ser alegre do que triste”. Não, não quero tristeza, mas a alegria possível.

No entanto, como ser alegre diante do grotesco?... Aqui não vou citar um nome sequer, não por precaução, mas por uma questão de higiene mesmo. Preciso estar atento à necessária assepsia do corpo, da alma e também das palavras.

Generais liderados por um (pasmem!) capitão planejaram jogar o país numa lama de sangue, e isso só não aconteceu porque a maldade exige, além da covardia, um pouco de inteligência. O primeiro requisito é abundante; o segundo escasseia.

Agora, após a descoberta da trama, o que fazer com os trastes? A constituição prevê pena de morte para desertores em caso de guerra. É importante ressaltar que numa guerra a ‘pena capital’ não alcançaria oficiais das armas, mas civis ou soldadinhos. Caso um cidadão não se apresente ou debande, tal pena seria imposta a ele por um tribunal militar composto por... oficiais-generais! Isso é fato.

E para militares golpistas que podem a qualquer momento fazer o país mergulhar numa “guerra civil”?  Aqui pus aspas porque, numa guerra, o pressuposto é que haja dois lados armados em conflito. No nosso caso, as armas estão de um lado só – com os extremistas; no outro lado estão os trabalhadores. Seria então um massacre perpetrado por desalmados contra desarmados. Uma carnificina. A história é repleta de fatos assim: o exército e demais forças policiais esmagam movimentos sociais numa batalha desigual. Algo semelhante à Intifada, quando palestinos ousam resistir com pedras às metralhadoras dos soldados israelenses. Por acaso isso é guerra?! 

Agora quero deixar a minha sugestão para quem comete crime militar, mas me atenho àqueles que colocam em risco a democracia. Que todos esses vermes amotinados sejam destituídos de seus cargos, que sejam expulsos da corporação, que tenham seus bens expropriados e que sejam condenados a viver com ‘um salário mínimo’. Sim, um salário mínimo e nada mais do que isso.

A pena é cruel? Claro que não. Segundo dados do IBGE, 60% dos brasileiros vivem com ‘até um salário mínimo por mês’. Até! Isso significa que uma parcela vive com menos ou com nada. Eu mesmo, nos meus “verdes anos”, tive que me virar com um salário mínimo, que naquele tempo era bem inferior ao atual. E olha que não cometi crime algum. Nunca atentei contra a vida nem a dignidade das pessoas, muito menos conspirei contra os poderes constituídos.

Ah, como gostaria de que todos os criminosos, militares ou não, fossem condenados à “pena perpétua” de viver com apenas um salário mínimo!...

PS: A ilustração que abre a crônica foi ‘furtada’ da coluna do Antônio Prata. Espero que eu não seja condenado por esse ‘crime’.

FILIPE


domingo, 17 de novembro de 2024

BILIARDÁRIOS

 


Dentre as tantas bestagens que falo ou escrevo, e tendo a meu favor os anos que me são generosos, eis-me aqui novamente dedilhando o teclado, espremendo o cérebro na tentativa de exprimir opinião sobre assuntos que não entendo. Velhos, somos mais livres pra falar bobagens, mas só pra falar ou escrever; porque fazê-las exige algo mais, além da ‘falta de juízo. Por isso mesmo, e ficando apenas nas palavras, venha comigo.

Quando me falta assunto, costumo dizer que “morro de dó de quem tem muito dinheiro e pouco tempo de vida”. E vou além. “Pessoas muito ricas deveriam viver duzentos, trezentos, quatrocentos anos. Quanto maior a fortuna, maior deveria ser seu tempo de vida. Pobres não carecem de longevidade, porque o fardo lhes pesa, encurvando o corpo para o chão, para a cova, que pode ser rasa mesmo”. [obs.: há ironia]

Agora vamos aos ricos, aos milionários, aos biliardários. No Brasil, segundo a revista Exame, há mais de quatrocentos mil milionários, e sessenta e nove bilionários – em dólares! Mais: esses últimos têm, juntos, um patrimônio superior a duzentos bilhões de dólares, que perfazem algo bem mais do que um trilhão de reais. No topo da lista da Forbes está Eduardo Saverin, sócio do Facebook. Esse cidadão, a quem chamo de Dudu, tem fortuna de 16 bilhões de dólares, o equivalente a nada menos do que 90 bilhões de reais. Alguém que me lê tem ideia do que isso significa? Eu não tenho, mas vou me esforçar pra entender.

