sexta-feira, 23 de abril de 2021

AUSÊNCIAS

Eu estava passeando com o Tokinho, meu cãozinho, quando vi aquele homem em sua casa. As mãos impacientes no gradil da varanda pareciam denunciar o atraso de alguém que deveria chegar, e um olhar displicente caía sobre a rua ensolarada, numa seca manhã de outono. Nunca o havia visto, embora há muito o conhecesse de nome e de histórias. Quando ele me avistou e notou que eu o olhava, virou-se disfarçadamente para dentro, como se alguém o chamasse. Mas em casa não havia ninguém além dele. Naquele momento, ele estava só.

Continuei caminhando devagar e parei em frente ao portão, que estava semiaberto. Assim que ele me viu de perto, nós nos cumprimentamos. Então ele deu alguns passos em minha direção e parou.  Nesse momento, eu quis me certificar de que ele fosse o tal senhor que eu conhecia pelo nome de Fiori. “Sou eu mesmo”, ele me respondeu acrescentando os pedaços que faltavam para completar o nome.  “E aquela senhora que sempre fica aí, na varanda?”, perguntei meio temeroso da resposta. “Ah, ela é a minha ‘patroa’, mas agora está na casa da filha. Aqui ela era bem cuidada, mas essa minha filha resolveu levá-la pra passar um tempo lá. Então eu fico aqui, sozinho, mas à noite vou pra lá também”. Após esse início de conversa, o seu Fiori, parecendo ter se afeiçoado a mim, resolveu contar um pouco de sua vida.

“Rapaz, eu moro aqui há mais de 20 anos, mas a vida inteira eu trabalhei no sítio, com um mesmo patrão. Depois eu peguei a danada da ‘maculosa’, que me deixou como morto. Fiquei muitos dias prostrado. Alguém poderia me puxar pela orelha, arrastar e me jogar no rio, que eu não dava conta disso. Eu não prestava para nada, então saí do sítio e vim morar aqui. Depois eu melhorei, graças Deus, e não quis mais saber de trabalhar em sítio. Aqui eu trabalhei muito mais do que lá: fiz essa casa, trabalhei em dois empregos, mas ultimamente eu parei com tudo. Tenho que cuidar da Maria, sabe... Eu gosto daqui, mas fico triste sem ela. Eu choro, sabia?... Tenho que arrumar sempre alguma coisa para fazer, senão fico muito aborrecido. Ela ficava ali, na cadeira dela, quietinha, sem reconhecer as pessoas. O alimento tem que ser na seringa, e precisa de gente com paciência para cuidar dela.  Eu sei que ela sente a minha presença, então gosto de ficar perto dela para que ela não se sinta sozinha.”

Eu ouvi o seu Fiori e ainda quero ouvir mais histórias dele. Após esse breve relato, ele me disse que estava esperando um pedreiro para uns reparos na casa. Então eu me despedi e continuei minha caminhada. A alguns metros acima, eu queria ver outro amigo. Dessa vez, contudo, a casa do seu Benedito, que fica sempre aberta e com várias pessoas na varanda, estava fechada. Então eu não pude ver o seu Benedito e nem o verei mais. Ele não quis esperar a sua festinha de 94 anos, que seria em agosto.

FILIPE

 


sexta-feira, 9 de abril de 2021

O DIÁRIO DE CAROLINA

 


