terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

MINUDÊNCIAS DO COTIDIANO

 


Esse aí é o Patão, mas só falarei dele mais para a frente. Porque se ele não tem pressa, eu também não tenho.

Nesses tempos insanos, minha saúde mental exige que eu procure algo que possa minorar minhas agruras, pois meu dia a dia tem sido bastante confuso. Embora eu tenha afazeres domésticos, tento pôr ordem no quintal, recortar jornais, pôr a leitura em dia, mas não consigo muita coisa, não. Começo cortando a grama; deixo a grama e começo a recolher as folhas; deixo as folhas e começo a colher mangas; deixo as mangas e começo a acender o fogo; deixo o fogão a lenha em meio a uma fumaceira danada e começo a descascar as mangas; deixo as mangas e volto ao fogão, porque o fogo está muito violento; dou uma “bronca” no fogo, que se abranda, e volto a descascar as mangas; encho a panela com polpa, ponho no fogo e vou limpar a pia; deixo a pia e levo os rejeitos de manga para as galinhas do vizinho. E o doce fica pronto e fica bom. 

Abandono a TV Cultura e cumpro a melhor parte da minha rotina: pego um baldinho com cascas de frutas e de legumes e levo para as “meninas” do vizinho. É uma festa! Ali, bicos famintos e vorazes quase furam minhas mãos enquanto distribuo as iguarias. Tem o galo, que canta forte um grito de “socorro”; tem também garnisés e galinholas; tem frangos e frangotes; e tem patos sem lagos, coitados. O gingado, a despreocupação e a falta de pressa fazem dos patos as aves mais charmosas. E lá tem o Patão, de quem não falarei ainda. 

Leio notícias de Brasília e fico depressivo. Então pego a raquete elétrica e grelho algumas moscas e as jogo na teia da Chiquinha, nossa aranha de estimação. Todos os dias preciso alimentá-la e jogo uma ou duas moscas torradinhas para ela, que parece ficar agradecida e preguiçosa e cada vez mais gorducha. Vou à varanda e observo o casal de rolinhas que aproveitaram um antigo ninho e onde criam dois lindos filhotes. Um tucano, que fica à espreita, já devorou minhas juritis, mas essas rolinhas foram mais espertas e se aninharam bem próximas de minha janela. Aqui o tucano não se mete, eu acho. 

No pomar aparecem uns macaquinhos que comem as minhas jabuticabas e cobiçam minha banana-maçã. Já deixei um cacho de banana para eles, e agora chega. Outro dia eles estavam lá: pai, mãe e filho brincando de esconde-esconde. Um descia do abacateiro e o outro descia também; um se escondia e o outro procurava; o que era encontrado subia rapidamente; o outro corria atrás e já não o achava. Por uns bons minutos pude apreciar a cena. Mas se eles estavam à toa e eu tinha serviço. Desci.

Ah, vou falar do Patão. Esse coitado nunca comia. Até ele chegar numa casca de banana, um bico mais veloz já havia tascado. Era sempre assim, atrasado. Eu jogava na direção dele, em cima dele, mas nada! Sempre abobado, sem saber o que fazer, ele me deixava condoído. Mas, com o tempo, fizemos amizade. Agora que ele confia em mim, come na minha mão. Então encho a mão com cubinhos de casca de melancia, sua comida preferida, e estendo na sua direção através do alambrado. Ele chega com aquele bico enorme e pega a comida, mas com uma delicadeza... 

Valeu, Patão. Vida longa, amigão. Amanhã tem melancia, tá ok?... A sua porção está reservada. Com o Patão e essas miudezas, toco meu dia a dia. Porque sem isso acho que eu não resistiria. 

FILIPE


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

O VÍRUS E O VERME

O mundo tem o vírus; o Brasil tem o vírus e o Verme. Poucos sabem, mas “coronavírus” virou apelido do vírus da ‘covid’ pelo fato de ele possuir uma coroa.

