sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

DONA BILINHA



Poucas pessoas eu conheci como a dona Bilinha. Imagino que seu nome de batismo seja Isabel e o apelido Belinha. Para nós, no entanto, seu nome era “dona Bilinha”, exceto para papai e mamãe, que eram seus compadres, e um irmão, seu afilhado, quem tinha a prerrogativa de dizer “madrinha Bilinha”. Isso posto, vamos ao que pretendo registrar.
Dona Bilinha era uma infatigável senhora. Tinha marido e uma penca de filhos pequenos para cuidar, mas estava sempre a nos ajudar. Mamãe, por ser epilética, tinha dificuldade com a serviçama de casa. Papai saía sempre muito cedo para seu labor diário e nós ficávamos por ali sendo cuidados pela mamãe – e cuidando dela também. A irmã mais velha, que naqueles tempos era muito nova para assumir responsabilidades, já ensaiava os primeiros passos de governanta, mas quem nos assistia de vez em quando era a “fada madrinha” dona Bilinha. É claro que tivemos valiosas ajudas de outras pessoas, de tias, por exemplo, mas hoje me atenho à dona Bilinha.
Ela chegava cedo à nossa casa. Cumprimentava mamãe, tomava um golinho de café, segredava algo com a irmã mais velha e logo já estava com a “mão na massa”. Com um lenço amarrado na cabeça, para melhor execução do serviço, entrouxava toda a roupa suja da família e pedia ao maior dos pequenos que levasse para a “mina” (uma pequena caixa d’água na nascente do sítio). Com o auxílio da irmã mais velha, trocava os panos de toda a criançada aproveitando para lavar aquela última roupinha também. A mulher era mesmo um foguete. Em pouco tempo, tudo estava estendido para secar na cerca de arame farpado que protegia a casa. A roupa, que antes estava suja e mal cheirosa, agora ficou limpa e perfumada que nem... que nem a alma de Santo Antônio.
Nunca mais vi dona Bilinha. Cresci, fiz-me homem e passei a cuidar de minha vida e também da minha roupa. Soube recentemente que já há muito falecera. Dona Bilinha muito fez por nós crianças. Eu, um dos mais “eradinhos da manada”, deveria ter sido mais atencioso e feito ao menos uma visita àquela querubínica senhora. Nunca fui visitá-la. Aliás, nem sabia onde passou a morar desde que deixara nossa terra e se mudara para Volta Redonda. De seus filhos, lembro-me de alguns: do caçula, Donizete; da Margarida, com apelido de Gaída; e da Ana, de cabelos anelados conforme diziam. Eu, sem saber o significado de “anelado”, pensava que seus cabelos fossem de “melado”, o que me deixava bastante curioso e com vontade de pegar naqueles cachos para ver se eram mesmo doces.
Histórias como a de dona Bilinha me fazem refletir. São tantas “Bilinhas” por aí fazendo caridade... São os “abnegados do Reino”, que deixam seus muitos afazeres para fazer algo por alguém. Como disse recentemente um pregador: “Se precisar de alguém, procure quem está ocupado; jamais terá ajuda de quem está à toa”. Segundo este, Cristo somente chamou aqueles que estavam trabalhando. “Tente pedir a um desses sentados na calçada que lhe ajude a fazer um serviço. Ele sairá com um pedaço de pau atrás de você!”, provocou.
Pois dona Bilinha era pobre, cheia de serviço e mesmo assim ia ajudar sua comadre adoentada. Teve, além das bênçãos divinas, a gratidão e o carinho de meus pais. Mas talvez, em seus últimos dias, ela tenha precisado de alguém. E eu não me fiz presente.