13 de junho de 1958

“...Vesti as crianças e eles foram para a escola. Eu fui catar papel. No frigorífico vi uma mocinha comendo salsichas do lixo.
Você pode arranjar um emprego e levar uma vida reajustada.
Ela perguntou-me se catar papel ganha dinheiro. Afirmei que sim. Ela disse-me que quer um serviço para andar bem bonita. Ela está com 15 anos. Época que achamos o mundo maravilhoso. Época em que a rosa desabrocha. Depois vai caindo pétala por pétala e surgem os espinhos. Uns cançam da vida, suicidam. Outros passam a roubar. (...) Olhei o rosto da mocinha. Está com boqueira.
...Os preços aumentam igual as ondas do mar. Cada qual mais forte. Quem luta com as ondas? Só os tubarões. Mas o tubarão é mais feroz que o racional. É o terrestre. É o atacadista.
A lentilha está a 100 cruzeiros o quilo. Um fato que alegrou-me imensamente. Eu dancei, cantei e pulei. E agradeci o rei dos juízes que é Deus. Foi em janeiro quando as águas invadiu os armazens e estragou os alimentos. Bem feito. Em vez de vender barato, guarda esperando alta dos preços: Vi os homens jogar sacos de arroz dentro do rio. Bacalhau, queijo, doces. Fiquei com inveja dos peixes que não trabalham e passam bem.
Hoje estou lendo. E li o crime do Deputado do Recife, Nei Maranhão. (...) li o jornal para as mulheres da favela ouvir. Elas ficaram revoltadas e começaram a chingar o assassino. E lhe rogar praga. Eu já observei que as pragas dos favelados pegam.
... Os bons eu enalteço, os maus eu critico. Devo reservar as palavras suaves para os operários, para os mendigos, que são escravos da miséria.”


Acima está um fragmento de “QUARTO de DESPEJO – Diário de uma favelada”, obra icônica da mineira de Sacramento, Carolina Maria de Jesus, publicada por Audálio Dantas em 1960. O editor teve a sensibilidade de manter a grafia original da autora, que estudou apenas até o segundo ano primário.

Li “Quarto de Despejo” nesses dias e me veio uma forte lembrança dos tempos em que eu trabalhava nas Lojas Americanas de Juiz de Fora, lá no começo dos anos oitenta. Todos os dias, caminhões carregados encostavam no calçadão e sua mercadoria subia para o depósito por um elevador. À noite, as caixas de papelão desciam para a calçada e uma senhora com suas crianças pegavam aquele material para vender. Na calçada havia também uma caixa plástica onde se depositavam restos de alimentos do restaurante da loja. Bom, não vou descrever essa cena.

Carolina Maria de Jesus voltou a ser notícia nesta semana. Desta vez, um jornal publicou matéria em que três de suas netas vivem num “Quarto de Despejo – 2”, assim denominado por elas próprias, tal a penúria em que se encontram.  

Termino com Chico Buarque:
“Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo

FILIPE



sexta-feira, 26 de março de 2021

TURBULÊNCIAS NO PARAÍSO

Dia 20 de março fez um ano que tivemos de mudar às pressas para fora dos “muros da cidade”. A voraz pandemia, que apenas começava, obrigou-nos a essa aventura, que depois se revelou prazerosa. Morar em região montanhosa, cercado de vegetação, ar limpo e brisa noturna não é algo trivial. Aqui há dessas coisas, e há mais: tenho mangueiras que me dão frutos a seu tempo e sombra a todo tempo, e onde quero amarrar uma rede para as tardes preguiçosas.

E tenho bons vizinhos também, cada qual vivendo na quietude de seu canto. Uns criam galinhas, outros cães, outros nada. Não crio galinhas, mas tenho cães que ladram sem parar. Mas a ‘turbulência’ do título não é por conta das matilhas. 

Tempos atrás tive que comparecer a uma DP como testemunha de acusação contra um sujeito que soltava rojões de madrugada por causa de um galo. O simpático garnisé não entendia que o vizinho protestava e continuava sua cantoria apesar dos estrondos. O “fogueteiro” não se deu por vencido e apelou: antes das seis da manhã, uma bomba fez-se ouvir. Como consequência disso, houve boletim de ocorrência, intimação etc. Contudo, voltou a paz para aqueles lados.

Da última vez, embora sem rojões nem boletins, houve um pequeno entrevero entre dois vizinhos, de quem sou amigo. “Meu parente mais próximo é o meu vizinho”, diz a sabedoria popular, e eu costumo levar isso em conta.  Dessa forma, prefiro ficar “de boa” com a vizinhança, sempre evitando qualquer mal-estar.   

