domingo, 22 de junho de 2025

TEMPOS DIFÍCEIS

 


Na manhã de hoje, que estava nublada e fria, tentei atualizar o blog com algumas ‘coisas desimportantes’, como diria o poeta Manoel de Barros, mas não consegui. Tive alguns afazeres e me ausentei do teclado, que continuou numa longa e plácida espera pra que eu prosseguisse.

De volta aqui, tento encarar o assunto com esta reflexão: parece que tudo importa nesta vida, menos a vida – pelo menos pra muita gente, incluindo o personagem caricaturado acima.

Isso porque os jornais já anunciam a entrada dos Estados Unidos na guerra contra o Irã. O fanfarrão de cabelo laranja arrota valentia, dizendo que “apenas eles têm capacidade de agir assim”. Claro está que esse poder é bastante relativo.

Abro aqui um parêntese para uma pequena e supostamente didática ilustração. Imaginemos que num boteco haja muitas pessoas, dentre elas um fortão armado de uma garrucha e um bêbado fracote portando um canivete. O fortão cisma de desarmar o fracote e lhe dá um tiro no braço. O canivete cai e o fracote, mesmo ferido, tenta apanhá-lo no chão. Nisso, o fortão age mais uma vez, dando-lhe um safanão. O fracote cai, mas longe do canivete, e é contido pelos demais que assistem à cena. O fortão, cheio de si, brande a garrucha, olhando desafiadoramente os presentes, mas evita encarar dois “cabras” sentados num canto do salão, aparentemente indiferentes ao bafafá. O detalhe aqui é que os dois “cabras” estão bem armados, o que explica esse comportamento tão fleumático.

Corta para o Oriente Médio, que seria o nosso “boteco” na ilustração acima. Ali, Trump atira e fere Khamenei, mas evita olhar para Putin e Xi Jinping que acompanham atentamente a refrega. Esses últimos, por óbvio, não serão incomodados, e isso deriva de um fato irrefutável: a soberania de um país requer arsenal nuclear.

E a vida?... A vida importa. Mas a vida de quem é importante?

Não tem importância a vida de milhares de palestinos que morrem de sede e de fome, muitos deles enterrados vivos nos escombros de Gaza.

Não tem importância a vida de israelenses inocentes sequestrados ou assassinados por terroristas islâmicos num suposto ‘ataque de surpresa’ a Israel.

Não tem importância a vida dos iranianos pobres, que não conseguem escapar das bombas lançadas por Netanyahu e Trump.

Não tem importância a vida de soldados americanos baseados no Oriente Médio, que, com a escalada do conflito, poderão ser atacados a qualquer momento pelos aiatolás.

Tento me afastar dessas desgraceiras, evitando o noticiário, mas não dá. Nunca deu. Ouço músicas e podcasts, leio crônicas e livros de história, mas, sem querer, ou querendo não querer, volto ao noticiário e fico sabendo que esse mundo não deu certo.

Os otimistas dizem: “No final, o bem vence o mal!” Não vence! Pelo menos aqui na terra, o mal prevalece. Confirme isso com um palestino de Gaza ou com alguma vítima de regimes tirânicos, sejam eles de esquerda ou de direita.

A criatura se rebela contra o Criador numa espiral de sangue sem fim. Isso aqui não deu certo!

FILIPE


domingo, 8 de junho de 2025

OLIMPÍADA DE MATEMÁTICA


Convido o raríssimo leitor a observar o “simpático” problema acima, que foi extraído da última Olimpíada de Matemática e que provocou algum bafafá na imprensa. Peço que leia atentamente, mas sem necessidade de resolvê-lo. Por que essa questão ficou tão famosa se ela não é tão difícil? Ela foi considerada difícil pelos estudantes, mas por ter sido mal formulada. Da forma em que é apresentada, não há solução possível e explico por quê.

