sexta-feira, 1 de novembro de 2013

CARTA A UM PREGADOR



Assistindo à Santa Missa presidida pelo senhor, percebi alguns deslizes em sua homilia. Vou abordá-los sob meu ponto de vista e me abro para suas possíveis considerações.

1º - Teologia da Libertação: Não é verdade o que o senhor disse sobre esse movimento na Igreja. A T.L. surgiu no final dos anos setenta como um necessário tempero à teologia vigente. E como tempero ela sobrevive no seio da Igreja. Ainda: sendo tempero, a T.L. jamais poderia ser a essência, pois não se pode  alimentar-se exclusivamente de sal.

2º - Pobres versus ricos: O senhor disse que o rico se fez pelo trabalho - alguém que batalhou etc. E disse que o pobre é aquele que segue à Igreja, ou algo assim; que todos naquela assembleia eram pobres; que o dinheiro é bom e necessário e ninguém vive sem ele; que há pobres morando em barracos inabitáveis, mas com tevê de última geração e parabólicas; que a Igreja não pode fazer discurso contra a riqueza; que as comunidades primitivas entregaram seus bens aos apóstolos e ficaram na miséria; [...]. Nesse particular o senhor revela um tremendo preconceito contra os pobres e desconhecimento da História da Igreja sobre os Primeiros Cristãos. Quanto aos favelados, o senhor conversou com eles para saber do que vivem, quais são suas prioridades, quantas são as passagens pela polícia, ou há quanto tempo são foragidos da Justiça? Investigou a respeito disso? E se são pessoas sérias, honestas, trabalhadoras, que preferem uma tevê LCD a uma porta de vidro? Elas não podem fazer sua escolha? Essas pessoas, da tevê de última geração e barraco aos pedaços, podem ser dizimistas fiéis ou até catequistas na comunidade. E aí, como ficamos?

3º - Bolsa Família: Esta parte doeu. Entendo que quem critica o programa B.F. é ignorante ou fascista. Como não considero o senhor ignorante nem fascista, fico sem palavras. Só gostaria de dizer que nossa sociedade, hipócrita que só, bate no B.F., pois os miseráveis já podem comprar o seu arroz com feijão para se alimentar, não dependendo mais dos caprichos de escravocratas. Quem é mais velho e conserva alguma memória deve lembrar-se dos tempos de fome no País. Famílias e mais famílias não tinham o que comer, mas graças a Deus isso passou. Saiba o senhor, que ninguém sobrevive exclusivamente do B.F., pois seu valor é pequeno; uma ajuda somente, mas necessária.
                Gostaria que o nosso querido Sr. P. refletisse sobre estas questões podendo, inclusive, debatê-las. Acredito que seja um dedicado missionário, que entrega sua vida à Igreja, e que este seja apenas um infeliz discurso com involuntário viés ideológico. Mas que pode ter comprometido sua homilia, despertando ou estimulando a hostilidade social contra os assistidos pelo Estado através do “Bolsa Família”.

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Entreguei esta carta assinada e com endereço na coleta do Ofertório. Aqui preservo o nome do sacerdote, a quem chamo de P.. Posso estar errado, mas não suporto arroubos nazifascistas, não importando se de ateus ou religiosos. Haverá de minha parte a contrapartida. Sempre. Acrescento, porém, que fui merecidamente ignorado.

FILIPE

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

UM AMIGO PARTIU



  Ele era um homem bom. Assistiu seu pai na velhice e a irmã mais velha na enfermidade.  Quando menino, chegamos a ser companheiros de lida com a lavoura. Numa época em que os pequenos eram sempre desprezados, ele me tratava como adulto, fazendo-me sentir importante e feliz. Hoje, diferentemente daquele tempo, crianças não trabalham, mas também não parecem felizes.

