domingo, 1 de fevereiro de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM -- SEXTA PARTE

 

14) A pia da cozinha estava entupida, mas não era uma calamidade porque, embora muito vagarosamente, a água ainda escoava. Mas aquilo foi me incomodando a ponto de me deixar irritado. Sempre que eu fosse lavar uma coisinha, formava-se um lago cuja placidez me bambeava os nervos. Então, fui ao mercado e comprei um ‘desentupidor de pia’, que é algo semelhante a uma ‘saia de borracha’ de onde ergue um cabo de plástico. Eu peguei aquele treco e dei várias bombadas no ralo, mas em vão foi meu esforço. Quanto mais eu mexia mais a coisa emperrava e o bojo, de tão cheio, já começou a transbordar a ponto de eu ter de tirar um pouco da água com uma caneca para evitar um dilúvio na cozinha. A tia acompanhava tudo bem de perto e com uma atenção que me paralisava.   De repente, ela se lembrou de uma solução: “Deixe eu pôr cloro aí, porque dizem que desentope mesmo.” Aceitei a sugestão de pronto. Vai que a tia tem razão..., pensei. Então ela derramou certa quantidade de cloro e me pediu pra esperar aquilo fazer efeito. Aguardei por um tempo e a pia foi esvaziando, mas numa vagarosidade...

Perguntei à tia se ela tinha arame. Tinha, e um bom arame. De aço, forte e comprido. Pequei um pedaço de pano e amarrei na ponta daquele arame e chuchei no encanamento. Inicialmente, da pia para baixo, e soquei, fui socando, mas nada da coisa desentupir. Depois, resolvi fazer o percurso inverso. Do lado de fora, abri a tubulação de forma que eu pudesse enfiar aquele arame até alcançar a pia. Foi uma luta. Já escurecia e as lojas iam fechar. Caso eu precisasse de comprar algo, só no dia seguinte. E fui socando e observando aflitivamente. Eu não estava tendo êxito, mas insisti. De súbito, um jorro veio de encontro a mim, molhando minhas mãos e reacendendo meus ânimos. Retirei o arame e a água fluiu “sorridente”, esvaziando a pia.

Entusiasmado agora, fui lá, abri a torneira e lavei bem as mãos por duas razões: uma porque estavam sujas, e outra porque eu precisava testar o funcionamento da pia. Estava tudo perfeito. No entanto, uma faísca de preocupação apagou minha alegria quando ouvi a tia dizer:  “Ô diacho, está vazando água debaixo da pia...” E estava mesmo! Havia um vazamento misterioso que, com o tempo, poderia fazer uma molhaceira danada – não apenas embaixo da pia, mas também nas adjacências. Pensei no pior: o arame deve ter perfurado a tubulação e eu não ia conseguir consertar aquilo, principalmente à noite.

Mas a ‘minha salvação’ veio da própria tia Geni, quando ela me disse: “Ah, eu pus cloro, que é terrível e deve ter provocado esse vazamento.” Dando uma de migué, fui logo concordando. “Ih, tia, é verdade! Cloro é muito corrosivo. Agora precisamos esperar pra ver como resolver isso. Se amanhã o vazamento continuar, talvez tenha de chamar um pedreiro para consertar, mas vou tentar fazer algo sem que precise dele.” Dito isso, peguei uma toalha velha, pus no piso embaixo da cuba a fim de absorver a água que marejasse e a deixei lá. No dia seguinte eu teria de buscar uma solução.

 

Continua...

 

FILIPE

sábado, 3 de janeiro de 2026

INFERNO SOB TRUMP



Todos os dias eu me levanto bem cedo, abro o celular, dou uma espiada nas mensagens e costumo dar uma olhadinha rápida no noticiário também. Ultimamente tenho evitado as notícias e me atenho mais a podcasts de literatura e pequenas estórias agridoces. Também ouço muita música, mas música popular brasileira!  