 

A situação-problema confunde, porque nunca saberemos se quem participou ‘está mentindo ou dizendo a verdade’. Se o cara gosta de uva e marca banana, ele mente. No entanto, mesmo mentindo, se esse sujeito marcar apenas banana (não marcando maçã nem uva), será considerado verdadeiro por ter marcado somente uma fruta conforme o “regulamento”. Pelo proposto, é impossível calcular o número de ilhéus verdadeiros ou o número de mentirosos.                                                                                                                      

 

Agora vou reformular a questão de uma forma bem simplificada para que qualquer um possa compreender e até mesmo resolver.                                                                                                                                

 

Cada um dos 250 habitantes de uma ilha prefere apenas uma fruta dentre banana, maçã e uva. Alguns desses ilhéus são ‘honestos’, outros são 'desonestos'.  Dentro de um galpão teriam ficado três cestos, cada um contendo 250 frutas, sendo que o primeiro cesto conteria apenas bananas, o segundo com apenas maçãs e o terceiro com uvas somente. Todos os 250 habitantes da ilha entrariam no galpão, um por vez e sem supervisão, mas com a recomendação de pegar apenas uma fruta. Ao final, constata-se que foram levadas 140 bananas, 120 maçãs e 110 uvas. Quantos ilhéus são desonestos?  Ops! Não dá pra calcular ainda, porque alguém poderia ter cometido "duas desonestidades", pegando  não uma nem duas, mas três frutas. A questão deveria ser anulada.

 

NOTA: Meu computador está quebrado e estou usando o celular para digitar. Mais e melhor do que isso não consigo.

 

FILIPE

                                                                                                                

sexta-feira, 23 de maio de 2025

SERIAM OITENTA E SEIS...

 

A imagem que abre a crônica me transporta para um passado longínquo, já quase esquecido, quando meus pais moravam numa casinha simples, fincada na encosta de uma montanha das Gerais. Nesse pequeno recorte entrevê-se parte do cotidiano de minha mãe, que parecia pensativa, tentando lembrar algum nome ou fato. Talvez ela tenha sido interrompida em suas divagações enquanto escrevia, embora não me pareça contrafeita com isso. A pequena fotografia diz muito sobre a vida modestíssima que meus pais levavam. Mamãe está no seu quarto, tendo ao fundo a janela de tábuas rústicas; à esquerda vê-se o batente carcomido da porta; no canto, um esteio de madeira bruta revela serem as paredes feitas de pau-a-pique.   

Meus pais se mudaram para essa casa em 1979 e lá permaneceram por duas décadas. Muitas são as histórias contadas pela irmandade tendo como cenário essa “choupana”, o riacho que margeava o terreiro, o pé de manga defronte à cozinha, o campinho mais à frente onde a meninada brincava de bola, o vizinho Palmerindo, a estrada que conduzia ao povoado da Santa... Nessa casa, papai e mamãe viveram momentos felizes junto aos miudinhos, particularmente quando recebiam alegremente os graudinhos – estes morando na “cidade grande”.

Lembro do abraço que mamãe me dava quando eu chegava. Esse era um abraço diferente, que como aquele eu nunca ganhei de ninguém. Era apertado e rápido, semelhante a um pequeno empurrão, só que infinitamente carinhoso.  Aquela alegria era intensa, mas fugaz. Passado um tempinho, mamãe voltava a ficar bravinha, porque esse era o seu normal.

Na foto acima, mamãe estava escrevendo alguma coisa, mas acho que não seria carta. Sendo dos mais velhos, sou de um tempo em que ela gostava de se corresponder com uma prima que se mudara para uma terra distante. Mamãe apanhava uma folha de caderno e, pegando firme no lápis, desenhava cada letra, bordando devagarinho as palavras. Uma frase demandava minutos; uma página inteira levava dias. Se alguém se aproximasse, mamãe mal disfarçava o incômodo. Nervosa, dobrava aquele papel e o guardava, saindo dali para cuidar de outra coisa. Muitas cartas foram escritas e postadas; provavelmente outras ficaram “pra depois”, esquecidas e inconclusas.

