14) A pia da cozinha estava
entupida, mas não era uma calamidade porque, embora muito vagarosamente, a água
ainda escoava. Mas aquilo foi me incomodando a ponto de me deixar irritado. Sempre
que eu fosse lavar uma coisinha, formava-se um lago cuja placidez me bambeava
os nervos. Então, fui ao mercado e comprei um ‘desentupidor de pia’, que é algo
semelhante a uma ‘saia de borracha’ de onde ergue um cabo de plástico. Eu
peguei aquele treco e dei várias bombadas no ralo, mas em vão foi meu esforço. Quanto
mais eu mexia mais a coisa emperrava e o bojo, de tão cheio, já começou a
transbordar a ponto de eu ter de tirar um pouco da água com uma caneca para
evitar um dilúvio na cozinha. A tia acompanhava tudo bem de perto e com uma atenção
que me paralisava. De repente, ela se lembrou de uma solução: “Deixe
eu pôr cloro aí, porque dizem que desentope mesmo.” Aceitei a sugestão de
pronto. Vai que a tia tem razão..., pensei. Então ela derramou certa quantidade
de cloro e me pediu pra esperar aquilo fazer efeito. Aguardei por um tempo e a
pia foi esvaziando, mas numa vagarosidade...
Perguntei à tia se ela tinha arame.
Tinha, e um bom arame. De aço, forte e comprido. Pequei um pedaço de pano e
amarrei na ponta daquele arame e chuchei no encanamento. Inicialmente, da pia
para baixo, e soquei, fui socando, mas nada da coisa desentupir. Depois,
resolvi fazer o percurso inverso. Do lado de fora, abri a tubulação de forma
que eu pudesse enfiar aquele arame até alcançar a pia. Foi uma luta. Já escurecia
e as lojas iam fechar. Caso eu precisasse de comprar algo, só no dia seguinte. E
fui socando e observando aflitivamente. Eu não estava tendo êxito, mas insisti.
De súbito, um jorro veio de encontro a mim, molhando minhas mãos e reacendendo
meus ânimos. Retirei o arame e a água fluiu “sorridente”, esvaziando a pia.
Entusiasmado agora, fui lá, abri
a torneira e lavei bem as mãos por duas razões: uma porque estavam sujas, e outra porque
eu precisava testar o funcionamento da pia. Estava tudo perfeito. No entanto, uma
faísca de preocupação apagou minha alegria quando ouvi a tia dizer: “Ô diacho, está vazando água debaixo da
pia...” E estava mesmo! Havia um vazamento misterioso que, com o tempo, poderia
fazer uma molhaceira danada – não
apenas embaixo da pia, mas também nas adjacências. Pensei no pior: o arame deve
ter perfurado a tubulação e eu não ia conseguir consertar aquilo,
principalmente à noite.
Mas a ‘minha salvação’ veio da
própria tia Geni, quando ela me disse: “Ah, eu pus cloro, que é terrível e deve
ter provocado esse vazamento.” Dando uma de migué,
fui logo concordando. “Ih, tia, é verdade! Cloro é muito corrosivo. Agora
precisamos esperar pra ver como resolver isso. Se amanhã o vazamento continuar,
talvez tenha de chamar um pedreiro para consertar, mas vou tentar fazer algo
sem que precise dele.” Dito isso, peguei uma toalha velha, pus no piso embaixo
da cuba a fim de absorver a água que marejasse e a deixei lá. No dia seguinte
eu teria de buscar uma solução.
Continua...
FILIPE


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