FILIPE                                                                                                                                                             



 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O SOLAR DOS MOURAS





Ardendo sob o sol de janeiro, percorríamos o íngreme caminho. Estava eu na doce companhia do Freizinho (um irmão) e de papai. O velho nos ciceroneava contando histórias de antepassados que viveram por aquelas bandas. Parando de vez em quando numa sombra à beira da estrada, fomos subindo, subindo, até avistar ainda ao longe o imponente casarão. A lendária sede da fazenda Boa Vista, erguida na segunda metade do século dezenove por meu trisavô Germano Antônio de Moura, pai de meu bisavô Germaninho de Moura, parecia nos esperar. Nela o patriarca Germano deu início à saga dos Mouras em terras de Guiricema –  um  aprazível rincão das Gerais. Sebastião de Moura, o filho mais moço de Germano, herdou a propriedade e nela criou sua “pequena” prole de quinze filhos. Seu Tatão, como era conhecido, era homem refinado e costumava gabar-se de ter estudado no famoso Caraça; tinha cultura acadêmica e usava o artesanato como hobby.   Assim, por mais de cem anos, a herdade fora ocupada pelos Mouras e seus agregados.  E a estradinha, hoje deserta, era continuamente transitada por inúmeras pessoas descendo ou subindo, no solado ou em cavalgaduras.

Ao me aproximar do edifício fui tomado por um misto de fascínio e tristeza. As janelas fechadas pareciam enlutadas pela ausência. O soberbo frontispício, resistindo heroicamente às intempéries dos anos, mira o horizonte numa eterna busca pelos que partiram. Aquela majestosa casa – que fora palco de concorridos folguedos, banquetes e rezas; e de Jubilosas chegadas e funéreas despedidas – assiste impotente e solitariamente à sua lenta e inexorável decrepitude. Seus cômodos estão nus. No interior, nenhum móvel, ou nada que possa lembrar o faustoso cotidiano das sucessivas gerações que por ali passaram. No entorno, o vicejante e atrevido matagal já espreita as carcomidas portas e janelas numa ousada e intrigante curiosidade.

Entrar naquele casarão é absorver um pouco da atmosfera dos antigos ainda do tempo do Império. O majestático pé-direito e a disposição dos cômodos; a largueza da sala de visitas precedida por uma saleta de espera; a sala de jantar e a monumental cozinha que fora ainda maior nos tempos dos “desbravadores”; os quartos de dormir – vários e aconchegantes. A casa fora construída originalmente com dez confortáveis cômodos, afora anexos e dependências externas como varanda, tulha, paiol, moinho, banheiro e outros dos quais nem as ruínas permanecem.

Várias são as histórias sobre o casarão: míticas e fatuais. Diz-se que é mal-assombrado, e que muitos já tiveram que abandoná-lo por tal razão. Surpreende-me o bom gosto dessas “coisas do outro mundo” ao escolher tão belo castelo. Conta-se também que ali, por razões passionais, ocorrera crime de sangue. Fato que macula tornando tristemente lúgubre aquele rico monumento.

Tal como uma sentinela em contínua vigília aquela “catedral”, que é o “Solar dos Mouras”, continua lá.  Encravada na montanha, espera pelos que desceram e se esqueceram de voltar. Ela parece não se dar conta de que o destino último de todos é a descida. Descer é a sentença derradeira: descer a montanha, descer à cova, descer...

FILIPE           

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

PERDAS

Perde-se sempre, e sempre se perde na busca
de um dia não vivido.
Da tarde de um domingo esquecido,
escondido nas entranhas do passado.
Abundante e traiçoeiro passado!
És tu que afugentas o futuro e o presente ofuscas?!


Perde-se sempre, e sempre se evita a perda.
Se o futuro não se faz presente
e o passado nada mais representa...
Então, o que fazer?...
Nada a fazer.


Esperar que nada aconteça é espreitar o vazio.
É o fim das lustrosas ilusões,
das esperanças vãs.
Quem espera quase sempre não alcança;
quem alcança, não espera alcançar sempre.
Mas, perdas..., sempre as há.


E a vida vai escorrendo
sobre as pedras da estrada, da escada.
Nesta escada fica, em cada degrau,
um pouco de vida não vivida.
Fica vida nos desvãos da escada,
como sombras.

Que sobram
lôbregas, pavorosas,
de um sonho interrompido.
Mas continua a assombrosa escalada.
No final, sobra-se só.
Soçobra-se.

