Já era noite. Talvez neblinasse ou
fizesse frio – disso já não me recordo. Lembro que estávamos na cozinha quando um
irmão disse ter ouvido um ‘toque-toque’ na porta da sala. Diante disso, ficamos
apreensivos, mas não estávamos indefesos. Tínhamos o papai conosco e nele a
confiança para lidar com a situação, seja ela qual fosse, era certa. Estávamos
protegidos.
Preciso registrar que estou
falando de um tempo distante, e aqui rememoro algo acontecido há mais de meio
século. Naquela ocasião, morávamos num sítio do meu avô paterno, numa pequena
casa sem vizinhos próximos, sem água encanada nem luz elétrica. A iluminação
era por lamparina a querosene. Tínhamos duas lamparinas: uma era exclusiva da
minha mãe, que, adoentada, gostava de ficar reclusa no seu quarto; a outra era para
o restante da família e ficava na cozinha. Era na cozinha que sempre ficávamos,
particularmente à noite. Alguns sentados no banco de madeira, outros ao redor
do fogão a lenha. Era na cozinha que tomávamos as refeições, conversávamos e fazíamos
orações. Aquele pequeno cômodo com chão de terra batida era para nós quase um templo
de convivência doméstica. Ali o papai, todas as noites, cansado de sua jornada,
rezava o terço e lutava com o sono. Por vezes, numa cochilada mais forte, o
terço caía de suas mãos, mas ele o apanhava e retomava a prece. Terminada a
oração, ele dava ordem para que fôssemos para a cama. Ele também, após lavar os
pés, partia para seus aposentos, encontrando mamãe já ‘no terceiro sono’, como se
dizia.
Na noite em que se deu o fato
aqui narrado, papai estava conosco, mas isso não era comum. Sendo pedreiro, ele
costumava trabalhar longe de casa, e como sempre andava a pé, era demorada a
sua volta. Mesmo trabalhando perto,
papai costumava sair de tardinha para aplicar injeções. Ele era uma espécie de
enfermeiro muito requisitado naquele ‘córrego’. Além das injeções
intramusculares, ele sabia, como poucos, aplicar também as intravenosas. E
ainda havia os pedidos de reza nas casas, que nunca deixou de atender. São
essas as razões por que nosso pai nem sempre estava em casa nas primeiras horas
da noite.
A batida na porta continuou
espaçada e suave – essa era uma forma educada de chamar alguém da casa. Mas,
para nossa tranquilidade, papai estava conosco naquele dia e ele foi à sala
para atender a quem batia na porta. À frente, com a lamparina à altura dos
olhos, papai girou a tramela da porta e tentou enxergar a visita. Naquele
momento um misto de orgulho e medo nos assomou. Orgulho pelo destemor do pai,
um homem corajoso; medo pelo que pudesse acontecer com ele e conosco, pois a lamparina
poderia ser apagada com um simples bafejo, e todos ficaríamos no escuro a mercê
de um possível invasor.
Felizmente não estávamos em
perigo. Quem chegava era uma mulher. Negra, alta, magra, ela trazia consigo uma
criança e pedia abrigo. Papai mandou que entrasse e, após obter algumas
informações, ajeitou pra ela uma cama na sala, que era o único lugar
disponível. Num canto do quarto da sala havia uma esteira artesanal, feita de
taboa, que papai sempre mantinha para alguma eventualidade. Ele estendeu a
esteira, cobriu com um lençol, pegou um cobertor e acolheu a mulher e o seu
filhinho naquela noite.
O nome da mulher, eu soube depois
de moço, é Isolina. Ela morava numa comunidade de gente muito pobre, na entrada
da cidade. O filho dela, que era especial, tinha apelido de Pilorino. Essa era
uma alcunha maldosa, preconceituosa, racista. A pele negra do garoto fora associada
ao pelourinho – um tronco onde os escravizados eram açoitados. De pelourinho,
através da ignorância infame de gente branca, bem alimentada e maldosa, veio o
apelido do menino, que depois o vi rapaz. O tempo passou e eu nunca mais soube
notícias dele nem da mãe.
Neste ano, no Dia de Zumbi dos
Palmares, papai teria completado ‘noventa e cinco anos’. Deixo aqui essa homenagem
a ele e àquela descendente de escravizados a quem socorreu. Papai não
precisa de homenagens nem a dona Isolina de abrigo, mas eu preciso expressar
carinho pelos dois, que já estão na Casa do Pai.
FILIPE
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