O dia de hoje não seria diferente. Após a checagem de praxe, deixo o celular, faço a toalete e saio para cumprimentar meus cãezinhos, um por um. Em seguida, começo as minhas preces. Enquanto rezo, vou caminhando pelo quintal num exercício físico e espiritual que costuma passar dos três quartos de horas. Esse é um momento muito especial em que fico tomado de enlevo, numa quase epifania.

A noite foi serena, o sono tranquilo porque embalado por grossos pingos de chuva que começaram ao entardecer e se estenderam noite adentro até a madrugada. Ao amanhecer, o tempo estava firme e pude caminhar a pés enxutos. O noticiário que estava no celular quando me levantei era anódino, nada de anormal piscava na tela.

Terminada minha “tarefa”, e ainda sob aquele arrebatamento que só as almas monásticas conhecem, pus água na chaleira para o chimarrão, bebida que sorvo pausadamente enquanto folheio um livro. Enquanto a chaleira chiava, peguei novamente o telemóvel. Naquele momento, assombrado pela imagem dantesca que abre esta crônica, fui arrancado de meu arrebatamento para tomar pé da realidade. Logo abaixo da fotografia, lia-se “Trump invade a Venezuela”. Incrédulo, dei uma deslizada na tela e não havia dúvidas: Trump assaltou a Venezuela! O coração descompassou e quase chorei de tristeza. Não, eu não choraria pelo Maduro, o opressor de seu povo e algoz da Guiana. Mas choraria pelos venezuelanos – um povo sofrido que vê seus barcos e navios atacados e sequestrados, além dos marinheiros assassinados pelos ianques no litoral de seu país.

Todavia, meu desalento sequer pode ser comparado ao daquele povo. Imagine o desespero de quem, sobrevivendo ao bombardeio, teve a casa destruída, e sob os escombros muitos corpos – alguns em agonia.

Os Estados Unidos violentaram a Venezuela com a fúria de um predador e não há força que os detenha. Os norte-americanos, se quiserem, dominam militarmente toda a América e grande parte da Europa e Ásia – exceto as potências nucleares, porque ali “o buraco é mais fundo”.

Penso que neste século deverá haver a formação de três grandes blocos geopolíticos: a Ásia dominada pela China, a Europa curvada à Rússia e a América subjugada pelos Estados Unidos. Quem viver verá, e sofrerá. Descreio na civilização seja ela cristã ou pagã.

Se não há Deus, tudo se permite”, disse Dostoievski. ‘Se não houvesse justiça divina, estaríamos sob o reinado de Satã’, digo eu.

FILIPE


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO



Na semana passada havíamos planejado viagem para uma pequena cidade de Minas Gerais, onde passaríamos o dia de hoje. Eu estava animado no começo, mas fui desistindo aos poucos, até abandonar a ideia.

E o meu dia começou cedo. Tão cedo, que seu início se deu à meia-noite (pra quem é da noite), ou zero-hora (pra quem é do dia). Isso se deu quando fui ao celular mandar mensagem para um tio que também faz aniversário hoje. Tenho a alegria de compartilhar com ele a data natalícia, não o ano. Nos tempos antigos ele era bem mais velho do que eu. Quando fiz nove, ele fez dezoito! Hoje essa diferença é relativamente bem pequena – somos, os dois, uns velhotes.

O dia amanheceu e me levantei para as preces e a caminhada. Abri a porta e a Maneka, minha cadelinha, já me esperava; os outros três me aguardavam à meia-distância. Ao meu bom-dia, todos se aproximaram e começaram a me disputar. Dei um ralho e todos se afastaram, menos a Maneka, que continuou roçando meus calcanhares enquanto eu caminhava pelo quintal.

O dia avançou para a hora do almoço. Havia planos de ir ao restaurante, mas desistimos e resolvemos requentar sobras de ontem. Tinha arroz, que “batizei” com cebola frita e um fio de azeite. Tinha também batata-doce, quiabo, feijão e linguiça calabresa – que fora cozida, depois frita e assada. Assim foi o nosso almoço, que comemos alegremente neste dia especial.

