sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ARMISTÍCIO - ÚLTIMA PARTE

“continuação”

 A entrevista fluía num movimento pendular: tensão e descontração alternavam-se simetricamente. À afirmação de que ‘governa com mão de ferro’, replicou: “Ah, tá brincando. Sinto que o povo gosta de mim, até porque sou democrático nas decisões”.  Mas voltou a reclamar dos ‘ataques’ no jornal. “Mas esta já é a quarta publicação contra a pinga, e ninguém foi ao jornal para me contestar. Nem esse pessoal que ‘gosta muito do senhor’. Por quê?” “Ah, já me falaram sobre isso. Disseram: ‘não liga não, esse cara é tonto’ (risos). Pode até ser, mas você está escandalizando e São Paulo nos adverte contra isso”. “Mas quem escandaliza mais: o meu texto ou a torre de chope defronte à catedral?” “Empata!” “?!”

A conversa, antes dura, depois macia, começou a escorrer, tomando rumos prosaicos. Passou pela minha barba – que parecia mais preta, quando vista à distância, lá no fundo da igreja. ‘Aquela ovelha rebelde, que fica de butuca no que o celebrante fala para depois escrever’. “Você pegou uma frase minha: ‘Herodes bêbado, manda decapitar João Batista’ e pôs no jornal. Como é que eu fico? ...” “Mas eu não disse que foi o senhor”. “Tanto faz”. “Não, tanto não faz. Eu até havia posto o seu nome, mas... Se o senhor não sabe, eu costumo rezar antes de escrever e vou cortando, mudando... E eu rezei antes daquele texto. Aí, eu apaguei seu nome e deixei ‘celebrante’”. “Rezou pouco. Se tivesse rezado mais, teria cortado mais. Se rezasse mais ainda, teria cortado tudo. Sabe, até que você escreve bem. É um texto meio rebelde, meio adolescente, mas escreve bem. Poderia publicar um livro. Se fizer isso, venha aqui, que eu quero fazer o prefácio. Mas se for algo contra mim, nem traga” (risos).

O encontro foi chegando ao fim após suas muitas perguntas e reclamações. À queixa de autoritário, respondeu com atas, provando serem colegiadas as decisões. Abriu uma gaveta, fechou; abriu outra e a fechou também. Levantou umas revistas sobre a mesa e pegou uma cruzinha. “Vou lhe dar um presente do Papa Francisco. Pode ver que tem umas ovelhinhas aí, e você é uma delas. Tem uma que é a mais cabeçuda, que é você. Depois procure com calma”. Abri o jornal que trazia e lhe mostrei um livro. “O senhor aceita um presente também?” “Sim, claro. É você quem o escreveu?”, perguntou curioso.  “Não, é meu pai”. “Você ainda tem pai? Tem mãe?” “Tenho, graças a Deus”, respondi com a sensação de quem acaba de completar ‘noventa e oito anos’. Folheou o livro. “Este é seu pai, um santo. Você deveria se parecer mais com ele, mas não parece. Você se parece é com sua mãe, que deve ser santa também, mas é muito brava”. Apenas ri, falar o quê. “Então você é professor”. “Sim, dou aulas de matemática”. “Matemática... Nunca gostei de matemática. Escuta aqui: ainda se ensina logaritmo? Pra que serve isso, meu Deus?...” “É simples. Vou lhe dizer uma única frase e o senhor vai entender a importância dos logaritmos. Suponha que o senhor tenha 500 reais e precise de 600. Por isso, vai aplicar esse dinheiro a juros de um por cento ao mês até que se completem os 600 reais. O logaritmo entra nessa conta: para calcular o tempo em que o dinheiro fica aplicado. Entendeu?” Ele me olhou com cara de quem não quer decepcionar e disparou: “Não entendi nada!” Pegou o livro mais uma vez e leu em voz alta uma pequena dedicatória: ‘Ao D. Pedro Carlos, com o carinho de um filho’. “Carinho de um filho?!” – abraçou-me emocionado.


