sexta-feira, 1 de maio de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – DÉCIMA PARTE

 

18) Entrei no quarto e fechei a porta para não ser incomodado por gatos. Há muitos deles no quintal, mas apenas a Pretinha dorme dentro de casa, embora naquela noite ela não estivesse por ali. O sumiço da ‘bichinha’ foi motivo de chateação da tia. Todas as vezes que me via, aquela gatinha fugia desesperadamente – para minha alegria e tristeza da dona.

Agora, já acomodada em seu leito, eu esperava que a sonolenta senhora adormecesse rapidamente, mas isso não aconteceu. Assim que se deitou, ela ficou acesa e disparou a falar. Eu tentava me desligar de tudo, queria dormir, enquanto a tia queria conversar! O aposento dela nem é bem um quarto de dormir, mas uma sala que ela transformou em dormitório. Separada de mim por uma porta, que me parecia mal fechada, qualquer movimentação poderia ser percebida. Isso era bom, porque eu poderia atendê-la em alguma necessidade, bastando apenas me chamar. E então aquela senhorinha resolveu prosear, e as horas foram subindo, subindo e nada de a prosa baixar.

Lá pelas tantas, e eu digo ‘tantas’ porque já era tarde mesmo, talvez quase meia-noite, tentei fingir que estava dormindo e não participei mais daquele ‘quase monólogo’.  Ela: “Filipe... filipe... filiiiipe!...” “Oi, tia.” “Ah, cê tá acordado? Pensei que já tava dormindo...” “A senhora precisa de alguma coisa?” “Não. Só queria saber se a Pretinha está aí.” “Não, tia. Ela não está aqui. Deve estar dormindo por aí...”. “Ô diacho. Aqui ela não tá não. Então ela sumiu mesmo!”

Depois disso, não sei se a tia me chamou nem se falou alguma coisa. Só sei que não ouvi mais nada. Adormeci.

 

19) O celular me acordou às três da manhã, o horário em que a tia teria de tomar um remédio. Houve um pedido expresso dela: “Você me chame às três horas da manhã, porque preciso tomar um comprimido, viu?!” 

Meus olhos ardiam fadigados, o corpo teso, mas com algum esforço consegui me levantar. Peguei a água e o comprimido, enquanto isso ela se sentava na cama para tomar o medicamento. Por fim, devolvendo o copo, ela deu uma esticada de olhos para os lados, provavelmente tentando encontrar a Pretinha, e deitou-se novamente – dessa vez sem dizer palavra, adormecendo logo em seguida.

Voltei para a cama, mas o sono sumiu. Peguei o celular e tentei ler as notícias, que me são sempre enfadonhas. Desisti do noticiário e abri a caixa de mensagens, mas desisti delas também. Os galos já anunciavam com entusiasmo o raiar do dia, que prometia ser quente. Levantei-me, fui ao banheiro e depois comecei a preparar o chimarrão. Tentei fazer tudo em silêncio e na penumbra, com uma lâmpada que não jogasse luz nos demais cômodos pra não acordar a tia.

Já à mesa, com o mate verdinho na cuia, retomei a leitura de Clarice  Lispector, agora ao sabor de um chimarrão divinamente saboroso. Eu estava animado e o meu dia se prometia ditoso.

(continua)

filipe

segunda-feira, 13 de abril de 2026

NAQUELA MANHÃ...

 


Era manhã de abril, com céu limpo, e não fazia frio. Estávamos na varanda, papai no computador e eu tomando chimarrão. O sol despontava timidamente, roçando a folhagem da pequena mata de eucalipto, com a promessa de um dia quente. Papai fechou o notebook, coçou a cabeça e passou suavemente as mãos nos cabelos embranquecidos a fim de ajeitá-los. E, me olhando pensativo, disse: “Acho que vou dar um pulo a Guiricema.” “Opa. Vamos, sim”, eu me prontifiquei a acompanhá-lo, embora não tivesse sido convidado.

Organizamos as coisas, pegamos a estradinha de terra que liga o sítio à estrada asfaltada e fomos caminhando sem pressa. Ofegante, de vez em quando papai parava e, apoiado na bengala, apontava para uns lados pra falar de um passado muito distante. Ele contava um pouco da história do sítio que pertencera ao seu pai, meu avô Sebastião. Depois tornou-se propriedade de uma tia e agora pertence a uma família de hortelãos. Papai me dizia sobre como se deu a compra daquelas terras, que foram adquiridas em consórcio com o irmão do meu avô, o tio Horácio. Comprado o sítio, discutiu-se como seria feita a divisa entre os irmãos e foi meu bisavô Germano de Moura quem fez as medições. Esse meu bisavô era um topógrafo sem diploma – um homem de pouco estudo e muita sabença. Papai, ainda menino-moço, ajudou a medir aquelas terras, andando pelo matagal, segurando balizas e esticando cordas.

Chegamos à estrada e aguardamos a condução, que não demoraria. Enfim, chegou a van com alguns poucos passageiros. Entramos nela e papai se adiantou, pagando as duas passagens. Já estava com o dinheiro trocado e ainda pagou com desconto, ele me disse depois. O porquê do desconto, não me lembro mais. Acho que é por ser cliente assíduo do condutor-proprietário, de quem era amigo.

O motorista recebeu o dinheiro e esperou pacientemente que nos sentássemos em segurança para, somente depois, engatar a marcha e partir. É um trajeto curto, de apenas uns cinco quilômetros, percorrido em poucos minutos. Então, pouco tempo depois, após alguns sacolejos nas curvas, subidas e descidas, já estávamos na cidade e apeamos da embarcação.

Papai precisava ir à agencia bancária pegar algum dinheiro e eu fui a outro lugar, talvez ao mercado, não me lembro. Um pouquinho depois nos encontramos novamente e nos sentamos num banco da praça, que estava sendo reformada. Os calceteiros trabalhavam frenéticos com enxadas, picaretas e marretas. Havia montanhas de pedras, areia e outros materiais de calcetaria. O trabalho era pesado e os caboclos, alguns fortões, suavam bicas sob um sol inclemente.

Estávamos ali esperando um táxi para ir ao bairro da Taboa, a fim de visitar uma tia, irmã do meu pai. O táxi não apareceu e decidimos ir a pé. Fomos caminhando devagar e papai contando seus casos. Ele relembrou a história de um rico fazendeiro, o maior da redondeza no início do século passado, que se endividou e quebrou. Com muitos filhos pequenos, ele se mudou com a família para o município de Ervália e lá trabalhou pesado no calçamento de ruas, manuseando marretas e chibancas.

Caminhando mais, passamos por defronte a uma casa, onde havia uma aglomeração de pessoas. Era o velório de uma senhora, mãe de duas colegas minhas de ginásio e de outra que se tornou nossa prima. Papai tinha muita estima por aquela família. Paramos, entramos, prestamos as condolências e retomamos a nossa caminhada até a Taboa.

Aquela seria a derradeira visita do papai à irmã Geni. Naquele dia também ele poderia ter tomado seu último sorvete de coco, o que mais apreciava. Pena que não me ative a isso e até hoje me penitencio por essa falta.

Hoje, no dia em que se completam quatro anos de sua partida, papai já não precisa mais da bengala. Nem do sorvete de coco – a ele não oferecido.

FILIPE

quarta-feira, 25 de março de 2026

CORA CINQUENTENÁRIA

 


Essa é a Maria Coraciana, minha irmã e afilhada que está completando ‘cinquenta anos de vida’. Acho que ninguém da família sabe que sou padrinho dessa menina, talvez até ela já tenha esquecido. Também, pudera. Uma afilhada que nunca ganhou presente, nem sequer no aniversário... Dizer o que de padrinhos assim?...  ’Nunca’ pode ser exagero de minha parte, porque certa vez dei a ela uma caneca de louça, embora isso não seja “aquele presente”, já é alguma coisa, né?... Ou não. Da canequinha eu me lembro bem, embora ela diga que já ganhou um estojo de maquiagem, mas não tenho lembrança.

O nome da minha irmã deve ser único no mundo. Nunca se ouviu dizer que alguém traga “Coraciana” em seus documentos – nome que acho muito bonito. No entanto, talvez não fosse assim, caso minha irmã mais velha (sempre ela!) não interviesse, participando ativamente da escolha. Isso por que, dos treze filhos do casal, doze papai nomeou “monocraticamente” – exceto a nossa aniversariante – e essa é uma história bastante inusitada. 