Lembro com muita saudade das muitas vezes em que cheguei àquela casinha, sendo carinhosamente recebido pelos meus pais e os irmãos pequenos – todos esses uns maltrapilhos, e eu sem condições de lhes dar sequer um par de chinelos. E a imagem acima, com a mamãe ainda jovem, me traz essas lembranças de forma muito vívida e me faz revelar um pequeno segredo. Quando eu me despedia da mamãe, um nó na garganta me impedia de falar, mas ainda assim eu dizia: “Mãe, eu nem sei se vou achar passagem. Pode ser que não tenha ônibus pra mim, então eu volto pra ficar com a senhora, tá?...”. Enquanto eu “mentia”, ela passava uma das mãos nos olhos marejados e com a outra mão me segurava, tentando me fazer desistir.

Neste 23 de maio mamãe faria 86 aninhos. Não há festa, não há bolo nem parabéns aqui. Mas no céu, com certeza, ela está festejando o natalício com muita alegria ao lado do ‘amado Zezé’.

FILIPE


domingo, 11 de maio de 2025

BRUXA

 


Sim, pode parecer estranho, mas ‘Bruxa’ é o verdadeiro nome de Paulo Eduardo Belizário – pelo menos para o seu círculo mais íntimo, do qual orgulhosamente faço parte.

Pois é... o Bruxa, companheiro de tantas festinhas, partiu inesperadamente no anoitecer de ontem. Estávamos preparando uns petiscos para comemorar o Dia das Mães com as mães da família, mas não deu. O Bruxa decidiu ir para outra “festa”, onde a alegria não termina.

Vai ficar um enorme vazio nos nossos encontros, porque o Bruxa era o mais divertido, o mais animado e ele era também uma pessoa que ‘conseguia nos irritar sem aborrecer’. Pode parecer estranho, eu também acho, mas muitas vezes o Bruxa me irritou com suas provocações. No entanto, eu nunca fiquei aborrecido com ele. “Mas como pode isso?”, você deve estar perguntando. Vou explicar.

Quem me conhece sabe que eu não gosto de reuniões. Qualquer encontro em que se agrupam três pessoas já fico incomodado e, podendo, arrumo um jeitinho de “sair à francesa”. Mas com esse grupo do qual o nosso amigo fazia parte é diferente. Todas as vezes que alguém convida para um almoço, churrasco ou até mesmo um simples café, eu compareço de bom grado. Gosto muito de me reunir com esse povo e não é de agora. Participo desses eventos há muitos anos. Seja aniversário, Natal, Ano-Novo ou um festejo sem “grife”, lá estou eu, comendo, bebericando, discutindo política, futebol, religião... essas coisas das quais não entendo bulhufas – nem eu nem você, né Bruxa?!

O que o Bruxa tinha de interessante pra me fazer seu admirador tão devotado? Parece difícil responder essa pergunta, porque o Bruxa criticava tudo o que me é caro. Falava mal da minha igreja, das minhas fontes de informação, da minha postura política, de tudo! Sim, ele sempre me criticou, me irritava, mas nunca me aborreceu. Sabe por quê? Porque ele dizia essas coisas diretamente pra mim. Ele não falava de mim; falava comigo. E falava essas coisas em tom de mofa, porque ele sempre foi um simpático bazofeiro. Não havia nas palavras do Bruxa nenhuma intenção de ferir alguém, e disso eu tenho certeza. O Bruxa tinha um jeito “meio infantil” de se relacionar com as pessoas, e isso às vezes incomodava alguns. Mas nele não havia maldade, porque a sua espontaneidade era genuína, de uma pureza quase angelical.

Ah, tem mais. O que eu mais admirava no Bruxa é a caridade! Nunca, jamais aconteceu de algum pedinte sair da casa dele sem um lanche ou um prato de comida. O Bruxa foi um homem boníssimo. Ele dava comida aos pobres, procurava advogados ou repartições públicas para aposentar pessoas deficientes e desassistidas, participava ativamente dos embates na Câmara Municipal contra projetos lesivos aos munícipes, e muito mais.