A sobremesa, que dificilmente como, dessa vez foi chocolate. Não quero fazer propaganda, mas a Cacau Show me faz ‘cometer o pecado da gula’ com suas trufas. Comi duas após o almoço, e só não comi mais porque não sou afeito a arroubos à mesa (mentira).

Depois veio a sesta, que tomou deliciosas duas horas de minha tarde. Em seguida, uma caminhada com parte da matilha: a Pituka e o Tiziu – ela uma anciã e ele um idosinho. Deixamos a Maneka e o Pitoko aos prantos, como sempre, e nos esgueiramos pelas ruas do bairro, uma delas muito íngreme e esburacada. Próximo a uma casa em construção, no mato, havia duas tábuas em meio a cupins que devoravam um tronco de madeira. Bati bem as tábuas, livrando-as dos insetos e as peguei, voltando pra casa com os cães e a pequena “fortuna” nos ombros. Essa sucata será muito brevemente transformada num pequeno móvel.

A tarde, que chegara ligeira, despediu-se apressada e veio a noite. A minha companheira perguntou se eu não queria sair. Havíamos planejado ir a um barzinho – aqui na cidade há vários e muito bons. Não, não vamos sair. Ficar em casa é o melhor programa que se tem. Essa decisão foi aprovada por unanimidade.

Agora, pra terminar o dia, decidi registrar esses pequenos traços de um cotidiano, que se faz pleno exatamente pela sua rotina frugal.

Ah, e o ‘presente de aniversário’? Sim, houve um presente. Ele está na foto que abre o texto. Uma pequena prateleira feita com retalhos de madeira, que fiz ontem e hoje instalei. Ela terá grande utilidade para nós, onde poremos os remedinhos do dia a dia.

FILIPE


domingo, 7 de dezembro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM -- QUARTA PARTE

10) Estou chegando à casa da tia Geni. Ela já me viu, mas sei que terei de esperar um pouquinho, porque antes de receber alguém, a tia costuma dar uma espiada no espelho para acariciar o cabelo, que ela faz com a palma das mãos. Dependendo de quem chega, isso pode demorar desde uns poucos minutinhos a um tempo mais dilatado.

Não houve demora. A tia Geni vem devagarinho pela casa e ouço movimento na fechadura. Ela abre a porta da sala, caminha com dificuldade até o gradil do alpendre e me entrega a chave. Ela sempre faz assim devido à sua dificuldade com a pequena escada que dá acesso à casa. Abro o portão não sem antes a chave me escapar da mão, que recupero com dificuldade porque o cadeado fica do lado oposto de quem chega. A tia me olha, esperando em silêncio com as mãos apoiadas na grade enquanto eu fecho o portão e caminho na sua direção.

Ao subir a pequena escada que dá acesso à varandinha, os gatos que estavam por ali, partiram em tresloucada disparada. Eram muitos gatos. Dez? Bem mais que dez, mas não vinte. Houve um tempo em que havia uns trinta gatos, mas os cães da vizinhança deram cabo de alguns, outros sumiram, de forma que ficaram “apenas esses”, conforme a tia diz. Por sorte minha, os gatos saíram, mas não a tia, que continuou amuada, dando impressão de que não estava a fim de receber visitas.

Entrego a chave, ela a recolhe e ensaia um movimento de entrada, como se a minha presença ali fosse uma rotina como a do leiteiro, entregando a garrafa de leite, ou a do rapazinho do mercado em frente com as mercadorias que ela pediu – encomenda essa que ela sempre faz pela janela da sala, de onde ela chama o vendeiro, que a atende ligeiro e prestimoso.