 

Diferentemente do que faz a imprensa, grafei ‘covid’ com inicial minúscula porque é assim que deve ser escrito. Explico. Não se escreve ‘gripe’, ‘tuberculose’, ‘câncer’ e outras moléstias com inicial maiúscula. Então por que escrever ‘covid’ de outra forma?... Mesmo ela não sendo uma ‘gripezinha’ como disse o Verme... opa! Aqui tem um detalhe. Esse “verme”, que não é um vermezinho qualquer, já deve ser grafado com inicial maiúscula. Pelo menos é o que recomenda a boa gramática. Então eu, por respeito ao ‘cara’ e por elegância de estilo, escreverei sempre ‘Verme’ com inicial maiúscula. Em síntese, nomes de pessoas, que são nomes próprios, devem ser escritos sempre com inicial maiúscula – ainda que não mereçam.

 

O vírus tem feito a ceifa no Brasil. Já são mais de 208 mil óbitos pelas contas oficiais; extraoficialmente, esse número pode ser multiplicado por cinco, segundo alguns especialistas. Portanto, as vítimas fatais da covid no Brasil poderão estar na casa dos sete dígitos (1.000.000). Além dessas há um sem-número de mortes, não por covid, mas em razão dela pela falta de atendimento no sistema hospitalar colapsado. No mundo já são contabilizados dois milhões de mortes por covid. O Brasil, que tem menos de três por cento da população mundial, já conta com mais de 10 por cento das mortes por covid no planeta. Há aí uma triste desproporção.

 

Não se sabe o que fazem os milhares de militares que lotam os escalões do governo federal, quando não há sequer oxigênio nos hospitais.  A situação é gravíssima em Manaus onde havia cerca de 35 sepultamentos diários antes da pandemia, e esse número já chegou a 198 nesta semana. O oxigênio que faltou aos pacientes poderia ser adquirido na vizinha Venezuela, mas o Verme não aceitou. Ele está “de mal” com o governo venezuelano por razões bastante infantis. Antes, quando candidato, prometeu invadir a Venezuela – como uma criança pularia o muro do vizinho para roubar laranjas. Mas algum militar com cérebro – e existe alguém pensante nas forças armadas, acredite – disse ao Verme que, se invadisse a Venezuela, teria que enfrentar russos e chineses. Isso foi o suficiente para o energúmeno se aquietar, mas ficou de “cara virada” com o vizinho.

 

Mas o Verme continua firme. Com sua campanha antivacina, antimáscara, antilockdown e, pior, com apoio da população, poderá se reeleger. Segundo pesquisa publicada hoje, o ‘desmascarado’ tem robustos 37% de ótimo ou bom.

 

Que Deus tenha misericórdia, porque aqui o problema não é ‘uma pessoa’, mas uma ‘legião’.

 

FILIPE

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A FAMÍLIA 'MOURA LIMA'

 


Esta é a minha família e essa foto foi tirada no antigo terreiro da casa em que vivi a minha infância. Numa casinha de alvenaria e sem reboco que existia ali, minha mãe teve sete filhos, sendo que seis estão na foto e o outro partiu ainda na primeira infância. Lembro muito bem de cada nascimento, que enchia de júbilo a nossa casa.

 

Funcionava assim. Algumas vezes, sem que soubéssemos de nada, uma avó chegava à tardinha em casa e ficava para pernoitar. Eu achava estranho, porque minhas avós não tinham o costume de nos visitar. E ainda vindo para dormir?...  Bem, minha avó chegava, se ajeitava numa esteira na sala e lá dormia. Nós também íamos para cama cedo, logo após o anoitecer, porque não tínhamos sequer rádio de pilha para nos entreter. Lá pelas tantas, não sei se meia-noite ou três da manhã, papai chegava ao nosso quarto e bradava: “Tem gente nova!” Acordávamos sem entender, mas tudo se esclarecia com o choro do recém-nascido. Então levantávamos e íamos até o quarto dos pais. Lá estava minha jovem mãe amamentando um bebezinho já envolto em flanelas. Na cozinha, minha avó estava ao fogão fazendo uma ‘canja’, que não era bem canja, mas caldo de galinha com farinha de milho. Minha mãe tomava aquela refeição sempre que estava “de resguardo”, e eu gostava de ficar por perto, observando-a. Quando mamãe  terminava, eu pegava seu prato e raspava o restinho. Ela, sabendo que eu queria participar de seu lanche, sempre deixava um fundinho de prato para mim. Ah, como era gostoso!...

