domingo, 9 de novembro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM – TERCEIRA PARTE

7) Saio da padaria, ando uns dez minutos e chego à rodoviária. Como o ônibus demoraria, aproveitei para visitar uma tia que mora nas cercanias. Não tendo o endereço, mas sabendo que é perto da rodoviária, fui procurar. Entrei numa casa de produtos agrícolas e perguntei: “Você sabe onde mora a dona Aparecida?” O homem me olhou, olhou do lado e perguntou à colega. Ela não conhecia nenhuma ‘dona Aparecida’. Arrisquei ‘Cida”; não deu. ‘Cidinha’; não também. “Aquela mulher que cuidava do irmão que morreu recentemente...” “Ah, sim. Ela mora ali!”. Os dois saíram pra calçada e apontaram para um prédio. Andei um pouco e me enrolei, perdendo o rumo dado por dedos tão dedicados.

Parei numa farmácia e fiz a pergunta, mas agora da maneira certa. “Ali, naquele prédio, em cima da padaria”, respondeu o funcionário. Fui lá e vi que havia vários números de apartamentos no interfone. Pensei que poderia ser o 303 e apertei uma, depois outra vez – nunca aperto três vezes. Não deu. Entrei na padaria, comprei um bolinho de fubá e perguntei onde mora a dona Aparecida, aquela que cuidava (...), fui interrompido com a resposta: “No 202!”

 

8) Aperto o número 202, que talvez seja 203 (já esqueci) e fui atendido por uma voz familiar: “Quem é?” “Seu sobrinho filipe. Lembra de mim?” “Track!!”, essa foi a resposta dada, mas pelo portão, que destravou para, em seguida, a voz daquele interfone pedir pra eu subir.

A tia Aparecida me recebeu com sorriso e abraço calorosos, mas parecia pronta pra sair. Desconfiado, já fui dizendo que a minha passagem seria ligeira e que meu ônibus já estava quase saindo. Senti que a tia ficou aliviada com minha pressa, contudo, me convidou pra entrar e sentar, mas fiquei de pé na sala, achando que seria mais acertado. Apenas quis saber como ela está, como foram seus dias com o irmão de quem ela cuidou por onze anos, essas coisas. Ela me contou detalhes dos cuidados finais com o irmão enfermo, da ausência da família nuclear dele, mas se disse tranquila por fazer o que tinha de ser feito. Disse também que uma filha, que mora no prédio, foi sua companheira nos momentos mais agudos da lida.

Passados uns vinte minutos, tempo suficiente para que eu soubesse segredos esquisitos de família e passagens difíceis da vida dela, encerrei a prosa e quis me despedir. Ela disse que teria de ir à fisioterapia, então fechou a porta, desceu comigo até a rua e nos despedimos. Dali, marchamos em sentidos opostos: ela para a clínica e eu para a rodoviária.

 

9) Chegando à rodoviária, vi que o meu ônibus sairia às dez e meia, e eu esperaria ainda por uma hora. Com tanto tempo livre, resolvi pegar o livro, e foi nesse momento que apareceu o gari Mário, cuja história contei neste blog. Saiu o Mário, chegou o ônibus. Subi, paguei a passagem e me sentei lá no fundo. Pensei: vou chegar às onze e vai dar pra eu fazer o almoço pra tia Geni.

O ônibus arranca comigo e outros poucos passageiros, avançando pelas ruas estreitas e acidentadas da pequena Visconde. Não me animei a ler. Preferi contemplar a paisagem urbana repleta de casebres malcuidados: alguns no alto do barranco, outros nas íngremes ribanceiras. E o ônibus vai bamboleando enquanto eu tento me segurar para não escapar do banco. Ao lado, era a minha mochila que tremia temendo ir ao chão num escorregão.

O ônibus alcança a zona rural e vejo a paisagem desolada, com os pastos ressequidos devido à longa estiagem. O inverno é sempre assim, mas nunca me acostumo e vivo sempre ansiado pelas chuvas e pelas cores da primavera, que logo vêm.

De repente, a embarcação entra no perímetro urbano da minha cidade e eu começo a ficar preocupado se já não seria a hora de “apear”, como diria papai. Cismei que tinha de descer e puxei a corda, que buzinou na orelha do motorista, que freou e parou bruscamente. Desci, mas desci errado e tive que caminhar por longa distância, talvez uns cem metros, até o ponto onde eu deveria parar. Essa não foi a primeira vez que erro a parada.