Quando lhe dei a mão para a bênção, ela me abençoou sem entusiasmo e, mesmo desanimado, puxei assunto, mas a “velhinha” estava agarrada, quase muda. Falei que eu havia viajado pra ficar uns dois dias com ela e que seria na casa dela que eu me hospedaria. Ela expressou espanto e me perguntou: “Uai.. você não está indo pra roça? Pensei que fosse pra casa das suas irmãs...” “Não, tia. Eu vim pra ver a senhora, ficar com a senhora. Posso até visitar minhas irmãs, mas é aqui que quero ficar. Só não quero incomodar. Depois de amanhã já estou indo embora.” “Ô diacho...  Eu não sabia que você vinha pra ficar aqui. Por que ninguém me falou?” “Ah, tia. Eu que pedi pra não falar. A culpa é minha”.

 

11) Depois a tia se soltou um pouco, até sorriu, e entramos. Deixei a mochila no sofá da sala e segui com ela para a cozinha, onde havia dois ou três gatos que, ao me verem, voaram pela janela e sumiram para o quintal. A tia me disse que eles não gostam de visitas, e isso me deixou bastante animado. Uma observação: amo animais, mas ‘cada qual com seu igual’.

O fogão da tia estava com uma panela em fogo baixo. Desconfiado de que ela estivesse fazendo comida, e pra não atrapalhar, eu disse que gostaria de levá-la pra almoçar fora, poderia ser no restaurante daquele bairro. Ela foi assertiva, dizendo que estava entojada de comida de restaurante e que por isso mesmo decidiu ela própria fazer sua comida. Desta vez, ela estava fazendo um macarrão com ‘um restinho de frango de ontem’. Disse que tinha feijão cozido na geladeira e que a comida daria pra nós dois. Resistindo ao convite, tentei declinar, mas a tia foi incisiva e tive que almoçar do almoço dela.

Aqui um segredo para os meus raros e caros leitores: a comidinha da tia não estava me agradando. O macarrão, muito branco, se desfazia junto ao frango, também muito pálido. Ela tinha um pouco de feijão batido e temperado na geladeira, que fez voltar ao fogo e o engrossou, ficando bastante saboroso, mas estava faltando algo.

A tia, agora animadinha por eu não ter desistido da comida dela, pegou dois pratos, me deu um e ordenou que eu almoçasse. Perguntei se tinha ovos. Tinha na geladeira. Peguei três ovos, ela me deu uma frigideira e ficou me espiando. Pus óleo e despejei os três ovos para uma fritada única. Ela ficou alarmada: “Uai, eu frito um de cada vez...” “Não, tia, eu frito tudo junto e vai dar certo!” Pus a fritura num prato e dividi ao meio: metade pra ela e metade pra mim. Almoçamos bem. Ela não reclamou do ovo, mas disse que o feijão, que ela mesma tinha preparado, estava meio salgado. Eu não achei, mas não tenho isenção para falar de ‘salinidade à mesa’.

(continua...)

FILIPE

domingo, 23 de novembro de 2025

SERIAM 'NOVENTA E CINCO'

 



Já era noite. Talvez neblinasse ou fizesse frio – disso já não me recordo. Lembro que estávamos na cozinha quando um irmão disse ter ouvido um ‘toque-toque’ na porta da sala. Diante disso, ficamos apreensivos, mas não estávamos indefesos. Tínhamos o papai conosco e nele a confiança para lidar com a situação, seja ela qual fosse, era certa. Estávamos protegidos.

Preciso registrar que estou falando de um tempo distante, e aqui rememoro algo acontecido há mais de meio século. Naquela ocasião, morávamos num sítio do meu avô paterno, numa pequena casa sem vizinhos próximos, sem água encanada nem luz elétrica. A iluminação era por lamparina a querosene. Tínhamos duas lamparinas: uma era exclusiva da minha mãe, que, adoentada, gostava de ficar reclusa no seu quarto; a outra era para o restante da família e ficava na cozinha. Era na cozinha que sempre ficávamos, particularmente à noite. Alguns sentados no banco de madeira, outros ao redor do fogão a lenha. Era na cozinha que tomávamos as refeições, conversávamos e fazíamos orações. Aquele pequeno cômodo com chão de terra batida era para nós quase um templo de convivência doméstica. Ali o papai, todas as noites, cansado de sua jornada, rezava o terço e lutava com o sono. Por vezes, numa cochilada mais forte, o terço caía de suas mãos, mas ele o apanhava e retomava a prece. Terminada a oração, ele dava ordem para que fôssemos para a cama. Ele também, após lavar os pés, partia para seus aposentos, encontrando mamãe já ‘no terceiro sono’, como se dizia.