 

Os meninos lá em casa cresciam sempre robustos. Todos eram alimentados nos primeiros meses apenas com o leite materno. Quando crescidos, porém, papai preparava mingau de fubá, que era feito com leite de vaca e adoçado com rapadura. Esse mingau era dado numa mamadeira de plástico que durou várias gerações de bebês. Quando o bico dessa mamadeira estourava, papai comprava outro e punha na mesma garrafa. E assim, com poucos recursos e alguma criatividade, papai criava sua prole que crescia e crescia. Toda vez que o caçula beirava os dois aninhos, porém, outro rebento surgia no ninho e a história se repetia.

 

Quando a criança ficava maiorzinha e deixava de ser caçula, perdia o colo, mas papai improvisava. Pegava um caixote de madeira e fazia dele um ‘carrinho de bebê’, só que sem rodas. Punha nele a criança e ali ela ficava no meio da casa para que todos a entretivéssemos, puxando ou empurrando o seu caixote. De início a criança se assustava, mas depois gostava e dava risada com o movimento brusco no chão cimentado. Aquele caixote fez história, porque durante o dia, era a casa, a cama e a privada do bebê – antes de aprender andar. De vez em quando papai nos mandava lavar o caixote, porque ele estava ficando inabitável.

 

Mas é preciso voltar à fotografia que abre esta crônica. Ali vejo com alegria nostálgica o passado e com tristeza o futuro. Tristeza, porque esse pode ser o último registro da família completa.   Tristeza porque a vida corre célere e o tempo é uma moenda que tudo mói. Tristeza porque logo será pó a minha história.

 

FILIPE


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

ESTÓRIAS SOBRE GUARDA-CHUVAS

Entrado em anos, não me lembro de períodos tão longos de seca como acontece atualmente. Quase não chove mais. Antigamente chovia e chovia muito. Tanto é verdade, que naquele tempo quase ninguém saia de casa desprevenido. O guarda-chuva era peça quase obrigatória do vestuário masculino e a sombrinha embelezava as mulheres. Conheci um homem que nunca andava sem o seu guarda-chuva.  Ele o encaixava no ombro (não sei como conseguia fazer aquilo) e assim caminhava pelas longas estradas empoeiradas ou barrentas do meu sertão. É... ninguém de “juízo perfeito” saía de manhã para voltar à tarde sem levar consigo o “morcegão”. 

Na minha casa havia um único guarda-chuva, que meu pai costumava deixar para nós, porque embaixo dele devia caber uns três moleques, ou mais. E ele se virava protegendo-se da chuva com um ‘saco de aniagem nas costas’ – uma peça conhecida por nós como “saco de mauá” ou “saco de linhagem”, que parece não existir mais. 

Certa vez meu pai comprou um guarda-chuva novinho e eu quis levá-lo para a escola. Aconteceu que os colegas de classe também levaram seus “morcegos” e, terminada a aula, cada um pegou o seu e se mandou para casa. Eu já estava longe quando lembrei do meu e voltei para pegá-lo. Sim, ele estava lá me esperando. Só que, quando cheguei em casa, papai ficou bravo comigo: “Este não é o guarda-chuva que comprei semana passada. O meu era novinho e este já está bem usado. Olha a ponta dele...” Olhei e vi que a ponta do guarda-chuva estava desgastada. Talvez o seu antigo dono gostasse de fincá-lo no chão, fazendo dele uma bengala. Mas não tive como reaver o novo e ficamos com aquele velho mesmo. 

No dia em que fui receber meu “diploma” do curso primário, estava chovendo. Chegando ao arraial de Vilas Boas, onde haveria a cerimônia de entrega do certificado, eu estava “armado” de um guarda-chuva. Eu ia todo feliz quando veio um “pé de vento” e me rodopiou, fazendo de meu “amigo” uma espécie de paraquedas. O vento quis tomá-lo de mim e eu resisti. Ele puxava para cima, eu puxava para baixo; ele puxava para um lado, eu puxava para o outro. Quando eu ia desistir, porque eu já estava quase subindo aos céus, houve uma pequena explosão e meu guarda-chuva virou do avesso. Não fosse o papai, eu teria me molhado todo e ainda teria que carregar aquela coisa com estranhas entranhas de barbatanas à mostra. 