FILIPE

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NOTA: O outro blog está ainda mais complicado. Muitos comentários estão sendo misteriosamente apagados. 
Prenúncio do fim?...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

DOIS JOSÉS



Um José é aposentado e tem mais de oitenta anos. Gosta de jogar cartas, de escrever, ler e de navegar na internet.

O outro José também é aposentado. Tem menos de oitenta anos.

Um José levanta bem cedo, trata dos animaizinhos, faz seu café e suas orações e dá uma volta no quintal à procura das saúvas que costumam devorar suas plantinhas.

O outro José levanta cedo.

Um José gosta de passear. Costuma visitar um parente, um amigo ou alguém doente. Anda mais de uma légua até a igreja para não perder os dominicais ritos sagrados.  Embora goste de caminhar, não dispensa a garupa de uma moto.

O outro José gostaria de passear, de visitar um amigo ou parente, mas...

Um José não costuma receber ordens; se as recebe, refuta-as ou as ignora. Conhece bem a vida e costuma dar lições aos mais jovens de como vivê-la. Está sempre solícito para atender alguém; e quando chega um amigo ou conhecido, este não sai sem um punhadinho de prosa e um golinho de café.

O outro José recebe ordens e as cumpre. Não costuma receber visitas.

Um José gosta de viajar. De vez em quando pega um ônibus e vai visitar um filho distante ou um compadre. Participa de excursões devocionais.

O outro José quer viajar.

Um José, em suas “exacerbações”, realizou um antigo sonho: cruzou o Atlântico para conhecer o Velho Mundo.

O outro José também sonha, mas não se lhe permite sequer cruzar a rua.

Um José tem atividade política e participa da sua associação de classe como membro eleito da diretoria. Também costuma representar seus pares em seminários etc.

O outro José é inativo politicamente. 

Um José é livre para viver a vida e sonhar seus sonhos. Mesmo tendo mais de oitenta anos ninguém ousa aborrecê-lo, ninguém lhe tolhe direitos, ninguém lhe impõe deveres.

O outro José não está livre. Embora ainda “bem moço”, tolhem-se-lhe a vida.

Um José está na sua casa. É amado, respeitado pela família, prestigiado na comunidade e feliz.

O outro José está no exílio, digo, asilo.  Não é amado.

josés e marias, octogenários ou quase, plenamente ativos. São artesãos, clérigos, escritores, hortelãos, estadistas etc. Outros, porém, estão encarcerados.
FILIPE

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

DESENGANO



Passava das cinco da tarde quando ela chegou. Estava cansada, arfante. Perguntou-lhe por onde andava. “Espera um pouco”, disse ela com dificuldade para falar. Sentou-se num banco de madeira e aceitou um copo d’água fresca. Ela pegou o copo, bebeu um gole e o devolveu com um semissorriso.  As coisas pareciam meio complicadas para o casal, e, de uns dias para cá, ela sempre saía para fazer algo que ele ignorava. Houve uns tempos em que sua escapada era pela manhã; agora saía à tarde, bem de tardinha.

Quando menina, costumava ir ao armazém do seu Chico com a irmã mais velha para comprar uns doces. Não era bem “doce” o nome que se dava àquela iguaria feita quase que exclusivamente de açúcar e corante.  Chamavam aquilo de bala-de-bico e havia nas mais variadas cores: caramelo, vermelha, amarela, laranja, verde etc. Conquanto não variasse o aroma nem o sabor, ela gostava das verdinhas; e quando não as encontrava costumava embirrar, recusando-se a voltar para casa. A irmã não lhe era muito tolerante. Pegava o chinelo ameaçando-a, mas só. Isso bastava e nunca se soube de alguma chinelada. Mas, pelo que se observava, parecia que aquele chinelo de borracha tinha funções mais nobres, além de dar proteção aos pés da mocinha disciplinadora.