Para os meus conterrâneos, os que nasceram ou moram na cidade mineira de Guiricema, a conta é um pouco mais simples e a compreensão mais palpável. Aquele município tem aproximadamente 300 quilômetros quadrados, o que significa cerca de 30 mil hectares ou algo um pouco menos de 10 mil alqueires.  Aqui, pretendo fazer uma continha de padeiro e para isso, como se vê, vou arredondando os números para torná-los mais simpáticos.

Agora embarque comigo num delírio ainda mais ousado. Vamos supor que o Dudu, aquele sócio do FB, resolva criar umas vaquinhas e queira comprar toda a zona rural do município de Guiricema. Então os fazendeiros e sitiantes se animam e decidem numa assembleia vender suas terras, mas ao preço de 180 mil reais o alqueire. O Dudu olha no site do município e confirma a área, que multiplicada por esse valor, percebe que terá de desembolsar a bagatela de 1,8 bilhão de reais. Ele aceita, fecha o negócio e paga. Pasmem! Com apenas ‘dois por cento’ de seu patrimônio, o homem mais rico do Brasil pode comprar toda a zona rural de um município com quase dez mil habitantes!

No Brasil, a riqueza está concentrada, mas nunca sabemos ao certo quem são os milionários nem o tamanho real de sua fortuna. Os números publicados são autodeclarados ou vêm da Receita Federal. Apenas uns poucos empresários e quem vive de salário têm todo o seu patrimônio e rendimentos monitorados pela Receita. Os demais, particularmente os rentistas, passam ao largo do Fisco.

Um ditado que ouvi dias atrás de uma senhora muito sábia diz o seguinte: “Há duas coisas que quem tem não conta pra ninguém: dinheiro e hemorroida”.  Infelizmente ou felizmente, não tenho nem uma coisa nem outra, mas quero que os ricaços sejam taxados.

FILIPE

 

sábado, 2 de novembro de 2024

TIA NICE

 


Foi um dia de júbilo. Talvez poucas pessoas e em poucos momentos da vida possam experimentar a alegria que senti ao chegar à casa dessa família.

Havia anos que não os via, e mais anos se passaram sem que eu os visitasse. Certo dia, porém, após inúmeras tentativas frustradas, desembarquei em Umuarama, no estado do Paraná. Chovia muito naquela manhã quando o meu ônibus estacionou numa rodoviária moderna e envidraçada. Desci do ônibus, mas eu não conseguia achar a minha amiga e fiquei meio desorientado. Finalmente a vi no primeiro pavimento, onde ela estava há uns bons minutos me esperando.

Na foto acima está a amiga ‘tia Nice’, que não é minha tia, mas é minha tia, e no final explico por quê. Ao seu lado, o esposo Antônio – caboclo bom, sistemático, de palavra firme e acertada; à esquerda, a filha Fabiane – moça inteligente, culta, que foi minha aluna ainda nos últimos "soluços" do século passado. Faltou na foto a advogada Renata, a outra boa filha da tia Nice.

Mas, afinal, quem é a ‘tia Nice’? Em poucas palavras: é uma mulher simples, amável e de um dulçor incomum. Todos os dias trocamos mensagens e isso muito me alegra. Mulher de poucas letras e de muita sabedoria, tempos atrás esteve às voltas com os estudos. A coitada ficava aflita, querendo desistir, mas foi firme até concluir o ciclo. Certamente foi apoiada por professores decentes e colegas sensíveis.

Sobre o tio Antônio, tenho uma pequena história pra contar. Caso ele se aborreça comigo, corro aqui pra apagar essa parte e depois lhe peço desculpas. Mas, por enquanto, ‘vale o escrito’.

