Poucas pessoas eu conheci como a dona
Bilinha. Imagino que seu nome de batismo seja Isabel e o apelido Belinha. Para
nós, no entanto, seu nome era “dona Bilinha”, exceto para papai e mamãe, que
eram seus compadres, e um irmão, seu afilhado, quem tinha a prerrogativa de
dizer “madrinha Bilinha”. Isso posto, vamos ao que pretendo registrar.
Dona Bilinha era uma infatigável
senhora. Tinha marido e uma penca de filhos pequenos para cuidar, mas estava
sempre a nos ajudar. Mamãe, por ser epilética, tinha dificuldade com a serviçama de casa. Papai saía sempre
muito cedo para seu labor diário e nós ficávamos por ali sendo cuidados pela
mamãe – e cuidando dela também. A irmã mais velha, que naqueles tempos era
muito nova para assumir responsabilidades, já ensaiava os primeiros passos de
governanta, mas quem nos assistia de vez em quando era a “fada madrinha” dona
Bilinha. É claro que tivemos valiosas ajudas de outras pessoas, de tias, por
exemplo, mas hoje me atenho à dona Bilinha.
Ela chegava cedo à nossa casa. Cumprimentava
mamãe, tomava um golinho de café, segredava algo com a irmã mais velha e logo
já estava com a “mão na massa”. Com um lenço amarrado na cabeça, para melhor
execução do serviço, entrouxava toda a roupa suja da família e pedia ao maior
dos pequenos que levasse para a “mina” (uma pequena caixa d’água na nascente do
sítio). Com o auxílio da irmã mais velha, trocava os panos de toda a criançada
aproveitando para lavar aquela última roupinha também. A mulher era mesmo um
foguete. Em pouco tempo, tudo estava estendido para secar na cerca de arame
farpado que protegia a casa. A roupa, que antes estava suja e mal cheirosa,
agora ficou limpa e perfumada que nem... que nem a alma de Santo Antônio.
Nunca mais vi dona Bilinha. Cresci,
fiz-me homem e passei a cuidar de minha vida e também da minha roupa. Soube
recentemente que já há muito falecera. Dona Bilinha muito fez por nós crianças.
Eu, um dos mais “eradinhos da manada”, deveria ter sido mais atencioso e feito
ao menos uma visita àquela querubínica senhora. Nunca fui visitá-la. Aliás, nem
sabia onde passou a morar desde que deixara nossa terra e se mudara para Volta
Redonda. De seus filhos, lembro-me de alguns: do caçula, Donizete; da
Margarida, com apelido de Gaída; e da Ana, de cabelos anelados conforme diziam.
Eu, sem saber o significado de “anelado”, pensava que seus cabelos fossem de
“melado”, o que me deixava bastante curioso e com vontade de pegar naqueles
cachos para ver se eram mesmo doces.
Histórias como a de dona Bilinha me
fazem refletir. São tantas “Bilinhas” por aí fazendo caridade... São os
“abnegados do Reino”, que deixam seus muitos afazeres para fazer algo por
alguém. Como disse recentemente um pregador: “Se precisar de alguém, procure
quem está ocupado; jamais terá ajuda de quem está à toa”. Segundo este, Cristo
somente chamou aqueles que estavam trabalhando. “Tente pedir a um desses
sentados na calçada que lhe ajude a fazer um serviço. Ele sairá com um pedaço
de pau atrás de você!”, provocou.
Pois dona Bilinha era pobre, cheia de
serviço e mesmo assim ia ajudar sua comadre adoentada. Teve, além das bênçãos
divinas, a gratidão e o carinho de meus pais. Mas talvez, em seus últimos dias,
ela tenha precisado de alguém. E eu não me fiz presente.
FILIPE