Caminhei, caminhei, caminhei e cheguei à casa da tia Geni. Contudo, dessa vez ela não estava no alpendre me esperando como da outra vez. Mal apertei a campainha e já apareceu uma carinha redonda e desconfiada numa das janelas. Era a tia, que não me parecia tão receptiva como antes.

(continua...)

FILIPE


domingo, 26 de outubro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM – SEGUNDA PARTE

 4) ‘Apeei do ônibus’, como diria papai, às sete e quinze da manhã, perdendo o outro que saíra às sete e me levaria a Guiricema. A próxima condução seria somente às dez e meia, de forma que eu teria que pegar táxi ou esperar um tempão. Decidi esperar e aproveitei para visitar uma amiga que mora naquela cidade e se encontra adoentada.  Procurei um táxi, mostrei o endereço e o trajeto, que obtive por um aplicativo a fim de não ser enganado, mas o taxista me pareceu honesto, dizendo que “a rua ficava logo ali, mas o problema é a numeração”. E me provou, apontando o número 53, por exemplo, ao lado do 123; depois do 123 já vinha o 65, seguido pelo 215 etc. Uma loucura!

Enfim, achamos a casa da amiga. Paguei, desci e comecei a chamar. Gritei, bati palmas... nada! Pensei: errei o endereço, mas fazer o quê... Perguntei a uma jovem que saía da casa vizinha, mas ela não conhece a minha amiga, nem sequer sabe o nome. Em seguida, veio um senhor, talvez o pai da jovem: “Conheço, sim. Ela deve estar dormindo ainda, porque toma remédio forte.”

5) Desisti da minha amiga e desisti de voltar de táxi também. Pensei: ele cobrou quinze reais pra me trazer, serão outros quinze reais pra me levar, e tá ficando caro esse passeio... Com esses quinze reais economizados, eu tomo um bom café!

A casa da amiga fica no morro. Desci meio sem saber pra onde ia e perguntei a um senhor que pintava a fachada de uma casa que caminho me levaria à rodoviária. Ele me orientou. Mais à frente, perguntei a outra pessoa pra confirmar a informação anterior. Estava certinho.

Já estava perto das nove horas quando avistei uma padaria e parei ali para o desjejum, que normalmente é leite com chocolate e pão com manteiga.  Entrando, cumprimentei a moça do balcão e perguntei onde fica o banheiro – eu tinha uma “emergência líquida” e queria escovar os dentes também. A moça me deu a chave e apontou para um quartinho, onde seria o tal banheiro, e pra lá fui alegremente.

6) A chave que a balconista me deu tinha um pedaço de madeira como chaveiro, mas isso não tem importância aqui. Abri a porta e vi que o banheiro estava limpo e até perfumado. Acima do vaso sanitário lia-se: “respeite esse banheiro porque senhoras usam também”. Respeitei o banheiro, é claro, mas eu tinha que lavar as mãos e precisava escovar os dentes. Cadê sabonete? Não tinha. Olhei em cima de um armário e vi muitos produtos de limpeza. Detergente? Não tinha também. Abri o armário, fucei lá e não achei sequer um sabão em pó – nada que eu pudesse usar para lavar as mãos. Então peguei um desinfetante e aproveitei pra desinfetar mãos, maçaneta, chave, chaveiro, tudo... Terminado esse serviço, procurei uma mesa e esperei meu café, que nunca é café, mas achocolatado – eu já disse isso. Pedi, além do chocolate, um pedaço de broa e dois bolinhos de chuva. Já longe do banheiro, mas não do desinfetante, que se me impregnara e me acompanharia por um bom tempo ainda, regalei-me com o desjejum. Aquela broa mineira, os bolinhos de chuva, até o achocolatado, que nem tinha tanto chocolate assim, estavam uma delícia! E o melhor: aquela fartura toda me custou apenas ‘seis reais e dez centavos!’ Repito: ‘seis reais e dez centavos!” Gostei muito e gastei pouco.

(continua...) 

