sexta-feira, 24 de abril de 2020

RODRIGO


Conheci o Rodrigo no começo dos anos dois mil, acho que em 2002, se não estou enganado. Naquele ano ele foi meu aluno numa quinta série – ou numa sexta série, se não estou novamente enganado. A classe dele era barulhenta, como eram barulhentas as outras classes, como são barulhentas as pessoas. O mundo é barulhento. Mas havia alguns alunos bonzinhos, silenciosos, que amenizavam minha aflição. E o Rodrigo era um desses.

O Rodrigo tinha uma penca de irmãozinhos. Depois da aula, ele passava na creche, pegava seus maninhos e os levava para casa. Por mais de uma vez eu o vi com dois, três ou quatro deles, numa bonita cena. Bem de tardinha, lá estava o Rodrigo segurando a mão do menor, mochilas nas costas, subindo devagarinho a sua rua.

Eu nunca consegui usar agenda, mas naquele ano em que comecei a dar aulas para o Rodrigo, eu usava uma que trazia umas orientações passadas pelo sindicato dos professores. Na capa da agenda havia uma foto de um garoto de rua.  Era um menininho raquítico, trajando uma blusa larga de moletom, usava calção grande, descalço – literalmente o retrato da infância abandonada. Mas o Rodrigo não parecia com o menino da foto. Talvez se assemelhasse pela tez e o corpo esguio. Então, eu costumava mostrar a agenda ao Rodrigo e perguntava: “De quem é esta foto?” Ele olhava sorrindo e dizia: “Para, professor!” Eu parava, mas voltava a mostrar a foto noutra ocasião e ele sempre reagia dessa mesma forma bem-humorada.

Por um tempo eu não fui professor do Rodrigo, mas no último ano do ensino médio eu o reencontrei na sala de aula. Estava grande, forte, em nada lembrando o antigo e mirrado Diguinho, como era conhecido. No final daquele ano, quando se formaria, o Rodrigo chegou para mim e disse: “Professor, sabe aquele livrinho?...” “Que livrinho?!”  “Aquele que o senhor me mostrava, com uma foto na capa”. “Ah, uma agenda...” “Isso mesmo. O senhor ainda tem ela?” “Sim, eu tenho”.  “Você não quer me dar ela?...” “Claro que dou”. Dei a agenda para ele no dia seguinte. Todo alegre, ele me disse: “Esta eu vou guardar de lembrança”.

Tempos depois encontrei o Rodrigo na rua. Estava com a esposa e uma criança, que assumira como filho. Depois veio a paternidade biológica também e sua alegria se completou. Antes, trabalhava num mercado próximo de onde moro, depois mudou de emprego, parece que para melhor. Daí, não mais o vi. Tinha contato apenas com os irmãos, que foram todos meus alunos.

Esta semana, tive outra notícia deste meu ex-aluno. Rodrigo faleceu aos 29 anos. Não sei a causa, mas ouvi dizer que foi “morte natural”. Meu Deus, não pode haver morte natural na juventude!

FILIPE

sexta-feira, 10 de abril de 2020

AS MEMÓRIAS DE MEU PAI


Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. Essa frase é atribuída ao pensador irlandês Edmund Burke, que não conheço. Sei que ele foi um cara importante, porque vi na Wikipédia. Quem quiser saber mais sobre esse filósofo, não perca tempo, pois o Google não deixa ninguém mais na ignorância.

Mas a frase que abre este texto já me acompanha desde os amarelados tempos de adolescente. Certa vez a escrevi num papel-cartão e afixei na porta do quarto da pensão onde eu morava. Gostei daquela frase desde que a conheci e achei que a exibindo, eu poderia ofuscar minha ignorância, exalando certos vapores de intelectualidade.

Deixando de lado aquela famosa frase e seu (para mim) obscuro autor, quero falar de outra história: a que papai conta. Durante esta quarentena, que tem provocado muito bafafá entre as nossas desautorizadas autoridades, não estou sem trabalhar conforme dizem alguns linguarudos de Brasília. Estou trabalhando muito, porque estou digitando e editando as memórias de meu pai. Este é o terceiro livrinho que papai escreve, contando um pouco do que ele viveu e ouviu ao longo de uma vida de nove décadas.

