sexta-feira, 25 de maio de 2018

TRISTE CENA, TRISTE SINA


A policial saca a arma e mata um bandido em frente à escola de sua filha. O momento era tenso, perigoso, havia muitas vidas em risco e parece que a agente cumpriu sua obrigação. No dia seguinte, o governador-candidato já estava faturando. Homenageou a policial com discurso e buquê de flores, e sentenciou garboso: “Quem ofender um policial corre risco de vida, pois a farda é a extensão da bandeira do estado!”

O discurso do governador está bem ajustado ao presente, quando uma onda ufanista se avoluma, mas se encaixa no pretérito também. Descobriu-se recentemente que os governos militares autorizaram a execução de “inimigos políticos”, contrariando, pasmem, a orientação dos Estados Unidos. Na época houve, inclusive, um incidente diplomático entre os dois países devido à rebeldia do governo brasileiro, descumprindo o recomendado.

Mas será que aquela policial agiu prudentemente? Soube-se depois, como era de se esperar, que o bandido não estava só. Ao menos um de seus comparsas já foi identificado. E se a policial errasse ou não conseguisse imobilizar imediatamente o assaltante, o que poderia ter acontecido? Sabe-se que bandidos não costumam agir com “muita responsabilidade” e um tiroteio resultaria em tragédia.

Na semana seguinte àquele triste episódio, a Folha de S. Paulo publicou resultado de uma pesquisa, afirmando que nos últimos anos apenas ‘oito por cento’ dos policiais saíram ilesos após reagirem a um ataque. A Folha explica que casos “bem-sucedidos” como o da policial acima não entram nessa estatística, porque ela não era alvo do bandido. ‘Oito por cento’, em boa aritmética, significam ‘dois em 25’. Em outras palavras, para cada 25 confrontos, 23 policiais ou morreram ou ficaram feridos. Conclusão: se a polícia, que é treinada para o enfrentamento, não se sai bem quando surpreendida pelo bandido, o que será do cidadão comum?  Esses números deveriam pôr fim à estultícia dos que querem armar o “cidadão de bem”.

Mas os tempos são outros e são bicudos. Pesquisas apontam uma crescente mortandade de jovens nas operações militares, mas ignorada pelo noticiário. A grande mídia destaca a “glamorosa” detenção de velhinhos muito em moda ultimamente. Políticos e empresários, alguns já anciãos, estão indo para o xadrez.

De minha parte, ser “do bem” causa-me engulhos, porque essa expressão foi sequestrada pela “gente do mal”. Eu queria ser “da paz”, mas a ‘paz’ também parece estar maculada. Não sendo do bem nem da paz, quero justiça e paz. Que o ‘bem’ prevaleça sobre o ‘mal’. Que os velhinhos corruptos sejam todos punidos, não com a prisão, mas com a expropriação. Soltos, porém pobres, sem o butim. Que criminosos contra a vida sejam todos presos e recuperados. Que se inspirem em Minas Gerais, que tem a APAC com suas prisões humanizadas, onde presos têm dignidade, recuperam-se, e sem que o sistema lhes seja condescendente.  

É, naquele Dia das Mães, pensei na minha mãe e em muitas outras mães, algumas já ausentes. Pensei na policial de posto modesto, também mãe e agora vulnerável após ter sua identidade devassada. Pensei também naquela mãe anônima, que teve como presente no seu dia o corpo do filho de 21 anos para sepultar.

FILIPE                                                                                 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A VELHICE


A velhice vem chegando, mas não de mansinho e arrastando as pantufas, como querem uns. A velhice tem pressa.

Não faz muito tempo, eu era um menino de ‘pés descalços e calças curtas’. O curso primário, que comecei aos seis anos e que parece ter sido ontem, fiz usando apenas duas peças: calção e camiseta. Para a solenidade de entrega do “diploma do quarto ano”, papai, orgulhoso de mim, pegou um casaco militar que ganhara de amigos e o deu a uma de suas irmãs para transformá-lo na minha primeira calça comprida. Até hoje eu me lembro do desconforto: as pernas, antes livres, agora embrulhadas no tergal que lhes embaraçava o movimento. Foi uma revolução para um corpo ainda “implume”, um marco, o rito de passagem da infância para a juventude. Com aquelas calças compridas eu me sentia um homem-feito antes dos dez anos.