FILIPE

domingo, 12 de outubro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM - PRIMEIRA PARTE

 

Esse relato foi enviado a alguns contatos no ‘zap’. Para não cansá-los, o texto foi dividido em alguns capítulos e enviado em dias bastante espaçados. Contudo, optei por fazer pequenas modificações a fim de torná-lo mais adequado ao público deste blog que, embora não seja grande, é desconhecido e de tamanho indefinido.

 

1) Numa segunda-feira à tardinha, chego à rodoviária do Tietê, em São Paulo, e vou ao toalete. A torneira fecha automaticamente antes mesmo que eu termine de lavar as mãos. Insisto, apertando novamente um treco e a torneira teima em fechar novamente me impedindo de lavar sequer as pontas dos dedos. Desisto. Saio do sanitário e termino o asseio com álcool, que sempre tenho na mochila.

Em seguida, vou a um quiosque e compro um suco de abacaxi com gelo e sem açúcar. Procuro um banco mais isolado e pego meu lanche: um pão com carne e queijo, que fiz em casa antes de sair. Sempre faço assim, porque nos quiosques da rodoviária qualquer “pão com nada” custa a metade de um fígado humano.

2) Meu ônibus encosta, passo pelo funcionário e procuro a poltrona 13, que estava vazia, mas não disponível. No chão, duas bolsas enormes ocupavam o espaço onde eu descansaria os pés, impedindo-me de tomar assento. Olhei para os lados e não vi ninguém que pudesse tirá-las dali. Decidi eu mesmo removê-las e me aninhei no canto. Nisso chegou a dona das bolsas. Ela me olhou espantada e eu retribuí o olhar com ares não muito amorosos. Perguntei se ela não queria que eu pusesse uma das bolsas no bagageiro – numa tentativa de apaziguamento. “Minha bolsa não fecha!”, ela disse quase gritando. Deixei a mulher com suas bolsas que não fecham de lado e tentei cochilar, mas essa vizinha estava impossível. Ela começou a conversar com seus irmãos de igreja, depois abriu um áudio de ‘onze minutos’ (conforme o pastor mesmo disse) e, em volume bem alto, começou a pregação. Achei a coisa tão medonhamente inusitada, que gravei uma parte daquilo.

3) Espremido entre as bolsas da mulher, segui viagem sem ao menos poder me esticar mais confortavelmente. Por fim, a pregação do pastor acabou, as conversas com os irmãos de igreja também, mas a lanterna do celular e o mexe-mexe da vizinha nas suas bolsas me aturdiam. E assim, já bastante moído, cheguei a Visconde do Rio Branco, que ainda não seria meu destino final.
(continua...)

FILIPE

domingo, 28 de setembro de 2025

NO AMBULATÓRIO

 


Na sala-corredor de espera de um ambulatório, eu aguardava a médica para avaliação de um exame quando fiz a foto que abre este texto. A imagem é apenas uma ilustração, e aqui não farei conexão com o exame nem com a consulta. Quero é navegar em águas mais densas; quero o mar.

Há tempos que eu vinha me preparando psicologicamente para um procedimento médico. Após dois dias e meio de intensa dieta, que foi finalizada com um rigoroso jejum, fui conduzido ao ambulatório por minha companheira. Estacionamos no pátio e desci do carro, mas percebi que eu não conseguiria andar. Cambaleante, tentei dominar as passadas, mas tudo começou a girar e me agachei para não cair. Nisso, uma jovem senhora se aproximou e ofereceu ajuda.  Seu nome é Gorete e trabalha ali como enfermeira, ela me disse depois.

A Gorete, que nem tinha começado seu turno, já entrou na lida, oferecendo-me uma cadeira de rodas, que aceitei agradecido. Essa foi a primeira vez que usei uma cadeira de rodas, uma experiência humanizadora!  E assim, enquanto a Rosana fazia a burocracia na recepção, eu era conduzido pela Gorete a uma sala de enfermagem.

Num canto daquela sala havia uma maca e pedi à enfermeira para ficar nela, porque meu desconforto na cadeira era enorme.  “Claro”, assentiu e me ajudou a subir naquele equipamento. Ela mediu minha pressão (8,0 por 4,0), mediu a minha glicose (normal) e quis saber o que mais eu sentia e o porquê de eu ter ido ao ambulatório.