O Bruxa vai fazer muita falta pra nós, seus amigos e familiares, e pra muita gente que nem conheço. No entanto, reitero aqui aquela máxima: “Quem faz o bem, recebe o bem e continua fazendo o bem, mesmo que esteja no Além”. Obrigado, Bruxa. Continue cuidando da sua gente e de seus bichinhos.

FILIPE


domingo, 27 de abril de 2025

TITIA GENI



A comida deve estar boa, né tia?...  Também... Eu que fiz!

Essa foi a primeira vez que me arrisquei numa bacalhoada e sem seguir receita alguma, apenas confiando no meu tirocínio.  E deu certo! Tanto é que a tia comeu, gostou e, meio às escondidas, premiou um de seus muitos gatinhos com um petisco.

Era manhã de Domingo de Ramos. A tia Geni estava com vontade de comer o bacalhau que comprara, na expectativa de que eu fizesse. Tremi de preocupação. Costumo cozinhar, mas nunca fiz nada além do básico. Olhei aquele peixe, que me pareceu agradável, dei uma escapada até a mercearia, comprei uns pimentões, batatas, tomates e alho. Chegando, comecei a fervura do bacalhau para o dessalgue enquanto os demais ingredientes eram preparados à parte. Enquanto uma panela de pressão chiava a fogo brando com o feijão, noutras panelas eu fritava alho e demais temperos para o que viria ser o nosso almoço. “O arroz tem de ser feito com água fervente!”, recomendava a exigente dona da casa. Após duas fervuras, drenei e desossei o bacalhau e o misturei àquele cozido de batatas, tomates e pimentões... Mas esqueci da cebola!

Não demorou mais do que uns três quartos de hora e o almoço já estava pronto. A tia pegou um prato e começou a se servir. Receoso do resultado, fiquei observando-a à meia-distância: vai saber se o arroz não ficou grudento?... Se o peixe ficou salgado... ou sem sal?... Se o feijão ficou cru ou cozido demais?... Olhei para a tia e para seu prato. Pelo que eu via, ela estava animada, mas poderia se frustrar. No entanto, para minha suprema alegria, minutos depois aquele prato estava limpinho – gente, ela comeu tudoooo! Terminada a refeição, a tia foi para mim só elogios. Disse que eu sou um bom cozinheiro, que eu poderia ser ‘garçom’ ou abrir um restaurante etc.

A minha alegria de estar com a tia Geni foi bem além desse ‘momento gastronômico’. Embora eu estivesse ali com uma senhora já um pouco alquebrada e enferma, pude rememorar uns tempos antigos de quando morei com ela na minha adolescência. Naquele tempo, a tia pouco conversava comigo. Apenas dizia alguma coisa, que era imediatamente repetida pela minha avó; ou o contrário: a vovó dizia e a tia repetia. Essa prosa não ia muito além de conselhos, muitos conselhos. Um deles, o mais frequente, era sobre economia. É preciso guardar dinheiro para que consiga alguma coisa na vida. “Sebastião sempre economizou!”, dizia vovó sobre o falecido esposo; a tia reforçava: “Papai nunca gastou dinheiro à toa.”

Dessa vez, no entanto, não houve sermões nem conselhos. A tia me falou de assuntos nunca dantes dito. Falou de suas tristezas atuais e frustrações antigas. Discorreu sobre a sua juventude, a relação com os irmãos mais velhos e das pequenas traquinagens desses. Também falou de seus encantos na mocidade, da opção de ficar solteira e o consequente desencanto de pretendentes. E citou nomes!

O dia avançou. Já era começo de tarde quando o táxi chegou e tive que me despedir, deixando a tia em pranto. Consternado, prometi, sem muita convicção e sem convencer, que voltaria em breve e que estaria mais presente na vida dela a partir de agora. Assim quero e espero.