No meu povoado havia uma senhora que era uma espécie de guru daqueles caboclos. Mais do que guru, aquela senhora era um verdadeiro oráculo, porque sem as bênçãos dela, nada se movia naquelas paragens. Todos na redondeza procuravam a “matriarca “ para pedir conselhos, licenças, permissões ou orientações. Quando a nossa bebezinha nasceu, papai, que estava entre os aconselhados e orientados daquela vidente, ouviu dela o seguinte:  “O nome da menina será Maria Coraçana!”

Papai chegou em casa com essa novidade, mas ele não me parecia muito satisfeito – nem nós, os mais velhos. Contrafeita, a irmã mais velha foi assertiva: “Mas papai, esse nome é muito feio!” Papai olhou meio assustado pra pirralhinha, mas desanuviou o rosto e disse: “Não, filha, ela disse Coraçana porque, sendo uma mulher de “pouca leitura”, não conhece bem as palavras. Pois vou pôr “Maria Coraciana”, e assim fica bem mais bonito.” “Ah, então tá bom”, comemorou sem muito entusiasmo a exigente e protetora Mana Velha.

E a Maria Coraciana crescia. Discreta, sempre foi uma menina de muito sorriso e poucas palavras, o que lhe confere certo charme e algum temor. Alguém já balbuciou: “Mas aquela sua irmã parece brava, hein?...” “Que nada. Só não aborrecê-la!”, adverti. Pois bem, melhor não incomodar a menina e voltemos ao passado.

Chegou o dia do Batismo da Coraciana. Àquela altura eu, um pré-adolescente, ansiava ser adulto, e uma forma de alguém se sentir mais velho é ter compadre. E não há compadre sem que haja de permeio um afilhado. Então eu precisava arrumar um afilhado. Que tal ser padrinho da irmãzinha?... pensei. Perguntei ao meu pai quem seria o padrinho de Consagração (perdão, afilhada, mas não sei o que é ‘consagração’). Papai disse que seria a Mariazinha, uma vizinha. Pedi para ser o padrinho, porque no meu entendimento, se tem madrinha tem de ter padrinho. Papai assentiu. Radiante, entrei na igreja ‘menino’ e saí de lá ‘senhor’, porque depois daquele momento eu já me vi adulto, agora um homem de respeito.

Naquela mesma cerimônia, também houve a consagração do irmão da Mariazinha, do qual fui padrinho, e passei a ter dois afilhados, tendo um compadre de verdade. Mas essa é outra história e fica para uma próxima.

Hoje celebramos os ‘cinquenta anos’ da bebezinha Coraciana, que se tornou menina, que se tornou moça, que se tornou mãe, que se tornou avó, mas permanece menina-moça em todos os aspectos: bela, formosa e "frondosa" – tal como na imagem que abre esta crônica.

FILIPE


domingo, 15 de março de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – NONA PARTE

 

17) A noite chegou e com ela os pernilongos. Com as janelas abertas devido ao calor, um enxame dessas minúsculas criaturas invadiu o recinto numa medonha profusão de zumbidos. Uma loucura. A tia pediu pra eu fechar a casa porque “poderia ter musquitim”. Meu Deus! Na cozinha, no banheiro, no meu quarto... em todo canto havia desses “camicases”! E a tia tão suave, numa paz que me assustava. Eu atormentado e ela pacificada. “É... nesta hora costuma entrar algum pernilongo, por isso é bom fechar as janelas”, reforçou.

Olhei ao redor à procura de alguma arma com a qual eu pudesse me defender. Espiei em cima de armários, cômodas, guarda-roupas e nada de encontrar uma raquete elétrica – aquela que tem uma telinha com corrente de alta voltagem, própria para fazer torradinha de muriçocas. Não tinha raquete elétrica nem latinha de veneno em aerossol para debelá-los. O negócio foi quedar-se ao inimigo, que vinha sedento e faminto.

Indo ao banheiro, consegui eliminar um monte deles. Arranquei a camisa, fiz dela uma trouxa e fui acertando um a um nas paredes e no teto. Alguns escapavam, mas eu os perseguia com fúria, abatendo-os em pleno voo, e isso me dava um estranho prazer. Mantendo a porta fechada, pude cantar vitória sobre o inimigo, agora dominado e vencido.

No banheiro eu pude me divertir, mas não no quarto. Lá seria impossível acertá-los devido à existência de muitos esconderijos. Eles se refugiam atrás do guarda-roupa, embaixo da cama, por trás da cortina. Ali eu estaria sob o domínio do inimigo, mas tinha o ventilador. Ligado no máximo, uma torrente de ar seria capaz de desviar a rota dos capetinhas e eu poderia dormir em relativa paz.

Ainda antes de me dirigi aos meus aposentos, observei a tia. Ela estava sentada à mesa e tinha os olhos mortiços. “Está com sono, tia?” “Ah, eu durmo cedo!” “A senhora já rezou?” “Ainda não.” “Quer rezar o terço comigo?”  “Se você quiser, podemos rezar.”

Fomos para a sala e a tia não cochilou durante a reza, participando ativamente de cada Pai-Nosso e de cada Ave-Maria. Num certo momento, ela chegou a interromper a oração pra dizer que reza um pouco diferente de mim, que não sabe contemplar os mistérios. Respondi que isso não tem a menor importância e que ela pode continuar rezando do jeito dela.

Ao final, a tia invocou a sua ‘santa de devoção’: a ‘Senhora Desatadora dos Nós’. Disse que o padre havia recomendado, e que essa santa é muito milagrosa. Discordei. “Tia, Nossa Senhora é uma só: Maria, a mãe de Jesus! Esse negócio de muitos nomes pra uma mesma santa só nos confunde e dá razão a quem nos ataca.” “Ah, eu sei, mas acho que ajuda na nossa fé ter uma santinha de devoção, mesmo sabendo que Maria é uma só”, pontuou.

Terminada a oração, peguei a garrafinha dela, enchi com a água da talha e ela me pediu pra ajudá-la a se deitar. Ela se sentou na cama. Tirei dela as chinelas e a cobri com um lençol fino, porque fazia calor. O cobertor ficou semidobrado ao lado, de forma que a qualquer momento ela poderia cobrir-se, caso a temperatura caísse na madrugada.

Terminada essa “tarefa”, fui para o meu quarto. Cansado, esperava adormecer assim que eu me deitasse.

(continua)

Filipe

sábado, 28 de fevereiro de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – OITAVA PARTE

 

16) Terminada a “grande luta” com as titicas gatinas, fui para o fogão a fim de preparar uma janta. Peguei os pimentões e tomates que eu havia comprado, pus numa vasilha e comecei a lavá-los com detergente. A tia, muito espantada com aquilo, me disse: “Uai, lavando com sabão?! Não precisa. Eu lavo só com água...” “Não tia, precisa ser lavado com sabão, sim. A senhora não sabe como homem é bicho porco: faz xixi, não lava as mãos e depois colhe tomate e pimentão pra vender, e a gente compra sem saber. Isso aqui é sujo e precisa ser lavado direitinho.” A tia não se conteve, fez uma carinha de nojo e quase confessou um segredo dela, já fossilizado na memória: “Engraçado... Você está caprichoso!...” Pensei: Só faltou a ela dizer que o sobrinho sempre foi porcão, e agora, já bem velho, meteu-se a asseios desnecessários. Se ela pensou, não disse; se dissesse, eu não me importaria porque isso é bem verdadeiro.

Enquanto eu lavava os tomates e pimentões, esfregando e enxaguando cada um, a tia foi à geladeira e voltou com um pãozinho na mão. “Aqui, eu vou jantar esse pão e você come o que sobrou do almoço. Não precisa fazer comida.” “Não, tia. Eu quero fazer uma janta pra nós.” “Uai, eu achei que você tinha gostado da comida que fiz pro almoço, e achei que você ia comer a sobra agora na janta. E pra mim, esse pão basta.” “Tia, eu gostei do almoço, mas quero fazer uma comida diferente para o jantar. Então vou caprichar aqui e a senhora deixe esse pãozinho pra amanhã. E aquele restinho do almoço, a senhora dê para os gatinhos. Eles também precisam provar da comidinha gostosa que a senhora faz, né não?!”

Pensativa, a tia ficou um bom minuto olhando para o desolado pãozinho, não sabendo se o guardava ou se o comia. Depois fitou enigmaticamente o “cozinheiro” sem muito o que dizer. Sei disso porque, enquanto eu lavava e cortava os legumes, eu a espiava com o “rabo dos olhos”. Por fim, ela desistiu do pão e o pôs de volta na geladeira, e se sentou pra esperar a comida que eu estava começando a fazer.