Embora deitado, o mal-estar continuava me afligindo. A enfermeira tentava me tranquilizar, dizendo que logo passaria, e pegou alguma coisa, talvez uma almofada, e a pôs embaixo de meus pés enquanto abanava-me o rosto com meu chapéu. Passados uns minutos, melhorei um pouco e ela me conduziu a uma sala ampla, com várias macas e pacientes. As enfermeiras me acolheram ternamente, mas uma delas furou meu braço para o tal acesso. Na primeira espetada ela já alcançou uma veia bem bacana, me poupando de outras agulhadas. Nesse momento me veio forte a imagem de minha mãe em suas inúmeras internações: quantas vezes ela teve de suportar essas fincadas... Fui testemunha do sofrimento da mamãe, que debatia, gritava, chorava. A enfermeira não achava veia... Então ela chamava outra enfermeira, que também não achava, tornando-se essa uma rotina agônica na vida da minha mãe.

Depois de tudo acertado, veio-me o soro. Foram duas “sacolas” daquelas de um litro, ou quase. Enquanto o soro gotejava na minha veia eu pensava na vida e no final dela, que não me parecia muito distante. Em certo momento, outra enfermeira chegou e me pediu que entregasse relógio, aliança e demais pertences. Eu não tinha mais nada pra entregar. Então ela disse que era pra eu retirar toda a roupa. Jogou sobre mim uma “camisola”, que me cobriu por inteiro, e me despi. Ali, naquele momento, eu estava completamente despido de tudo. Em mim não havia pudor nem vaidade; e não havia saúde também; nem orgulho nem mágoas. Eu era apenas um corpo frágil à espera do sedativo, que viria sem tardar.

Enquanto eu pensava na brevidade da vida, alguém chegou: “Voltei. Você está bem melhor, até mais corado... Lembra de mim? Eu que te socorri.” “Ah, a Gorete!” “Então, eu que vou te acompanhar no procedimento.” A Gorete, agora uniformizada, me conduziu à outra sala. Nesse momento eu trajava camisola azul clara, tinha um monitor de pressão e outro de não sei o quê, depois recebi uma cânula de oxigênio e, antes da injeção que me sedaria, tive uma breve epifania: bateu-me forte a imagem do meu pai no leito da UTI. Papai estava exatamente assim e isso me trouxe grande conforto.

Enquanto o médico fazia umas anotações, a enfermeira me ajeitava na maca e disse que me daria uma pequena fisgada no braço para a sedação. Eu fechei os olhos num esforço pra não sentir... e abri logo em seguida ao ser tocado por uma pessoa: “Você já está liberado.” Era a enfermeira Gorete.

FILIPE


domingo, 14 de setembro de 2025

CÁRMEN LÚCIA: A DAMA DA DEMOCRACIA

 


Ninguém me pediu opinião sobre a condenação da cúpula golpista, mas estou dando o meu parecer, embora não sem antes dar vivas à Carmen Lúcia, essa destemida norte-mineira que honra como poucos a toga que veste. Dona Carmen é diferente, porque ela chegou ao STF sem que tenha feito rapapés nem beija-mãos. Dos onze integrantes da corte, ela é a única que não está e nunca esteve amarrada a compadrios. A única!

Admiro o Flávio Dino, a quem atribuo qualidades de um estadista – atualmente, na minha opinião, o maior nome da nossa República. No entanto, neste momento quero exaltar a mineirinha de Montes Claros, porque foi o voto dela que selou o destino dos golpistas. Segundo os estudiosos, essa é a primeira vez que o Brasil julga e condena conspiradores que atentaram contra a democracia. E já foram vários atentados, pelo menos quinze!

Agora me surgiu uma dúvida: será que os réus vão para a gaiola? Sinceramente, penso que não. No Brasil, cadeia tem sido o destino de pobre e de preto; a grã-finagem, quando condenada, costuma “cumprir pena” em ‘prisão domiciliar’, ou seja, na mansão onde mora.