Obrigado, tia. Até a próxima.

FILIPE 

domingo, 13 de abril de 2025

HÁ TRÊS ANOS...

 


Já se completam três anos neste 13 de abril, mas parece que foi ontem. Aliás, parece que nem houve partida. Fica a impressão de que o Velho está ainda lá na sua casinha, que ele mesmo construiu, esperando a chegada de algum filho. Aquela casa foi a única que o papai, pedreiro por tantos anos, fez para si. Muitas outras foram feitas ou reformadas, mas como laborioso ganha-pão. Ao longo da vida, papai sempre morou em casas bem precárias. Essa, no entanto, embora muito simples, foi meticulosamente planejada por ele e dela muito se orgulhava. Foi ali que meus pais passaram seus últimos anos numa vida sem luxo, mas confortável.

Três anos atrás, em fins de março, cheguei para mais uma visita. Papai havia me pedido que adiasse aquela viagem para julho, por ser muito “sacrificada”, segundo disse, mas mantive a programação e cheguei um dia antes de registrar a imagem que abre a crônica. O Velhinho estava bem e me recebeu todo alegroso; a frágil mãezinha me abençoou com a ternura de sempre.  Apesar das recorrentes “crises de ansiedade”, que soubemos tardiamente não ser ansiedade, papai estava bem-disposto. Conversamos, jogamos baralho e ouvimos músicas antigas.   

No segundo ou terceiro dia da minha chegada, mamãe teve de ser internada; poucos dias depois, foi a vez do papai. Ver internados simultaneamente o pai e a mãe é por demais doloroso. No hospital, papai estava relativamente bem, apenas tomando soro e alguns medicamentos; já mamãe dava sinais de terminalidade. Eu pressentia perder a minha mãe e apostava na recuperação do meu pai, mas deu-se o contrário. Papai, que passara por uma crise respiratória aguda, foi levado à UTI e de lá não mais voltou. Mamãe foi melhorando devagarinho, recobrou os sentidos e voltou para casa, mesmo num quadro clínico ainda preocupante.

Deixando a mamãe para outra hora e voltando ao papai, quero rememorar minha última noite com ele naquela enfermaria. Preciso registrar algumas dessas vivências, porque esses retalhos de memória vão se esfiapando e se esfarelando até desaparecer – para mais tarde retornarem como fantasia ou delírio.

Naquele último dia, eu saí à tardinha de casa e fui para Visconde do Rio Branco no ônibus das dezoito horas – sendo essa a minha rotina diária. Eu sempre tinha pressa, porque a substituição do acompanhante, que era o Frei Gabriel, teria de ser às dezenove horas. Chegando à rodoviária, desci do ônibus e marchei apressadamente para o hospital. A meio-caminho havia uma quitanda onde eu já tinha comprado alguma coisa. Dessa vez eu quis levar frutas para o papai e vi umas bananas-prata muito bonitas, embora não me parecessem tão maduras ainda. Pensei: levo essas e amanhã já estarão no ponto. Comprei uma grande penca, que continha cerca de dúzia e meia.

Chegando ao hospital, o porteiro liberou, subi as intermináveis rampas e entrei na enfermaria. O frei me reservou sua marmita, que o hospital dava aos pacientes e acompanhantes. Eu quis declinar, mas ele insistiu. Papai já terminava a boia dele, raspando ruidosamente a vasilha de isopor. Pensei: ele está com fome ainda, então vou lhe dar essa marmitinha. Ele não quis. “Eu vou é comer uma banana dessas” – disse, já pegando uma na mesinha ao lado.

Terminada a refeição, conversamos um pouco. Papai trocou algumas mensagens com “suas amigas e amigos” da rede social e adormeceu. Mas aquela noite não foi de ‘sono leve e suave’. Ele teve um sono atormentado, com aquilo que se denomina ‘sonilóquio’, que é a ‘fala durante o sono’. Às vezes eu tentava interagir, pensando que precisasse de algo, mas ele não respondia. Estava dormindo profundamente.

