Esse é o Samuel, meu irmão
caçula, que literalmente acaba de completar ‘quarenta e cinco janeiros’. Nem dá
pra acreditar que o moleque, nascido outro dia mesmo, atingiu a maturidade e já
tateia os “umbrais da velhice” (brincadeira, Samuca).
Dos treze partos de minha mãe, o
do caçula foi o único feito na maternidade; os demais foram assistidos por
parteiras ou pelo meu pai. Por isso mesmo, eu costumava assombrar esse mano com
uma dúvida: “Será que não trocaram você no hospital?...”
O Samuel teve uma infância pobre,
como os demais manos tivemos, mas foi sempre muito amado e feliz. Interessante
que ele, quando menino, nunca usou calças curtas. Eu olhava aquele pirralho num
misto de dó e mofa: ele parecia um velhinho em miniatura com aquela calça
comprida de tergal e camisa social. No entanto, o porquê disso será omitido
aqui.
Esperto, desde muito novo já
faturava uma graninha como “menino da porteira” na Santa Montanha onde morava.
Ao ouvir o som de um motor, corria para abrir a porteira que tinha na estrada
perto de casa. Alguma boa alma lhe lançava uma moeda; outras apenas um ‘muito
obrigado’. Mas ele não desistia.
O tempo passou e o caçula ficou
moço e foi para a cidade grande tentar melhorar a vida. Certa vez o encontrei
meio esbarrado com a vida porque os bicos que fazia não lhe rendiam muita
coisa. Então sugeri que fosse trabalhar como servente de pedreiro. Aliás, não sei por quê, mas tenho mania de
recomendar essa profissão a muita gente. Volta e meia estou dizendo: “Por que
você não vai trabalhar de servente? Pedreiro ganha bem e tem alta autoestima.
Alguém já viu um pedreiro triste, desanimado com a vida? Eu nunca vi. Então, você
que é jovem e saudável, vá ser pedreiro pra ser feliz!”
Mas o irmãozinho não topou. “Ah,
tá... Você passa o dia inteiro segurando o peso de um giz e quer que eu carregue
uma enxada?!” – protestou. O Samuel não virou pedreiro, mas foi motoboy,
balconista, entregador de ração e... agora é barbeiro – como demonstra a foto
que abre a crônica, feita em julho passado numa visita surpresa que lhe
fiz.
Houve um tempo em que o mano até
tentou estudar, matriculando-se num supletivo. Todavia ele não deu conta do
curso. Após o trabalho, ele chegava todas as noites na escola com seus livros e
cadernos, mas a coisa não avançava. Havia uns caras atrapalhando a aula e um,
mais atrevido, desafiava a professora. Pra não ter que sair no tapa com o
moleque, o Samuel saiu da escola e nunca mais voltou.
Mesmo com pouco estudo, esse
irmãozinho sabe muito. Conversar com ele é um aprendizado. O homem discute desde
assuntos mais comezinhos até coisa mais complexa como geopolítica. Posso
afirmar que o nosso caçula é o mais bem informado dos irmãos, e que ele está
bem à frente de muitos desses “doutores” que empesteiam as redes sociais.
Sem precisar pegar na enxada, aos
45, o Samuel ganha dignamente a vida usando tesoura e “roçadeira” na cabeça dos
caboclos que o procuram na Barbearia Vip. Ele disse que esse é o fim da
primeira etapa do jogo e espera cumprir o segundo tempo, seguindo o papai. E como
o papai, há de haver acréscimo.
FILIPE

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