Pronta a comida, fizemos uma pequena prece em agradecimento pelo alimento e nos sentamos à mesa para jantar. O nosso “banquete” era bastante frugal: arroz, feijão, pimentão refogado e uma salada de tomates com cebola. A tia ainda se resignou a aceitar que eu lhe fizesse o prato, e o fiz no capricho. Em silêncio e em poucos minutos, ela pôs abaixo aquela pequena “montanha”; eu também, à mesa e no lado oposto ao dela, devorei a minha janta com uma devoção nada franciscana.    

Terminado o jantar, a tia fez questão de lavar a louça. Enquanto isso, eu fiquei por ali, pensando no vazamento da tubulação. Dei uma espiada embaixo da pia, mas o pano que pus parecia seco e isso seria um bom sinal de não haver mais marejamento.    

(continua)

filipe

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O "LOUVA-DEUS"

 


A imagem do simpático louva-deus, ou ‘louva-a-deus’ para os eruditos, não tem nada a ver com a história aqui narrada, mas tem muito a ver com o protagonista.

 

Gosto do silêncio. Ouço músicas durante o dia enquanto cuido dos afazeres, mas à noite prefiro ouvir o cricrilar dos grilos, o lamento das corujinhas-do-mato e os coaxares de sapos que habitam um pequeno “lago” aqui ao lado, enquanto leio ou escrevo.

Ontem, a minha bucólica rotina noturna foi perturbada por gritos lancinantes. O pedido de socorro vinha de uma casa vizinha, do outro lado da rua. Fiquei aturdido, sem saber o que fazer. Tive o ímpeto de descer, mas uma voz interior me desaconselhou; pensei em chamar a polícia, mas fui demovido por outra voz.

Antes de decidir fazer uma coisa ou outra, fui à varanda e olhei para aquela casa desditosa e percebi, pelas vozes, que lá havia um casal.  E essa não foi a primeira vez que ouvi alaridos naquela casa.

Há uns tempos, duas crianças me procuraram, pedindo um celular emprestado. “Para que o celular?” “Pra chamar a polícia!” “Mas o que está acontecendo? O seu pai não está em casa?”  “Ele não é meu pai e a minha mãe quer chamar a polícia pra ele.”

Era por volta do meio-dia quando aquelas crianças me chamaram ao portão. Por ser assim tão cedo, tão dia, pensei ser algum exagero delas, ou da mãe, e não dei curso às minhas preocupações. A luz do sol parece afastar certos perigos, que se supõem afeitos à escuridão. Com esse entendimento, eu disse apenas que os pais deveriam se acertar e, não havendo acerto, que a mãe fosse à delegacia de polícia para registrar queixa. Por isso, não emprestei o celular nem chamei a polícia, mas deveria ter feito uma coisa ou outra.

Há um ditado idiota que diz: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher.” Discordo cabalmente. Mete-se a colher, o garfo e a faca! Foi pensando nesses “talheres”, que dias depois procurei uma advogada para notificar extrajudicialmente o sujeito. A advogada foi muito simpática, mas preferiu “não se meter” e me orientou a fazer denúncia anônima no site do Ministério da Justiça. Procurei outra advogada, que também se esquivou, alegando razões semelhantes às da colega. “A cidade é pequena... todo mundo se conhece... fica difícil... você sabe como é, né?...” Pensei: “Puxa vida... mas nem pagando?!”

Todo aquele redemoinho de más recordações que me assaltaram durou uma fração de minuto, e eu tinha de fazer alguma coisa. Então resolvi gritar, mas gritar alto, cada vez mais alto. Voltei à varanda e berrei a plenos bofes: “O QUE FOI, VIZINHA? O QUE ESTÁ ACONTECENDO? VOU CHAMAR A AMBULÂNCIA! PODE FICAR TRANQUILA, PORQUE A AMBULÂNCIA ESTÁ VINDO!”.

A minha voz tonitruou por vales e montes, alarmou a vizinhança, mas me trouxe de volta o silêncio noturno. Não sei por quê, mas naquela casa está reinando uma inquietante quietude.

 

Por que louva-deus? Porque aquele desinfeliz pontua todas as suas frases com um “Glória a Deus”, e não há glória nos seus atos nem parece haver Deus na sua vida. Para mim ele é um ‘louva-deus’, mas não o inocente inseto.

FILIPE


domingo, 8 de fevereiro de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM – SÉTIMA PARTE

15) Um pouco cansado, deixei a pia e saí para tomar um ar. Nisso a tia voltou a me interpelar sobre a acompanhante, que já deveria ter chegado e ainda não apareceu. Eu disse pela quarta ou quinta vez que a moça não viria, e quem ficaria de acompanhante naquela noite seria eu. Mas a tia não se deixou vencer. “Meu Deus, eu estou pagando para ela vir todos os dias, e agora não vem?... Então vou descontar os dias que ela faltar...” Nesse momento eu fiquei bravo, mas tentei mitigar minha brabeza, apenas dizendo que a moça precisa descansar. E que todas as vezes que eu estivesse ali, ela não precisaria vir. A tia decidiu ser mais direta e atacou: “Pois ela teria de vir, sim, ao menos pra catar os cocôs dos gatos aqui no quintal!” “Ah, tia... então essa é a sua preocupação?! Pois está resolvido. Vou catar agora!” Ao ouvir isso, aquela senhora entrou em parafuso, não sabendo se comemorava ou embrabecia. “Ah, não acredito que você vai fazer isso!...” “Vou, sim. E me fale como devo fazer”. Ela me deu as instruções, apontando para uma vassoura e uma pazinha, que eram as ferramentas exclusivas dessa obra. Então peguei a vassoura e a pá, recolhi as fezes da gataiada e joguei dentro de uma sacola que ficava num tambor na varanda. Nessa hora a coisa azedou pra mim. “Você jogou ali dentro?! Ah, meu Deus, não era pra pôr ali, não. Aquilo ali é reciclagem. Ah, meu Deus!!!”, lastimava a pobre mulher. “Calma, tia. Eu pego de volta.” “Não tem jeito. Vocês não poderiam dispensar a funcionária. Ela que sabe fazer isso. Ah, meu Deus!...”

Abri o tambor, virei, espalhei tudo no chão e fui recolhendo cuidadosamente o material reciclável para pôr de volta, enquanto deixava ao lado os excrementos. Ao final, deixei tudo como estava, recolhi mais uma vez a titica dos gatos e a joguei além do alambrado.

De novo a tia: “Olha o que você fez!... Sujou toda a reciclagem!” “Não sujei nada, tia. O cocô está sequinho. Se eu pegasse sem luvas, a mão continuaria limpinha”, eu disse num quase sorriso – mais de aflição que contentamento.  A tia até parecia achar graça no que ouviu, mas não quis rir e emendou: “Onde jogou o cocô?” Apontei orgulhoso para os lados além da cerca. Ela nublou-se novamente: “Ali é o quintal do vizinho! Ah, meu Deus... Que falta faz a minha funcionária!...” “Não, tia, pode deixar que eu dou um jeito.” Passei para o lado do vizinho, peguei todos aqueles cocôs, que a essa altura já deveriam estar bastante “cansados” de tanta mudança, e os joguei pra bem longe, lá num matagal. Minha tia me olhou com uma pontinha de desconfiança, mas não quis perguntar mais nada e entrou.  

Aqui chego ao fim dessa labuta, mas tem mais.

(continua)

FILIPE

 

 

 

 

 

 


domingo, 1 de fevereiro de 2026

MEMORIAL DE VIAGEM -- SEXTA PARTE

 

14) A pia da cozinha estava entupida, mas não era uma calamidade porque, embora muito vagarosamente, a água ainda escoava. Mas aquilo foi me incomodando a ponto de me deixar irritado. Sempre que eu fosse lavar uma coisinha, formava-se um lago cuja placidez me bambeava os nervos. Então, fui ao mercado e comprei um ‘desentupidor de pia’, que é algo semelhante a uma ‘saia de borracha’ de onde ergue um cabo de plástico. Eu peguei aquele treco e dei várias bombadas no ralo, mas em vão foi meu esforço. Quanto mais eu mexia mais a coisa emperrava e o bojo, de tão cheio, já começou a transbordar a ponto de eu ter de tirar um pouco da água com uma caneca para evitar um dilúvio na cozinha. A tia acompanhava tudo bem de perto e com uma atenção que me paralisava.   De repente, ela se lembrou de uma solução: “Deixe eu pôr cloro aí, porque dizem que desentope mesmo.” Aceitei a sugestão de pronto. Vai que a tia tem razão..., pensei. Então ela derramou certa quantidade de cloro e me pediu pra esperar aquilo fazer efeito. Aguardei por um tempo e a pia foi esvaziando, mas numa vagarosidade...

