Oficialmente esse foi o ‘Quarto Encontro
dos Moura Lima’, mas poderia ser considerado o ‘quinto encontro’ porque, no dia
seguinte ao sepultamento de nosso pai, nós nos reunimos, pela primeira vez, a
fim de encaminhar a solução de algumas pendências em decorrência de sua partida.
Desde que decidimos programar
esse encontro anual, resolvemos fazê-lo na varanda do papai, que se tornou um
espaço sagrado para todos nós. Era ali que o Velho, nos seus últimos anos,
passava as horas fazendo palavras cruzadas, jogando cartas, teclando no seu
notebook. E era também ali que ele recebia os amigos para uma boa prosa e um
cafezinho esperto.
Desde então e a cada inverno,
nós, essas “aves migratórias” que se encontram espalhadas de norte a sul do país,
peregrinamos para o ‘Rancho da Bela’ para mais um evento. O encontro é lindo, animado,
mas não pense o solitário leitor que o planejamento é fácil, porque não é. No
grupo do zap sai faísca de tudo
quanto é jeito. Há sempre um Moura Lima ranhetando com uma coisinha ou reclamando
de outra: “A viagem é longa e penosa; as pernas incham e doem; as varizes
incomodam; o estômago embrulha...” É um entojamento
sem fim. Fato é que estamos envelhecendo e alguns já estão bem envelhecidos. Os
irmãos mais jovens é que devem se pacientar conosco, os idosinhos.
A coisa lá acontece mais ou menos
assim. No sábado, logo cedo, há uma gentarada espalhada por todos os cantos e
recantos da casa. Além dos irmãos, há sobrinhos, tios e toda a cunhadagem. Chegada a hora da reunião, o
irmão mais velho bate palmas e diz tonitruante: “Vamos lá, gente. Precisamos
começar a nossa reunião. Daqui a pouco o almoço fica pronto e já estou com
fome!” Nisso, os Moura Lima vão entrando na varanda enquanto outros vão
“vazando” dali. Tudo parece pronto pra começar. São onze irmãos, mas falta um e a reunião não
pode começar sem ele. Então a procura começa pelos cômodos da casa, depois no
terreiro, na casa vizinha e nada de achar o ‘Moura Lima desgarrado’. De repente,
ouve-se a descarga de uma privada e do banheiro surge o “foragido”, que chega
assustado e toma assento numa das cadeiras em semicírculo. Ato contínuo, fecham-se
as portas que dão acesso à varanda e uma oração abre os “trabalhos”. É um ato bastante
solene, mas já foi muito mais. Tanto foi, que um Moura Lima maldoso apelidou aquela
sessão de “conclave”.
Dessa vez foi bem diferente e até
divertido. Sabe por quê? Porque um tiozinho ficou perdido no meio dos Moura
Lima. Ele não se deu conta do que aconteceria e permaneceu sentadinho ali, na
varanda. Todos o olhavam e ele, meio sem entender o que estava acontecendo, ficou
de “queixo baixo”. A sessão foi iniciada e o tio ali, muquiado. De vez em quando ele me lançava um olhar espantado, parecendo
implorar para que eu facilitasse a sua saída. Matreiro, eu o ignorava com
indisfarçável gozo. A reunião prosseguiu sem que alguém o incomodasse, e ele se
aquietou. Finalmente, sentindo-se acolhido, o tio “levantou o queixo” e deu um
belíssimo depoimento, valorizando o nosso encontro. Eu fiquei extasiado com a
presença e com as palavras do tio Simeão.
FILIPE