Na noite em que se deu o fato aqui narrado, papai estava conosco, mas isso não era comum. Sendo pedreiro, ele costumava trabalhar longe de casa, e como sempre andava a pé, era demorada a sua volta.  Mesmo trabalhando perto, papai costumava sair de tardinha para aplicar injeções. Ele era uma espécie de enfermeiro muito requisitado naquele ‘córrego’. Além das injeções intramusculares, ele sabia, como poucos, aplicar também as intravenosas. E ainda havia os pedidos de reza nas casas, que nunca deixou de atender. São essas as razões por que nosso pai nem sempre estava em casa nas primeiras horas da noite.

A batida na porta continuou espaçada e suave – essa era uma forma educada de chamar alguém da casa. Mas, para nossa tranquilidade, papai estava conosco naquele dia e ele foi à sala para atender a quem batia na porta. À frente, com a lamparina à altura dos olhos, papai girou a tramela da porta e tentou enxergar a visita. Naquele momento um misto de orgulho e medo nos assomou. Orgulho pelo destemor do pai, um homem corajoso; medo pelo que pudesse acontecer com ele e conosco, pois a lamparina poderia ser apagada com um simples bafejo, e todos ficaríamos no escuro a mercê de um possível invasor. 

Felizmente não estávamos em perigo. Quem chegava era uma mulher. Negra, alta, magra, ela trazia consigo uma criança e pedia abrigo. Papai mandou que entrasse e, após obter algumas informações, ajeitou pra ela uma cama na sala, que era o único lugar disponível. Num canto do quarto da sala havia uma esteira artesanal, feita de taboa, que papai sempre mantinha para alguma eventualidade. Ele estendeu a esteira, cobriu com um lençol, pegou um cobertor e acolheu a mulher e o seu filhinho naquela noite.

O nome da mulher, eu soube depois de moço, é Isolina. Ela morava numa comunidade de gente muito pobre, na entrada da cidade. O filho dela, que era especial, tinha apelido de Pilorino. Essa era uma alcunha maldosa, preconceituosa, racista. A pele negra do garoto fora associada ao pelourinho – um tronco onde os escravizados eram açoitados. De pelourinho, através da ignorância infame de gente branca, bem alimentada e maldosa, veio o apelido do menino, que depois o vi rapaz. O tempo passou e eu nunca mais soube notícias dele nem da mãe.

Neste ano, no Dia de Zumbi dos Palmares, papai teria completado ‘noventa e cinco anos’. Deixo aqui essa homenagem a ele e àquela descendente de escravizados a quem socorreu. Papai não precisa de homenagens nem a dona Isolina de abrigo, mas eu preciso expressar carinho pelos dois, que já estão na Casa do Pai.

FILIPE


domingo, 9 de novembro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM – TERCEIRA PARTE

7) Saio da padaria, ando uns dez minutos e chego à rodoviária. Como o ônibus demoraria, aproveitei para visitar uma tia que mora nas cercanias. Não tendo o endereço, mas sabendo que é perto da rodoviária, fui procurar. Entrei numa casa de produtos agrícolas e perguntei: “Você sabe onde mora a dona Aparecida?” O homem me olhou, olhou do lado e perguntou à colega. Ela não conhecia nenhuma ‘dona Aparecida’. Arrisquei ‘Cida”; não deu. ‘Cidinha’; não também. “Aquela mulher que cuidava do irmão que morreu recentemente...” “Ah, sim. Ela mora ali!”. Os dois saíram pra calçada e apontaram para um prédio. Andei um pouco e me enrolei, perdendo o rumo dado por dedos tão dedicados.