Perguntei à tia se ela tinha arame. Tinha, e um bom arame. De aço, forte e comprido. Pequei um pedaço de pano e amarrei na ponta daquele arame e chuchei no encanamento. Inicialmente, da pia para baixo, e soquei, fui socando, mas nada da coisa desentupir. Depois, resolvi fazer o percurso inverso. Do lado de fora, abri a tubulação de forma que eu pudesse enfiar aquele arame até alcançar a pia. Foi uma luta. Já escurecia e as lojas iam fechar. Caso eu precisasse de comprar algo, só no dia seguinte. E fui socando e observando aflitivamente. Eu não estava tendo êxito, mas insisti. De súbito, um jorro veio de encontro a mim, molhando minhas mãos e reacendendo meus ânimos. Retirei o arame e a água fluiu “sorridente”, esvaziando a pia.

Entusiasmado agora, fui lá, abri a torneira e lavei bem as mãos por duas razões: uma porque estavam sujas, e outra porque eu precisava testar o funcionamento da pia. Estava tudo perfeito. No entanto, uma faísca de preocupação apagou minha alegria quando ouvi a tia dizer:  “Ô diacho, está vazando água debaixo da pia...” E estava mesmo! Havia um vazamento misterioso que, com o tempo, poderia fazer uma molhaceira danada – não apenas embaixo da pia, mas também nas adjacências. Pensei no pior: o arame deve ter perfurado a tubulação e eu não ia conseguir consertar aquilo, principalmente à noite.

Mas a ‘minha salvação’ veio da própria tia Geni, quando ela me disse: “Ah, eu pus cloro, que é terrível e deve ter provocado esse vazamento.” Dando uma de migué, fui logo concordando. “Ih, tia, é verdade! Cloro é muito corrosivo. Agora precisamos esperar pra ver como resolver isso. Se amanhã o vazamento continuar, talvez tenha de chamar um pedreiro para consertar, mas vou tentar fazer algo sem que precise dele.” Dito isso, peguei uma toalha velha, pus no piso embaixo da cuba a fim de absorver a água que marejasse e a deixei lá. No dia seguinte eu teria de buscar uma solução.

 

Continua...

 

FILIPE

sábado, 3 de janeiro de 2026

INFERNO SOB TRUMP



Todos os dias eu me levanto bem cedo, abro o celular, dou uma espiada nas mensagens e costumo dar uma olhadinha rápida no noticiário também. Ultimamente tenho evitado as notícias e me atenho mais a podcasts de literatura e pequenas estórias agridoces. Também ouço muita música, mas música popular brasileira!  

O dia de hoje não seria diferente. Após a checagem de praxe, deixo o celular, faço a toalete e saio para cumprimentar meus cãezinhos, um por um. Em seguida, começo as minhas preces. Enquanto rezo, vou caminhando pelo quintal num exercício físico e espiritual que costuma passar dos três quartos de horas. Esse é um momento muito especial em que fico tomado de enlevo, numa quase epifania.

A noite foi serena, o sono tranquilo porque embalado por grossos pingos de chuva que começaram ao entardecer e se estenderam noite adentro até a madrugada. Ao amanhecer, o tempo estava firme e pude caminhar a pés enxutos. O noticiário que estava no celular quando me levantei era anódino, nada de anormal piscava na tela.

Terminada minha “tarefa”, e ainda sob aquele arrebatamento que só as almas monásticas conhecem, pus água na chaleira para o chimarrão, bebida que sorvo pausadamente enquanto folheio um livro. Enquanto a chaleira chiava, peguei novamente o telemóvel. Naquele momento, assombrado pela imagem dantesca que abre esta crônica, fui arrancado de meu arrebatamento para tomar pé da realidade. Logo abaixo da fotografia, lia-se “Trump invade a Venezuela”. Incrédulo, dei uma deslizada na tela e não havia dúvidas: Trump assaltou a Venezuela! O coração descompassou e quase chorei de tristeza. Não, eu não choraria pelo Maduro, o opressor de seu povo e algoz da Guiana. Mas choraria pelos venezuelanos – um povo sofrido que vê seus barcos e navios atacados e sequestrados, além dos marinheiros assassinados pelos ianques no litoral de seu país.

Todavia, meu desalento sequer pode ser comparado ao daquele povo. Imagine o desespero de quem, sobrevivendo ao bombardeio, teve a casa destruída, e sob os escombros muitos corpos – alguns em agonia.

Os Estados Unidos violentaram a Venezuela com a fúria de um predador e não há força que os detenha. Os norte-americanos, se quiserem, dominam militarmente toda a América e grande parte da Europa e Ásia – exceto as potências nucleares, porque ali “o buraco é mais fundo”.

Penso que neste século deverá haver a formação de três grandes blocos geopolíticos: a Ásia dominada pela China, a Europa curvada à Rússia e a América subjugada pelos Estados Unidos. Quem viver verá, e sofrerá. Descreio na civilização seja ela cristã ou pagã.

Se não há Deus, tudo se permite”, disse Dostoievski. ‘Se não houvesse justiça divina, estaríamos sob o reinado de Satã’, digo eu.

FILIPE


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO



Na semana passada havíamos planejado viagem para uma pequena cidade de Minas Gerais, onde passaríamos o dia de hoje. Eu estava animado no começo, mas fui desistindo aos poucos, até abandonar a ideia.

E o meu dia começou cedo. Tão cedo, que seu início se deu à meia-noite (pra quem é da noite), ou zero-hora (pra quem é do dia). Isso se deu quando fui ao celular mandar mensagem para um tio que também faz aniversário hoje. Tenho a alegria de compartilhar com ele a data natalícia, não o ano. Nos tempos antigos ele era bem mais velho do que eu. Quando fiz nove, ele fez dezoito! Hoje essa diferença é relativamente bem pequena – somos, os dois, uns velhotes.

O dia amanheceu e me levantei para as preces e a caminhada. Abri a porta e a Maneka, minha cadelinha, já me esperava; os outros três me aguardavam à meia-distância. Ao meu bom-dia, todos se aproximaram e começaram a me disputar. Dei um ralho e todos se afastaram, menos a Maneka, que continuou roçando meus calcanhares enquanto eu caminhava pelo quintal.

O dia avançou para a hora do almoço. Havia planos de ir ao restaurante, mas desistimos e resolvemos requentar sobras de ontem. Tinha arroz, que “batizei” com cebola frita e um fio de azeite. Tinha também batata-doce, quiabo, feijão e linguiça calabresa – que fora cozida, depois frita e assada. Assim foi o nosso almoço, que comemos alegremente neste dia especial.

A sobremesa, que dificilmente como, dessa vez foi chocolate. Não quero fazer propaganda, mas a Cacau Show me faz ‘cometer o pecado da gula’ com suas trufas. Comi duas após o almoço, e só não comi mais porque não sou afeito a arroubos à mesa (mentira).

Depois veio a sesta, que tomou deliciosas duas horas de minha tarde. Em seguida, uma caminhada com parte da matilha: a Pituka e o Tiziu – ela uma anciã e ele um idosinho. Deixamos a Maneka e o Pitoko aos prantos, como sempre, e nos esgueiramos pelas ruas do bairro, uma delas muito íngreme e esburacada. Próximo a uma casa em construção, no mato, havia duas tábuas em meio a cupins que devoravam um tronco de madeira. Bati bem as tábuas, livrando-as dos insetos e as peguei, voltando pra casa com os cães e a pequena “fortuna” nos ombros. Essa sucata será muito brevemente transformada num pequeno móvel.

A tarde, que chegara ligeira, despediu-se apressada e veio a noite. A minha companheira perguntou se eu não queria sair. Havíamos planejado ir a um barzinho – aqui na cidade há vários e muito bons. Não, não vamos sair. Ficar em casa é o melhor programa que se tem. Essa decisão foi aprovada por unanimidade.

Agora, pra terminar o dia, decidi registrar esses pequenos traços de um cotidiano, que se faz pleno exatamente pela sua rotina frugal.

Ah, e o ‘presente de aniversário’? Sim, houve um presente. Ele está na foto que abre o texto. Uma pequena prateleira feita com retalhos de madeira, que fiz ontem e hoje instalei. Ela terá grande utilidade para nós, onde poremos os remedinhos do dia a dia.