  A minha geração trabalhou duro, seja na plantação, na capina ou na colheita. Por mais penoso que fosse a labuta, com aquele senhor era bom trabalhar, pois não tinha pressa. No milharal, ao final de cada carreira ele parava para acender o cigarro de palha - que sempre trazia no bolso ou no canto da boca -, enquanto descansávamos um pouco. Tinha a voz mansa, pausada, como o mineiro típico daquela região da Zona da Mata.

  Algum proveito, ainda que inconsciente, eu queria tirar da proximidade com aquele homem. Por algum tempo fiquei encantado por uma de suas sobrinhas, o que contribuiu para que eu desistisse de ir para o seminário, onde já estava o irmão mais velho. Mas isso era segredo meu. Ninguém sabia (ou eu pensava que ninguém soubesse) que aquela mocinha “do nariz arrebitado”, conforme muitos diziam, pudesse desviar os passos de um futuro presbítero. Acho que ninguém soube mesmo, nem a sobrinha.

      Mas o romance de menino passou, arrastando consigo a vocação sacerdotal - para melhor sorte do clero e da menina, pois ambos tiveram um problema a menos.

         Nas minhas viagens àquelas bandas, costumava visitar o velho amigo. Porém, devido à pressa ou à preguiça, por algum tempo eu deixara de vê-lo. Da última vez, pareceu-me bem mais velho e cansado, mas conservava seu habitual bom humor traduzido na peculiar gargalhada. Nessa visita, dei-lhe um canivete multiuso. Na verdade, eu não o estava presenteando, visto que eu ganhara dele um isqueiro Vospic. Talvez seja o mesmo, de fabricação alemã, que ele usava na roça de milho para acender seu cigarro de palha no fim da carreira.  Ao pegar o canivete, seus olhos luziam de contentamento. Também fiquei contente, mas temeroso, pois o velhinho manuseava com dificuldade o mimo. Suas mãos trêmulas mal conseguiam abrir a lâmina, e eu tive que lhe acudir naquele momento de “descoberta” para que não se cortasse. Isso me deixou quase arrependido. Mas, após algumas recomendações como: “Cuidado, pois isso já me machucou uma vez. Abra bem devagar!”, aquietei-me deixando-o ao lado da companheira, que também manifestara curiosidade pelo brinquedinho.

        Certa vez, eu estava na cidade numa tarde quente, de mormaço. Estava desanimado para percorrer aqueles seis quilômetros, a pé e sozinho, até minha casa. Para minha alegria, logo saíra de uma vendinha o amigo. Com sua companhia, fiquei animado e começamos a conversar. Logo veio outro, um compadre seu, e a prosa ficou entre os dois. Comecei a sobrar. Pouco depois, eis que surge uma charrete. O charreteiro deu carona para os dois, e eu sobrei de vez. Tive que caminhar tristemente sozinho. Tempos depois, ao falar com o amigo desse episódio, ele se mostrou muito envergonhado e disse que nem se deu conta da minha ausência na charrete.

          A mensagem de meu pai no celular dizia do falecimento. Fiquei triste, muito triste. Três dias antes, fora um tio; agora um amigo. Os dias passam, nós passamos... E a vida segue.

            Tá desculpado, seu Dico, por ter me esquecido na estrada! Obrigado pela amizade e descanse em paz.
FILIPE

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A BOLSA




Menina, ainda muito nova, já estava a exibir um pequeno embornal. Como a mãe e as tias, queria ela andar com sua bolsinha. Não havia nada o que pôr naquela sacolinha de pano feito “bolsa de moça”. Talvez algum lápis de cor, um pequeno caderno e uma bonequinha de louça já seriam suficientes como apetrechos iniciais.

O tempo foi passando e a menininha se fez moça. Agora já tinha sua bolsa de verdade, com fivelas prateadas, alça de couro e elegante fecho-éclair. E já tinha também o que pôr nela. Usavam-se, naquele tempo, leite-de-rosas, ruge, pó-de-arroz e o já tradicional batom. Esta bagagem era necessária e suficiente para atender às urgências das moçoilas de então.

