sexta-feira, 23 de novembro de 2018

ENQUANTO SE PODE ACHAR


O tempo é ligeiro. As horas passam, os dias vão. Os meses, os anos, os séculos – todos voam em velocidade de cruzeiro. Com eles, vamos todos passando, desfilando pela vida rumo ao desfiladeiro que nos aguarda. Por isso, uma visita aos pais, ao amigo, ao irmão, ao parente distante é algo que não se pode postergar. Se o hoje existe, o amanhã é uma incerteza. De presente, temos o ‘presente’; o futuro é miragem.

Rabisco este texto numa madrugada na casa de meus pais, que estão velhinhos. Velhinhos, mas felizes. Felizes e saudáveis. E a alegria desse reencontro é um indescritível sinal do Reino. O dia desperta ao som de galos, grilos e sapos na lagoa. Uma carimbamba, lá nas encostas, participa deste alvorecer com sua clássica cantata: “Amanhã eu vou, amanhã eu vou, amanhã eu vou”. Talvez ela saiba que amanhã estarei com meu irmão mais velho, o Mano Véio – já ‘sessentão’ e que parece nunca abandonar a juventude. Depois de amanhã, reverei dois amigos: um não vejo há algum tempo, o outro anda arredio por razões ideológicas. Cismou que o país teria que ser governado por um capitão, a quem todos nos subordinaríamos. Mas se meu amigo pensa assim, fazer o quê?... Amigos devem ser indiferentes a essas diferenças.

Agora, já com dia claro, uma vaca muge ao longe à espera da ordenha. E no telhado da casa vizinha, uma gatinha mia um miado sedoso para seus filhotes. No quarto ao lado, mamãe, acordada desde as três ou quatro da madrugada, mexe em seus guardados. Próxima de completar oitenta anos, anda com dificuldade mas ri com facilidade. E nunca deixa de fazer suas preces matinais. Uma ferida decorrente de erisipela está cicatrizada, mas o dedinho do pé direito cismou de doer uma dor aguda. Perguntada onde dói: “É entre os dois ossinhos... Ih! Nossa Senhora!!!”, exclama aflita, apontando para aquele dedinho ‘insubmisso’.

Visitei meu amigo rebelde, também sexagenário como o Mano Véio, mas com ímpetos de adolescente. Assustou-se com minha inesperada chegada e tentou disfarçar um pequeno mal-estar criado por ocasião das eleições. É um rapaz íntegro, generoso, com um humor bastante peculiar que o faz parecer sempre jovem. Quisera eu envelhecer assim.

Revi outros amigos, lá dos tempos de colégio. Um deles me passou cola numa prova de inglês. Confesso aqui este pecado: já colei ou tentei colar. Mas foi somente uma vez, eu acho. Se não houve outras vezes, não é por eu ser honesto, mas cagão. Ficava com medo de ser pego e, por isso, não colava. Preferia estudar a passar carão perante os colegas, levando bronca de professor. Mas esse amigo me ajudou, passando a resposta de uma pergunta, que respondi equivocadamente como sendo de outra. Só que ele errou e eu acertei, pode?... Nunca me esquecerei desse êxito, mas nem por isso insisti no delito.

Está escrito: “Procurai enquanto se pode achar!” Essa exortação vale também para esses reencontros, que são todos agradáveis aos olhos de Deus. Portanto, vamos nos esforçando, porque o tempo é ligeiro. As horas passam, os dias vão.