Papai é uma usina de informações. Ele já me mandou vários manuscritos e continua mandando mensagens ou me ligando para fornecer mais matéria-prima para sua obra.  Eu me sinto um pedreiro que está fazendo uma casa. O velho vai me mandando o material: tijolos, cimento, pedra, areia, cal, ferragem, madeira e muito mais – tudo de primeiríssima qualidade. Eu terei que corresponder, edificando seu castelo, vendo onde devo encaixar tal pedra, como levantar tal parede, armar as estruturas de aço, ver o traço do concreto etc. Se o material é de excelente qualidade, a mão de obra parece meio capenga e poderá deixar um pouco a desejar. Mas sou esforçado.

Comigo está um bom trecho da vida do meu pai, dos pais dele, do avós, dos bisavós, chegando ao trisavô do meu pai, que também é um bisavô. Este, um Adão solitário, sem a Eva, porque não se sabe o nome da trisavó do papai. Somando a idade de meu pai com as quatro gerações anteriores a ele, são uns 200 anos de história. E meu pai cita nomes e sobrenomes, formando uma infinita rede de ligações parentais.  De todos da geração de meu pai, apenas ele sabe contar essas coisas.

Neste livro, embora meu pai tenha tido um propósito mais generalista, ele se ateve ao meu avô. Dessa forma, o senhor Sebastião Lopes de Lima tornou-se protagonista desta coletânea. Fatos corriqueiros, mas de grande comicidade, são relatados no estilo leve, solto e quase descompromissado de meu pai. Mas toda a história narrada é veraz, sendo o meu velho uma valorosa fonte primária.

Diversamente do pensamento que abre este texto, eu não me sentiria condenado se tivesse que repetir a história de meu pai. Pois, para fechar com uma feliz expressão de Santo Agostinho, do papai eu tenho um “santo orgulho”.

FILIPE

sexta-feira, 27 de março de 2020

SONEL


Publicado no jornal “A Tribuna de Amparo” – edição de 20/03/2020

Sonel para uns e Nelson para muitos, o bom mineiro de Jacutinga, a quem chamo carinhosamente de Alemão, é funcionário do Lar dos Velhos de Amparo há anos. Seu trabalho é silencioso e incessante, como o das formigas. Sempre que o vejo naquela casa, lá está ele frenético, com balde, vassoura e rodo, cuidando da limpeza. Ora o vejo ensaboando e esfregando o chão, ora está enxaguando ou enxugando pátios, alas internas, banheiros e corredores. O Sonel está sempre no labor, mas quando me vê, larga tudo e, braços abertos, vem dizendo: “Ô, meu amigo, eu quero te dar um abraço!”  E então recebo aquele abraço ‘caudaloso’, como diria o poeta Manoel de Barros. De volta ao serviço, exagera: “Agora, sim, está tudo bem, porque abracei meu amigo.”  

Do Sonel, pouco sei. Não posso tomar seu tempo com conversas, porque a minha prosa nada acrescentará ao seu rico repertório de vivências. Mas da última vez, arrisquei e lhe fiz umas duas ou três perguntas. Então soube ser ele mineiro, e um pouco mais: vem de uma família de onze irmãos, dos quais dois partiram cedo. Cedo também foi seu ingresso no trabalho. Pequenino, já acompanhava os pais numa olaria e, a partir dos quatorze anos, pegou firme na massa – literalmente. Começou amassando barro, depois fazendo tijolos, montando caieiras. Poucos sabem quão duro é o trabalho de um oleiro, principalmente nas priscas eras pré-tecnológicas. Antes de ingressar no Lar dos Velhos, o amigo trabalhou noutras coisas além da olaria, chegando a ganhar a vida como garçom.   

O que realmente impressiona nesse rapaz é a alegria, a disposição e seu espírito sempre elevado. Não se vê o Alemão “pra baixo”, ensimesmado, embora ele deva ter lá os seus perrengues. Até porque, com a carestia de hoje, a vida não está nada fácil para quem é assalariado. Ademais, as nossas agruras, talvez a do amigo também, não são apenas financeiras. Há uma densa nuvem de tempestade obscurecendo o horizonte deste país, que é capaz de desassossegar até as mais rasas e rudes almas.

Mas no Lar dos velhos de Amparo, temos a alegria Alemão, que está sempre oferendando um sorriso a quem chega. Pessoas como o Sonel tornam mais leve a nossa vida e suavizam a pedregosa existência de nossos velhinhos.