Com os primeiros ventos da mocidade a roçar-me o buço, já comecei a me preocupar com a velhice. Não queria rugas, cabelos brancos e os demais “assessórios” reservados aos provectos. E quando completei ‘dezenove anos’, já me sentia um “ancião”. Tomado de angústia naquele dia, escrevi um longo desabafo, que começava assim: “Hoje completo dezenove anos – uma data que para mim deveria ser motivo de alegria, mas (...)

A velhice pode chegar aos 60, segundo o IBGE; ou aos 65, conforme a Constituição Federal; ou ainda aos 70, de acordo com o Código Penal. Mas ela pode se antecipar para alguns ou atrasar para outros, independentemente de convenções. Velho não é quem tem cabelos brancos, pele flácida ou documentos esmaecidos. Já quase ‘idoso’, descobri que o principal sintoma da velhice é a ‘teimosia’. Não importa a idade. Se você tem dificuldade para aceitar opiniões, mudar hábitos e fica ranzinza sem causa que a justifique, está velho, camarada!

Há pouco tempo, no metrô, inaugurei uma nova etapa em minha vida. Estava de pé quando um jovem se levantou e me ofereceu o lugar para eu sentar. Agradeci sem entender a deferência. Pensei na pequena mala que eu carregava, mas não era a mala. Eram os anos mesmo. Talvez isso explique algo que se tornou recorrente de uns tempos para cá. Com certa frequência, tenho sido interpelado assim: “Já se aposentou? Ainda não se aposentou?! Quanto tempo falta pra se aposentar?...” Não, não me aposentei e sabe por quê? Porque eu amo dar aulas! Quero morrer bem velhinho numa sala de aula, sufocado em pó de giz e nos flatos da galera, entendeu?” Embora eu tenha vontade, não respondo assim. Sou polido e quero ser reputado como “moço bem-educado”. E mais tarde, quero ser um velhinho simpático, sorridente, daqueles que dão bom-dia, boa-tarde ou boa-noite a todas as pessoas que encontram na rua.

Não, ainda não sou sexagenário, mas já estou quase lá. Meus companheiros de infância, um amigo de mocidade e até o irmão mais velho já se tornaram ‘sessentões’. E essa tal “melhor idade” já me toca os calcanhares e dela eu não me esquivo. Porque a velhice, somente ela, é capaz de silenciar a carne e serenar o espírito.

FILIPE

sexta-feira, 27 de abril de 2018

RUPTURAS


Rupturas acontecem ao longo de uma existência: vida mais longa, mais rompimentos. A velha aritmética demonstra isso, e convence. Entre os muitos enlaces e desenlaces, há entrelaçamentos de frágeis estruturas que trincam, vergam e desmoronam ao sabor das mais amenas emoções. Tudo parece ir bem, sem esforço, mas sempre da ordem para o caos – conforme manda a ‘entropia’.

Rupturas acontecem entre colegas, vizinhos e, acredite, ‘amigos’ de redes sociais. Aliás, essa forma de amizade parece tão sólida quanto uma paçoquinha. Eventualmente há nessas mídias alguma solidariedade, vale registrar. Todavia, a convivência cotidiana é o grande teste a que todos nos submetemos, e nele sucumbimos.

Romper-se com amigos ou familiares é rotineiro e dolorido. Não há por que comemorar o fim de uma proximidade, mas, apesar desses tropeços, a Terra continua em seu bailado girando, girando. E a vida segue sua trajetória curva. Nós, rápido ou devagar, vamos passando a passeio.

Uma fratura conjugal é a mais dramática de todas as rupturas. Ainda hoje, deparei-me com um caso desses. A mocinha confidenciou-me com olhos marejados a separação dos pais. Sem algo a lhe dizer, apenas balbuciei palavras do tipo “se precisar de um apoio emocional, conte comigo”. Ela agradeceu, dizendo: “Foi melhor para os dois!”

