sexta-feira, 26 de março de 2021

TURBULÊNCIAS NO PARAÍSO

Dia 20 de março fez um ano que tivemos de mudar às pressas para fora dos “muros da cidade”. A voraz pandemia, que apenas começava, obrigou-nos a essa aventura, que depois se revelou prazerosa. Morar em região montanhosa, cercado de vegetação, ar limpo e brisa noturna não é algo trivial. Aqui há dessas coisas, e há mais: tenho mangueiras que me dão frutos a seu tempo e sombra a todo tempo, e onde quero amarrar uma rede para as tardes preguiçosas.

E tenho bons vizinhos também, cada qual vivendo na quietude de seu canto. Uns criam galinhas, outros cães, outros nada. Não crio galinhas, mas tenho cães que ladram sem parar. Mas a ‘turbulência’ do título não é por conta das matilhas. 

Tempos atrás tive que comparecer a uma DP como testemunha de acusação contra um sujeito que soltava rojões de madrugada por causa de um galo. O simpático garnisé não entendia que o vizinho protestava e continuava sua cantoria apesar dos estrondos. O “fogueteiro” não se deu por vencido e apelou: antes das seis da manhã, uma bomba fez-se ouvir. Como consequência disso, houve boletim de ocorrência, intimação etc. Contudo, voltou a paz para aqueles lados.

Da última vez, embora sem rojões nem boletins, houve um pequeno entrevero entre dois vizinhos, de quem sou amigo. “Meu parente mais próximo é o meu vizinho”, diz a sabedoria popular, e eu costumo levar isso em conta.  Dessa forma, prefiro ficar “de boa” com a vizinhança, sempre evitando qualquer mal-estar.   

Meu vizinho, o protagonista desta crônica, tem muitas galinhas, cuida muito bem delas e não as mata, o que me deixa contente. A vizinha também tem lá as suas galinhas e delas aproveita apenas os ovos. Mas houve entre eles um desacerto, que não sei bem os detalhes. Ela nervosa, ele também; ela dizendo que ele tem muito bicho e que tem vizinho reclamando; ele dizendo que se alguém reclama, que fale com ele etc. Como há “vizinhos reclamando”, eu me vendo nesse torvelinho, quis passar a limpo a minha parte e procurei o rapaz na manhã seguinte. Ele estava lidando com as ‘penosas’ e parecia não querer papo comigo, mas insisti para que viesse conversar.

Ele chegou bastante desconfiado, pôs o balde com o milho no chão, coçou a cabeça e me retribuiu meio a contragosto o bom-dia. “O que está acontecendo?”, perguntei. “Nada”, respondeu. “Nada?!”, insisti. “Me falaram que um vizinho está reclamando de minhas galinhas e eu falei que é pra falar comigo. Foi isso”, respondeu agora de forma satisfatória. “Pois bem, se o vizinho sou eu, não há reclamação alguma. Gosto do senhor e tenho enorme carinho pela vizinha também. E quero deixar claro que sou inocente nessa questão”. Ele desanuviou o semblante e até ensaiou sorrir, mas fechou-se novamente e disse:  “Olha, eu fiquei bravo mesmo, porque não sei quem reclamou e disse que era pra falar comigo. E sabe de uma coisa?... Eu mandei todo mundo tomar no ‘copo’!” “Ah, disso aí não sabia, mas eu não vou tomar no ‘copo’, porque não tenho a ver com isso, né?...”  E assim parece que ficou resolvida a questão. 

FILIPE

 


sexta-feira, 12 de março de 2021

TIZIU


Vou falar do Tiziu, mas só no final da crônica. Se eu fosse você, pulava logo para o último parágrafo, porque no miolo desta só tem pedreira. 

Eu estava feliz com o retorno à sala de aula. Havia poucos alunos, mas valia a pena devido ao interesse deles. No entanto, outra onda maligna da covid nos fez retornar ao trabalho remoto e, para que eu não ficasse tão improdutivo, quis seguir o exemplo de uma amiga que comprou uma lousa branca e dá aulas em casa, usando as mídias. 