Naquele dia ela o fitou com um olhar tristonho, com um quê de mistério que ele não conseguia desvendar. Como convém em momentos assim, ele fez as perguntas de praxe: “O que foi? Não está se sentindo bem? Em que posso ajudá-la?” – Ela lhe acenou com a mão espalmada expressando impaciência. Entendido seu desejo de ficar só, deixou-a por um momento. Foi ao quintal conversar com os bichinhos, um vira-lata e um poodle, que jamais recusaram sua companhia, nem a dela, nem a de ninguém.

Sentado embaixo de um abacateiro, passando o pé sobre a barriga do vira-lata e a mão na pelagem do poodle, repassou o filme dos últimos anos. Desde o dia em que a conheceu junto de sua amiga Vera, numa tarde de domingo na pracinha da Matriz. Incomodava-o a obsessão dela por esoterismo e a aguda aversão por religião. “Coisa pra trouxa”, dizia sempre. Lembrou-se dos cabelos longos e encaracolados que, na brisa daquela tarde, tornavam-se revoltos encobrindo-lhe o rosto pontilhado de espinhas. Ela, delicadamente, fazia-os voltar ao lugar de origem ensaiando um falso rabo-de-cavalo que era imediatamente desfeito devido ao peso e volume daquela exuberante juba, preta como uma jabuticaba – ou como as asas da graúna, conforme diria Alencar. O frio acompanhado de uma tênue neblina fê-los sair do relento e buscar abrigo num pequeno bar. O guaraná que foi por ela aceito sem cerimônia, o reencontro marcado para o sábado seguinte naquele mesmo banquinho da praça, “às dezoito horas!” e alguns desencontros foram suas mais abrasadas lembranças.

Entrou na casa novamente e não mais a viu por lá. Chamou-a uma, duas vezes. Quis gritar seu nome bem alto, mas conteve-se. Saiu em direção à rua e fechou rápido o portão para que os cãezinhos não o acompanhassem. Foi até a farmácia, que fica próxima ao ponto de ônibus, na expectativa de encontrá-la. Talvez fosse buscar algum remédio para dor de cabeça. Embalde foi a procura. Ela não estava na farmácia e nem passara por lá de acordo com o balconista, um velho conhecido. Voltou para casa e esperou por ela. Caiu a noite, mas não lhe caiu a ficha. Ela não voltaria naquele dia, nem no dia seguinte. Ela jamais voltou.
FILIPE

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A TORRE DOS VELHINHOS



É lamentável e moralmente reprovável a instalação de uma torre de telefonia móvel no Lar dos velhos de Amparo. Têm razão os moradores do bairro em seus reclamos; muito mais razão têm os preocupados velhinhos daquela instituição, que, a partir de agora, terão de sobreviver ao abrigo de tão assombroso “monumento”. Muitos deles, ainda lúcidos, se queixam dessa engenhoca, temendo pela saúde e até mesmo por uma eventual queda daquele “trambolho” sobre o prédio. 

Deixando as “jabuticabas jurídicas” para os juristas, o que se discute é a (i)moralidade do gesto. Nenhum diretor do Lar dos Velhos, ainda que fosse consultado, aceitaria que seu vizinho alugasse o quintal para que nele se instalasse uma torre dessas. Alegar-se-ia que, embora não haja estudos que provem malefícios da radiação, também não se prova a inexistência de possíveis danos à saúde a médio ou longo prazo.

A alegada motivação orçamentária, defendida pelo presidente da instituição, Sr. Walter Pozzebon, não convence. Caso o Lar dos Velhos passe mesmo por dificuldades, a diretoria deveria abrir seu livro-caixa para a sociedade, apontando todas as entradas e justificando todas as saídas. Havendo necessidade o povo amparense, com certeza, tiraria da penúria financeira esta centenária instituição. Mas não parece ser esse o problema. Até porque este articulista já tentou ser um associado da Casa para poder contribuir regular e sistematicamente com o caixa da instituição, mas o aludido presidente indeferiu o ingresso. Isso prova que o Lar dos Velhos não necessita de mais recursos, pois está abrindo mão de receitas que seriam advindas com novos sócios.

Conclui-se, afinal, que não se faz necessária a instalação de nenhuma torre de telefonia com o fito de melhorar a saúde financeira do Lar dos velhos. E para a saúde e tranquilidade dos velhinhos, basta a “torre de óleo” tão generosamente construída pelos amparenses.