FILIPE

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

PEREIRÃO


Cheguei lá à tardinha. A porta estava aberta, a tevê desligada e a sala vazia de gente. Os cães, sim, estavam por ali, mas estranhamente quietos. A brancura daquele silêncio permitiu que eu ouvisse vozes sussurradas vindas das profundezas do corredor – da cozinha, talvez. Dei uma batidinha na porta e fui entrando, como de costume.  Uma mulher, que eu desconhecia, veio ao meu encontro, olhando-me desconfiada.  Perguntei pelo meu amigo. Ela respondeu que estava no quarto e quis chamá-lo. Acudi dizendo que o deixasse, que eu iria até lá. Fui incisivo, mas ela se adiantou, acendeu a luz e o despertou. O amigo estava deitado, tentando disfarçar o sono interrompido quando me viu. Com os olhos feridos pela luz, tentou sorrir, falando com indisfarçável dificuldade. “Como tenho sofrido esses dias...” Pensei no diabetes e perguntei: “Não está bem de saúde?” “De saúde até que estou bem, mas é muito aborrecimento.” “O que lhe aborreceu?” “Meu neto está preso.” “Ah, é?! Mas o que foi que houve?” Aqui minha pergunta foi desnecessária, talvez até ofensiva, mas precisava continuar a conversa com ele e o fio dessa prosa continha este indesatável nó. “É negócio de maconha”, respondeu sem titubear, e continuou: “Faz tempo que eu vejo um entra e sai aqui, e eu não gosto disso. Mas o menino cresceu e não me obedece mais. Antes eu ainda punha ordem, mas hoje não posso nem comigo”, disse levando a mão trêmula ao rosto, numa expressão de impotência e desolação.  ”A minha cabeça está quebrada. Eles chegaram de manhã e, por sorte, eu estava dormindo. Senão eu ia preso também, porque não ia deixar levar o meu neto. Logo ele, que fazia de tudo pra mim... Me dava comida, remédio, me levava ao médico. Agora eu não tenho mais ele comigo e nem sei pra onde vão me levar. Ah, mas se eu soubesse quem entregou o meu neto... eu ia fazer uma bobagem. Ah, se ia. Já me falaram que é pra deixar pra lá, que não vale a pena se enroscar com isso. Mas eu fico com muita vontade de ir atrás para saber quem fez aquilo.

Naquele quarto, o ar estava parado, viscoso, denso. Suando e esperando que o amigo concluísse, eu observava as paredes nuas e borradas pela umidade. Num canto, uma cadeira de rodas aguardava pacientemente o ‘seu senhor’ para um eventual passeio. Perguntei a ele se não queria que eu buscasse o ventilador. “Eu já vou pra sala”, disse tentando se sentar na cama. Ajudei-o a se levantar, conduzi-o até à sala e posicionei o ventilador de forma que pudesse se refrescar melhor. Ele ficou ali sentado, agora um pouco refeito das angústias. Lá dentro, duas mulheres continuavam falando baixinho, quase cochichando. De vez em quando, uma risadinha miúda marcava o fim ou o início de um assunto.

‘Pereirão’ – assim sua esposa se referia a ele – já passou por muitos solavancos ao longo de seus noventa anos. Perdeu filho, esposa, uma filha recentemente e agora o neto para a carceragem. Em seu consolo ficaram os cães, que não o deixam por nada. Enquanto sua barba era feita, um deles repousava no encosto do sofá, abraçando-lhe carinhosamente o colo.

FILIPE

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O TRIUNFO DO TERROR


Mal se equilibrando sobre as patas, um velho cãozinho vagueava pela rodoviária. Mais à frente estava o dono do animal, um senhorzinho também de muitos dias. “Ele tem dezessete anos e eu oitenta e cinco. Nós sofremos, viu... é duro ficar velho.” Aproximei-me daquele homem e quis conversar um pouco, quis ouvi-lo. Ele pegou uma sacola que estava no banco ao lado e pediu que eu sentasse. “Qual é o seu nome?”, perguntei. “Armando. Armando Pires. Esse cachorro é meu. Eu morava em São Paulo e adotei uma cadelinha chamada Biloca, que teve cinco filhotes. Ela foi envenenada e, quando vi, já não dava mais pra salvá-la, porque já estava morrendo. Vi ela morta e os cachorrinhos mamando nela... Deu uma tristeza danada. Aí eu cuidei dos bichinhos, que viveram muito tempo comigo. Este aqui é o último e já vai fazer dezessete anos dia (...).”