Tem mais. Numa sala de aula, uma aluna nunca me perguntava nada sobre a lição. Mas certa vez ela levantou a mão. “Oba, hoje ela está afim de perguntar”, pensei e parei o que eu estava fazendo para atendê-la. “Pode falar”, eu disse.  Ela: “Né nada não, professor... É que meu pai conserta guarda-chuva”. Fiquei sem o que dizer e continuei minha aula. Passado um tempo, eu já nem me lembrava mais do episódio, novamente uma mão se levanta. “Oi, diga!”, acudi depressa. Ela: “Ah, esqueci de falar. Meu pai pega o guarda-chuva na sua casa, conserta e leva de volta pra sua casa também”. 

FILIPE


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

PIOLHO

 

Seu nome é Paulo, todos o conhecem por Paulinho, e na infância tentaram apelidá-lo de “Piolho”, mas não pegou. Naquela família de muitos irmãos, com exceção de minha mãe, a primogênita, todos arrastaram apelido por algum tempo; alguns para sempre.

 

Irmão caçula de minha mãe, este tio é muito querido por todos na minha casa. Papai, que não costuma elogiar familiares, sobre ele não economiza palavras. “Ah, o Paulinho é sério, de fibra. Nele pode-se confiar, porque é verdadeiro!”

 

São tantas as minhas histórias vividas na companhia desse tio, que eu teria que escrever muitas páginas para dar conta de parte delas. Para o momento, no entanto, quero apontar alguma coisa, pouca, mas que será suficiente para lhe traçar o perfil.

 

Quando ele era pequeno (bom, ele não cresceu muito!), uma de suas irmãs exclamou: “Gente, não é que o Paulinho sabe fazer conta de juros?!” Naquela época eu não sabia fazer contas e muito menos o que seria ‘juro’. Mas, a partir daquele dia, eu passei a ver meu tio com muita admiração, sentia orgulho dele, e sempre pensava: “Ele sabe fazer conta de juros!”

 

O tempo passou, crescemos – o tio não muito – e cada um tomou um rumo na vida. Após o serviço militar, estando desempregado, fui para Coronel Fabriciano e passei um ano morando com ele, uma tia e um primo. Naquela época, Paulinho ganhava salário mínimo como vendedor numa loja, mas do pouco dinheiro que tinha, sempre me oferecia uma parte. Se eu saísse para algum lugar, ele dizia: “Precisa de dinheiro? Toma esse aqui para o lanche...” É claro que eu não pegava, porque o coitado não tinha nem para ele... Mas, se eu não aceitava dinheiro, outra oferta dele eu já não recusava. Gostava de usar suas camisas, menos uma, que depois conto por quê.

 

O Paulinho sempre foi um prodígio. Da família, além das “contas de juros”, ele era o único que sabia jogar bola. Boleiro obstinado, dizia sobre os jogadores profissionais: “Esses caras ganham milhões e ainda reclamam... Não concordo com isso, porque eu tô querendo é pagar pra jogar!”

 

No baralho ele dá raiva. Marrento, arruma um jeito lá, que só ele sabe, e trava o jogo da gente. Mas é jogo limpo, sem roubo. Com ele, você pode deixar as cartas na mesa, sair para onde quiser e voltar para o jogo. Ele não vai olhar suas cartas, jamais. Mas você dificilmente o vencerá.

 

Uma vez, jogamos à noite inteira. Amanhecendo, ele disse: “Meu olho tá ardendo de sono, mas tenho que trabalhar. Era manhã de sábado e eu disse, rindo muito: “Ah, é?... Eu vou é dormir agora. Bom trabalho, tio!”. Mas ele se vingou. Numa noite de sábado, estávamos jogando até altas horas. Chegou a madrugada e eu quis dormir. Ele: “Lembra daquele dia, que eu tive que trabalhar com sono e você foi dormir?... Agora é minha vez. Você vai jogar até a hora que eu quiser. Depois vou dormir e você vai fazer sua hora extra com sono”. Obedeci. O domingo amanheceu, ele foi dormir e eu fui trabalhar.  Até hoje meus olhos ardem quando lembro daquele dia.