FILIPE

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

ARMISTÍCIO - PRIMEIRA PARTE

No começo de uma tarde desta estação, com muito sol e calor como não convém a um inverno que se preze, cheguei para atender a um convite com jeito de convocação. Ele estava em seu gabinete, e, avisado de minha chegada, veio logo ao meu encontro. Pareceu-me sombrio, mas aquela expressão nublada desanuviara-se um pouco com um sorriso embaçado.

“Então, o senhor é o professor Filipe. Qual é o problema, professor?” “Sou o Filipe, não costumo me apresentar como professor. Como sabe disso?” “Amparo é desse tamaninho!”, fez um sinal com indicador e polegar para mostrar quão pequena é nossa cidade. A pureza de suas mãos decerto santificaram aquele gesto, que, feito numa roda de adolescentes, teria significado desprovido de quaisquer virtudes.

Na tentativa de arejar o pé da prosa, provoquei: “O senhor está bravo comigo?” “Oh, não, eu nunca fico bravo com ninguém... Como poderia ficar bravo com você?... Mas, primeiramente, queria saber. Você é católico?”perguntou, passando levemente a mão sobre a calva. “Sou católico, mas essa pergunta é fácil de ser respondida. Difícil seria esta que lhe faço: Por que o senhor é católico?” Expressou impaciência e me devolveu a pergunta. “Eu sei que ninguém, com alguma inteligência, sente-se à vontade com essa indagação. Mas eu não me importo em dizer que sou católico porque fui educado nesta fé. Porém, digo com convicção: se toda a minha família abandonasse o catolicismo, eu ainda continuaria firme. Não tenho dúvida de que esta é a Barca de Pedro. Há algumas 'canoas' por aí, às vezes seguindo a ‘Barca’ à distância; noutras vezes, tomando rumos incertos, perdendo-se no horizonte, submergindo-se”. Eu disse, e ele ouviu calado minha preleção. Durante hora e meia de entrevista, este talvez tenha sido o único momento em que pude completar todas as frases.

Naquela salinha, luminosidade e calor excessivos sufocavam-me ainda mais do que os olhos de meu “inquiridor”. E ele retomou as rédeas: “Mas, se você é católico convicto, conforme diz, por que ataca a Igreja como sempre faz no jornal?” “Eu não ataco a Igreja”. “Mas me ataca!” “Não ataco o senhor”. “Mas eu estou todo ‘machucado’ com seus textos”. “Não era para estar, pois não ataco pessoas, e sim ideias, posturas”. Ele continuou: “É um escândalo publicar uma crítica ao bispo, a um padre. Isso deve ser resolvido como agora, dialogando”. “Mas eu já mandei inúmeros e-mails, e ninguém sequer os responde”. “Eu respondo”. “Não, também não responde”. “Eu não respondi a este?” “A este, sim, mas aos demais, não. E tem outra: por mais de uma vez, em meus e-mails, coloquei-me à disposição para uma correção fraterna, mas nunca fui convidado”. “Mas você foi chamado aqui, como diz isso?” “Demorou para me chamar!” “Mas eu já o chamei antes, e você não veio... Acho que estava com medo de vir” (risos). “Eu não tenho medo, mas até que gostaria de sentir medo”, disse-lhe sem convencê-lo.

“Fica publicando contra a Igreja”. “Não é contra a Igreja, é contra a pinga que vocês vendem”. “Mas, meu filho, eu sou contra, todos os padres são contra a venda de álcool nas festas, mas os festeiros... Eles batem na gente, querem vender, porque querem. Eu até poderia proibir, mas não sou autoritário”. “Não é o que dizem. Falam por aí que o senhor governa com ‘mão de ferro’!”
           
FILIPE                                                                                                                               
                                                                                                                    "continua” 


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

QUERMESSES DIONISÍACAS

"Quermesses com Cerveja", "Quermesses sem Cerveja", "Quermesses Etílicas" e... "Quermesses Dionisíacas"! Está publicado no semanário "A Tribuna de Amparo", edição de hoje, mais um capítulo da peleja deste datilógrafo contra  a venda de cerveja ou chope nas festas religiosas. Desculpe-me o impaciente leitor por eu lhe causar enfastio, mas não vou esmorecer diante de tanta teimosia.  