FILIPE


domingo, 7 de dezembro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM -- QUARTA PARTE

10) Estou chegando à casa da tia Geni. Ela já me viu, mas sei que terei de esperar um pouquinho, porque antes de receber alguém, a tia costuma dar uma espiada no espelho para acariciar o cabelo, que ela faz com a palma das mãos. Dependendo de quem chega, isso pode demorar desde uns poucos minutinhos a um tempo mais dilatado.

Não houve demora. A tia Geni vem devagarinho pela casa e ouço movimento na fechadura. Ela abre a porta da sala, caminha com dificuldade até o gradil do alpendre e me entrega a chave. Ela sempre faz assim devido à sua dificuldade com a pequena escada que dá acesso à casa. Abro o portão não sem antes a chave me escapar da mão, que recupero com dificuldade porque o cadeado fica do lado oposto de quem chega. A tia me olha, esperando em silêncio com as mãos apoiadas na grade enquanto eu fecho o portão e caminho na sua direção.

Ao subir a pequena escada que dá acesso à varandinha, os gatos que estavam por ali, partiram em tresloucada disparada. Eram muitos gatos. Dez? Bem mais que dez, mas não vinte. Houve um tempo em que havia uns trinta gatos, mas os cães da vizinhança deram cabo de alguns, outros sumiram, de forma que ficaram “apenas esses”, conforme a tia diz. Por sorte minha, os gatos saíram, mas não a tia, que continuou amuada, dando impressão de que não estava a fim de receber visitas.

Entrego a chave, ela a recolhe e ensaia um movimento de entrada, como se a minha presença ali fosse uma rotina como a do leiteiro, entregando a garrafa de leite, ou a do rapazinho do mercado em frente com as mercadorias que ela pediu – encomenda essa que ela sempre faz pela janela da sala, de onde ela chama o vendeiro, que a atende ligeiro e prestimoso.

Quando lhe dei a mão para a bênção, ela me abençoou sem entusiasmo e, mesmo desanimado, puxei assunto, mas a “velhinha” estava agarrada, quase muda. Falei que eu havia viajado pra ficar uns dois dias com ela e que seria na casa dela que eu me hospedaria. Ela expressou espanto e me perguntou: “Uai.. você não está indo pra roça? Pensei que fosse pra casa das suas irmãs...” “Não, tia. Eu vim pra ver a senhora, ficar com a senhora. Posso até visitar minhas irmãs, mas é aqui que quero ficar. Só não quero incomodar. Depois de amanhã já estou indo embora.” “Ô diacho...  Eu não sabia que você vinha pra ficar aqui. Por que ninguém me falou?” “Ah, tia. Eu que pedi pra não falar. A culpa é minha”.

 

11) Depois a tia se soltou um pouco, até sorriu, e entramos. Deixei a mochila no sofá da sala e segui com ela para a cozinha, onde havia dois ou três gatos que, ao me verem, voaram pela janela e sumiram para o quintal. A tia me disse que eles não gostam de visitas, e isso me deixou bastante animado. Uma observação: amo animais, mas ‘cada qual com seu igual’.

O fogão da tia estava com uma panela em fogo baixo. Desconfiado de que ela estivesse fazendo comida, e pra não atrapalhar, eu disse que gostaria de levá-la pra almoçar fora, poderia ser no restaurante daquele bairro. Ela foi assertiva, dizendo que estava entojada de comida de restaurante e que por isso mesmo decidiu ela própria fazer sua comida. Desta vez, ela estava fazendo um macarrão com ‘um restinho de frango de ontem’. Disse que tinha feijão cozido na geladeira e que a comida daria pra nós dois. Resistindo ao convite, tentei declinar, mas a tia foi incisiva e tive que almoçar do almoço dela.

Aqui um segredo para os meus raros e caros leitores: a comidinha da tia não estava me agradando. O macarrão, muito branco, se desfazia junto ao frango, também muito pálido. Ela tinha um pouco de feijão batido e temperado na geladeira, que fez voltar ao fogo e o engrossou, ficando bastante saboroso, mas estava faltando algo.

A tia, agora animadinha por eu não ter desistido da comida dela, pegou dois pratos, me deu um e ordenou que eu almoçasse. Perguntei se tinha ovos. Tinha na geladeira. Peguei três ovos, ela me deu uma frigideira e ficou me espiando. Pus óleo e despejei os três ovos para uma fritada única. Ela ficou alarmada: “Uai, eu frito um de cada vez...” “Não, tia, eu frito tudo junto e vai dar certo!” Pus a fritura num prato e dividi ao meio: metade pra ela e metade pra mim. Almoçamos bem. Ela não reclamou do ovo, mas disse que o feijão, que ela mesma tinha preparado, estava meio salgado. Eu não achei, mas não tenho isenção para falar de ‘salinidade à mesa’.

(continua...)

FILIPE

domingo, 23 de novembro de 2025

SERIAM 'NOVENTA E CINCO'

 



Já era noite. Talvez neblinasse ou fizesse frio – disso já não me recordo. Lembro que estávamos na cozinha quando um irmão disse ter ouvido um ‘toque-toque’ na porta da sala. Diante disso, ficamos apreensivos, mas não estávamos indefesos. Tínhamos o papai conosco e nele a confiança para lidar com a situação, seja ela qual fosse, era certa. Estávamos protegidos.

Preciso registrar que estou falando de um tempo distante, e aqui rememoro algo acontecido há mais de meio século. Naquela ocasião, morávamos num sítio do meu avô paterno, numa pequena casa sem vizinhos próximos, sem água encanada nem luz elétrica. A iluminação era por lamparina a querosene. Tínhamos duas lamparinas: uma era exclusiva da minha mãe, que, adoentada, gostava de ficar reclusa no seu quarto; a outra era para o restante da família e ficava na cozinha. Era na cozinha que sempre ficávamos, particularmente à noite. Alguns sentados no banco de madeira, outros ao redor do fogão a lenha. Era na cozinha que tomávamos as refeições, conversávamos e fazíamos orações. Aquele pequeno cômodo com chão de terra batida era para nós quase um templo de convivência doméstica. Ali o papai, todas as noites, cansado de sua jornada, rezava o terço e lutava com o sono. Por vezes, numa cochilada mais forte, o terço caía de suas mãos, mas ele o apanhava e retomava a prece. Terminada a oração, ele dava ordem para que fôssemos para a cama. Ele também, após lavar os pés, partia para seus aposentos, encontrando mamãe já ‘no terceiro sono’, como se dizia.

Na noite em que se deu o fato aqui narrado, papai estava conosco, mas isso não era comum. Sendo pedreiro, ele costumava trabalhar longe de casa, e como sempre andava a pé, era demorada a sua volta.  Mesmo trabalhando perto, papai costumava sair de tardinha para aplicar injeções. Ele era uma espécie de enfermeiro muito requisitado naquele ‘córrego’. Além das injeções intramusculares, ele sabia, como poucos, aplicar também as intravenosas. E ainda havia os pedidos de reza nas casas, que nunca deixou de atender. São essas as razões por que nosso pai nem sempre estava em casa nas primeiras horas da noite.

A batida na porta continuou espaçada e suave – essa era uma forma educada de chamar alguém da casa. Mas, para nossa tranquilidade, papai estava conosco naquele dia e ele foi à sala para atender a quem batia na porta. À frente, com a lamparina à altura dos olhos, papai girou a tramela da porta e tentou enxergar a visita. Naquele momento um misto de orgulho e medo nos assomou. Orgulho pelo destemor do pai, um homem corajoso; medo pelo que pudesse acontecer com ele e conosco, pois a lamparina poderia ser apagada com um simples bafejo, e todos ficaríamos no escuro a mercê de um possível invasor. 

Felizmente não estávamos em perigo. Quem chegava era uma mulher. Negra, alta, magra, ela trazia consigo uma criança e pedia abrigo. Papai mandou que entrasse e, após obter algumas informações, ajeitou pra ela uma cama na sala, que era o único lugar disponível. Num canto do quarto da sala havia uma esteira artesanal, feita de taboa, que papai sempre mantinha para alguma eventualidade. Ele estendeu a esteira, cobriu com um lençol, pegou um cobertor e acolheu a mulher e o seu filhinho naquela noite.

O nome da mulher, eu soube depois de moço, é Isolina. Ela morava numa comunidade de gente muito pobre, na entrada da cidade. O filho dela, que era especial, tinha apelido de Pilorino. Essa era uma alcunha maldosa, preconceituosa, racista. A pele negra do garoto fora associada ao pelourinho – um tronco onde os escravizados eram açoitados. De pelourinho, através da ignorância infame de gente branca, bem alimentada e maldosa, veio o apelido do menino, que depois o vi rapaz. O tempo passou e eu nunca mais soube notícias dele nem da mãe.