Aquele triste desfecho teria sido precedido de uma ‘fermentação’ não simples. Um religioso, quando “fermentado” por uma crise, pode reclusar-se em sua cela, consumir-se em ascese e arrebatar-se numa ‘experiência mística’. Para um casal em crise, no entanto, não há ascese nem mística que o auxilie. Terá que resolver suas pendengas “olhos nos olhos”, tête-à-tête. Nada de dormir no sofá, porque a crise só vai agudizar. A busca solitária de “novos ares” como botecos, viagens etc. selam inapelavelmente o fim da relação.

Muita gente parece não saber, mas o reatamento de um casal não é como a reconciliação de irmãos, amigos ou vizinhos. Aquele terno e lacrimoso abraço é para uma reconstrução fraterna. É lindo, maravilhoso, mas não cola "cacos conjugais". Na relação de um casal, não se oferece apenas o teto, a mesa, a mão. Oferta-se o corpo, esse sacrossanto e improfanável templo.

Nada justifica, contudo, o ódio pós-relação. Não sendo possível a convivência, que permaneça o carinho. A humanidade precisa mesmo é de amor fraterno – que sempre cabe, porque sua medida é justa.

Ao longo dos anos, encontrei pessoas amáveis, as quais não consegui retribuir afeto. Também encontrei pessoas amargas. Algumas daquelas adoçaram um bom naco da minha vida. Encontrei também amigos de verdade, mas alguns se afastaram, enquanto outros ‘perseveram’.
 
Com muitos ou poucos amigos, no fim estaremos sós. Ninguém estará conosco no momento derradeiro. A solidão, sim, é a mais fiel e íntima das companheiras. Abracemo-la porque com ela nunca romperemos. A solidão jamais nos abandonará!

FILIPE

sexta-feira, 13 de abril de 2018

CENAS URBANAS


Manhã ensolarada de terça-feira. Após meu primeiro turno de serviço, deixo a escola, subo a rua que margeia a Praça São Benedito e sigo em direção à igreja. Estou criando uma rotina de passar lá todos os dias no final da manhã. Na praça, dois jovens “queimam matinho”. Passo lentamente e disfarço a observação. Eles me olham sem disfarçar, mantendo um riso contido, dando impressão de que me conhecem. Claro que sim e eu me lembro de um deles na escola. Valentão, sempre foi um sujeito desaforado – como diziam os antigos de minha terra sobre tais tipos. Esteve preso por algum tempo, mas “a liberdade voltou a cantar”, conforme verseja a “poética cadeeira”.

Subitamente, uma viatura da GM aparece na descida. Os policiais vasculham a praça, espetam os olhos na dupla, estacionam em diagonal, descem do carro rapidamente e gritam: “Mãos pro alto!” Olho para os “manos”, mas eles não me olham mais. Estão ocupados, vestindo a camisa e vão ‘vazando de fininho’, como se ordem não lhes fosse dada. Os policiais permanecem próximo à viatura e não empreendem a ‘caçada’ conforme eu previra. Entro na igreja e olho mais uma vez para os lados da praça. Os rapazes já vão longe, apressados, mas sem polícia atrás.

Manhã ensolarada de quarta-feira. Saio da escola e subo a rua em direção à igreja. Na praça, vagueiam dois jovens no estilo “mano”. Observo-os sem disfarçar e vejo que não são os mesmos do dia anterior. Mas como aqueles, esses também me olham rindo, mas não sei por quê, e nem de quê. Talvez tenham sido meus alunos. Continuo andando, já quase os esquecendo, quando algo me chama atenção. Um homem forte pega na camisa de um, sacode e grita alguma coisa que não entendi. Segui, mas um barulho me faz parar e olho novamente para a praça: empurrões e chutes são dados no moço; o outro se afasta e se senta num banco a meia distância. Mais chutes... e gritos: “Eu errei, senhor, eu errei. Me deixa!” Não consegui ouvir o que o fortão dizia, mas deu para ver o que fazia: uma pistola era apontada para a cabeça do rapaz, compondo um quadro dramático. Pensei que fosse um policial civil em ação, mas não. Policial não age a sós em serviço. Além do mais, renderia os dois suspeitos, sem jamais deixar alguém em posição de tiro, como ficou o outro.