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      Publiquei recentemente esse texto no jornal “A Tribuna” de Amparo. Esperei, em vão, pela habitual réplica do beligerante presidente do Lar dos Velhos, por quem já fui acusado de “distribuir doces vencidos” aos velhinhos, dentre outras traquinagens. 

      As próximas postagens serão mais amenas. Tenho sido muito amargo, porém a vida nos exige suavidade.


FILIPE

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

DEMOLIÇÃO PEDAGÓGICA

Não é para diletantes a arte do mestre-escola; nem a do pedreiro que reboca o teto de uma casa (deve doer bastante o pescoço de tanto olhar para cima!) ou do projetista de uma catedral, para ficar apenas no ramo da construção. É preciso muito mais do que boa vontade ou idealismo. É preciso competência, o que me falta, é claro – vou logo dizendo.
Por falar em construção – seara de uma gente miúda e palpiteira, alérgica a pó de giz, mas que se diz construtivista –, tentarei anunciar um projeto de demolição neste pequeno texto. Convido o leitor a me acompanhar. Serei breve.
Recentemente fui convocado pela Delegacia de Ensino para uma reunião. Eu digo delegacia, mas é proibido. O nome certo é mais pomposo: Diretoria de Ensino, embora não exista por lá um corpo de diretores que justifique o termo “diretoria”, é assim que se diz oficialmente; do contrário, corre-se o risco de ser convocado a comparecer numa delegacia de verdade. É bom tomar cuidado e não brincar com essas coisas!
As delegacias de ensino (ops! Diretorias de Ensino) não se cansam de tirar professores da sala de aula, convocando-os para fóruns em que são discutidos temas como “As Origens e os Rumos do Nada Pedagógico”. Levas de professores, após empanturrarem-se de bolachas, biscoitos e sucos de caixinha, dirigem-se ao auditório para cantar o Hino Nacional e aplaudir os mandarins. Nesta última, uma palestrante já bem madura, mas com fumos de doutora recém-alfabetizada, insistia com suas “peripérsias” educacionais (sabe-se lá o que é isso). Assim estava escrito  e assim era pronunciado por ela, a estrela mater do evento. A mestra orientava os presentes sobre como lidar com alunos recalcitrantes: “Se não quer fazer a lição, é preciso negociar. Pais e professores devem investigar o porquê disso. Já ocorreu o caso de um aluno de oito anos não fazer as lições, pois ele achava as questões muito ‘burras’. Isso mesmo! Propus a ele que rescrevesse as questões. E não é que ficou melhor do que o livro?!” – ensinava a doutora. O auditório ouvia silente, não se sabe se em êxtase ou pasmado, conquanto não houvesse abertura para debate. A palestrante veio para falar e nós deveríamos ouvi-la. Claro que tive fúria, mas também tive muito sono. Mas acho que não dormi.
No final, teria que preencher um papel avaliando o evento. Eu não sabia que era para elogiar. Juro! Então, resolvi escrever o que realmente achava daquilo, pois sempre imaginei que um palestrante metido a educador deveria ter erudição; caso contrário, eu também palestraria.  Mas alguém da organização ficou uma fera. E sua ferocidade foi tamanha, que se fez chegar até mim por vias pouco convencionais.

Ah, o projeto! É do governo paulista. Para o atual concurso, ele teve a brilhante ideia de admitir professores amadores. Explico: um futuro professor de Matemática, por exemplo, não precisa dominar álgebra, geometria nem aritmética. Para que seja aprovado, basta saber legislação e pedagogia – essa coisa inútil que faz apodrecer miolos. Decretou-se, pela primeira vez na República, que um profissional da educação estará apto para o cargo desde que domine generalidades, ainda que seja nulo em sua área. Para tanto, estabeleceu-se que o peso das questões específicas seja de apenas 30% da prova, contra 70% de baboseiras pedagógicas. Este é o projeto demolitório do governo demo-tucano paulista para educação popular. Acredite.
FILIPE