Na manhã de hoje, que estava nublada
e fria, tentei atualizar o blog com algumas ‘coisas desimportantes’, como diria
o poeta Manoel de Barros, mas não consegui. Tive alguns afazeres e me ausentei
do teclado, que continuou numa longa e plácida espera pra que eu prosseguisse.
De volta aqui, tento encarar o
assunto com esta reflexão: parece que tudo importa nesta vida, menos a vida –
pelo menos pra muita gente, incluindo o personagem caricaturado acima.
Isso porque os jornais já anunciam
a entrada dos Estados Unidos na guerra contra o Irã. O fanfarrão de cabelo
laranja arrota valentia, dizendo que “apenas eles têm capacidade de agir
assim”. Claro está que esse poder é bastante relativo.
Abro aqui um parêntese para uma
pequena e supostamente didática ilustração. Imaginemos que num boteco haja muitas
pessoas, dentre elas um fortão armado
de uma garrucha e um bêbado fracote portando
um canivete. O fortão cisma de
desarmar o fracote e lhe dá um tiro
no braço. O canivete cai e o fracote,
mesmo ferido, tenta apanhá-lo no chão. Nisso, o fortão age mais uma vez, dando-lhe um safanão. O fracote cai, mas longe do canivete, e é
contido pelos demais que assistem à cena. O fortão,
cheio de si, brande a garrucha, olhando desafiadoramente os presentes, mas
evita encarar dois “cabras” sentados num canto do salão, aparentemente
indiferentes ao bafafá. O detalhe aqui é que os dois “cabras” estão bem
armados, o que explica esse comportamento tão fleumático.
Corta para o Oriente Médio, que
seria o nosso “boteco” na ilustração acima. Ali, Trump atira e fere Khamenei,
mas evita olhar para Putin e Xi Jinping que acompanham
atentamente a refrega. Esses últimos, por óbvio, não serão incomodados, e isso
deriva de um fato irrefutável: a soberania de um país requer arsenal nuclear.
E a vida?... A vida importa. Mas
a vida de quem é importante?
Não tem importância a vida de
milhares de palestinos que morrem de sede e de fome, muitos deles enterrados
vivos nos escombros de Gaza.
Não tem importância a vida de
israelenses inocentes sequestrados ou assassinados por terroristas islâmicos
num suposto ‘ataque de surpresa’ a Israel.
Não tem importância a vida dos
iranianos pobres, que não conseguem escapar das bombas lançadas por Netanyahu e Trump.
Não tem importância a vida de soldados
americanos baseados no Oriente Médio, que, com a escalada do conflito, poderão
ser atacados a qualquer momento pelos aiatolás.
Tento me afastar dessas desgraceiras,
evitando o noticiário, mas não dá. Nunca deu. Ouço músicas e podcasts, leio
crônicas e livros de história, mas, sem querer, ou querendo não querer, volto
ao noticiário e fico sabendo que esse mundo não deu certo.
Os otimistas dizem: “No final, o bem
vence o mal!” Não vence! Pelo menos aqui na terra, o mal prevalece. Confirme
isso com um palestino de Gaza ou com alguma vítima de regimes tirânicos, sejam
eles de esquerda ou de direita.
A criatura se rebela contra o
Criador numa espiral de sangue sem fim. Isso aqui não deu certo!
FILIPE