Certa vez, um parente dele muito ‘gente boa’, mas meio atrapalhado, chegou tarde da noite e lhe pediu pouso. O tio Antônio ouviu aquilo e, cabreiro, quis saber por quê. “Eu briguei com a minha mulher e resolvi sair de casa”, explicou o desafortunado ‘briguento’. “Ah, é?... Brigou e fugiu... Pois então volte pra sua casa. Eu até te dou pouso, mas apenas se ela não te deixar entrar. Na rua você não vai ficar, mas, antes, volte lá e veja o que acontece”, sentenciou tio Antônio.

O homem coçou a cabeça, quis dizer mais alguma coisa, mas percebendo que não convenceria o seu velho camarada, decidiu voltar pra casa. Aceito pela esposa, fizeram as pazes e todos, inclusive o ‘marido fujão’, deram muitas graças a Deus pelo reenlace.

Pois é... Esse aí é o tio Antônio! Homem determinado, nascido e criado nos cafezais das Araucárias e maturado no aço das fábricas e montadoras do ABC paulista.

Voltando ao dia venturoso da minha visita, tive o prazer de passar a manhã e um pedaço da tarde naquela casa. Raramente em minha já surrada vida eu me senti assim, tão acolhido e abraçado. Há uma regra não escrita para visitas, que diz o seguinte: “Quem chega, traz a prosa; quem recebe, dá o café”. Pois naquela casa eu recebi o café, o pão e a prosa!

Agora a explicação do porquê de ‘tia Nice’. A quem pense ser parentesco algo necessariamente ligado a “laços sanguíneos”, sou assertivo: “os ‘meus parentes’ não são determinados pela biologia; sou eu quem os escolhe e tenho por critério o afeto!”

A sua bênção, tia Nice!

FILIPE


segunda-feira, 21 de outubro de 2024



O quarto está meio bagunçado, alguém dirá, mas não vejo nenhuma bagunça ali. Vejo, sim, a imagem do despojamento de alguém que abandonou tudo para abraçar um ideal de vida, que poucos têm disposição de fazer. Ali está todo o patrimônio de um frei franciscano já entrado em anos. Dá pra observar umas roupas, que talvez estejam em uso ou separadas para serem lavadas. Veem-se alguns livros, na certa de oração, um pequeno armário que deve conter outros livros e algumas vestes. Ao fundo, amedrontadas com a lente do celular, garrafas de Coca-Cola tentam se esconder de meu campo de visão – um pequeno e furtivo luxo desse discreto ‘ancião’.

Escolhido ao acaso para ser fotografado, esse é um dos vários aposentos da comunidade de frades que visitei. A casa em que moram é ampla e confortável. No entanto, individualmente, cada frei tem apenas o que lhe assegura uma sobrevivência digna, mas sem excessos. Por voto religioso e compromisso com a Congregação, nenhum frade pode decidir por si o que vai fazer hoje, amanhã ou na semana que vem. A vida monástica é regrada por estatutos bastante rígidos, com horários para oração, trabalhos braçais, atendimento à comunidade etc. Mas também há momentos de lazer, que são desfrutados com uma alegria incomum.

Pude ver freis jogando vôlei com alguns jovens que moram nas cercanias. Cena curiosa e engraçada aquela em que homens de meia-idade, barbudos, trajando batinões, disputam aguerridamente a partida com jovens descolados. Nos times se misturam velhos e moços, homens e mulheres, sem etarismo nem machismo. O que importa ali é o entretenimento.

Naquela casa, o almoço é servido ao meio-dia com uma comida simples, farta e saborosa. À mesa se sentam todos os religiosos, que começam a refeição após uma breve oração; outra prece sinaliza o final da ‘boia’, quando todos deixam a mesa e se dirigem à pia para ajudar na lavação das louças e panelas.

Naquele momento mágico, que é a refeição com os frades, enquanto um passa a salada para alguém e outro pede a farofa a outrem, um engraçadinho cisma de contar piadas. Todos riem, mas não se sabe se é da piada ou de quem a conta. Eu mesmo tive que dar risada de um frei, o mais “criativo” deles, que me trouxe um "pote de sorvete" enquanto eu terminava meu almoço. Esse frei, muito gentilmente, me ofereceu a sobremesa que seria de chocolate. Fiquei movido, mas agradeci, dizendo que estava satisfeito. O danado insistia, mas resisti heroicamente àquela tentação. Por fim, quando viu que seu esforço seria em vão, ele destampou o pote e me mostrou uma coisa lá dentro, que não era sorvete, mas algum cereal que não consegui identificar.  “Bem feito!”, eu disse rindo. “Você queria me enganar, mas perdeu seu tempo.”  

