Foi um dia de júbilo. Talvez poucas
pessoas e em poucos momentos da vida possam experimentar a alegria que senti ao
chegar à casa dessa família.
Havia anos que não os via, e mais
anos se passaram sem que eu os visitasse. Certo dia, porém, após inúmeras
tentativas frustradas, desembarquei em Umuarama, no estado do Paraná. Chovia
muito naquela manhã quando o meu ônibus estacionou numa rodoviária moderna e
envidraçada. Desci do ônibus, mas eu não conseguia achar a minha amiga e fiquei
meio desorientado. Finalmente a vi no primeiro pavimento, onde ela estava há uns
bons minutos me esperando.
Na foto acima está a amiga ‘tia
Nice’, que não é minha tia, mas é minha tia, e no final explico por quê. Ao seu
lado, o esposo Antônio – caboclo bom, sistemático, de palavra firme e acertada;
à esquerda, a filha Fabiane – moça inteligente, culta, que foi minha aluna ainda
nos últimos "soluços" do século passado. Faltou na foto a advogada Renata, a
outra boa filha da tia Nice.
Mas, afinal, quem é a ‘tia Nice’?
Em poucas palavras: é uma mulher simples, amável e de um dulçor incomum. Todos
os dias trocamos mensagens e isso muito me alegra. Mulher de poucas letras e de
muita sabedoria, tempos atrás esteve às voltas com os estudos. A coitada ficava
aflita, querendo desistir, mas foi firme até concluir o ciclo. Certamente foi
apoiada por professores decentes e colegas sensíveis.
Sobre o tio Antônio, tenho uma
pequena história pra contar. Caso ele se aborreça comigo, corro aqui pra apagar
essa parte e depois lhe peço desculpas. Mas, por enquanto, ‘vale o escrito’.
Certa vez, um parente dele muito
‘gente boa’, mas meio atrapalhado, chegou tarde da noite e lhe pediu pouso. O tio
Antônio ouviu aquilo e, cabreiro, quis saber por quê. “Eu briguei com a minha
mulher e resolvi sair de casa”, explicou o desafortunado ‘briguento’. “Ah, é?...
Brigou e fugiu... Pois então volte pra sua casa. Eu até te dou pouso, mas
apenas se ela não te deixar entrar. Na rua você não vai ficar, mas, antes,
volte lá e veja o que acontece”, sentenciou tio Antônio.
O homem coçou a cabeça, quis
dizer mais alguma coisa, mas percebendo que não convenceria o seu velho camarada,
decidiu voltar pra casa. Aceito pela esposa, fizeram as pazes e todos,
inclusive o ‘marido fujão’, deram muitas graças a Deus pelo reenlace.
Pois é... Esse aí é o tio Antônio!
Homem determinado, nascido e criado nos cafezais das Araucárias e maturado no
aço das fábricas e montadoras do ABC paulista.
Voltando ao dia venturoso da
minha visita, tive o prazer de passar a manhã e um pedaço da tarde naquela casa.
Raramente em minha já surrada vida eu me senti assim, tão acolhido e abraçado. Há
uma regra não escrita para visitas, que diz o seguinte: “Quem chega, traz a
prosa; quem recebe, dá o café”. Pois naquela casa eu recebi o café, o pão e a
prosa!
Agora a explicação do porquê de ‘tia
Nice’. A quem pense ser parentesco algo necessariamente ligado a “laços
sanguíneos”, sou assertivo: “os ‘meus
parentes’ não são determinados pela biologia; sou eu quem os escolhe e tenho
por critério o afeto!”
A sua bênção, tia Nice!
FILIPE