Fui à cidade, que estava quase deserta em razão do lockdown, e me dirigi a uma papelaria onde o atendimento se dava por uma janela. Havia umas três ou quatro pessoas à minha frente, mas eu não tinha pressa. Peguei meu jornal e comecei a ler, como sempre faço em ambientes com estranhos. Eu tenho dessas. Se não conheço ou não tenho afinidade, prefiro ler a forçar uma prosa. 

Chegou, então, um sujeito falante, puxador de assunto, a quem cumprimentei sem muita vontade. Animado, ele começou com esta: “A que ponto chegamos, hein?” “É... a que ponto chegamos!”, concordei, mesmo sem saber que ‘ponto’ era esse. Pensei na pandemia, que batera mais um recorde de óbitos. Pensei na carestia, no desemprego. Mas não. Ele se referia ao comércio fechado – que nem estava fechado. Bravo, ele queria que tudo ficasse aberto. E começou a falar mais alto enquanto ganhava apoio dos que estavam na fila. “E o supremo, o que você achou daquilo?”, provocou. “Eu jogaria uma bomba lá”, um respondeu.  “É brincadeira...”, disse outro. “Vou te contar... eu não aguento mais essa palhaçada. Queria que um sniper acertasse a cabeça do Lula!”, interveio um terceiro. 

Uma carga elétrica percorreu-me a espinha e senti o curto-circuito na garganta. Quando me dei conta da situação, eu já estava no fogo. “Tem que acertar é a cabeça do Bozo, aquele fdp”, esbravejei com todas as letras e sem medir riscos. Pela primeira vez na vida usei essa expressão e ela saiu tonitruante. Na hora, até gostei, mas depois me senti mal com aquilo. Não xingo, não gosto de ouvir xingamentos, e muito menos na quaresma. Mas saiu... fazer o quê?... Os meus companheiros de fila, talvez ofendidos, calaram-se ou mudaram de assunto. 

Não dá para defender um genocida responsável pelos muitos milhares de mortes evitáveis nessa pandemia. Mas o Belzebu tem algo mais importante a fazer. Ele quer assegurar ao “cidadão de bem” acesso a até 60 armas de fogo, mas não garante vacina para o povo. Resumindo: quem preconiza a morte jamais promoverá a vida. Agora vamos ao cãozinho, que está me esperando. 

O Tiziu aprontou das suas anteontem. Pulou uma cerca e se atracou com um ouriço, que lá em Minas nós conhecemos como “luís-cacheiro”. Mas ele perdeu a briga. Foram tantas as agulhas enfiadas na boca, no peito e nas patas, que não sei como sobreviveu. Sobrou para mim tirar aqueles espinhos, que me deu um baita trabalho. Só espero que o moleque tenha aprendido a lição e nunca mais se meta à besta com “luís-cacheiro”. 

FILIPE


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

ONANISMO PEDAGÓGICO

 

O título pode chocar os leitores mais pudicos, se é que os tenho, mas não achei palavra melhor para traduzir meus ânimos nesses tempos pandêmicos.

Começo falando sobre algo ocorrido nesta semana e que me deixou desconcertado, isto é, a meio caminho entre a vergonha e a ira. Fiquei envergonhado porque ao longo de trinta anos como professor, nunca fui repreendido por um superior sem que este não recebesse a devida réplica; desconcertado porque fui admoestado e sem condições de me defender; irado porque há um plano malévolo de doutrinação de professores orquestrado por uma elite que desconhece a escola pública. 

Ano passado, durante todo o período de teletrabalho, fomos obrigados a assistir a inúmeras videoconferências, teleconferências, palestras, monólogos e quejandos. Neste ano, apesar do risco de contaminação, fiquei mais tranquilo porque me senti livre daquelas amarras. Mas descobri que não estou liberto. Explico. 