Tudo o que fizerdes a um desses pequeninos é a mim que o fazeis” – assim ensinava Jesus de Nazaré há dois milênios. Mas, quem são os pequeninos de Jesus? Para nós, cristãos ou não, os pequeninos são os desvalidos da sociedade: pobres, órfãos, viúvas, incapazes, alcoólatras etc.

Os cristãos católicos, no entanto, parecem não ter assimilado a mensagem do Mestre – e não é por falta de informação. Todos sabemos que o álcool é uma droga que, embora lícita, degrada o ser humano física e moralmente. Inúmeras pesquisas, publicadas pelos mais diversos organismos, corroboram esta tese. Estatísticas apontam absenteísmo, propensão ao câncer, desestruturação familiar, mortes violentas etc., tudo isso em razão do alcoolismo. Numa recente celebração, quando se rememorava o martírio de São João Batista, o celebrante enfatizou em sua homilia: “Herodes estava bêbado quando, seduzido por Herodíades, mandou decapitar João Batista”. Nessa lapidar reflexão, o pregador aponta um registro histórico do malefício do álcool. Mas, por que ainda se permite a venda de bebidas alcoólicas em quermesses? Não seria necessário que se estendesse à pratica o que se prega no púlpito?

A nossa diocese abriga várias pastorais, dentre elas, a Pastoral da Sobriedade. Esta se destaca no atendimento a dependentes e seus familiares, vítimas do alcoolismo. Ironicamente esta mesma Igreja, que maternalmente estende a mão a esses desvalidos, parece agir com indiferença, quando permite o comércio de bebidas alcoólicas em suas festas. E sob o “guarda-chuva moral” da Igreja, muitos jovens se sentem mais à vontade em suas iniciais incursões etílicas.

Quando se celebra a Festa da Padroeira, a Igreja Particular de Amparo não deveria descuidar da importância de Maria na vida desses “pequeninos de Jesus”. Com certeza ela não aceitaria que Dioniso – o mitológico deus grego – fosse homenageado em sua festa.

FILIPE

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

REFLETINDO

Não apresento aqui uma contribuição às ciências humanas, mesmo porque este autor que ora vos agasta não tem suficientes letras para se arvorar de intelectual. Mas, pensando sobre as voltas, reviravoltas e cambalhotas que o mundo dá, cheguei à conclusão de que os antropólogos, sociólogos e demais estudiosos do comportamento humano – e os há às montanhas – estão nos devendo alguns porquês sobre nosso comportamento.

É sabido que as pessoas comportam-se mais ou menos conforme determina seu líder. Já os liderados, muitas vezes, nem têm noção de como são conduzidos; o líder, noutras vezes, nem mesmo se vê como condutor.

Baseando-se nessa breve assertiva, pode-se entender melhor o (mau) comportamento de determinadas pessoas ou grupos. Isso se verifica em gangues travestidas de torcidas organizadas, em determinadas famílias e, principalmente, nas seitas religiosas. Estas têm sido muito comuns e se proliferam feito sauveiro após as primeiras chuvas.

O líder de uma seita é conhecido e venerado, mas esta não é uma regra aplicada às famílias. Em geral, no núcleo familiar o líder aparente é um parvo. Pensa que manda, mas não decide sequer pelo café ou a pinga que bebe. À sua sombra – ou melhor, fazendo-lhe sombra – há quem de fato comanda a todos, inclusive o dito “mandachuva”, que, de tão inepto, não chega a ser nem “manda garoa”. Para o bem ou para o mal, essa liderança, ainda que submersa, existe e determina toda a trajetória do grupo.

Se o inexistente leitor discorda deste ensaio, dou-lhe o crédito da inteligência, que muito me é escassa. Ainda assim, ouso avançar nesta insana explanação. Para corroborar esta tese, tomo como referência a matilha do vizinho. Lá, há uns três ou quatro cães ferozes, mas um deles é quem decidiu pela ferocidade canina. Caso o líder fosse “gente boa”, a matilha passaria o tempo cochilando, sonhando com um osso e meditando sobre seu pequeno mundo delimitado por muros, e a perna do visitante estaria a salvo.