Parei numa farmácia e fiz a pergunta, mas agora da maneira certa. “Ali, naquele prédio, em cima da padaria”, respondeu o funcionário. Fui lá e vi que havia vários números de apartamentos no interfone. Pensei que poderia ser o 303 e apertei uma, depois outra vez – nunca aperto três vezes. Não deu. Entrei na padaria, comprei um bolinho de fubá e perguntei onde mora a dona Aparecida, aquela que cuidava (...), fui interrompido com a resposta: “No 202!”

 

8) Aperto o número 202, que talvez seja 203 (já esqueci) e fui atendido por uma voz familiar: “Quem é?” “Seu sobrinho filipe. Lembra de mim?” “Track!!”, essa foi a resposta dada, mas pelo portão, que destravou para, em seguida, a voz daquele interfone pedir pra eu subir.

A tia Aparecida me recebeu com sorriso e abraço calorosos, mas parecia pronta pra sair. Desconfiado, já fui dizendo que a minha passagem seria ligeira e que meu ônibus já estava quase saindo. Senti que a tia ficou aliviada com minha pressa, contudo, me convidou pra entrar e sentar, mas fiquei de pé na sala, achando que seria mais acertado. Apenas quis saber como ela está, como foram seus dias com o irmão de quem ela cuidou por onze anos, essas coisas. Ela me contou detalhes dos cuidados finais com o irmão enfermo, da ausência da família nuclear dele, mas se disse tranquila por fazer o que tinha de ser feito. Disse também que uma filha, que mora no prédio, foi sua companheira nos momentos mais agudos da lida.

Passados uns vinte minutos, tempo suficiente para que eu soubesse segredos esquisitos de família e passagens difíceis da vida dela, encerrei a prosa e quis me despedir. Ela disse que teria de ir à fisioterapia, então fechou a porta, desceu comigo até a rua e nos despedimos. Dali, marchamos em sentidos opostos: ela para a clínica e eu para a rodoviária.

 

9) Chegando à rodoviária, vi que o meu ônibus sairia às dez e meia, e eu esperaria ainda por uma hora. Com tanto tempo livre, resolvi pegar o livro, e foi nesse momento que apareceu o gari Mário, cuja história contei neste blog. Saiu o Mário, chegou o ônibus. Subi, paguei a passagem e me sentei lá no fundo. Pensei: vou chegar às onze e vai dar pra eu fazer o almoço pra tia Geni.

O ônibus arranca comigo e outros poucos passageiros, avançando pelas ruas estreitas e acidentadas da pequena Visconde. Não me animei a ler. Preferi contemplar a paisagem urbana repleta de casebres malcuidados: alguns no alto do barranco, outros nas íngremes ribanceiras. E o ônibus vai bamboleando enquanto eu tento me segurar para não escapar do banco. Ao lado, era a minha mochila que tremia temendo ir ao chão num escorregão.

O ônibus alcança a zona rural e vejo a paisagem desolada, com os pastos ressequidos devido à longa estiagem. O inverno é sempre assim, mas nunca me acostumo e vivo sempre ansiado pelas chuvas e pelas cores da primavera, que logo vêm.

De repente, a embarcação entra no perímetro urbano da minha cidade e eu começo a ficar preocupado se já não seria a hora de “apear”, como diria papai. Cismei que tinha de descer e puxei a corda, que buzinou na orelha do motorista, que freou e parou bruscamente. Desci, mas desci errado e tive que caminhar por longa distância, talvez uns cem metros, até o ponto onde eu deveria parar. Essa não foi a primeira vez que erro a parada.

Caminhei, caminhei, caminhei e cheguei à casa da tia Geni. Contudo, dessa vez ela não estava no alpendre me esperando como da outra vez. Mal apertei a campainha e já apareceu uma carinha redonda e desconfiada numa das janelas. Era a tia, que não me parecia tão receptiva como antes.

(continua...)

FILIPE