De volta à sala de aula, sem alunos, e com vontade de exercer a docência, encontrei uma colega em início de carreira com quem comecei a desenvolver um trabalho conjunto.  Pegamos o material pedagógico e começamos a planejar, já que dividiremos algumas séries do ensino médio. Foram vários dias revendo conteúdos, resolvendo exercícios, discutindo a melhor forma de abordagem etc. No embalo, esqueci de que havia uma videoconferência da qual eu deveria participar como ouvinte. A “chefe” chegou e perguntou: “Não está assistindo à videoconferência?” Eu disse que não, que havia esquecido... (menti). Mas ela foi incisiva: “Não pode deixar de assistir!” Sem defesa, resolvi atacar: “Essas VC nada me acrescentam, é tudo enrolação! Já aqui, estudamos, planejamos, produzimos”. A “chefe”, no entanto, não se deu por vencida e rebateu: “Tem que assistir, porque todos assistem e sou cobrada!” Finalmente cedi, mas atirando: “Por você, e apenas por você, vou assistir à reprise. Mas essas ATPCs são um lixo!” A professora se foi e eu fiquei perturbado com o episódio: primeiro, porque tenho muito carinho por ela; segundo, porque ela estava apenas fazendo o seu trabalho. 

Terminado o expediente, voltei para casa cansado, chateado, bastante maltratado pela situação. Então abri o computador e me dei ao sacrifício de assistir à malfadada teleconferência, desta vez com expressões floridas como “trilhas de aprendizagem” e “transbordamento”. Pernósticos, esses atores não se cansam de inovar com a melosidade de “um beijo no coração de todos e todas”, ou com as palavras da moda: “protagonismo”, “galera”, “ressignificação”, “engajamento”, “inovação” e a indefectível “resiliência”. Ah, e tem as expressões inglesas, que não sei falar nem escrever. Eles querem ser chiques, mas são bregas, e talvez não saibam que antigamente, quando se aprendia português de verdade, a professora citava o ‘anglicismo’ e o ‘galicismo’ como os principais vícios de linguagem denominado ‘estrangeirismo’. 

Após assistir ao vídeo, com duração superior ao de um longa-metragem, encaminhei relatório com um comentário bastante cáustico, mas verdadeiro: “Não conheço professor com alguma argúcia e pensamento elaborado que aprecie as atividades da EFAPE”. 

Neste momento em que a pandemia de covid atinge o pico de internações e mortes, o governo decide pela volta às aulas presenciais. Os onanistas da EFAPE, aqueles das palestras enfadonhas, estão a salvo da contaminação; já os professores não terão melhor sorte. 

FILIPE

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O GRANDE ENCONTRO

 


Sim, este foi para mim um grande encontro. Maria Eugênia veio conhecer seu avô após sete meses de longa espera. Ela chegou numa ensolarada tarde de sábado, bastante cansada de uma viagem que deve lhe ter sido interminável. Assim que o carro estacionou na garagem, fui ao seu encontro, não sem uma pequena preocupação: bebês são sinceros demais e costumam afastar estranhos. Eu era um estranho ali e ela deveria me dar uma bicuda logo de cara.

Chegando, cumprimentei os pais e me dirigi àquela por quem tanto ansiava. Apertei a maçaneta e abri a porta do carro. Ela me olhou enigmática, mas não se esquivou. Apresentei-me solene, beijando-lhe a ponta de um dedinho e a abençoei. Em seguida, tentei destravar o cinto para tirá-la, mas o cinto não destravava. Então a ergui por sobre o cinto e, com grande contorcionismo, consegui içá-la sem que se tocasse o teto. Entre assustada e curiosa – mais curiosa do que assustada – ela me olhou fixamente mais uma vez e avaliou a situação. Cansada que estava, cedeu e se aninhou no meu colo – para júbilo meu e espanto de alguns.

Com esse pequeno triunfo, subi apressadamente a escada e a levei até a varanda. Eu quis mostrar o arvoredo, as montanhas, o horizonte dourado daquela tarde irrepetível, mas ela preferiu olhar para meus óculos, quis agarrá-los, torcê-los.

