10) Estou chegando à casa da tia Geni. Ela já me viu, mas sei que terei de esperar um pouquinho, porque antes de receber alguém, a tia costuma dar uma espiada no espelho para acariciar o cabelo, que ela faz com a palma das mãos. Dependendo de quem chega, isso pode demorar desde uns poucos minutinhos a um tempo mais dilatado.
Não houve demora. A tia Geni vem
devagarinho pela casa e ouço movimento na fechadura. Ela abre a porta da sala,
caminha com dificuldade até o gradil do alpendre e me entrega a chave. Ela
sempre faz assim devido à sua dificuldade com a pequena escada que dá acesso à
casa. Abro o portão não sem antes a chave me escapar da mão, que recupero com dificuldade
porque o cadeado fica do lado oposto de quem chega. A tia me olha, esperando em
silêncio com as mãos apoiadas na grade enquanto eu fecho o portão e caminho na
sua direção.
Ao subir a pequena escada que dá
acesso à varandinha, os gatos que estavam por ali, partiram em tresloucada
disparada. Eram muitos gatos. Dez? Bem mais que dez, mas não vinte. Houve um
tempo em que havia uns trinta gatos, mas os cães da vizinhança deram cabo de
alguns, outros sumiram, de forma que ficaram “apenas esses”, conforme a tia
diz. Por sorte minha, os gatos saíram, mas não a tia, que continuou amuada,
dando impressão de que não estava a fim de receber visitas.
Entrego a chave, ela a recolhe e
ensaia um movimento de entrada, como se a minha presença ali fosse uma rotina como
a do leiteiro, entregando a garrafa de leite, ou a do rapazinho do mercado em
frente com as mercadorias que ela pediu – encomenda essa que ela sempre faz pela
janela da sala, de onde ela chama o vendeiro, que a atende ligeiro e prestimoso.
Quando lhe dei a mão para a
bênção, ela me abençoou sem entusiasmo e, mesmo desanimado, puxei assunto, mas
a “velhinha” estava agarrada, quase muda. Falei que eu havia viajado pra ficar
uns dois dias com ela e que seria na casa dela que eu me hospedaria. Ela
expressou espanto e me perguntou: “Uai.. você não está indo pra roça? Pensei
que fosse pra casa das suas irmãs...” “Não, tia. Eu vim pra ver a senhora,
ficar com a senhora. Posso até visitar minhas irmãs, mas é aqui que quero
ficar. Só não quero incomodar. Depois de amanhã já estou indo embora.” “Ô
diacho... Eu não sabia que você vinha
pra ficar aqui. Por que ninguém me falou?” “Ah, tia. Eu que pedi pra não falar.
A culpa é minha”.
11) Depois a tia se soltou um
pouco, até sorriu, e entramos. Deixei a mochila no sofá da sala e segui com ela
para a cozinha, onde havia dois ou três gatos que, ao me verem, voaram pela
janela e sumiram para o quintal. A tia me disse que eles não gostam de visitas,
e isso me deixou bastante animado. Uma observação: amo animais, mas ‘cada qual
com seu igual’.
O fogão da tia estava com uma
panela em fogo baixo. Desconfiado de que ela estivesse fazendo comida, e pra
não atrapalhar, eu disse que gostaria de levá-la pra almoçar fora, poderia ser
no restaurante daquele bairro. Ela foi assertiva, dizendo que estava entojada
de comida de restaurante e que por isso mesmo decidiu ela própria fazer sua
comida. Desta vez, ela estava fazendo um macarrão com ‘um restinho de frango de
ontem’. Disse que tinha feijão cozido na geladeira e que a comida daria pra nós
dois. Resistindo ao convite, tentei declinar, mas a tia foi incisiva e tive que
almoçar do almoço dela.
Aqui um segredo para os meus
raros e caros leitores: a comidinha da tia não estava me agradando. O macarrão,
muito branco, se desfazia junto ao frango, também muito pálido. Ela tinha um
pouco de feijão batido e temperado na geladeira, que fez voltar ao fogo e o
engrossou, ficando bastante saboroso, mas estava faltando algo.
A tia, agora animadinha por eu
não ter desistido da comida dela, pegou dois pratos, me deu um e ordenou que eu
almoçasse. Perguntei se tinha ovos. Tinha na geladeira. Peguei três ovos, ela
me deu uma frigideira e ficou me espiando. Pus óleo e despejei os três ovos
para uma fritada única. Ela ficou alarmada: “Uai, eu frito um de cada vez...”
“Não, tia, eu frito tudo junto e vai dar certo!” Pus a fritura num prato e
dividi ao meio: metade pra ela e metade pra mim. Almoçamos bem. Ela não
reclamou do ovo, mas disse que o feijão, que ela mesma tinha preparado, estava
meio salgado. Eu não achei, mas não tenho isenção para falar de ‘salinidade à
mesa’.
(continua...)
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