FILIPE

sexta-feira, 13 de março de 2020

EU NÃO SOU (...)


Previno o raríssimo leitor: este texto contém “substâncias tóxicas”. Caso o desavisado companheiro esteja à procura de amenidades, migre para outra página, porque aqui as cores não estão muito para o azul.



Nestas quase três décadas em que me encontro no magistério paulista, já vi de tudo. Naturalmente coisas boas aconteceram, mas sem mérito dos governantes. O governo atual, por exemplo, resolveu dar fim às faltas de professores, convocando os que não faltam para “tapar buracos”. Alguns diretores cumprem à risca os ditames do governador, e seus comandados lhes obedecem bovinamente, sem que haja sequer um gemido de indignação. Na escola em que trabalho, justiça seja feita, os gestores apenas convidam os professores que se encontram em atividades burocráticas para cobrir certas faltas, sem obrigá-los. De minha parte, procuro colaborar, atendendo classes que nem são minhas. A recepção é sempre amistosa e um bom trabalho tem sido feito.



Ontem, no entanto, a fortuna não me visitou. Após eu “tapar dois buracos”, uma colega me abordou, dizendo: “Você está substituindo?!” “Sim”, eu disse. “Então não entre naquela sala ali”, apontou. “Mas, por quê, se me dou muito bem com eles?” “Nem queria te contar, mas ouvi uma barbaridade agora, e acho que você não deveria entrar lá.” Ouvi a tal ‘barbaridade’ que um jovem teria dito, mas dei de ombros. Passou um tempinho, senti um calafrio e pensei: “Isso não pode ficar assim. Vou lá.” Uma das professoras com quem eu conversava pediu para me acompanhar, mas eu quis ir sozinho.



Entrei na sala, pedindo licença e dando bom-dia como sempre faço, e fui direto ao assunto. “Bem, como vocês sabem, faltam professores nesta escola, e, para que vocês não tenham tanto prejuízo, entro nessas aulas vagas.  Olha, eu faço isso por que quero. Faço pensando no bem de vocês. E nessas entradas, nunca obrigo meu aluno a fazer as lições. Eu tenho enorme carinho por esta classe e sempre que entro aqui, chego de ‘coração aberto’. Para mim é sempre uma alegria muito grande estar aqui”. Enquanto eu falava, todos me ouviam com excepcional atenção, talvez esperando o triste desfecho de meu discurso, que chegou sem delonga. Hoje, porém, eu soube que alguém daqui disse para quem quisesse ouvir: ‘Aquele filho da puta vai dar aula pra nós hoje, e nem é dia dele!’ Olha, respeite a minha mãe, que se encontra enferma, sofrendo numa cama. E a minha mãe não é puta. Portanto, eu não sou filho da puta!”



Depois disso, uma professora-gestora conversou com a classe e me deu o apoio de que tanto precisava. Mais tarde, uma aluna me procurou, solidarizando-se comigo. “Fiquei muito sentida pelo senhor”, ela disse. Pressentindo que fosse dizer o nome de alguém, eu a interrompi: “Olha, agradeço muito a sua solidariedade, mas eu não quero saber quem disse aquilo. Quero continuar estimando a todos, sem exceção.”



Hoje entrei naquela sala como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu.



FILIPE

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

UMA FOTOGRAFIA



Este é José Lopes, meu pai, e essa foto foi tirada por mim neste Carnaval. Postei-a aqui porque a achei magnífica, fidedigna, uma das melhores das inúmeras que já tirei dele.

Papai tem oitenta e nove anos, mas não só. Tem também muita disposição. Saiu de sua Guiricema às vésperas deste carnaval para visitar um filho distante, que sou eu. Quase setecentos quilômetros é a distância que nos separa. Chegou à tardezinha com seu filho caçula. Embora bem-disposto e bem-humorado, papai estava cansado e tinha uma ferida provocada por um furúnculo, ou algo semelhante. Ele suspeita de erisipela, mas talvez não seja. Houve vermelhidão e inchaço, preocupando-nos bastante, mas ele mesmo não dava muito bola para isso. Apenas pediu chá de “mercurim” e de “cinco-folhas” – plantas medicinais que ele conhece tão bem e que trouxera consigo para esse fim. Improvisei um curativo com gaze e fita crepe e ele não reclamou de dores nem desconforto. Na volta, meu irmão o levou a um hospital, onde foi feita uma pequena cirurgia para drenagem. “Eles enfiaram uma agulha dentro do machucado para anestesiar!”, disse-me aflito o caçula, o que me provocou arrepios só de imaginar a dor aguda que papai certamente sentiu. Ele, no entanto, ficou impassível diante daquela tormenta.