Meu vizinho, o protagonista desta crônica, tem muitas galinhas, cuida muito bem delas e não as mata, o que me deixa contente. A vizinha também tem lá as suas galinhas e delas aproveita apenas os ovos. Mas houve entre eles um desacerto, que não sei bem os detalhes. Ela nervosa, ele também; ela dizendo que ele tem muito bicho e que tem vizinho reclamando; ele dizendo que se alguém reclama, que fale com ele etc. Como há “vizinhos reclamando”, eu me vendo nesse torvelinho, quis passar a limpo a minha parte e procurei o rapaz na manhã seguinte. Ele estava lidando com as ‘penosas’ e parecia não querer papo comigo, mas insisti para que viesse conversar.

Ele chegou bastante desconfiado, pôs o balde com o milho no chão, coçou a cabeça e me retribuiu meio a contragosto o bom-dia. “O que está acontecendo?”, perguntei. “Nada”, respondeu. “Nada?!”, insisti. “Me falaram que um vizinho está reclamando de minhas galinhas e eu falei que é pra falar comigo. Foi isso”, respondeu agora de forma satisfatória. “Pois bem, se o vizinho sou eu, não há reclamação alguma. Gosto do senhor e tenho enorme carinho pela vizinha também. E quero deixar claro que sou inocente nessa questão”. Ele desanuviou o semblante e até ensaiou sorrir, mas fechou-se novamente e disse:  “Olha, eu fiquei bravo mesmo, porque não sei quem reclamou e disse que era pra falar comigo. E sabe de uma coisa?... Eu mandei todo mundo tomar no ‘copo’!” “Ah, disso aí não sabia, mas eu não vou tomar no ‘copo’, porque não tenho a ver com isso, né?...”  E assim parece que ficou resolvida a questão. 

FILIPE

 


sexta-feira, 12 de março de 2021

TIZIU


Vou falar do Tiziu, mas só no final da crônica. Se eu fosse você, pulava logo para o último parágrafo, porque no miolo desta só tem pedreira. 

Eu estava feliz com o retorno à sala de aula. Havia poucos alunos, mas valia a pena devido ao interesse deles. No entanto, outra onda maligna da covid nos fez retornar ao trabalho remoto e, para que eu não ficasse tão improdutivo, quis seguir o exemplo de uma amiga que comprou uma lousa branca e dá aulas em casa, usando as mídias. 

Fui à cidade, que estava quase deserta em razão do lockdown, e me dirigi a uma papelaria onde o atendimento se dava por uma janela. Havia umas três ou quatro pessoas à minha frente, mas eu não tinha pressa. Peguei meu jornal e comecei a ler, como sempre faço em ambientes com estranhos. Eu tenho dessas. Se não conheço ou não tenho afinidade, prefiro ler a forçar uma prosa. 

Chegou, então, um sujeito falante, puxador de assunto, a quem cumprimentei sem muita vontade. Animado, ele começou com esta: “A que ponto chegamos, hein?” “É... a que ponto chegamos!”, concordei, mesmo sem saber que ‘ponto’ era esse. Pensei na pandemia, que batera mais um recorde de óbitos. Pensei na carestia, no desemprego. Mas não. Ele se referia ao comércio fechado – que nem estava fechado. Bravo, ele queria que tudo ficasse aberto. E começou a falar mais alto enquanto ganhava apoio dos que estavam na fila. “E o supremo, o que você achou daquilo?”, provocou. “Eu jogaria uma bomba lá”, um respondeu.  “É brincadeira...”, disse outro. “Vou te contar... eu não aguento mais essa palhaçada. Queria que um sniper acertasse a cabeça do Lula!”, interveio um terceiro. 