O ideal para todos nós, humanos, desumanos e para os “mano” também, seria que ninguém se submetesse aos ditames de outrem. Cada um deveria se empenhar em descobrir a verdade em meio a tanta maldade e deixar-se guiar por ela. Há que se encontrar discernimento, ou então se caminha manso e bovinamente para o matadouro.

Voltando aos grupamentos humanos, mais especificamente às tribos, suburbanas ou não, e aos clãs, o líder é quem lhe dá rosto. Vícios ou virtudes dessas massas têm o DNA de quem as comanda.  Esse comando, consciente ou não, pode vir de patriarca, matriarca ou “filiarca”, com o perdão por esse neologismo.
 
Por essas e tantas outras, tenho recalcado meus ânimos. Tento, meditabundo e sem muito sucesso, interpretar os “sinais do tempo” presente, passado e futuro. Mas, o produto de tamanho exercício mental deu nesse besteirol.

Desconfio que a (não) crônica de hoje deva frustrar alguns abnegados que insistem em me acompanhar. Mas, fazer o quê?... Preciso cumprir a agenda da quinzena...



FILIPE

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

NATAL

Amara dona Palmira por meses, anos talvez, mas um dia os anjos levaram-na. E por tempos, Natal acabrunhara-se, ficando sentado num banquinho e tendo por companhia apenas o cigarro. Seu luto demorava passar, até que chegou dona Maria e pôs fim àquela tristeza toda.

Duas mulheres distintas: a primeira, baixinha, vaidosa e já octogenária, disfarçava os anos à custa de grossas camadas de ruge e batom. Usava vistosos vestidos de cores fortes, em tons que variavam do vermelho ao alaranjado, e também brincos e colares, mais parecendo uma cigana. A segunda era de uma estética mais discreta. Somente de vez em quando punha seus esmaltes e alguma maquiagem leve. Não obstante a diferença entre as duas, Natal as amou platônica e intensamente. E o fez bem à sua maneira, cada qual no seu tempo e sem duplicidade.

Certa feita, Natal ficando gravemente enfermo teve que se submeter a procedimento que envolvia uma engenhoca com mangueira e agulha espetada no pulso. Ficou nervoso com aquela parafernália e tentou recusar o tratamento. Mas, para seu consolo, eis que surge uma “enfermeira” em tempo integral. Sua amada, dona Maria, instalou-se ao lado de sua cama e lá permaneceu sentadinha até que ele se curasse. Cena comovente aquela.

Noutros tempos, Natal teve dificuldade de visitar dona Maria, pois seus pés estavam cheios de cravos. Obstinado, era comum vê-lo em peregrinação à ala feminina. Arrastando os pés bem devagarinho, boné atolado e cigarro na boca, ia ele cheio de amor e saudade. Houve tempos em que cheguei a conduzir dona Maria, já em cadeira de rodas, até seu amado. Deixava-a com ele enquanto visitava os demais. Na despedida, trocavam um discreto beijinho.
 
Parecia ter ciúmes, principalmente de dona Palmira. Talvez isso acontecesse pelo fato de que esta fosse um pouco “atirada” para seus padrões. Já dona Maria era mais contida e não lhe despertava insegurança.

Nos tempos de dona Palmira, quando não era crime distribuir doces naquele asilo, eu lhe oferecia balas. Nunca aceitava, mas a namorada sempre o impelia a pegar. “Pega, Natal, e dá pra mim!” Ele, finalmente, pegava sem dizer palavra e as entregava de pronto à companheira. Por essas, eu até cheguei a não me afeiçoar com ele. Achava-o rabugento, mas com o passar do tempo vi que era simpático, proseador, bacana mesmo. Antes, ele apenas resmungava alguma palavra; depois já se ouvia um bom-dia com sonoridade; finalmente, tornou-se íntimo e palavroso.