Nesse dia Maria Eugênia me trouxe de presente um passado não muito distante. Ela me levou ao tempo em que eu cuidava de uma bebê igualmente fofa e que hoje é sua mãe. Mas não só. Ela me levou para mais longe ainda. Fui transportado para a casa de meus pais quando meus irmãos mais novos – cada qual a seu tempo, é claro – eram bebês como esta que eu trazia nos braços agora. Lembrei-me vividamente daqueles meus irmãozinhos – talvez uns sete – dos quais ajudei a cuidar. Os bracinhos roliços e torneados; os pezinhos redondos, quase esféricos; os dedinhos rotundos como batatinhas; os gestos erráticos; as mãos inquietas; os olhos curiosos; a impaciência com a mamadeira que nunca fica pronta (...). 

Ah, a experiência de ser avô é indescritível, e quem define bem esse estado de graça é um irmão, dono de um rico patrimônio de quatro rebentos: “Ih, é muito bom ter netos!” 

A minha cronológica traz algo bastante curioso. Três decênios me separam do nascimento de meu pai, e com três decênios tive minha filha. Explicando: papai tinha 31 anos quando nasci e eu tinha 30 anos quando minha filha nasceu. O mais curioso, contudo, é que meu avô paterno tinha 58 anos quando eu nasci; e com essa idade eu tive minha neta. Um “breve” período de 116 anos separa os nascimentos de Sebastião Lopes e Maria Eugênia, e na metade exata desse intervalo eu vim ao mundo. Então posso antever o que serei para a Maria Eugênia: um velho! Porque o meu avô Sebastião, de cabelos brancos, botinas de couro cru, chapéu de lebre e dente de ouro, foi o primeiro “homem velho” a cruzar minhas veredas.
 

FILIPE


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

MINUDÊNCIAS DO COTIDIANO

 


Esse aí é o Patão, mas só falarei dele mais para a frente. Porque se ele não tem pressa, eu também não tenho.

Nesses tempos insanos, minha saúde mental exige que eu procure algo que possa minorar minhas agruras, pois meu dia a dia tem sido bastante confuso. Embora eu tenha afazeres domésticos, tento pôr ordem no quintal, recortar jornais, pôr a leitura em dia, mas não consigo muita coisa, não. Começo cortando a grama; deixo a grama e começo a recolher as folhas; deixo as folhas e começo a colher mangas; deixo as mangas e começo a acender o fogo; deixo o fogão a lenha em meio a uma fumaceira danada e começo a descascar as mangas; deixo as mangas e volto ao fogão, porque o fogo está muito violento; dou uma “bronca” no fogo, que se abranda, e volto a descascar as mangas; encho a panela com polpa, ponho no fogo e vou limpar a pia; deixo a pia e levo os rejeitos de manga para as galinhas do vizinho. E o doce fica pronto e fica bom. 

Abandono a TV Cultura e cumpro a melhor parte da minha rotina: pego um baldinho com cascas de frutas e de legumes e levo para as “meninas” do vizinho. É uma festa! Ali, bicos famintos e vorazes quase furam minhas mãos enquanto distribuo as iguarias. Tem o galo, que canta forte um grito de “socorro”; tem também garnisés e galinholas; tem frangos e frangotes; e tem patos sem lagos, coitados. O gingado, a despreocupação e a falta de pressa fazem dos patos as aves mais charmosas. E lá tem o Patão, de quem não falarei ainda. 

Leio notícias de Brasília e fico depressivo. Então pego a raquete elétrica e grelho algumas moscas e as jogo na teia da Chiquinha, nossa aranha de estimação. Todos os dias preciso alimentá-la e jogo uma ou duas moscas torradinhas para ela, que parece ficar agradecida e preguiçosa e cada vez mais gorducha. Vou à varanda e observo o casal de rolinhas que aproveitaram um antigo ninho e onde criam dois lindos filhotes. Um tucano, que fica à espreita, já devorou minhas juritis, mas essas rolinhas foram mais espertas e se aninharam bem próximas de minha janela. Aqui o tucano não se mete, eu acho. 