Uma carga elétrica percorreu-me a espinha e senti o curto-circuito na garganta. Quando me dei conta da situação, eu já estava no fogo. “Tem que acertar é a cabeça do Bozo, aquele fdp”, esbravejei com todas as letras e sem medir riscos. Pela primeira vez na vida usei essa expressão e ela saiu tonitruante. Na hora, até gostei, mas depois me senti mal com aquilo. Não xingo, não gosto de ouvir xingamentos, e muito menos na quaresma. Mas saiu... fazer o quê?... Os meus companheiros de fila, talvez ofendidos, calaram-se ou mudaram de assunto. 

Não dá para defender um genocida responsável pelos muitos milhares de mortes evitáveis nessa pandemia. Mas o Belzebu tem algo mais importante a fazer. Ele quer assegurar ao “cidadão de bem” acesso a até 60 armas de fogo, mas não garante vacina para o povo. Resumindo: quem preconiza a morte jamais promoverá a vida. Agora vamos ao cãozinho, que está me esperando. 

O Tiziu aprontou das suas anteontem. Pulou uma cerca e se atracou com um ouriço, que lá em Minas nós conhecemos como “luís-cacheiro”. Mas ele perdeu a briga. Foram tantas as agulhas enfiadas na boca, no peito e nas patas, que não sei como sobreviveu. Sobrou para mim tirar aqueles espinhos, que me deu um baita trabalho. Só espero que o moleque tenha aprendido a lição e nunca mais se meta à besta com “luís-cacheiro”. 

FILIPE


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

ONANISMO PEDAGÓGICO

 

O título pode chocar os leitores mais pudicos, se é que os tenho, mas não achei palavra melhor para traduzir meus ânimos nesses tempos pandêmicos.

Começo falando sobre algo ocorrido nesta semana e que me deixou desconcertado, isto é, a meio caminho entre a vergonha e a ira. Fiquei envergonhado porque ao longo de trinta anos como professor, nunca fui repreendido por um superior sem que este não recebesse a devida réplica; desconcertado porque fui admoestado e sem condições de me defender; irado porque há um plano malévolo de doutrinação de professores orquestrado por uma elite que desconhece a escola pública. 

Ano passado, durante todo o período de teletrabalho, fomos obrigados a assistir a inúmeras videoconferências, teleconferências, palestras, monólogos e quejandos. Neste ano, apesar do risco de contaminação, fiquei mais tranquilo porque me senti livre daquelas amarras. Mas descobri que não estou liberto. Explico. 

De volta à sala de aula, sem alunos, e com vontade de exercer a docência, encontrei uma colega em início de carreira com quem comecei a desenvolver um trabalho conjunto.  Pegamos o material pedagógico e começamos a planejar, já que dividiremos algumas séries do ensino médio. Foram vários dias revendo conteúdos, resolvendo exercícios, discutindo a melhor forma de abordagem etc. No embalo, esqueci de que havia uma videoconferência da qual eu deveria participar como ouvinte. A “chefe” chegou e perguntou: “Não está assistindo à videoconferência?” Eu disse que não, que havia esquecido... (menti). Mas ela foi incisiva: “Não pode deixar de assistir!” Sem defesa, resolvi atacar: “Essas VC nada me acrescentam, é tudo enrolação! Já aqui, estudamos, planejamos, produzimos”. A “chefe”, no entanto, não se deu por vencida e rebateu: “Tem que assistir, porque todos assistem e sou cobrada!” Finalmente cedi, mas atirando: “Por você, e apenas por você, vou assistir à reprise. Mas essas ATPCs são um lixo!” A professora se foi e eu fiquei perturbado com o episódio: primeiro, porque tenho muito carinho por ela; segundo, porque ela estava apenas fazendo o seu trabalho. 