É uma alegria muito grande receber o “velhinho” na minha casa, e fico imensamente agradecido a Deus por isso. Não sei se pude atendê-lo bem, mas tentei. Ou não tentei o suficiente?... Ih, acho que não. No almoço, durante um churrasco, eu lhe fiz um sanduíche. Ele, muito educado, não pediu mais nada, ficando apenas com aquele lanche frugal. À noite, quando lhe foi oferecido janta, é que ele disse: “Estou desde cedo com aquele lanche que meu filho me deu como almoço.” Ah, paizinho... Eu nem me dei conta disso. Pensei que o senhor fosse atrás da “caça”.

Mas papai me trouxe serviço, e bastante. Manuscritos e uns arquivos de computador deverão ser editados para a publicação de um livrinho em novembro, na ocasião em que completará seus ‘noventinha’. Com essa obra, papai concluirá uma pequena trilogia autobiográfica.

Conversar com o papai é um passeio nos tempos antigos por ele vividos. É impressionante sua narrativa tão rica, tão meticulosa, permeada de datas, nomes e lugares. Seus escritos são uma pequena mostra do que nos conta. De minha parte, vou compilar seus textos e tentar fazer um serviço bem-feito, mas dificilmente poderei corresponder às expectativas do narrador e do leitor.

Obrigado, meu pai, pela visita. Obrigado também pela confiança depositada em mim. Farei o possível para não decepcioná-lo, ainda que eu tenha de suspender as publicações neste blog por algum tempo. 

A sua bênção, papai!

FILIPE

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

DONA LAURA


Conheci a dona Laura já beirando seus ‘noventa’ no longínquo passado quando me mudei para esta cidade. Ela estava sempre bem ornada com um vestido ramado, de cores fortes. E seus cabelos, muito brancos, acomodavam-se sob uma presilha dourada. Dona Laura me parecia uma mulher feliz, porque piedosa e elevada, embora tivesse lá seus perrengues de saúde e de finanças.

Laurinha, como eu ousava chamá-la, morava numa modesta casa ajardinada com seu filho Laercio, um rapaz já de “muitos dias” com quem pouco conversei, porque estava sempre meio “escondido”.  Meus encontros com ela se davam regularmente aos sábados, à noitinha, quando voltávamos da igreja que frequentávamos num bairro vizinho. Conosco também vinha uma falante dona Mariinha, que era meio ‘reclamona’. Dona Laura tinha paciência com a amiga, mas não lhe poupava umas reprimendas de vez em quando. “A Maria é boba, devia parar de reclamar, porque ela é a dona da casa e não tem que viver humilhada”. Quase sempre, dona Mariinha vinha falando que não tinha almoçado direito e que nem ia jantar. Dona Laura, que sempre fazia uma sopa antes de sair, dizia-lhe: “Vamos lá em casa. Fiz uma sopa e você pode tomar à vontade”.  E a dona Maria ia mesmo. Mas depois desconfiei que seus queixumes fossem por conta da senilidade, que avançava. Não passou muito tempo, dona Maria partiu.

Por algumas vezes fui à casa da amiga Laura. Seu quintal era pequeno, cimentado e ainda assim bucólico. Havia nele vários pés de frutas dentro de latas de tinta, que o Laercio plantava para presentear amigos. Um pequeno abacateiro chegou a frutificar dentro da lata. Havia também um cercado com alguns bichinhos e um deles era uma pata de nome ‘Chico’. “Mas por que Chico, dona Laura?” “Eu pensei que fosse macho, mas ‘ele’ começou a botar e eu continuei chamando de Chico”. Na frente da casa, um canto do jardim era sombreado por um frondoso pé de jabuticaba, cujas frutas dona Laura fazia questão de colher e levar à minha casa.