Amanheceu, o Freizinho chegou para me render, mas papai não estava bem. Após voltar do banheiro, ele teve uma grande crise respiratória. Um médico chegou, avaliou e recomendou urgência de tratamento intensivo. Apanhamos às pressas os pertences de meu pai, ele me entregou o celular e o seguimos, agora conduzido numa cadeira de rodas.  Chegando a uma espécie de sala de espera que dá acesso à UTI, a cadeira de rodas virou para a esquerda, e, sem que houvesse tempo de o Bom Velhinho nos acenar em despedida, a porta de vidro foi fechada.

Fechou-se ali uma porta de vidro, mas não apenas ela. Dias depois também se fecharia um livro com uma grande história. Só que esse livro seria fechado para sempre.

FILIPE


sábado, 29 de março de 2025

ENSINANDO PADRE-NOSSO A VIGÁRIO

 


Estimado Dom Felipe, paz e bem!

Diria minha saudosa mãe: “Quer ensinar padre-nosso ao vigário, menino?” Não, não quero e não devo, mas gostaria de fazer uma pequena observação. Aliás, nem é observação, mas um lamento. Também não é apenas um lamento, mas uma profusão de choramingos. A eles.

Lamento que o senhor não faça qualquer menção à Campanha da Fraternidade deste ano, tão rica e necessária. A atual CF contempla a ‘ecologia’, que é um assunto urgente. O planeta, que é a nossa ‘Casa Comum’, agoniza numa crise climática sem precedentes e não podemos ficar omissos. A Igreja se move; nós devemos segui-la.

Lamento também que o senhor não se manifeste sobre este ‘Ano Jubilar’ instituído pelo Papa Francisco em cumprimento ao calendário da nossa Igreja. Este é o ‘Ano Santo’ da ‘Santa Madre’, que jamais poderia ser ignorado!

Espero que neste ano o senhor promova a ‘Coleta da Solidariedade’, distribuindo os envelopes aos fiéis, para que possamos colaborar materialmente com a Igreja em suas missões mundo afora. O nosso sertão semiárido e os rincões da África clamam por esse apoio!

Essas observações eu as faço e o senhor sabe por quê. Porque no ano passado a Campanha da Fraternidade não foi contemplada; no ano passado, o ‘Óbolo de São Pedro’ não foi recomendado aos fiéis; o ano passado foi sinodal, e não houve sequer uma palavrinha sobre o Sínodo nas suas homilias.

Resumindo: o ‘Ano Sinodal’ foi esquecido, o ‘Ano Jubilar’ está sendo ignorado, a ‘Campanha da Fraternidade’ continua abandonada... Mas a nossa igreja não é una?... Pois então devemos estar em sintonia com a CNBB e viver em unidade com o Papa Francisco!

Recentemente o senhor proferiu uma bonita frase na homilia sobre a Transfiguração, que foi exatamente assim: “Devemos ser transfigurados sempre, mesmo nas situações mais difíceis, que são momentos de provação. Precisamos ser amigos da cruz de Cristo, e jamais inimigos dela!”

Então, caro pastor, como estamos vivendo momentos difíceis e de provação, não seria urgente abraçar o Santo Madeiro? E abraçá-lo é abrir os braços para todos: para ‘quem pensa diferente’, para ‘quem é diferente’ e para ‘quem é indiferente’ também. Porque somente assim poderemos alcançar a tão necessária e sonhada paz.

Agradeço sua atenção, Dom Felipe, e deixo aqui o meu contato, pondo-me à disposição para uma conversa franca e fraterna, se assim o senhor desejar.

Por fim, peço que aceite o meu abraço e me dê a sua bênção.

NOTA: “Dom Felipe” é fictício. Não a mensagem, que foi respondida com a velocidade e violência de um raio.

FILIPE