Todavia, se eu pudesse resolver essa parada, o Bozó e os seus generais não iriam para a cadeia. Sabe por quê? Porque cadeia custa caro. Qual a alternativa então? Ah, muito simples. Todos eles, sem exceção, teriam os provimentos e demais ganhos interrompidos durante o cumprimento da sentença. A pena seria a de prestação de serviços como: limpeza urbana, higienização de banheiros públicos, coleta de lixo nas ruas, pintura de guias e outros "divertimentos" – tudo isso levando-se em conta as habilidades, potencialidades ou “comorbidades” de cada apenado. A jornada deveria ser de quarenta e quatro horas semanais e na escala ‘seis por um’ como todos nós, reles mortais, suportamos e cumprimos. Ah, um benefício: ninguém passaria sede nem fome, porque o poder público se encarregaria de fornecer água e marmitas. E as férias? Nada de férias, porque já bastam os feriados, que são muitos, além dessa enormidade de domingos ao longo do ano. Pra que mais folga?! Nada mais lhes seria oferecido nem cobrado além da pena, que deveria ser cumprida integralmente.  

Voltando ao título desta, a imagem que abre a crônica me faz imaginar a dona Carmen dando uma bronca no seu colega “traíra”, uma descompostura nos conspiradores ou um chega-pra-lá naquele ‘ogro laranja’ estadunidense, que se acha o dono do universo e quer se meter no nosso país. Vi essa foto no site da Folha, gostei tanto dela que a trouxe pra cá. Porque ali está uma mulher aparentemente frágil, mas capaz de fazer chover para garantir a soberania de seu país; e de fazer parar a chuva só pra conduzir o seu povo a pés enxutos à liberdade.

Obrigado, dona Carmen!

FILIPE


domingo, 31 de agosto de 2025

MÁRIO

 


Numa manhã, em viagem de visita a familiares, ao longo de uma maratona recheada de imprevistos e já bastante fadigado, eu me sentei num banco de cimento da rodoviária e comecei a ler enquanto esperava o ônibus. Estando já imerso num conto de Clarice Lispector, um farfalhar desviou minha atenção: absorto em seu labor, um homem varria, varria e ajuntava; varria, varria e ajuntava. Depois pegava o lixo com a pá e despejava num saco plástico.

Era o Mário que se aproximava, trabalhando calado e ligeiro. O corpo esguio lhe conferia agilidade, fazendo lembrar os campeões da Corrida de São Silvestre. No entanto, o homem que varria, embora nunca tenha sido atleta, certamente tem habilidades quase olímpicas, sem as quais não sobreviveria.

Quando ele chegou mais perto, peguei meus trastes e mudei de lugar a fim de lhe facilitar o trabalho, mas não sem antes de lhe dar bom-dia. Foi a primeira vez que o Mário parou de varrer. Agora, apoiando-se no cabo da vassoura, com os olhos fixos no horizonte, ele expressou um misto de preocupação e cansaço. 

“Está tudo bem com o senhor?”, perguntei. “Um pouco cansado de fazer isso”, ele respondeu, já voltando a varrer. E continuou: “Nada para limpo aqui. Com tantas lixeiras por aí e o pessoal faz questão de jogar lixo no chão”. E assim começou um pequeno bate-papo com o homem que, pela imagem, dá para perceber ser ele de vida bastante sofrida.

O Mário é gari há trinta anos. Antes desse emprego, foi funcionário numa usina de açúcar por uns dez anos. Perguntei se já está aposentado. Não está. “Apenas no ano que vem, se tudo der certo”, ele disse pouco confiante. “A saúde não ajuda mais. Até pouco tempo atrás eu estava afastado, estive internado”, reclamou.

Não perguntei que mal lhe aflige a saúde, mas quis saber se mora longe. Ele apontou para uns lados e disse ser logo ali, “subindo aquele morro”. “Mas a sua casa é própria, você não paga aluguel...” “Eu tinha uma casa onde criei meus filhos, mas não pude continuar morando nela. Achei melhor sair.” Ele falou de uns porquês que o fizeram mudar de endereço para ter de pagar aluguel e completou: “Antes a vida era sofrida; agora está mais suave”.

Indiscreto, perguntei se a esposa mora com ele. “Infelizmente a minha mulher faleceu há onze anos. A gente vivia muito bem, eu gostava dela e sinto muita falta. A vida é assim, fazer o quê...”, lamentou.