O homem queria conversar mais, mas meu tempo era curto. Tinha que voltar pra casa, terminar um texto para o blog – que decidi trocar por este. “Olha, muito prazer. Tenho que ir” “Ah, já vai?”, e continuou: “Vou votar no Haddad, viu? Aquele outro é psicopata. Você sabe o que é ‘psicopata’? É gente má. Ele não gosta de pobre, de preto, de homossexual, de gordo, de ninguém cá de baixo. Ele só gosta dos poderosos. A maior revista de economia do mundo, lá da Inglaterra, já falou que ele não presta. Mas o povo é burro”. “Toca aqui”, disse eu, dando-lhe a mão em concordância. Ele: “Já vi que você é uma pessoa inteligente, porque não vota no psicopata”, sorriu largo e acenou me despedindo.

Aqui quero abrir um parêntese para expressar minha furiosa angústia diante dos males que nos ameaçam e farei uma breve consideração sobre o capitão, cujo nome me recuso a grafar. Sobre ele, costumo afirmar com bastante convicção: vota-se no ‘capetão’ ou por ignorância ou por maldade. Quem tem alguma informação ou suficiente bondade, jamais apoiaria um apologista da tortura, que não tem adversários a vencer, mas inimigos a destruir – um ser do mal. Muitos, porém, na ânsia de querer ver resolvidos os problemas da violência, corrupção, contas públicas etc. apostam num boquirroto, que fala aos berros, prometendo que vai pôr ordem nessa ‘bagaça’. Mas, que ordem? Quais são os planos de governo? O que pretende fazer para pacificar a nação? Covarde, foge do debate como seu “companheiro” foge da água benta.

Esse homem, que pretende ser presidente, aposentou-se pelo Exército aos 33 anos de idade, acumulando salário parlamentar e soldo militar há trinta anos. Com certeza, não vai ferir interesses de sua gente, mas punirá os trabalhadores braçais, que deverão ralar para além dos sessenta e cinco anos para, então, receberem um salário mínimo como aposentadoria, se vivos ainda estiverem. Se eleito, vai pôr um general na pasta da Educação para fuçar nas universidades, impor currículos e banir do ensino médio sociologia, filosofia, antropologia e disciplinas afins. Terá na Defesa outro general, que criminalizará os movimentos sociais, tipificando-os como terroristas. Mas nada fará para extinguir ou moralizar as pensões vitalícias recebidas por filhas de militares e altos funcionários públicos, que sangram a sociedade em cerca de 10 bilhões de reais por ano. Não irá cobrar os 30 bilhões de reais de impostos dos latifundiários caloteiros nem vai extinguir o “imposto do príncipe”, que é uma taxa cobrada na aquisição de imóveis em determinadas regiões do estado do Rio de Janeiro, e que abastece anualmente com alguns milhões de reais as contas da família Orleans e Bragança, vulgarmente conhecida como ‘família imperial’.

Se eleito, o capitão não terá poder, porque um general fardado jamais receberá ordem de um ‘capitão reformado’. Mas, como todo ‘ser das sombras’, terá atuação subterrânea contra os pequenos: sem-terra, sem-teto, povos da floresta, operários etc. Contra estes, o terror!

FILIPE

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A VIÚVA ÓRFÃ


É domingo, dia do primeiro turno das eleições – se é que haverá um segundo turno (há), ou se é que haverá outras eleições neste país (não se sabe). Pôs roupa nova, foi bonito para a urna eletrônica, porque talvez vá para uma outra ‘urna’ sem que nunca mais vote.

Na fila de votação, começou a ler o jornal. De súbito, alguém atravessou a sua frente e foi logo dizendo: “Uai, ocê tá aqui?” “Sim, vim votar” “Se fosse mais velho, não ficaria na fila... Eu já votei.” Olhou para aquela mulher. Ela estava com um cão, que esticava a guia impaciente, querendo sair logo dali. Mas ela, sem pressa, puxou para si o cão e deitou falação: “Aquela fedepê da juíza me chamou lá e me disse muito desaforo. Ela quer que eu pague pensão pra minha sobrinha-neta, mas eu não posso pagar. Eu já pago tanta coisa, tantas contas dela, e isso há dezesseis anos já. Mas a fedepê da juíza me disse umas boas. Falou que vai investigar minha vida, que vai ver o que tenho de dinheiro e vai me obrigar a dar pensão pra menina. O pior é que eu velha, com mais de oitenta já, cheia de doença e precisando fazer tratamento. Mas a fedepê não quis saber de nada e ainda me expulsou da sala dela. Ela é muito sem educação!” Ele tentou falar alguma coisa, mas a mulher não deixava. Ela precisava desabafar e não tinha ninguém disposto a ouvi-la. Ele não estava para tanto, mas... Quando foi possível, falou algo, sendo novamente interrompido por ela. Mas foi tentando recuperar o fio, até que deu.