 

Ah, tem uma história da camisa, que eu não queria contar. Foi assim: Vasco e Flamengo jogariam e fizemos uma aposta, e quem perdesse teria que andar pela cidade com a camisa do adversário.  Aquela foi a única vez na vida que vesti uma camisa rubro-negra.

 

FILIPE

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

APELIDOS

Em casa, papai nunca permitiu que colocássemos apelidos uns nos outros. À primeira tentativa, o temido franzido na testa era suficiente para pôr fim na ousadia. Talvez por isso, eu nunca me senti à vontade para chamar alguém por apelido, preferindo sempre o “nome de batismo”. Contudo, não se deve radicalizar, e exceções são bem-vindas. Explico.

 

Tive uma aluna, a dona Tina, cujo nome de batismo era Libertina. Nesse caso, vai fazer o quê?... Não se discute e nem precisa explicar por que ‘Tina’ fica bem melhor que ‘Libertina’.

 

Numa ocasião, uma senhora me procurou para conversar sobre a Joana D’Arc, sua filha e minha aluna. “Ela não quer vir mais para a escola, porque as meninas ficam a chamando de Joana e ela não gosta do nome...”, reclamou. “Mas esse nome é tão bonito!... Agora, se fosse Sebastiana...”, tentei consolar. “Mas eu me chamo Sebastiana, professor!”, ela me disse cheia de rubor e de furor. “Mas esse nome é bonito também”, tentei consertar e continuei: “Se-bas-ti-a-na!!! Quanta sonoridade! Sabia que meu avô se chamava Sebastião?!” É, o estrago foi grande e não teve mais jeito. Ela se foi e sua filha nunca mais apareceu.

 

Tive um vizinho cujo nome não lembro, mas que poderia ser Nicanor. Pois bem, certa vez procurei o “Nicanor” para tratar de alguma coisa. Chegando, pedi seu nome e ele me respondeu: Meu nome é Nicanor, mas pode me chamar de Chula. Todo mundo aqui me conhece por Chula”. Achei estranho, mas diante daquela exigência eu não tive alternativa.

 

Tem também o Paulo, um senhor muito querido que, por ser forte, másculo e ter um vozeirão, deveria ser chamado de Paulão. Mas não. Na cidade, ninguém conhece o ‘Paulo’ e muito menos o ‘Paulão’. Agora, se alguém de fora chegar e perguntar quem é o Bruxa, todo mundo sabe.

 

A minha obstinação em querer evitar apelidos já me deixou em situação vexatória. Certa vez, rodando pelas ruas de Mauá com um tio – que todos conhecem pelo apelido e jamais pelo nome –, cruzamos com um senhor que voltava para casa com umas ferramentas de pedreiro. Meu tio parou o carro e gritou: “Ô, Manguaça, esse aqui é meu sobrinho e vai ser seu vizinho”. O homem parou, simpático, conversou conosco e se despediu. No dia seguinte, fui até o local onde estava começando a construir minha casa e avistei o meu futuro vizinho. Fui até ele, agora como “velhos conhecidos”, e me adiantei nos cumprimentos: “Bom dia, seu Manguaça!” “Manguaça, não. Meu nome é Antônio”. “Uai, o meu tio falou seu nome errado...” “Aquele seu tio não presta, mas quero que me chame de Antônio”. “Então, seu Antônio, o senhor me desculpe. É que eu não sabia mesmo”, consertei.

 

Encontrando meu tio, falei com sobre o ocorrido, ele deu risada e falou: “Ele é pinguço, sabia não?...”. Mas o seu Antônio não era pinguço (pelo menos não mais) e eu não sabia o significado da palavra ‘’manguaça’’, que descobri sem suavidade.

 

FILIPE