Após a morte de dona Maria, Natal ficou recolhido. Muitas vezes, no meio do dia, eu o encontrei desacoroçoado, deitado na cama sob o cobertor. Ao lado, no criado-mudo, um intocado prato de comida. Sem fome, ele aceitava umas paçoquinhas que eu arriscava clandestino. Mas, com o endurecimento do “regime” e o patrulhamento da diretoria, fui acusado de distribuir doces vencidos. Não houve, portanto, mais paçoquinhas. E o Natal definhava.

Partiu dona Palmira, partiu dona Maria, partiu Natal, partirei eu. Tudo o que resta são recordações que se anuviam, se descoram e se apagam. Como se apagam as existências.

FILIPE

NOTA: Dona Maria já foi retratada em crônica que será reproduzida em “feldades”.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

ESMOLER

Uma amiga de adolescência levava sempre consigo uma bolsinha empanturrada de “pratinhas” para distribuí-las, conforme a necessidade e a sorte de quem encontrasse a esmolar. Para ela, não importava se a moeda era de pequeno ou grande valor. Pegava uma sem observar e a dava ao pobre pedinte. Agradecido, este abençoava a moça e guardava a moeda sem conferir para, em seguida, estender a mão ao próximo passante, como que lançando o anzol para a próxima fisgada.

          Admirava a amiga por sua generosidade, mas nunca fui assim tão bondoso. No máximo, costumo abordar o infeliz indagando-lhe da aflição do momento. Sendo um prato de comida, quero saber quanto tem ou quanto lhe falta para comprar o mastigo. Quase sempre o assunto se encerra. Daí, deduzo que o espertinho pretende fazer fortuna em cima da bondade alheia; ou, em certos casos, juntar recursos para ilícitos.

        Recentemente, caminhando pelas ruas de Sampa e me deparando com alguns deles, resolvi dar atenção a um. O homem se encontrava encostado num poste de iluminação sobre uns panos, ao lado de uma caixa de papelão. Aproximei-me e perguntei por que pedia. Disse-me que queria comprar o almoço. Perguntei quanto lhe faltava, mas não consegui entender sua fala. Então, fui mais enfático na pergunta para saber quanto já tinha faturado. Ele me disse que tinha três reais. “Vamos ver se tem isso mesmo”, disse e acrescentei: “Vou completar para você”. Ele se animou e começou a contar as moedas enquanto mas entregava. “Sua conta tá errada!” Ele voltou a contar e, dessa vez, contou certinho. “E essa nota de dois reais?”, perguntei, pois tentara escondê-la. Mas foi logo explicando que era para comprar leite para a “filha de um ano e meio”. “Tem moeda maior escondida aí...”, insisti. “Não, não tem!”, redarguiu. Mas tinha, e ele me entregou também. “Vamos lá, vamos comprar o leite e a comida.” Mas antes, fez-me uma pequena exigência: “O leite tem que ser Ninho!”

        O homem se levantou, seguiu-me cambeteando e apontou para um lado, dizendo ser lá onde compraria o leite Ninho. Chegando, disse ter se enganado, mas que não estava longe. “Vamos um pouco mais pra frente e já vamos achar. É logo ali. Quero um lugar mais barato pra você economizar”. Sempre dizendo que queria me ajudar, que é pra eu não gastar muito, mas nunca chegava a tal lugar. “Quero voltar”, disse eu àquele que me seguia cambeta, e agora me conduz lépido. Coxo antes, depois ágil feito um capoeira. E eu me aborrecia com aquele mendigo que era só meu e que insistia em “me ajudar”. “Pronto, não vou mais”, disse-lhe empacando-me de vez. Mas ele não se vencia. Dentro de uma lanchonete, onde fora pedir informação, tentei devolver-lhe a grana penhorada dizendo: “Toma! Vou lhe dar um lanche e fica tudo certo.” Quando eu já pedia um salgado, ele me interrompeu: “Calma, rapaz! Agora que estamos chegando... Venha comigo.” Saímos do bar e ele apontou o horizonte. “É ali, logo depois daquela placa azul. Tá vendo?” Perguntei qual placa, ele apontou umas três vezes, mas eu não vi placa alguma. Percebi, quase tarde, a farsa e os riscos. “Toma seu dinheiro!” Ele não queria, mas insisti. “Toma, pois quis ajudá-lo, mas você não quer ajuda. Tchau!” Ele ainda tentou: “Dá o lanche então!” “Não tem lanche, não tem mais nada. Você me enrolou!”