No Natal de 2007, fui convidado para o almoço. Cheguei ao meio-dia e a dona Laura estava toda animada. De avental branco, cozinhava, lavava e servia aos filhos, netos etc. Depois desta visita, fiquei um tempo sem vê-la, até que um dia reapareci. Seu filho Laercio abriu a porta e perguntei pela mãe. “Está na cozinha. Entre”. Entrei e a encontrei sentada numa cadeira. Estava bem debilitada, magrinha. Mas me reconheceu, abraçou-me e me beijou, como sempre fazia. No fogão, estava um Laercio meio atrapalhado com as panelas. Lembro que fritava peixes e os punha num prato. Eram uns peixinhos pequenos, tipo sardinha, que ficavam meio morenos de tão torrados. Pensei: “Dona Laura não vai conseguir comer isso, porque já reclama de não ter fome”. Conversamos um pouco, ela elogiou o filho, dizendo estar muito bem cuidada por ele etc., e fizemos uma prece. Após esse encontro, nunca mais pude vê-la.  Dona Laura partiu logo depois.

Nesta semana, o obituário trouxe o nome de Laercio Favaro. Bateu-me uma interrogação seguida de uma exclamação. Dona Laura já tem a companhia de seu filho na eternidade!

FILIPE

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O CENTENÁRIO DE JACYRA


Minha avó materna, a saudosa dona Jacyra, faria cem anos no próximo dia quatro de fevereiro. Faria, não. Ela fará cem anos, que comemorarei sozinho, sem bolo, mas com uma prece. Porque, para mim, a vovó não morreu.  Ela continua viva na minha história.

Dona Jacyra foi avó muito jovem. Quando ela tinha apenas 35 anos, nasceu minha irmã Luzia, sua primeira neta. Depois de Luzia, rebentaram-se em diversos ninhos, ao longo de quatro décadas, outros 39 netinhos.  Uma fartura!

Recordo com saudade das inúmeras vezes em que mamãe nos levou à casa da vovó. Chegávamos no meio do dia, muitas vezes sob sol forte. Então ela nos oferecia água fresca tirada de um pote, servida numa caneca artesanal de lata. Sobre um pranchão de madeira embaixo da janela da cozinha, havia dois grandes potes de barro, que eram liturgicamente abastecidos por meu avô Aurélio. A mina ficava um pouco distante, mas o vovô sempre estava às voltas com seus baldes, nunca deixando faltar água em casa.

Lembro-me bem daquela casa branca, imponente, embora de pau-a-pique e calçada de pedras. A cozinha, com enorme pé-direito, exibia uma grande mesa com dois bancos de madeira. O fogão a lenha, o único que já vi assim tão majestoso, ficava num canto, mas desencostado da parede, permitindo que fosse usado por destros e canhotos. Embaixo do fogão havia um compartimento para armazenar pequenas quantidades de lenha. Uma grade dentro da fornalha permitia escoar as cinzas para um nicho, de onde seriam facilmente recolhidas.

Da cozinha, uma escada de pedra dava acesso ao corpo da casa. No fim dessa escada, à esquerda, ficava o antigo quarto do casal. Em seguida, percorrendo-se uma salinha comprida, com alguns móveis, via-se à direita três quartos: um pequeno, onde meu avô passou a dormir, e outros dois maiores. Um corredor dava acesso à sala principal e a um quarto para visitas. O cômodo mais interessante da casa não era nenhum desses, mas a despensa, que ficava ao lado da cozinha. É ali que, numa grande caixa de arroz em cascas, amadureciam cachos de banana.

Ah, a vovó deve estar ainda naquela casa (há tantos anos demolida) mexendo nas panelas, ajeitando os tições, soprando o fogo. Eu a vejo através do portãozinho que fica na porta da cozinha. Ela não sabe, mas estou escondido ali, ao lado da bica d’água, sob a sombra do pé de manga-espada. Revejo, com saudade, as grossas raízes das duas mangueiras, onde se senta para ouvir sabiás-laranjeiras no pé de pitanga e seriemas lá pelos lados do ‘pé de jaca’, no “Dourado”. Enquanto isso, embaixo do assoalho cacarejam galinhas poedeiras, e no terreiro ao lado canta um melancólico galo garnisé.

Eu não sabia por que gostava tanto de você, vovó. Bem mais tarde, soube que foi por suas mãos que vim ao mundo. Mamãe estava na sua casa quando nasci, e você foi minha parteira.

Parabéns, vovó, mas esses cem anos passaram muito rápido. Permaneça conosco por outros séculos!

FILIPE