Caminhei sem saber o que fazer e um pensamento difuso me dominava. De início, queria aplaudir a atitude do possível policial na abordagem de um rapaz suspeitíssimo. Mas ele não era policial, até porque não agiu corretamente, torturando o jovem. Talvez fosse um miliciano ou, quem sabe, “chefe” da “boca” num acerto de contas, pois essas dívidas são cobradas de acordo os repulsivos códigos do crime.

Tudo isso acontecendo numa manhã ensolarada, e na região central de uma pacata cidade. Imagine outras cenas nas periféricas noites suburbanas. Triste jovens, tristes cenas!

FILIPE

sexta-feira, 6 de abril de 2018

LULA


Hoje é um dia triste para mim e, por isso, quebrando a tradição, escrevo fora do cronograma habitual. Para muita gente, no entanto, este é um dia de júbilo porque, finalmente, Lula, o “grande satã”, vai para as grades. O mais triste é ver pobres, beneficiários dos programas sociais do PT, comemorando o calvário de Lula. A mídia, essa entidade “onipotente”, “onisciente” e “onipresente”, faz desses “milagres”.

Não quero discutir erros do Lula nem do PT. Certamente houve, e muitos. Mas, e os acertos... não contam?  Quantas vidas foram salvas naquele período de 13 anos de Lula e Dilma!... A fome foi praticamente extinta com o Bolsa-Família; o Pró-Uni colocou milhares de jovens nas universidades particulares; as cotas para estudantes de escolas públicas nas universidades federais; o ‘Mais Médicos’ prevenindo e curando doenças do povo da periferia e do sertão; linha de crédito para pequenos agricultores; o Minha Casa, Minha Vida; o incentivo a cooperativas rurais, e muito mais.

“Decisão judicial não se discute, cumpre-se” – esse é um surrado bordão que só se aplica aos pequenos. Recentemente, o presidente do Senado foi afastado pelo STF. No entanto, o senador negou-se a cumprir o mandado e continuou presidindo a Casa.

O Supremo Tribunal não mesmo supremacia e a história recente demostra isso claramente. Durante o regime militar, os ‘supremos magistrados’ viviam agachados perante os generais; no confisco da caderneta de poupança, perpetrado por Collor, o que fez o STF? Nada! Agora, por decisão daquela corte, o ex-presidente Lula pode ser preso. E quem vai mandá-lo “às galés” é seu desafeto paranaense, que deveria estar impedido.

A prisão de Lula é injusta, desumana, cruel. Não cometeu crime contra a vida, não é ameaça à paz social, não anda armado. O crime, segundo dizem, é a posse ilícita de um apartamento, que ele nega. Se o “apê” não tem dono, porque a Justiça não confiscou o ‘bendito’ imóvel para leiloá-lo? O Judiciário seria mais justo se agisse assim. Havendo um bem de origem duvidosa, que seja confiscado, leiloado e doado seu valor a entidades beneficentes. Hospitais públicos, asilos e creches esperam desesperadamente por verbas.

O PT não entendeu o significado de “governança de coalizão”, ou seja, ‘compadrio’. Um governo bem-sucedido precisa se compor não só com o Parlamento, mas com o Judiciário também. Dilma caiu, não por desvio de conduta, mas por ignorar isso. De cada dez pessoas, onze não sabem por que Dilma sofreu impeachment. Já no estado de São Paulo, o ‘governador-candidato’ a presidente sabe muito bem como agir. Na Assembleia Legislativa, jamais prospera uma CPI contra seu governo. No Judiciário paulista não é diferente: os processos sofrem de ‘paralisia crônica’. Talvez por afeto, carinho ou gratidão, um presidente do TJ se aposentou para assumir a Secretaria da Educação.