Neste ano, no Dia de Zumbi dos Palmares, papai teria completado ‘noventa e cinco anos’. Deixo aqui essa homenagem a ele e àquela descendente de escravizados a quem socorreu. Papai não precisa de homenagens nem a dona Isolina de abrigo, mas eu preciso expressar carinho pelos dois, que já estão na Casa do Pai.

FILIPE


domingo, 9 de novembro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM – TERCEIRA PARTE

7) Saio da padaria, ando uns dez minutos e chego à rodoviária. Como o ônibus demoraria, aproveitei para visitar uma tia que mora nas cercanias. Não tendo o endereço, mas sabendo que é perto da rodoviária, fui procurar. Entrei numa casa de produtos agrícolas e perguntei: “Você sabe onde mora a dona Aparecida?” O homem me olhou, olhou do lado e perguntou à colega. Ela não conhecia nenhuma ‘dona Aparecida’. Arrisquei ‘Cida”; não deu. ‘Cidinha’; não também. “Aquela mulher que cuidava do irmão que morreu recentemente...” “Ah, sim. Ela mora ali!”. Os dois saíram pra calçada e apontaram para um prédio. Andei um pouco e me enrolei, perdendo o rumo dado por dedos tão dedicados.

Parei numa farmácia e fiz a pergunta, mas agora da maneira certa. “Ali, naquele prédio, em cima da padaria”, respondeu o funcionário. Fui lá e vi que havia vários números de apartamentos no interfone. Pensei que poderia ser o 303 e apertei uma, depois outra vez – nunca aperto três vezes. Não deu. Entrei na padaria, comprei um bolinho de fubá e perguntei onde mora a dona Aparecida, aquela que cuidava (...), fui interrompido com a resposta: “No 202!”

 

8) Aperto o número 202, que talvez seja 203 (já esqueci) e fui atendido por uma voz familiar: “Quem é?” “Seu sobrinho filipe. Lembra de mim?” “Track!!”, essa foi a resposta dada, mas pelo portão, que destravou para, em seguida, a voz daquele interfone pedir pra eu subir.

A tia Aparecida me recebeu com sorriso e abraço calorosos, mas parecia pronta pra sair. Desconfiado, já fui dizendo que a minha passagem seria ligeira e que meu ônibus já estava quase saindo. Senti que a tia ficou aliviada com minha pressa, contudo, me convidou pra entrar e sentar, mas fiquei de pé na sala, achando que seria mais acertado. Apenas quis saber como ela está, como foram seus dias com o irmão de quem ela cuidou por onze anos, essas coisas. Ela me contou detalhes dos cuidados finais com o irmão enfermo, da ausência da família nuclear dele, mas se disse tranquila por fazer o que tinha de ser feito. Disse também que uma filha, que mora no prédio, foi sua companheira nos momentos mais agudos da lida.

Passados uns vinte minutos, tempo suficiente para que eu soubesse segredos esquisitos de família e passagens difíceis da vida dela, encerrei a prosa e quis me despedir. Ela disse que teria de ir à fisioterapia, então fechou a porta, desceu comigo até a rua e nos despedimos. Dali, marchamos em sentidos opostos: ela para a clínica e eu para a rodoviária.

 

9) Chegando à rodoviária, vi que o meu ônibus sairia às dez e meia, e eu esperaria ainda por uma hora. Com tanto tempo livre, resolvi pegar o livro, e foi nesse momento que apareceu o gari Mário, cuja história contei neste blog. Saiu o Mário, chegou o ônibus. Subi, paguei a passagem e me sentei lá no fundo. Pensei: vou chegar às onze e vai dar pra eu fazer o almoço pra tia Geni.

O ônibus arranca comigo e outros poucos passageiros, avançando pelas ruas estreitas e acidentadas da pequena Visconde. Não me animei a ler. Preferi contemplar a paisagem urbana repleta de casebres malcuidados: alguns no alto do barranco, outros nas íngremes ribanceiras. E o ônibus vai bamboleando enquanto eu tento me segurar para não escapar do banco. Ao lado, era a minha mochila que tremia temendo ir ao chão num escorregão.

O ônibus alcança a zona rural e vejo a paisagem desolada, com os pastos ressequidos devido à longa estiagem. O inverno é sempre assim, mas nunca me acostumo e vivo sempre ansiado pelas chuvas e pelas cores da primavera, que logo vêm.

De repente, a embarcação entra no perímetro urbano da minha cidade e eu começo a ficar preocupado se já não seria a hora de “apear”, como diria papai. Cismei que tinha de descer e puxei a corda, que buzinou na orelha do motorista, que freou e parou bruscamente. Desci, mas desci errado e tive que caminhar por longa distância, talvez uns cem metros, até o ponto onde eu deveria parar. Essa não foi a primeira vez que erro a parada.

Caminhei, caminhei, caminhei e cheguei à casa da tia Geni. Contudo, dessa vez ela não estava no alpendre me esperando como da outra vez. Mal apertei a campainha e já apareceu uma carinha redonda e desconfiada numa das janelas. Era a tia, que não me parecia tão receptiva como antes.

(continua...)

FILIPE


domingo, 26 de outubro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM – SEGUNDA PARTE

 4) ‘Apeei do ônibus’, como diria papai, às sete e quinze da manhã, perdendo o outro que saíra às sete e me levaria a Guiricema. A próxima condução seria somente às dez e meia, de forma que eu teria que pegar táxi ou esperar um tempão. Decidi esperar e aproveitei para visitar uma amiga que mora naquela cidade e se encontra adoentada.  Procurei um táxi, mostrei o endereço e o trajeto, que obtive por um aplicativo a fim de não ser enganado, mas o taxista me pareceu honesto, dizendo que “a rua ficava logo ali, mas o problema é a numeração”. E me provou, apontando o número 53, por exemplo, ao lado do 123; depois do 123 já vinha o 65, seguido pelo 215 etc. Uma loucura!

Enfim, achamos a casa da amiga. Paguei, desci e comecei a chamar. Gritei, bati palmas... nada! Pensei: errei o endereço, mas fazer o quê... Perguntei a uma jovem que saía da casa vizinha, mas ela não conhece a minha amiga, nem sequer sabe o nome. Em seguida, veio um senhor, talvez o pai da jovem: “Conheço, sim. Ela deve estar dormindo ainda, porque toma remédio forte.”

5) Desisti da minha amiga e desisti de voltar de táxi também. Pensei: ele cobrou quinze reais pra me trazer, serão outros quinze reais pra me levar, e tá ficando caro esse passeio... Com esses quinze reais economizados, eu tomo um bom café!

A casa da amiga fica no morro. Desci meio sem saber pra onde ia e perguntei a um senhor que pintava a fachada de uma casa que caminho me levaria à rodoviária. Ele me orientou. Mais à frente, perguntei a outra pessoa pra confirmar a informação anterior. Estava certinho.

Já estava perto das nove horas quando avistei uma padaria e parei ali para o desjejum, que normalmente é leite com chocolate e pão com manteiga.  Entrando, cumprimentei a moça do balcão e perguntei onde fica o banheiro – eu tinha uma “emergência líquida” e queria escovar os dentes também. A moça me deu a chave e apontou para um quartinho, onde seria o tal banheiro, e pra lá fui alegremente.

6) A chave que a balconista me deu tinha um pedaço de madeira como chaveiro, mas isso não tem importância aqui. Abri a porta e vi que o banheiro estava limpo e até perfumado. Acima do vaso sanitário lia-se: “respeite esse banheiro porque senhoras usam também”. Respeitei o banheiro, é claro, mas eu tinha que lavar as mãos e precisava escovar os dentes. Cadê sabonete? Não tinha. Olhei em cima de um armário e vi muitos produtos de limpeza. Detergente? Não tinha também. Abri o armário, fucei lá e não achei sequer um sabão em pó – nada que eu pudesse usar para lavar as mãos. Então peguei um desinfetante e aproveitei pra desinfetar mãos, maçaneta, chave, chaveiro, tudo... Terminado esse serviço, procurei uma mesa e esperei meu café, que nunca é café, mas achocolatado – eu já disse isso. Pedi, além do chocolate, um pedaço de broa e dois bolinhos de chuva. Já longe do banheiro, mas não do desinfetante, que se me impregnara e me acompanharia por um bom tempo ainda, regalei-me com o desjejum. Aquela broa mineira, os bolinhos de chuva, até o achocolatado, que nem tinha tanto chocolate assim, estavam uma delícia! E o melhor: aquela fartura toda me custou apenas ‘seis reais e dez centavos!’ Repito: ‘seis reais e dez centavos!” Gostei muito e gastei pouco.