O tempo passou mais um pouco. A “bolsa de mocinha casadoira” cresceu e teria que comportar algo bem menos prosaico do que produtos de maquilagem. Uma caixa de Cibalena, Melhoral Infantil, fraldas de algodão, mamadeira e outras exigências de uma criança de colo passaram a compor a bagagem da jovem senhora.

Passados mais alguns anos, já não havia necessidade de levar consigo apetrechos de nenê. Esta já estava crescida, e ela própria portava sua bolsinha para bugigangas semelhantes àquelas descritas lá em cima: batons, cremes, lápis para as pestanas etc. Mas a “bolsa-mãe” continuava ainda fornida. Tinha lá, além das chaves da casa, os antigos produtos de beleza, um livro de rezas e uma capanga bem recheada de notas e moedas. Também um lenço estava sempre ali, além de alguns comprimidos para pressão ou outros incipientes males da idade.

Outros anos se passaram e a “bolsa-mãe” tornou-se “bolsa-avó”. Já não exibia o recheio dos gloriosos tempos. A antiga capanga já estava desfolhada de suas cédulas, restando-lhe apenas umas moedas. Um batom com a tampa quebrada ainda poderia ser encontrado dentro de um de seus bolsos com o fecho travado na metade. Além destes, havia a chave da casa e só. A bolsa estava bem murcha, como murcham os ânimos e vontades de quem envelhece.

Mais alguns anos se passaram e a bolsa ficara vazia. Como na primeira experiência da menininha de três quartos de século atrás, a bolsa conteria o nada, ou quase. Nela não havia mais a chave, nem o batom... Havia apenas um lenço.

Por fim, já não há mais bolsa. 

FILIPE

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

QUERMESSES ETÍLICAS



Por diversas vezes este jornal publicou textos de opinião lamentando a venda de álcool nas quermesses. São louváveis as razões desse descontentamento; o que não é tão sublime são as razões que levam uma comunidade cristã a atentar contra a saúde de seu povo, vendendo bebidas alcoólicas em suas festas.
Sabe-se que algumas comunidades já não vendem cervejas em suas quermesses. O pároco, auxiliado por uma equipe formada por festeiros igualmente responsáveis, baniu a venda de álcool demonstrando zelo por seu rebanho e coerência com a Palavra proclamada.
Mas na Paróquia de N. S. do Amparo, o coração da Diocese, ainda se comercializa cerveja e chope em seus festejos. A paróquia-mãe, aquela que deveria ser um modelo para as demais dando seu profético exemplo de conduta, insiste com esse vil comércio, como se verificou na recente Festa da Padroeira.
O álcool, bem sabemos, é um verdadeiro flagelo social  e fator de desagregação de inúmeras famílias. Por isso, seu consumo jamais poderia ser estimulado, nem tampouco tolerado em quermesses.
Que o nosso bispo D. Pedro Carlos Cipolini, usando das prerrogativas que sua cátedra lhe confere, não permita mais a paganização de nossas festas religiosas e decrete o definitivo fim do comércio de bebidas alcoólicas no âmbito de nossa diocese. Saiba o bondoso bispo que os recursos advindos desses “ilícitos” não nos farão falta, pois a nossa Padroeira, que a todos ampara e protege, jamais nos abandonará.
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O texto acima está no jornal “A Tribuna” de Amparo em edição de hoje. Esta já é a terceira publicação que faço sobre o assunto. Comecei com “Quermesse com cerveja”, depois “Quermesse sem cerveja” e agora “Quermesse etílica”. Espero não haver necessidade de novo texto, pois meu vocabulário já se esgotou. Também não consigo entender como alguns líderes de nossa igreja podem ser tão incoerentes, tão hipócritas. O Papa Francisco, que esteve recentemente no Brasil, reivindica uma Igreja pobre, para os pobres, totalmente desapegada de bens materiais, como Deus quer.
Nossa paróquia tentou pôr fim à venda de álcool começando pelas festas de maio. As festas de setembro também começaram “abstêmias”. Mas, já no segundo dia, houve chiadeira. Certos indivíduos fizeram tanta pressão, que um  reluzente “caminhão-tanque” estacionou-se na praça, defronte à  porta da catedral. Aquela choperia, tal como um imponente “altar a Dionísio”, fez a festa e a fortuna dos ímpios em nossa quermesse.
FILIPE