“Ouça agora. Espere um pouco. Depois a senhora fala. A juíza não pode tratá-la assim. Você estava com advogado?” “Não. Tinha um lá... mas é do fórum.” “Nada disso, a senhora tem que ter um seu, e dos bons.” “Mas já gasto tanto e vou ter que pagar advogado?! Eu não aguento tantas despesas...” “Sim, a senhora tem que gastar mais ainda para ter tranquilidade.” “Mas eu sou sozinha, viúva, doente e velha. Não posso passar por isso, meu Deus!”

Um parêntese. Essa senhora, que foi casada e não teve filhos, passou a vida como faxineira, doméstica, diarista, até se aposentar com um salário mínimo. Econômica, costumava cozinhar todo o almoço numa mesma panela para economizar gás. Conseguiu alguns bens, mas teve a infelicidade de perder o marido antes da sogra – já quase centenária. O irmão do falecido, com quem ela não se dava desde a juventude, cresceu o olho no patrimônio dela e arrancou o que pôde. Mais tarde, uma sobrinha-neta precisava de cuidados, e ela, compadecida, resolveu ajudá-la. Isso gerou um vínculo, que estourou no fórum. A moça é problemática; a mãe da moça é problemática; o pai da moça... nunca se viu. Mas a juíza cismou com ela e está na sua cola.

Ele prosseguiu: “Conta tudo isso para seu advogado, porque sem advogado não há justiça. Juízes e promotores maus têm que se haver com a OAB.” “Mas eu não tenho OAB...” “Eu digo advogado, que é associado à OAB”. “Mas ela não pode me maltratar assim, me mandar pra fora da sala, gritar comigo, dizer que vai investigar minha vida!” ”Não, não pode, e juiz não investiga vida de ninguém. Isso não é tarefa dele. E tem mais. A senhora é quem lhe paga o salário, e deve ser muito bem tratada por ele.”  Ela quis retomar o discurso inicial, logo interrompida: “Não, a gente vai ficar falando disso aqui a tarde toda e não vai sair do lugar. Vai, minha filha, vai embora e procure um bom advogado. Assim a senhora jamais será humilhada.” “Eu, coitada de mim, sem ninguém, uma viúva...” “Não conhece a história da ‘viúva órfã?’ Tá na Bíblia!” Aqui ele se deu com uma gafe, e todos da fila o olharam com curiosidade. “Viúva órfã... Caramba! Não é bem isso. Mas que seja. Órfã da Justiça!”, pensou. Ela se foi e ele voltou para o jornal, agora sem saber onde tinha parado.

FILIPE

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A ORDENHA


Ele chegou cedo, com o céu ainda estrelado, conforme costume. Encostou a moto, pegou os baldes e se dirigiu ao curral para a ordenha. As vacas não estavam por perto como sempre ficam, mas isso não lhe pareceu anormal. Entrando no curral, percebeu que uma das porteiras estava mal fechada. Parece que alguém entrou e pôs a tranca de forma diferente, teria pensado – ainda que não se assombrasse com isso. Pegou, então, uma pequena aguilhada e se dirigiu ao rebanho, chamando as vacas, cada qual pelo seu nome. Começou pela Boneca, depois Estrela e Açucena. Seguiu-se com a Roxinha, Princesa, Paixão... Todas foram nomeadas, mas desta vez algumas não lhe obedeceram. Estavam aflitas, assustadas, muito estranhas. A custo, conseguiu levá-las ao curral para, enfim, ordenhá-las. Nisso o dia já estava quase claro, dando para divisar melhor cada rês.

A produção naquele dia pareceu-lhe minguada, só um “pinguinho”. As vacas não soltaram o leite, como sempre fazem. Os pastos estão um pouco secos... talvez seja por isso, teria pensado. “Mas ontem, anteontem e nos dias anteriores, o volume de leite era bem maior, quase o dobro do que consegui tirar desta vez. O que será que está acontecendo?...”, teria perguntado em solilóquio.