No pomar aparecem uns macaquinhos que comem as minhas jabuticabas e cobiçam minha banana-maçã. Já deixei um cacho de banana para eles, e agora chega. Outro dia eles estavam lá: pai, mãe e filho brincando de esconde-esconde. Um descia do abacateiro e o outro descia também; um se escondia e o outro procurava; o que era encontrado subia rapidamente; o outro corria atrás e já não o achava. Por uns bons minutos pude apreciar a cena. Mas se eles estavam à toa e eu tinha serviço. Desci.

Ah, vou falar do Patão. Esse coitado nunca comia. Até ele chegar numa casca de banana, um bico mais veloz já havia tascado. Era sempre assim, atrasado. Eu jogava na direção dele, em cima dele, mas nada! Sempre abobado, sem saber o que fazer, ele me deixava condoído. Mas, com o tempo, fizemos amizade. Agora que ele confia em mim, come na minha mão. Então encho a mão com cubinhos de casca de melancia, sua comida preferida, e estendo na sua direção através do alambrado. Ele chega com aquele bico enorme e pega a comida, mas com uma delicadeza... 

Valeu, Patão. Vida longa, amigão. Amanhã tem melancia, tá ok?... A sua porção está reservada. Com o Patão e essas miudezas, toco meu dia a dia. Porque sem isso acho que eu não resistiria. 

FILIPE


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

O VÍRUS E O VERME

O mundo tem o vírus; o Brasil tem o vírus e o Verme. Poucos sabem, mas “coronavírus” virou apelido do vírus da ‘covid’ pelo fato de ele possuir uma coroa.

 

Diferentemente do que faz a imprensa, grafei ‘covid’ com inicial minúscula porque é assim que deve ser escrito. Explico. Não se escreve ‘gripe’, ‘tuberculose’, ‘câncer’ e outras moléstias com inicial maiúscula. Então por que escrever ‘covid’ de outra forma?... Mesmo ela não sendo uma ‘gripezinha’ como disse o Verme... opa! Aqui tem um detalhe. Esse “verme”, que não é um vermezinho qualquer, já deve ser grafado com inicial maiúscula. Pelo menos é o que recomenda a boa gramática. Então eu, por respeito ao ‘cara’ e por elegância de estilo, escreverei sempre ‘Verme’ com inicial maiúscula. Em síntese, nomes de pessoas, que são nomes próprios, devem ser escritos sempre com inicial maiúscula – ainda que não mereçam.

 

O vírus tem feito a ceifa no Brasil. Já são mais de 208 mil óbitos pelas contas oficiais; extraoficialmente, esse número pode ser multiplicado por cinco, segundo alguns especialistas. Portanto, as vítimas fatais da covid no Brasil poderão estar na casa dos sete dígitos (1.000.000). Além dessas há um sem-número de mortes, não por covid, mas em razão dela pela falta de atendimento no sistema hospitalar colapsado. No mundo já são contabilizados dois milhões de mortes por covid. O Brasil, que tem menos de três por cento da população mundial, já conta com mais de 10 por cento das mortes por covid no planeta. Há aí uma triste desproporção.

 

Não se sabe o que fazem os milhares de militares que lotam os escalões do governo federal, quando não há sequer oxigênio nos hospitais.  A situação é gravíssima em Manaus onde havia cerca de 35 sepultamentos diários antes da pandemia, e esse número já chegou a 198 nesta semana. O oxigênio que faltou aos pacientes poderia ser adquirido na vizinha Venezuela, mas o Verme não aceitou. Ele está “de mal” com o governo venezuelano por razões bastante infantis. Antes, quando candidato, prometeu invadir a Venezuela – como uma criança pularia o muro do vizinho para roubar laranjas. Mas algum militar com cérebro – e existe alguém pensante nas forças armadas, acredite – disse ao Verme que, se invadisse a Venezuela, teria que enfrentar russos e chineses. Isso foi o suficiente para o energúmeno se aquietar, mas ficou de “cara virada” com o vizinho.