Terminado o expediente, voltei para casa cansado, chateado, bastante maltratado pela situação. Então abri o computador e me dei ao sacrifício de assistir à malfadada teleconferência, desta vez com expressões floridas como “trilhas de aprendizagem” e “transbordamento”. Pernósticos, esses atores não se cansam de inovar com a melosidade de “um beijo no coração de todos e todas”, ou com as palavras da moda: “protagonismo”, “galera”, “ressignificação”, “engajamento”, “inovação” e a indefectível “resiliência”. Ah, e tem as expressões inglesas, que não sei falar nem escrever. Eles querem ser chiques, mas são bregas, e talvez não saibam que antigamente, quando se aprendia português de verdade, a professora citava o ‘anglicismo’ e o ‘galicismo’ como os principais vícios de linguagem denominado ‘estrangeirismo’. 

Após assistir ao vídeo, com duração superior ao de um longa-metragem, encaminhei relatório com um comentário bastante cáustico, mas verdadeiro: “Não conheço professor com alguma argúcia e pensamento elaborado que aprecie as atividades da EFAPE”. 

Neste momento em que a pandemia de covid atinge o pico de internações e mortes, o governo decide pela volta às aulas presenciais. Os onanistas da EFAPE, aqueles das palestras enfadonhas, estão a salvo da contaminação; já os professores não terão melhor sorte. 

FILIPE

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O GRANDE ENCONTRO

 


Sim, este foi para mim um grande encontro. Maria Eugênia veio conhecer seu avô após sete meses de longa espera. Ela chegou numa ensolarada tarde de sábado, bastante cansada de uma viagem que deve lhe ter sido interminável. Assim que o carro estacionou na garagem, fui ao seu encontro, não sem uma pequena preocupação: bebês são sinceros demais e costumam afastar estranhos. Eu era um estranho ali e ela deveria me dar uma bicuda logo de cara.

Chegando, cumprimentei os pais e me dirigi àquela por quem tanto ansiava. Apertei a maçaneta e abri a porta do carro. Ela me olhou enigmática, mas não se esquivou. Apresentei-me solene, beijando-lhe a ponta de um dedinho e a abençoei. Em seguida, tentei destravar o cinto para tirá-la, mas o cinto não destravava. Então a ergui por sobre o cinto e, com grande contorcionismo, consegui içá-la sem que se tocasse o teto. Entre assustada e curiosa – mais curiosa do que assustada – ela me olhou fixamente mais uma vez e avaliou a situação. Cansada que estava, cedeu e se aninhou no meu colo – para júbilo meu e espanto de alguns.

Com esse pequeno triunfo, subi apressadamente a escada e a levei até a varanda. Eu quis mostrar o arvoredo, as montanhas, o horizonte dourado daquela tarde irrepetível, mas ela preferiu olhar para meus óculos, quis agarrá-los, torcê-los.

Nesse dia Maria Eugênia me trouxe de presente um passado não muito distante. Ela me levou ao tempo em que eu cuidava de uma bebê igualmente fofa e que hoje é sua mãe. Mas não só. Ela me levou para mais longe ainda. Fui transportado para a casa de meus pais quando meus irmãos mais novos – cada qual a seu tempo, é claro – eram bebês como esta que eu trazia nos braços agora. Lembrei-me vividamente daqueles meus irmãozinhos – talvez uns sete – dos quais ajudei a cuidar. Os bracinhos roliços e torneados; os pezinhos redondos, quase esféricos; os dedinhos rotundos como batatinhas; os gestos erráticos; as mãos inquietas; os olhos curiosos; a impaciência com a mamadeira que nunca fica pronta (...). 

Ah, a experiência de ser avô é indescritível, e quem define bem esse estado de graça é um irmão, dono de um rico patrimônio de quatro rebentos: “Ih, é muito bom ter netos!” 

A minha cronológica traz algo bastante curioso. Três decênios me separam do nascimento de meu pai, e com três decênios tive minha filha. Explicando: papai tinha 31 anos quando nasci e eu tinha 30 anos quando minha filha nasceu. O mais curioso, contudo, é que meu avô paterno tinha 58 anos quando eu nasci; e com essa idade eu tive minha neta. Um “breve” período de 116 anos separa os nascimentos de Sebastião Lopes e Maria Eugênia, e na metade exata desse intervalo eu vim ao mundo. Então posso antever o que serei para a Maria Eugênia: um velho! Porque o meu avô Sebastião, de cabelos brancos, botinas de couro cru, chapéu de lebre e dente de ouro, foi o primeiro “homem velho” a cruzar minhas veredas.
 