Princesa, a mais assustada de todas, resistiu a entrar no tronco. Com muito jeito, porém, ele fez que ela se ajeitasse, mas a vaquinha o impediu que a tocasse no úbere, não permitindo que lhe tirasse o leite. Logo ela, sempre tão dócil... e agora arisca, quase brava. Mas o retireiro também estava apreensivo, porque o bezerrinho dela não estava junto aos demais. Com dificuldade, no entanto, conseguiu tirar duas canecas de leite da Princesa; noutros dias, porém, ela daria cinco ou seis canecas – uns dez litros. O bezerro escapou e deve ter mamado à noite toda. De todos, ele é o mais esperto e também o mais robusto – concluiu, agora cheio de certeza.

Após o serviço e já com o sol banhando a várzea, destrancou a porteira e liberou as vaquinhas. Nisto, uma apressada Princesa abriu caminho dentre as companheiras e saiu desembestada pasto afora, até chegar numa moita de mariazinha – uma gramínea dos charcos, de folhas longas e largas, que é nativa daquela região.

E então, um triste cenário se montava à vista do ordenhador. Desesperada, a vaca mugia e raspava o solo com as patas dianteiras. O vaqueiro, assustado com aquilo, correu até lá e viu sangue. Mais adiante, vísceras. Havia também a cabeça do bezerro e seu couro estendido sobre a mariazinha. De súbito, percorreu-lhe a espinha um arrepio de indignação. Pelo que viu, pôde concluir que o abate ocorrera poucas horas antes de sua chegada. O couro, bastante perfurado, denunciava resistência por parte da vítima, com morte lentamente dolorida, e a pauladas. Mais tarde, observou, com maior tristeza ainda, que a Princesa estava ferida. Ela não conseguia pastar, porque sua mandíbula fora fraturada a golpes de enxada.

Na ‘bovina’ tentativa de livrar da morte o filho, a mãe foi ‘desumanamente’ humilhada, mutilada, vencida... Por humanos!

FILIPE

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

E VEIO O MANO VÉIO!


Alegroso e proseiro, ele chegou à noitinha quando eu já havia saído para o serviço. Às altas horas quando retornei, já estava recolhido, dormindo o suave sono dos santos.

De manhã, às cinco, levantei-me. Às seis, pontualmente, ele chegou à sala onde eu estava fazendo minhas preces. “E aí, Filipão, bom dia. Tá rezando?”  “Sim, estou me preparando para a lida”. Ele permaneceu um pouco na sala, falou alguma coisa e saiu. E eu pulei algumas orações, porque o tempo avançava. Minutos depois eu estava ao fogão, preparando o café. “O que você toma?” “Chá. Chá com leite.” Estranhei a insólita combinação ‘chá com leite’, mas meu irmão sabe das coisas e cuida da saúde como poucos. Preparei-lhe o chá com leite, que ele tomou adoçado com açúcar mascavo. “Eu prefiro o demerara, que é menos calórico”, disse enquanto sorvia com avidez o chá “mascavado”.   

Saí, quase atrasado, e deixei o mano às voltas com um mamão. Gosta de frutas, mesmo que estas lhe sejam servidas após o café. “Não vai perder a hora por minha causa”, preocupou-se. “Não. São apenas ‘dez minutos’ de caminhada”, respondi, já quase na rua.

Volto da escola e meu irmão estava ciscando no celular. “Não quer usar o computador? Eu tenho outro, pode usar esse.” “Eu vi a senha, mas prefiro o celular. Tenho tudo aqui. Olha, eu já li todos os jornais. Ali estão eles”, apontou para a mesinha de centro onde estavam todos caprichosamente empilhados. “Lê rápido! Eu leio bem devagar”. “Ah, comigo é rapidinho!”, arrematou, enquanto eu percorria as manchetes.