  Sumi dali deixando-o na sua melhor forma: a suplicante mão estendida pedindo ajuda. Algumas horas depois: “Ô mano, paga um lanche pra mim, vai!...” Olhei, era ele.
                                                                                                                                            FILIPE

sexta-feira, 11 de julho de 2014

ALGOZES RUBRO-NEGROS


          Não, solitário leitor, não quero fazer nenhum “panegírico” aos flamenguistas (usando a possível expressão de um irmão erudito). Neste momento, continuo catatônico devido ao “mineirazo” e, talvez por isso, melhor seria que não me levasse a sério – alguém me leva a sério?...

          O jogo que se anunciava para aquela agora tristemente inesquecível tarde no Mineirão enchia-me de júbilo. Como a Alemanha envergaria o uniforme rubro-negro, numa patética homenagem ao Clube da Gávea, pensei: “Se os alemães são Flamengo, os canarinhos são Vasco da Gama. E ponto final. Vamos massacrar a mulambada!”

          Confesso ao inexistente leitor, que evito assistir aos jogos do Vasco. Meu time é bom, ganha sempre, principalmente do Flamengo, mas fico inseguro, entende?... Porém, com a Seleção representando o Vascão, por que não acreditar?

          Posicionei-me no sofá da sala com os olhos fixos na tela da Band, pois não suporto a locução rouca de certo Garvão, e muito menos sua emissora. Na Bandeirantes, o problema são as abobrinhas proferidas pelo Neto, mas pra que exigir perfeição? O importante seria mesmo a derrota dos rubro-negros, e isso prenunciava certeiro.

          Tem início a partida e os “cruz-maltinos” chegam com perigo à área “rubro-negra”. Começou bem, é só botar fé que vai ser de goleada! Mas, de repente, há um escanteio e os “flamenguistas” fazem seu golzinho. Não, isso é apenas um acidente, ponderei. Passados mais alguns segundinhos, outro gol “mulambo”! Essa coisa não tá prestando, pensei já bastante chateado. Levantei-me e ia saindo para “tomar um ar”, quando: “Goooool!” Voltei tropeçando em tudo: tapete, mesinha etc. “Enfim, diminuiu!”.  Que nada, os teutônicos ampliavam o placar. Corri, ou quase, porque minhas pernas tremiam e eu tremia sobre elas. Talvez fosse o frio, pois este inverno está de lascar!  Pensei: “Vou dar o fora daqui. Nós, com esse futebolzinho... Parece que a Alemanha vai vencer e eu não quero perder tempo vendo o Brasil ser derrotado". Procurei meu chimarrão e... “Goooool! Da Alemaaaaanha!!!!” Peguei com pressa a chaleira no fogão,  a água ainda meio fria  para o mate. “Não aguento mais ficar aqui. Como joga mal este Brasil!” Peguei a cuia rápido, caiu um pouco de erva no chão (depois eu limpo), peguei a garrafa e a enchi com aquela água apenas morna e fui saindo em direção ao rancho. "Gooooool! É da Alemaaaaaanha!!!!!!"

          Contou os gols? Não sou bom em aritmética, mas parece que aí em cima já são cinco bolas na rede. Quer conferir?... Tudo isso em menos de 30 minutos! Então, sumi da sala, da cozinha, da casa..., cada vez mais apressado e temendo o pior, que veio febrilmente. Foram apenas sete. Teriam sido mais, acredito, caso não fosse um molequinho. Com a camisa da Seleção e celular à mão, ele ligou para seu pai e, aos prantos, implorou: “Pai, fala pra eles pararem de fazer gol... Fala, pai!" Acho que o velho atendeu o pedido e decretou o fim do massacre.

           Ainda bem que foi a Seleção..., pensei entre triste e aliviado. Mas esta Copa não havia sido comprada pelo Brasil?...

FILIPE