(continua...) 

FILIPE

domingo, 12 de outubro de 2025

MEMORIAL DE VIAGEM - PRIMEIRA PARTE

 

Esse relato foi enviado a alguns contatos no ‘zap’. Para não cansá-los, o texto foi dividido em alguns capítulos e enviado em dias bastante espaçados. Contudo, optei por fazer pequenas modificações a fim de torná-lo mais adequado ao público deste blog que, embora não seja grande, é desconhecido e de tamanho indefinido.

 

1) Numa segunda-feira à tardinha, chego à rodoviária do Tietê, em São Paulo, e vou ao toalete. A torneira fecha automaticamente antes mesmo que eu termine de lavar as mãos. Insisto, apertando novamente um treco e a torneira teima em fechar novamente me impedindo de lavar sequer as pontas dos dedos. Desisto. Saio do sanitário e termino o asseio com álcool, que sempre tenho na mochila.

Em seguida, vou a um quiosque e compro um suco de abacaxi com gelo e sem açúcar. Procuro um banco mais isolado e pego meu lanche: um pão com carne e queijo, que fiz em casa antes de sair. Sempre faço assim, porque nos quiosques da rodoviária qualquer “pão com nada” custa a metade de um fígado humano.

2) Meu ônibus encosta, passo pelo funcionário e procuro a poltrona 13, que estava vazia, mas não disponível. No chão, duas bolsas enormes ocupavam o espaço onde eu descansaria os pés, impedindo-me de tomar assento. Olhei para os lados e não vi ninguém que pudesse tirá-las dali. Decidi eu mesmo removê-las e me aninhei no canto. Nisso chegou a dona das bolsas. Ela me olhou espantada e eu retribuí o olhar com ares não muito amorosos. Perguntei se ela não queria que eu pusesse uma das bolsas no bagageiro – numa tentativa de apaziguamento. “Minha bolsa não fecha!”, ela disse quase gritando. Deixei a mulher com suas bolsas que não fecham de lado e tentei cochilar, mas essa vizinha estava impossível. Ela começou a conversar com seus irmãos de igreja, depois abriu um áudio de ‘onze minutos’ (conforme o pastor mesmo disse) e, em volume bem alto, começou a pregação. Achei a coisa tão medonhamente inusitada, que gravei uma parte daquilo.

3) Espremido entre as bolsas da mulher, segui viagem sem ao menos poder me esticar mais confortavelmente. Por fim, a pregação do pastor acabou, as conversas com os irmãos de igreja também, mas a lanterna do celular e o mexe-mexe da vizinha nas suas bolsas me aturdiam. E assim, já bastante moído, cheguei a Visconde do Rio Branco, que ainda não seria meu destino final.
(continua...)

FILIPE

domingo, 28 de setembro de 2025

NO AMBULATÓRIO

 


Na sala-corredor de espera de um ambulatório, eu aguardava a médica para avaliação de um exame quando fiz a foto que abre este texto. A imagem é apenas uma ilustração, e aqui não farei conexão com o exame nem com a consulta. Quero é navegar em águas mais densas; quero o mar.

Há tempos que eu vinha me preparando psicologicamente para um procedimento médico. Após dois dias e meio de intensa dieta, que foi finalizada com um rigoroso jejum, fui conduzido ao ambulatório por minha companheira. Estacionamos no pátio e desci do carro, mas percebi que eu não conseguiria andar. Cambaleante, tentei dominar as passadas, mas tudo começou a girar e me agachei para não cair. Nisso, uma jovem senhora se aproximou e ofereceu ajuda.  Seu nome é Gorete e trabalha ali como enfermeira, ela me disse depois.

A Gorete, que nem tinha começado seu turno, já entrou na lida, oferecendo-me uma cadeira de rodas, que aceitei agradecido. Essa foi a primeira vez que usei uma cadeira de rodas, uma experiência humanizadora!  E assim, enquanto a Rosana fazia a burocracia na recepção, eu era conduzido pela Gorete a uma sala de enfermagem.

Num canto daquela sala havia uma maca e pedi à enfermeira para ficar nela, porque meu desconforto na cadeira era enorme.  “Claro”, assentiu e me ajudou a subir naquele equipamento. Ela mediu minha pressão (8,0 por 4,0), mediu a minha glicose (normal) e quis saber o que mais eu sentia e o porquê de eu ter ido ao ambulatório.

Embora deitado, o mal-estar continuava me afligindo. A enfermeira tentava me tranquilizar, dizendo que logo passaria, e pegou alguma coisa, talvez uma almofada, e a pôs embaixo de meus pés enquanto abanava-me o rosto com meu chapéu. Passados uns minutos, melhorei um pouco e ela me conduziu a uma sala ampla, com várias macas e pacientes. As enfermeiras me acolheram ternamente, mas uma delas furou meu braço para o tal acesso. Na primeira espetada ela já alcançou uma veia bem bacana, me poupando de outras agulhadas. Nesse momento me veio forte a imagem de minha mãe em suas inúmeras internações: quantas vezes ela teve de suportar essas fincadas... Fui testemunha do sofrimento da mamãe, que debatia, gritava, chorava. A enfermeira não achava veia... Então ela chamava outra enfermeira, que também não achava, tornando-se essa uma rotina agônica na vida da minha mãe.

Depois de tudo acertado, veio-me o soro. Foram duas “sacolas” daquelas de um litro, ou quase. Enquanto o soro gotejava na minha veia eu pensava na vida e no final dela, que não me parecia muito distante. Em certo momento, outra enfermeira chegou e me pediu que entregasse relógio, aliança e demais pertences. Eu não tinha mais nada pra entregar. Então ela disse que era pra eu retirar toda a roupa. Jogou sobre mim uma “camisola”, que me cobriu por inteiro, e me despi. Ali, naquele momento, eu estava completamente despido de tudo. Em mim não havia pudor nem vaidade; e não havia saúde também; nem orgulho nem mágoas. Eu era apenas um corpo frágil à espera do sedativo, que viria sem tardar.

Enquanto eu pensava na brevidade da vida, alguém chegou: “Voltei. Você está bem melhor, até mais corado... Lembra de mim? Eu que te socorri.” “Ah, a Gorete!” “Então, eu que vou te acompanhar no procedimento.” A Gorete, agora uniformizada, me conduziu à outra sala. Nesse momento eu trajava camisola azul clara, tinha um monitor de pressão e outro de não sei o quê, depois recebi uma cânula de oxigênio e, antes da injeção que me sedaria, tive uma breve epifania: bateu-me forte a imagem do meu pai no leito da UTI. Papai estava exatamente assim e isso me trouxe grande conforto.

Enquanto o médico fazia umas anotações, a enfermeira me ajeitava na maca e disse que me daria uma pequena fisgada no braço para a sedação. Eu fechei os olhos num esforço pra não sentir... e abri logo em seguida ao ser tocado por uma pessoa: “Você já está liberado.” Era a enfermeira Gorete.

FILIPE


domingo, 14 de setembro de 2025

CÁRMEN LÚCIA: A DAMA DA DEMOCRACIA

 


Ninguém me pediu opinião sobre a condenação da cúpula golpista, mas estou dando o meu parecer, embora não sem antes dar vivas à Carmen Lúcia, essa destemida norte-mineira que honra como poucos a toga que veste. Dona Carmen é diferente, porque ela chegou ao STF sem que tenha feito rapapés nem beija-mãos. Dos onze integrantes da corte, ela é a única que não está e nunca esteve amarrada a compadrios. A única!

Admiro o Flávio Dino, a quem atribuo qualidades de um estadista – atualmente, na minha opinião, o maior nome da nossa República. No entanto, neste momento quero exaltar a mineirinha de Montes Claros, porque foi o voto dela que selou o destino dos golpistas. Segundo os estudiosos, essa é a primeira vez que o Brasil julga e condena conspiradores que atentaram contra a democracia. E já foram vários atentados, pelo menos quinze!

Agora me surgiu uma dúvida: será que os réus vão para a gaiola? Sinceramente, penso que não. No Brasil, cadeia tem sido o destino de pobre e de preto; a grã-finagem, quando condenada, costuma “cumprir pena” em ‘prisão domiciliar’, ou seja, na mansão onde mora.