Quanto a Lula, ele fez mal em resistir à prisão. Há tempos, deveria ele ter se apresentado aos juízes, implorando, de joelhos até, que o prendessem. Não fez assim. Agora, sugiro que resista bravamente! Crie fatos para a mídia. É preciso que o mundo veja como é o Brasil, essa terra sempre dominada por coronéis e bacharéis – os oligarcas de sempre.

FILIPE

sexta-feira, 30 de março de 2018

MISTÉRIOS


A imagem que ilustra esta crônica pareceu-me intrigante. Antes que o leitor escorregue distraidamente pela página, sugiro que volte os olhos para a foto e tente decifrá-la. O que está ali?... Após examiná-la, continue a leitura. Ao final deste “tobogã”, outra imagem o aguarda para fechamento do texto.

Confesso ao ‘ausente leitor’ minha dificuldade para acreditar em milagres, que acontecem, mas sem estardalhaços. A tecnologia, por exemplo, é um milagre do engenho humano – apesar da horrorosa ‘tomada de três pinos’! A tríade (vida, morte e ressurreição) é o mais sublime dos milagres – obra-prima do Criador. Mas há outros ‘sinais’ que nos inquietam cotidianamente.

A história é a seguinte. Uma amiga, freira por mais de trinta anos e a quem chamo carinhosamente de ‘Irmãzinha’, deixou o convento. Houve desentendimentos com a “chefia”, dos quais não tenho ciência, mas dou “carradas de razão” à amiga, que não se ocupa de outra coisa senão rezar e fazer o bem. Eis uma autêntica ‘irmã de caridade’, conforme nomeavam-se as freiras nos tempos antigos.

Essa amiga, ao sair do mosteiro e sob o risco de virar uma sem-teto, foi acolhida pela Diocese. Ajeitaram para ela uma casinha ao lado de uma capela abandonada, da qual tornou-se zeladora. Mas, quando da entronização do Santíssimo e não havendo aquela ‘vigilante’ lâmpada conforme manda a tradição, a religiosa acendeu uma ‘vela de sete dias’, que se tornou a ‘sentinela’ do Altíssimo por um tempo. A vela derreteu, transbordou e formou no mármore a imagem que encima este texto. Por ceticismo, insensibilidade, ignorância ou até mesmo sabedoria, alguém poderá descartar qualquer interpretação que transcenda a materialidade daquela cera. Com ou sem ‘delírios místicos’, o leitor tire suas conclusões ao final da leitura.

Comigo já aconteceu algo bastante curioso, que escrevi aqui há tempos. Quando criança, um boi invadia o nosso roçado para comer as espigas de milho. Eu o expulsava, mas ele voltava. Então peguei a espingarda, caprichei no carregamento e mirei o bicho. Era Sexta-feira Santa e, por sorte nossa, mais minha do que do boi, a espingarda quebrou e o tiro não saiu. Mas há outra história ainda mais interessante do que essa.

Era uma também uma Sexta-feira Santa – de jejum e abstinência. Embora meu pai sempre cumprisse e nos recomendasse a observância das normas doutrinais, sempre vacilei nesses preceitos. Mas naquele dia eu estava jejuando. Na hora do almoço, foi-me oferecida uma bacalhoada, que recusei sem muita convicção. Houve insistência. Resisti. “Não é pecado! Coma, vai...”  “Hoje não!”, repliquei quase cedendo. De repente, misteriosamente, o prato espatifou-se no chão, ficando na mão apenas a parte em que os dedos seguravam. Uma massa de cacos, molho, batatas e bacalhau confundiu-me mente e espírito, e eu nunca me esquecerei daquilo.

Mas os grandes sinais são sutis, e sua beleza não se vê com os olhos carnais. Para enxergá-los, é preciso ter a fé dos simples, a fé da Irmãzinha.