FILIPE


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

MINUDÊNCIAS DO COTIDIANO

 


Esse aí é o Patão, mas só falarei dele mais para a frente. Porque se ele não tem pressa, eu também não tenho.

Nesses tempos insanos, minha saúde mental exige que eu procure algo que possa minorar minhas agruras, pois meu dia a dia tem sido bastante confuso. Embora eu tenha afazeres domésticos, tento pôr ordem no quintal, recortar jornais, pôr a leitura em dia, mas não consigo muita coisa, não. Começo cortando a grama; deixo a grama e começo a recolher as folhas; deixo as folhas e começo a colher mangas; deixo as mangas e começo a acender o fogo; deixo o fogão a lenha em meio a uma fumaceira danada e começo a descascar as mangas; deixo as mangas e volto ao fogão, porque o fogo está muito violento; dou uma “bronca” no fogo, que se abranda, e volto a descascar as mangas; encho a panela com polpa, ponho no fogo e vou limpar a pia; deixo a pia e levo os rejeitos de manga para as galinhas do vizinho. E o doce fica pronto e fica bom. 

Abandono a TV Cultura e cumpro a melhor parte da minha rotina: pego um baldinho com cascas de frutas e de legumes e levo para as “meninas” do vizinho. É uma festa! Ali, bicos famintos e vorazes quase furam minhas mãos enquanto distribuo as iguarias. Tem o galo, que canta forte um grito de “socorro”; tem também garnisés e galinholas; tem frangos e frangotes; e tem patos sem lagos, coitados. O gingado, a despreocupação e a falta de pressa fazem dos patos as aves mais charmosas. E lá tem o Patão, de quem não falarei ainda. 

Leio notícias de Brasília e fico depressivo. Então pego a raquete elétrica e grelho algumas moscas e as jogo na teia da Chiquinha, nossa aranha de estimação. Todos os dias preciso alimentá-la e jogo uma ou duas moscas torradinhas para ela, que parece ficar agradecida e preguiçosa e cada vez mais gorducha. Vou à varanda e observo o casal de rolinhas que aproveitaram um antigo ninho e onde criam dois lindos filhotes. Um tucano, que fica à espreita, já devorou minhas juritis, mas essas rolinhas foram mais espertas e se aninharam bem próximas de minha janela. Aqui o tucano não se mete, eu acho. 

No pomar aparecem uns macaquinhos que comem as minhas jabuticabas e cobiçam minha banana-maçã. Já deixei um cacho de banana para eles, e agora chega. Outro dia eles estavam lá: pai, mãe e filho brincando de esconde-esconde. Um descia do abacateiro e o outro descia também; um se escondia e o outro procurava; o que era encontrado subia rapidamente; o outro corria atrás e já não o achava. Por uns bons minutos pude apreciar a cena. Mas se eles estavam à toa e eu tinha serviço. Desci.

Ah, vou falar do Patão. Esse coitado nunca comia. Até ele chegar numa casca de banana, um bico mais veloz já havia tascado. Era sempre assim, atrasado. Eu jogava na direção dele, em cima dele, mas nada! Sempre abobado, sem saber o que fazer, ele me deixava condoído. Mas, com o tempo, fizemos amizade. Agora que ele confia em mim, come na minha mão. Então encho a mão com cubinhos de casca de melancia, sua comida preferida, e estendo na sua direção através do alambrado. Ele chega com aquele bico enorme e pega a comida, mas com uma delicadeza... 

Valeu, Patão. Vida longa, amigão. Amanhã tem melancia, tá ok?... A sua porção está reservada. Com o Patão e essas miudezas, toco meu dia a dia. Porque sem isso acho que eu não resistiria. 

FILIPE