“A que horas quer almoçar?” “Às onze e meia. Viajo às treze horas!” Entendido o recado, deixei o jornal e fui para o fogão, porque já passava das dez. Pouco depois o mano se aproximou, olhou-me curioso e disparou: “E aí, Filipão, só no fogão! Você gosta de cozinhar, né?” Eu ia dizer que cozinho sem gostar, que eu gosto mesmo é de comer, ler, tomar chimarrão, ouvir músicas etc. Mas com o mano não tem disso não. Ele faz uma observação ou uma pergunta, mas não espera a réplica. Logo, já emenda outro assunto e o interlocutor “come poeira”. Dessa vez, porém, ele não mudou de assunto e continuou: “Lá em casa, todo mundo teve que aprender a se virar. Mamãe doente... todo mundo no fogão. Lembro de quando trabalhava na roça, lá ‘atrás do morro’, uma fome danada e nada do caldeirãozinho de comida aparecer. Papai deixava o serviço e ia para casa fazer comida, porque a mamãe não tinha feito. Como a nossa vida foi difícil... Hoje, a molecada tem de tudo e não valoriza, só reclama”.

Pronto o almoço, começaram os elogios e eu me sentindo um mestre-cuca. Almoçamos. É hora de “vazar”. Chegamos à rodoviária com meia hora de antecedência. Animado com um encontro do qual participaria, ele ainda teria outros compromissos, muitos outros. “Se eu estiver trancado em casa por algum tempo, pode saber que estou doente. Gosto de viajar... Como gosto!” Entrou no ônibus e partiu. Observei o movimento na rodoviária e o ônibus, que sumira numa curva.

Em tempos de ‘relações líquidas’, segundo a moderna sociologia, ou de ‘laços quebradiços’, conforme defino, a visita do meu irmão foi para mim motivo de grande júbilo. Que mais pessoas se irmanem, se encontrem, fraternizem-se. Porque a vida é fugaz e não admite procrastinações.

FILIPE

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

VIDAS INTERROMPIDAS*


Por uma estranha razão, o ‘aborto’ voltou a dominar o debate nacional. O tema, que deveria ser assunto do Legislativo, entrou na agenda do Judiciário e daí veio a inflamar “lares e bares”. Não me parece tarefa fácil defender algo tão delicado como a “interrupção de uma vida”, até porque a decisão de abortar só pode ser tomada por alguém que teve a felicidade de não ter sido abortado.

Dentre os vários artigos publicados sobre o aborto, os jornais trouxeram recentemente alguns números inquietantes. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, 14% das mulheres ‘não mães’ não desejam ter filhos; 14% dos brasileiros defendem o aborto em qualquer situação; 59% dos entrevistados não querem mudança na lei – que permite aborto em alguns casos; mas 58% das pessoas ouvidas acham que a mulher que fez aborto deve ir para a cadeia. Essas estatísticas, sombrias e desconexas, causam-me profundo mal-estar.

Que a vida surge a partir de um óvulo fecundado parece ser consenso entre pessoas minimamente sensatas. Mas a vida embrionária não é levada a sério por quem adota a expressão “interrupção da gravidez” – um eufemismo grotesco para “aborto”. Ainda que não se possa concordar com a “interrupção da gravidez”, é preciso debater o assunto, porque a mulher que pretende fazer aborto costuma estar vivendo uma situação dramática: perseguições por uma gravidez não planejada, enfermidade grave ou estupro. As vítimas de predadores sexuais merecem especial atenção e jamais poderiam ser julgadas nem condenadas, mas acompanhadas. Nesses casos a Igreja, que sempre se posiciona contra o aborto, deve oferecer compreensão e misericórdia.

Mas o grande desafio é encontrar o “caminho do meio”, que parece não existir. De um lado estão setores progressistas da sociedade, que lutam pelo direito à vida dos empobrecidos, mas empunham a bandeira do aborto, negando esses mesmos direitos aos nascituros. Do outro lado dessa trincheira ideológica e contra o aborto, estão os carcomidos conservadores. Estes, que defendem ferrenhamente a vida intrauterina, não movem uma pluma em favor dos “nascidos” pobres, negando dignidade e sentenciando à morte prematura os deserdados dos bem terrenos.
 (*) Publicado no jornal A Tribuna de Amparo – edição de hoje.

FILIPE