Foi tudo muito lindo e maravilhoso, mas a vida religiosa não é para aventureiros. No entanto, após uma semana de imersão no ‘franciscanismo’, saí renovado dali.  Eu estava muito precisado disso, porque tenho andado bastante desanimado. Na minha cidade, o padre encasquetou que a igreja em que ele reza missa deve virar basílica e para isso tem exortado os fiéis a fazerem suas rezas. Para esse cura, não importa que o planeta arda em chamas ou a vida desapareça numa hecatombe nuclear. O que ele quer mesmo é uma basílica.

FILIPE 

sábado, 5 de outubro de 2024

CADÊ O TIZIU?

 


Ele está aqui, mas não é sobre o Tiziu que vou escrever. O cãozinho acima foi encontrado numa rodovia há mais de dez anos. Estava ferido, com sede, com fome e sangrando. Até merece uma ‘biografia’, mas não será desta vez. Todavia, por carinho e atenção, volto a citá-lo no final da crônica.

O assunto aqui são as queimadas, esse inferno a que se tornou parte considerável do país. Tenho evitado o noticiário e sempre que posso mudo de assunto com as pessoas que abordam essa tragédia. Mas não tem ‘escapamento’, como diria um velho conhecido, como se vê aqui.

Dias atrás, antes ainda de as chamas calcinarem a exuberante vegetação das montanhas que circundam minha ‘aldeia’, tive uma conversa meio amalucada com o funcionário da loja de materiais de construção. Enquanto escolhíamos umas tábuas de que eu precisava e sem ter o que assuntar, saí com esta: “Cara, essas queimadas são coisa de gente criminosa. Tivesse eu algum poder, pegaria um caboclo desses, amarraria num poste e o deixaria assim durante uma semana. Ele não passaria sede nem fome, porque seria muita crueldade, mas teria que ficar abraçado ao poste durante sete dias, sem trégua. Marmita pra almoço e pra janta além de umas garrafas com água não lhe faltariam.  Finda a pena, seria desamarrado e solto, mas continuaria vigiado. Com pessoas assim, todo cuidado é pouco. Vai saber...”

O rapaz sorria enquanto eu falava, mas não me interrompeu. Quando terminei, ele já havia separado as madeiras que eu compraria e, com elas, veio uma “aula” que eu não pedi. Professoralmente, ele começou: “Você acha mesmo que tem pessoas pondo fogo no mato? Pois penso que não. Outro dia ouvi uma explicação sobre essas queimadas. Pode ver que o fogo começa sempre no alto do morro. É o seguinte. O sol está ficando cada vez mais perto de nós, parece que está caindo, e isso os cientistas afirmam. Acontece que, se o sol já está mais baixo e o morro é muito alto, vai ficando complicado. E tem a gravidade. Você sabe que a gravidade no alto do morro é maior do que aqui embaixo, né?... E assim, com o sol mais forte lá em cima e a gravidade maior, claro que vai pegar fogo. É isso. Não tem nada de gente botando fogo no mato não.”

Depois daquela explicação, fui ao caixa e paguei as tábuas, mas não a aula, e saí bem desacoroçoado. Até desisti da luminosa ideia de amarrar homem em poste.

Agora é a vez do Tiziu sobre quem prometi voltar a falar. Primeiramente, eu precisava de uma imagem que pudesse atrair o raro leitor para este texto e quis abri-lo com essa foto tirada ontem, que foi o dia de São Francisco. Segundamente, o nome do cãozinho é uma homenagem àqueles simpáticos passarinhos que, vítimas de agrotóxicos, desapareceram desta redondeza.

Finalizando, sei que vou chocar as almas mais sensíveis, mas preciso dizer que sinto mais falta dos bichinhos do que de certas gentes. Isso soa antipático, deve ser até pecado, mas os meus sentimentos não obedecem a regras nem cumprem leis. Ah, e os bichinhos não incendeiam o planeta.

FILIPE