Abaixo está a foto do sacrário onde repousam as Espécies Sagradas. A vigilante vela se desfez e esculpiu a imagem que, sem esforço de imaginação, remete à asa de um dos guardiães que adornam o tabernáculo.

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FILIPE

sexta-feira, 16 de março de 2018

A IRMÃ MAIS VELHA


Escrever sobre a “Irmã mais velha” exige tempo, zelo, memória e o talento de um escritor que não sou. Ouso, contudo, pôr nesta página pequenos retalhos da vida dessa singular figura, que não teve uma infância ajardinada e multicolorida como toda criança deveria ter.

Muito cedo, ela teve de assumir compromissos domésticos – ao suceder à mãe impossibilitada pela enfermidade –, começando a fazer nossa comida, lavar as roupas, cuidar da casa e dos irmãozinhos. Por ser ainda tão pequenina, não conseguia alcançar as panelas sobre o fogão, também pequeno. Então, meu pai teve de improvisar, pondo um caixote de madeira para que nele subisse e pudesse manusear conchas e escumadeiras.

A nova cozinheira trouxe-nos conforto, oferecendo-nos refeições nas horas devidas, mas a menina custou a se organizar, atrapalhada que ficava com o serviço se avolumando cada vez mais. De manhã, quando papai se levantava para fazer o café, ainda havia vasilhas no fogão para serem lavadas. O pai ficava confuso, pois era “louça” para todo lado. Eu disse louça, mas eram panelas de ferro e pratos esmaltados. Naquele tempo, porcelana se achava apenas nas cristaleiras dos vizinhos abastados.

Mas papai foi orientando a filha, ensinando-a aos poucos. Na cozinha, havia uma mesa onde ficavam pratos, panelas e outros utensílios prontos para serem usados. Então papai sugeriu: “Filha, vou lhe passar um programa. Assim que uma panela for usada e você não puder lavá-la naquele momento, ponha-a debaixo da mesa, para que não atrapalhe o serviço. Quando puder, lave-a e a coloque junto às demais. Este deve ser seu ‘programa’ a partir de hoje”. O irmão mais velho, rapazinho muito trabalhador, mas sapeca à beça, provocava a irmã: “Olha o ‘programa’ debaixo da mesa!”, dizia às gargalhadas, apontado o dedo para as panelas sujas, deixando a coitadinha por demais furiosa.

Embora frágil na aparência e de saúde delicada, essa irmã nos surpreendeu. Em pouco tempo, aprendeu o ofício, tornando-se uma cozinheira de mão-cheia, mas não só. Foi arrumadeira, costureira, educadora, e uma segunda mãe para todos os irmãos, especialmente para os mais novos. Lembro-me de que, ao anoitecer, ela punha água morna numa bacia e banhava cada pequerrucho, enfileirando-os sentadinhos sobre um banco de madeira. Assim, após enxugar cada um, ela os vestia e os punha na cama para dormir.

É, a nossa vida naquele tempo não foi fácil. Certa vez, quando eu tinha oito anos, papai me pediu para que, na volta da escola, trouxesse dois pãezinhos para minha irmã, que estava adoentada. Um parêntese: pão lá em casa era artigo de luxo, que raramente podíamos comprar. Então, após as aulas, fui à padaria comprar os dois pãezinhos. Era bem de tardinha, quase anoitecendo e eu estava com uma fome danada. O cheiro do pão fresco aguçava ainda mais meu apetite e não resisti. Comecei a roer o pãozinho da mana ao percorrer a longa estrada até a casa. Fui pegando de mansinho e furtivamente um pedacinho do miolo, depois mais um pedacinho e mais um pedacinho. Ao chegar em casa, sem que eu percebesse, os pães tornaram-se dois canudos, sobrando deles apenas a casca. A irmã, naturalmente, não gostou e foi reclamar com o pai. Fiquei preocupado com a bronca, que certamente receberia. Mas não. O velho calou-se numa sofrida impotência por não conseguir comprar um simples pão para cada um dos filhos.

Essa irmã, guardiã dos pais e acervo da memória da família, reverencio genuflexo.

FILIPE