Ofereci um lanche ao Mário. “Rapaz, até que eu já estou com fome, mas não se preocupe”, disse ele dando uma leve batidinha na barriga. “Vamos à lanchonete”, eu propus. Aceito o convite, ele se apressou em terminar a varrição daquele espaço e me acompanhou. Noutra indiscrição minha, propus que fosse ao banheiro e lavasse as mãos para comer. Obediente, ele foi lá e voltou abanando as mãos ainda molhadas. Perguntei o que queria. “Qualquer coisa...” A moça interveio, dizendo que o almoço estava prontinho: “Hoje tem frango com macarrão, seu Mário!”. Ofereci o almoço. Ele coçou a cabeça pensativo e disse: “Ah, se não for caro pra você, pode ser...”  “O que o senhor quer beber?” “Não precisa, basta a comida”. “Moça, veja o que ele gosta de beber e acrescente.  Vou pagar e preciso subir, porque o ônibus deve estar chegando”.

A moça me passou o valor, paguei e nos despedimos.

O Mário é o trabalhador braçal socialmente invisível e desprezado. Vi no Mário aquele gari recentemente assassinado na capital mineira enquanto trabalhava. O Mário representa todos os garis do mundo. Viva o Mário!

FILIPE


domingo, 17 de agosto de 2025

QUARENTA ANOS DE PADRE

 


Esse é meu irmão José de Anchieta, que completou exatos quarenta anos de presbiterato no último dia quatro. Eu deveria ter escrito algo naquele dia, mas acabei optando por minhas costumeiras desimportâncias. Ademais, esse mano costuma comemorar aniversário por vários dias, chegando a mês de festejos! Então penso estar valendo o escrito aqui.

Da irmandade, talvez eu seja aquele que tenha acompanhado mais de perto a trajetória desse irmão nos tempos de seminário. Isso porque morei por uns tempos em Juiz de Fora e lhe fazia frequentes visitas. Pelo menos de uma coisa me orgulho na exclusividade: fui o único da família que assistiu às três cerimônias de sagração desse clérigo: os Primeiros Votos, na capela do Seminário Santo Antônio; o Diaconato, numa igreja do bairro Santa Cruz, também em Juiz de Fora; e a Ordenação Presbiteral, essa acompanhada por todos os familiares, na igreja matriz de Guiricema – todos esses eventos no estado das Minas Gerais.

Ninguém sabe de um segredo, que talvez continue secreto pelo fato de esse blog ser uma ‘entidade semioculta’ (poucos o acessam). Na cerimônia dos Primeiros Votos do meu irmão, eu fiquei lá atrás da multidão que se aglomerava na pequena capela. Eu não conhecia ninguém ali, embora alguns me identificassem como ‘o irmão do Anchieta’, seja pela pequena semelhança física, seja por que ele já havia me apresentado. Mas eu me sentia aconchegado e até protegido pelo anonimato, e sorvi cada momento daquela celebração, tomado de enlevo e banhado de lágrimas. Ali pude ver meu irmão, enfim, sendo “coroado” após longos anos de estudos e privações. Sobre os estudos apenas ele pode falar, mas das privações acredito que todos nós, irmãos, podemos dar algum testemunho. O fato é que a vida de seminarista do ‘Mano Véio’ não foi nada fácil.

Chorei também na cerimônia de Diaconato, mas chorei menos – seja por que as coisas já estivessem encaminhadas para o próximo degrau, ou talvez por outro motivo. Naquela tarde, eu me lembro bem, eu sentia um mal-estar físico, não era nada emocional, o que dificultou a absorção e contemplação de algo tão belo e tão raro.

Já na cerimônia de Presbiterato eu não chorei, embora tenha ficado muito emocionado por ver meu irmão realizar o grande sonho de infância. Uma vocação que lhe nasceu nos seus primeiros anos e com ele cresceu, floresceu e frutificou. Naquele dia, eu me lembro, eu estava às voltas com questões bastante comezinhas. Infelizmente, são essas humanas preocupações que nos desviam do inefável.  

Após longos quarenta anos, a vida sacerdotal desse mano continua exuberante qual árvore frondosa, que dá sombra, abriga e produz frutos abundantemente.

Parabéns, Padre Anchieta. Muita coisa tenho para escrever sobre sua caminhada desde o dia em que saiu de casa para esse nobre compromisso, mas deixo para outro momento. Quem sabe um dia volto a rememorar aqui...

FILIPE