 

Mas o Verme continua firme. Com sua campanha antivacina, antimáscara, antilockdown e, pior, com apoio da população, poderá se reeleger. Segundo pesquisa publicada hoje, o ‘desmascarado’ tem robustos 37% de ótimo ou bom.

 

Que Deus tenha misericórdia, porque aqui o problema não é ‘uma pessoa’, mas uma ‘legião’.

 

FILIPE

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A FAMÍLIA 'MOURA LIMA'

 


Esta é a minha família e essa foto foi tirada no antigo terreiro da casa em que vivi a minha infância. Numa casinha de alvenaria e sem reboco que existia ali, minha mãe teve sete filhos, sendo que seis estão na foto e o outro partiu ainda na primeira infância. Lembro muito bem de cada nascimento, que enchia de júbilo a nossa casa.

 

Funcionava assim. Algumas vezes, sem que soubéssemos de nada, uma avó chegava à tardinha em casa e ficava para pernoitar. Eu achava estranho, porque minhas avós não tinham o costume de nos visitar. E ainda vindo para dormir?...  Bem, minha avó chegava, se ajeitava numa esteira na sala e lá dormia. Nós também íamos para cama cedo, logo após o anoitecer, porque não tínhamos sequer rádio de pilha para nos entreter. Lá pelas tantas, não sei se meia-noite ou três da manhã, papai chegava ao nosso quarto e bradava: “Tem gente nova!” Acordávamos sem entender, mas tudo se esclarecia com o choro do recém-nascido. Então levantávamos e íamos até o quarto dos pais. Lá estava minha jovem mãe amamentando um bebezinho já envolto em flanelas. Na cozinha, minha avó estava ao fogão fazendo uma ‘canja’, que não era bem canja, mas caldo de galinha com farinha de milho. Minha mãe tomava aquela refeição sempre que estava “de resguardo”, e eu gostava de ficar por perto, observando-a. Quando mamãe  terminava, eu pegava seu prato e raspava o restinho. Ela, sabendo que eu queria participar de seu lanche, sempre deixava um fundinho de prato para mim. Ah, como era gostoso!...

 

Os meninos lá em casa cresciam sempre robustos. Todos eram alimentados nos primeiros meses apenas com o leite materno. Quando crescidos, porém, papai preparava mingau de fubá, que era feito com leite de vaca e adoçado com rapadura. Esse mingau era dado numa mamadeira de plástico que durou várias gerações de bebês. Quando o bico dessa mamadeira estourava, papai comprava outro e punha na mesma garrafa. E assim, com poucos recursos e alguma criatividade, papai criava sua prole que crescia e crescia. Toda vez que o caçula beirava os dois aninhos, porém, outro rebento surgia no ninho e a história se repetia.

 

Quando a criança ficava maiorzinha e deixava de ser caçula, perdia o colo, mas papai improvisava. Pegava um caixote de madeira e fazia dele um ‘carrinho de bebê’, só que sem rodas. Punha nele a criança e ali ela ficava no meio da casa para que todos a entretivéssemos, puxando ou empurrando o seu caixote. De início a criança se assustava, mas depois gostava e dava risada com o movimento brusco no chão cimentado. Aquele caixote fez história, porque durante o dia, era a casa, a cama e a privada do bebê – antes de aprender andar. De vez em quando papai nos mandava lavar o caixote, porque ele estava ficando inabitável.

 

Mas é preciso voltar à fotografia que abre esta crônica. Ali vejo com alegria nostálgica o passado e com tristeza o futuro. Tristeza, porque esse pode ser o último registro da família completa.   Tristeza porque a vida corre célere e o tempo é uma moenda que tudo mói. Tristeza porque logo será pó a minha história.

 

FILIPE