Todavia, se eu pudesse resolver essa parada, o Bozó e os seus generais não iriam para a cadeia. Sabe por quê? Porque cadeia custa caro. Qual a alternativa então? Ah, muito simples. Todos eles, sem exceção, teriam os provimentos e demais ganhos interrompidos durante o cumprimento da sentença. A pena seria a de prestação de serviços como: limpeza urbana, higienização de banheiros públicos, coleta de lixo nas ruas, pintura de guias e outros "divertimentos" – tudo isso levando-se em conta as habilidades, potencialidades ou “comorbidades” de cada apenado. A jornada deveria ser de quarenta e quatro horas semanais e na escala ‘seis por um’ como todos nós, reles mortais, suportamos e cumprimos. Ah, um benefício: ninguém passaria sede nem fome, porque o poder público se encarregaria de fornecer água e marmitas. E as férias? Nada de férias, porque já bastam os feriados, que são muitos, além dessa enormidade de domingos ao longo do ano. Pra que mais folga?! Nada mais lhes seria oferecido nem cobrado além da pena, que deveria ser cumprida integralmente.  

Voltando ao título desta, a imagem que abre a crônica me faz imaginar a dona Carmen dando uma bronca no seu colega “traíra”, uma descompostura nos conspiradores ou um chega-pra-lá naquele ‘ogro laranja’ estadunidense, que se acha o dono do universo e quer se meter no nosso país. Vi essa foto no site da Folha, gostei tanto dela que a trouxe pra cá. Porque ali está uma mulher aparentemente frágil, mas capaz de fazer chover para garantir a soberania de seu país; e de fazer parar a chuva só pra conduzir o seu povo a pés enxutos à liberdade.

Obrigado, dona Carmen!

FILIPE


domingo, 31 de agosto de 2025

MÁRIO

 


Numa manhã, em viagem de visita a familiares, ao longo de uma maratona recheada de imprevistos e já bastante fadigado, eu me sentei num banco de cimento da rodoviária e comecei a ler enquanto esperava o ônibus. Estando já imerso num conto de Clarice Lispector, um farfalhar desviou minha atenção: absorto em seu labor, um homem varria, varria e ajuntava; varria, varria e ajuntava. Depois pegava o lixo com a pá e despejava num saco plástico.

Era o Mário que se aproximava, trabalhando calado e ligeiro. O corpo esguio lhe conferia agilidade, fazendo lembrar os campeões da Corrida de São Silvestre. No entanto, o homem que varria, embora nunca tenha sido atleta, certamente tem habilidades quase olímpicas, sem as quais não sobreviveria.

Quando ele chegou mais perto, peguei meus trastes e mudei de lugar a fim de lhe facilitar o trabalho, mas não sem antes de lhe dar bom-dia. Foi a primeira vez que o Mário parou de varrer. Agora, apoiando-se no cabo da vassoura, com os olhos fixos no horizonte, ele expressou um misto de preocupação e cansaço. 

“Está tudo bem com o senhor?”, perguntei. “Um pouco cansado de fazer isso”, ele respondeu, já voltando a varrer. E continuou: “Nada para limpo aqui. Com tantas lixeiras por aí e o pessoal faz questão de jogar lixo no chão”. E assim começou um pequeno bate-papo com o homem que, pela imagem, dá para perceber ser ele de vida bastante sofrida.

O Mário é gari há trinta anos. Antes desse emprego, foi funcionário numa usina de açúcar por uns dez anos. Perguntei se já está aposentado. Não está. “Apenas no ano que vem, se tudo der certo”, ele disse pouco confiante. “A saúde não ajuda mais. Até pouco tempo atrás eu estava afastado, estive internado”, reclamou.

Não perguntei que mal lhe aflige a saúde, mas quis saber se mora longe. Ele apontou para uns lados e disse ser logo ali, “subindo aquele morro”. “Mas a sua casa é própria, você não paga aluguel...” “Eu tinha uma casa onde criei meus filhos, mas não pude continuar morando nela. Achei melhor sair.” Ele falou de uns porquês que o fizeram mudar de endereço para ter de pagar aluguel e completou: “Antes a vida era sofrida; agora está mais suave”.

Indiscreto, perguntei se a esposa mora com ele. “Infelizmente a minha mulher faleceu há onze anos. A gente vivia muito bem, eu gostava dela e sinto muita falta. A vida é assim, fazer o quê...”, lamentou.

Ofereci um lanche ao Mário. “Rapaz, até que eu já estou com fome, mas não se preocupe”, disse ele dando uma leve batidinha na barriga. “Vamos à lanchonete”, eu propus. Aceito o convite, ele se apressou em terminar a varrição daquele espaço e me acompanhou. Noutra indiscrição minha, propus que fosse ao banheiro e lavasse as mãos para comer. Obediente, ele foi lá e voltou abanando as mãos ainda molhadas. Perguntei o que queria. “Qualquer coisa...” A moça interveio, dizendo que o almoço estava prontinho: “Hoje tem frango com macarrão, seu Mário!”. Ofereci o almoço. Ele coçou a cabeça pensativo e disse: “Ah, se não for caro pra você, pode ser...”  “O que o senhor quer beber?” “Não precisa, basta a comida”. “Moça, veja o que ele gosta de beber e acrescente.  Vou pagar e preciso subir, porque o ônibus deve estar chegando”.

A moça me passou o valor, paguei e nos despedimos.

O Mário é o trabalhador braçal socialmente invisível e desprezado. Vi no Mário aquele gari recentemente assassinado na capital mineira enquanto trabalhava. O Mário representa todos os garis do mundo. Viva o Mário!

FILIPE


domingo, 17 de agosto de 2025

QUARENTA ANOS DE PADRE

 


Esse é meu irmão José de Anchieta, que completou exatos quarenta anos de presbiterato no último dia quatro. Eu deveria ter escrito algo naquele dia, mas acabei optando por minhas costumeiras desimportâncias. Ademais, esse mano costuma comemorar aniversário por vários dias, chegando a mês de festejos! Então penso estar valendo o escrito aqui.

Da irmandade, talvez eu seja aquele que tenha acompanhado mais de perto a trajetória desse irmão nos tempos de seminário. Isso porque morei por uns tempos em Juiz de Fora e lhe fazia frequentes visitas. Pelo menos de uma coisa me orgulho na exclusividade: fui o único da família que assistiu às três cerimônias de sagração desse clérigo: os Primeiros Votos, na capela do Seminário Santo Antônio; o Diaconato, numa igreja do bairro Santa Cruz, também em Juiz de Fora; e a Ordenação Presbiteral, essa acompanhada por todos os familiares, na igreja matriz de Guiricema – todos esses eventos no estado das Minas Gerais.

Ninguém sabe de um segredo, que talvez continue secreto pelo fato de esse blog ser uma ‘entidade semioculta’ (poucos o acessam). Na cerimônia dos Primeiros Votos do meu irmão, eu fiquei lá atrás da multidão que se aglomerava na pequena capela. Eu não conhecia ninguém ali, embora alguns me identificassem como ‘o irmão do Anchieta’, seja pela pequena semelhança física, seja por que ele já havia me apresentado. Mas eu me sentia aconchegado e até protegido pelo anonimato, e sorvi cada momento daquela celebração, tomado de enlevo e banhado de lágrimas. Ali pude ver meu irmão, enfim, sendo “coroado” após longos anos de estudos e privações. Sobre os estudos apenas ele pode falar, mas das privações acredito que todos nós, irmãos, podemos dar algum testemunho. O fato é que a vida de seminarista do ‘Mano Véio’ não foi nada fácil.

Chorei também na cerimônia de Diaconato, mas chorei menos – seja por que as coisas já estivessem encaminhadas para o próximo degrau, ou talvez por outro motivo. Naquela tarde, eu me lembro bem, eu sentia um mal-estar físico, não era nada emocional, o que dificultou a absorção e contemplação de algo tão belo e tão raro.

Já na cerimônia de Presbiterato eu não chorei, embora tenha ficado muito emocionado por ver meu irmão realizar o grande sonho de infância. Uma vocação que lhe nasceu nos seus primeiros anos e com ele cresceu, floresceu e frutificou. Naquele dia, eu me lembro, eu estava às voltas com questões bastante comezinhas. Infelizmente, são essas humanas preocupações que nos desviam do inefável.  

Após longos quarenta anos, a vida sacerdotal desse mano continua exuberante qual árvore frondosa, que dá sombra, abriga e produz frutos abundantemente.

Parabéns, Padre Anchieta. Muita coisa tenho para escrever sobre sua caminhada desde o dia em que saiu de casa para esse nobre compromisso, mas deixo para outro momento. Quem sabe um dia volto a rememorar aqui...

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