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O IRMÃOZINHO QUINQUAGENÁRIO



Sim, o menino, a quem costumo chamar de “Irmãozinho”, já completa seus jubilares cinquenta anos. Este irmão, bem como os outros nove, é especial para mim. Na escala etária da família é o meu vizinho de baixo, pois a irmã mais velha é a vizinha de cima.

O Irmãozinho é digno de ser biografado. Sua trajetória é permeada de fatos pitorescos e heroicos. Da irmandade, foi quem por mais tempo permaneceu na casa dos pais, indo além dos vinte anos. Dele sabemos muitas histórias, umas tristes, outras bem divertidas. Mas, como estamos em festa, prefiro ficar com a parte engraçada.

Conta-se que o Irmãozinho, um mocinho com seus quatorze anos ainda, resolveu providenciar o enxoval para suas futuras núpcias. A noiva, com certeza, estava no seu pensamento, mas ninguém sabia quem era a felizarda; talvez nem a própria soubesse disso. Mas o Irmãozinho sabia das coisas, e, tal como um pássaro galanteador, foi logo tomando providências para atrair a amada.

O seu “Antoinzinho” – um homem baixinho e meio engraçado, que consertava bicicletas usando torquês, arame, chave de fenda e um providencial martelo para dar “firmeza” no serviço – resolveu mudar-se, acho que é para Volta Redonda. E o Irmãozinho decidiu comprar-lhe a mobília. Não sei se chegou a comprar tudo, mas as panelas ficaram na história. Havia também pratos, garfos, colheres e outras preciosidades que foram guardadas em um saco. Eu pensava: “Como é corajoso este irmão! Mais novo do que eu e já providenciando um teto. Se não um teto, ao menos o que pôr embaixo das telhas. E eu?... Como sempre, atrasado.”

O Irmãozinho também apreciava a “boa gastronomia”. Todas as tardes, mas acho que há exagero nisso, passava ele numa vendinha para comprar “um pão e dois doces”. Abria o pão, colocava nele dois doces de leite e o comia sofregamente. A turma mais abonada comia “pão com salame”, que não era salame. Somente mais tarde é que pude aprender que salame é coisa pra grã-fino; o que os “abonados” comiam por ali era mortadela. Havia duas marcas: Delícia e Fluminense. A primeira não era tão boa quanto a segunda; mas para nós, lá em casa, quando tinha mortadela, até a Delícia era deliciosa. Mais feliz era o Irmãozinho, pois descobrira seu pão com doce, que era gostoso e barato. Mas, dois doces?! Resolvi experimentar a iguaria, e, diferentemente do irmãozinho, famoso pelos seus “dois doces”, comprei um doce só. Tive que esfarinhá-lo para fazer render. Gostei.

Dentre as tantas histórias minhas entrelaçadas às do Irmãozinho, quero destacar uma. Eu morava em Juiz de Fora e passava por mil apertos financeiros. Planejava uma fuga e dar um calote no dono da pensão em que morava, pois não tinha como lhe pagar. Mas, na véspera da minha insensata decisão, eis que surge naquelas paragens, sabe Deus como, o Irmãozinho. Metalúrgico, parecendo estar com a carteira bem recheada, já foi logo se prontificando a me ajudar. Meio envergonhado, disse-lhe que tinha algumas pendências, coisa pouca para pagar, mas que não se preocupasse. O Irmãozinho sacou logo um cheque e pagou minha conta na pensão. E ainda deixou-me uns trocados para eventuais necessidades.

Neste sete de setembro, Irmãozinho, estarei em prece por você e pelos que o cercam. Parabéns pelo jubiloso dia e seja bem-vindo ao “Clube dos Cinquenta”!

FILIPE