terça-feira, 8 de dezembro de 2020
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
ESTÓRIAS SOBRE GUARDA-CHUVAS
Entrado em anos, não me lembro de períodos tão longos de seca como acontece atualmente. Quase não chove mais. Antigamente chovia e chovia muito. Tanto é verdade, que naquele tempo quase ninguém saia de casa desprevenido. O guarda-chuva era peça quase obrigatória do vestuário masculino e a sombrinha embelezava as mulheres. Conheci um homem que nunca andava sem o seu guarda-chuva. Ele o encaixava no ombro (não sei como conseguia fazer aquilo) e assim caminhava pelas longas estradas empoeiradas ou barrentas do meu sertão. É... ninguém de “juízo perfeito” saía de manhã para voltar à tarde sem levar consigo o “morcegão”.
Na minha casa havia um único guarda-chuva, que meu pai costumava deixar para nós, porque embaixo dele devia caber uns três moleques, ou mais. E ele se virava protegendo-se da chuva com um ‘saco de aniagem nas costas’ – uma peça conhecida por nós como “saco de mauá” ou “saco de linhagem”, que parece não existir mais.
Certa vez meu pai comprou um guarda-chuva novinho e eu quis levá-lo para a escola. Aconteceu que os colegas de classe também levaram seus “morcegos” e, terminada a aula, cada um pegou o seu e se mandou para casa. Eu já estava longe quando lembrei do meu e voltei para pegá-lo. Sim, ele estava lá me esperando. Só que, quando cheguei em casa, papai ficou bravo comigo: “Este não é o guarda-chuva que comprei semana passada. O meu era novinho e este já está bem usado. Olha a ponta dele...” Olhei e vi que a ponta do guarda-chuva estava desgastada. Talvez o seu antigo dono gostasse de fincá-lo no chão, fazendo dele uma bengala. Mas não tive como reaver o novo e ficamos com aquele velho mesmo.
No dia em que fui receber meu “diploma” do curso primário, estava chovendo. Chegando ao arraial de Vilas Boas, onde haveria a cerimônia de entrega do certificado, eu estava “armado” de um guarda-chuva. Eu ia todo feliz quando veio um “pé de vento” e me rodopiou, fazendo de meu “amigo” uma espécie de paraquedas. O vento quis tomá-lo de mim e eu resisti. Ele puxava para cima, eu puxava para baixo; ele puxava para um lado, eu puxava para o outro. Quando eu ia desistir, porque eu já estava quase subindo aos céus, houve uma pequena explosão e meu guarda-chuva virou do avesso. Não fosse o papai, eu teria me molhado todo e ainda teria que carregar aquela coisa com estranhas entranhas de barbatanas à mostra.
Tem mais. Numa sala de aula, uma aluna nunca me perguntava nada sobre a lição. Mas certa vez ela levantou a mão. “Oba, hoje ela está afim de perguntar”, pensei e parei o que eu estava fazendo para atendê-la. “Pode falar”, eu disse. Ela: “Né nada não, professor... É que meu pai conserta guarda-chuva”. Fiquei sem o que dizer e continuei minha aula. Passado um tempo, eu já nem me lembrava mais do episódio, novamente uma mão se levanta. “Oi, diga!”, acudi depressa. Ela: “Ah, esqueci de falar. Meu pai pega o guarda-chuva na sua casa, conserta e leva de volta pra sua casa também”.
FILIPE
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
PIOLHO
Seu nome é Paulo, todos o
conhecem por Paulinho, e na infância tentaram apelidá-lo de “Piolho”, mas não pegou.
Naquela família de muitos irmãos, com exceção de minha mãe, a primogênita,
todos arrastaram apelido por algum tempo; alguns para sempre.
Irmão caçula de minha mãe, este
tio é muito querido por todos na minha casa. Papai, que não costuma elogiar
familiares, sobre ele não economiza palavras. “Ah, o Paulinho é sério, de fibra.
Nele pode-se confiar, porque é verdadeiro!”
São tantas as minhas histórias vividas
na companhia desse tio, que eu teria que escrever muitas páginas para dar conta
de parte delas. Para o momento, no entanto, quero apontar alguma coisa, pouca,
mas que será suficiente para lhe traçar o perfil.
Quando ele era pequeno (bom, ele
não cresceu muito!), uma de suas irmãs exclamou: “Gente, não é que o Paulinho
sabe fazer conta de juros?!” Naquela época eu não sabia fazer contas e muito
menos o que seria ‘juro’. Mas, a partir daquele dia, eu passei a ver meu tio
com muita admiração, sentia orgulho dele, e sempre pensava: “Ele sabe fazer conta
de juros!”
O tempo passou, crescemos – o tio
não muito – e cada um tomou um rumo na vida. Após o serviço militar, estando
desempregado, fui para Coronel Fabriciano e passei um ano morando com ele, uma
tia e um primo. Naquela época, Paulinho ganhava salário mínimo como vendedor numa
loja, mas do pouco dinheiro que tinha, sempre me oferecia uma parte. Se eu
saísse para algum lugar, ele dizia: “Precisa de dinheiro? Toma esse aqui para o
lanche...” É claro que eu não pegava, porque o coitado não tinha nem para
ele... Mas, se eu não aceitava dinheiro, outra oferta dele eu já não recusava.
Gostava de usar suas camisas, menos uma, que depois conto por quê.
O Paulinho sempre foi um
prodígio. Da família, além das “contas de juros”, ele era o único que sabia jogar
bola. Boleiro obstinado, dizia sobre os jogadores profissionais: “Esses caras ganham
milhões e ainda reclamam... Não concordo com isso, porque eu tô querendo é pagar
pra jogar!”
No baralho ele dá raiva. Marrento,
arruma um jeito lá, que só ele sabe, e trava o jogo da gente. Mas é jogo limpo,
sem roubo. Com ele, você pode deixar as cartas na mesa, sair para onde quiser e
voltar para o jogo. Ele não vai olhar suas cartas, jamais. Mas você dificilmente
o vencerá.
Uma vez, jogamos à noite inteira.
Amanhecendo, ele disse: “Meu olho tá ardendo de sono, mas tenho que trabalhar.
Era manhã de sábado e eu disse, rindo muito: “Ah, é?... Eu vou é dormir agora.
Bom trabalho, tio!”. Mas ele se vingou. Numa noite de sábado, estávamos jogando
até altas horas. Chegou a madrugada e eu quis dormir. Ele: “Lembra daquele dia,
que eu tive que trabalhar com sono e você foi dormir?... Agora é minha vez.
Você vai jogar até a hora que eu quiser. Depois vou dormir e você vai fazer sua
hora extra com sono”. Obedeci. O domingo amanheceu, ele foi dormir e eu fui
trabalhar. Até hoje meus olhos ardem
quando lembro daquele dia.
Ah, tem uma história da camisa,
que eu não queria contar. Foi assim: Vasco e Flamengo jogariam e fizemos uma
aposta, e quem perdesse teria que andar pela cidade com a camisa do adversário.
Aquela foi a única vez na vida que vesti
uma camisa rubro-negra.
FILIPE
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
APELIDOS
Em casa, papai nunca permitiu que colocássemos apelidos uns nos outros. À primeira tentativa, o temido franzido na testa era suficiente para pôr fim na ousadia. Talvez por isso, eu nunca me senti à vontade para chamar alguém por apelido, preferindo sempre o “nome de batismo”. Contudo, não se deve radicalizar, e exceções são bem-vindas. Explico.
Tive uma aluna, a dona Tina, cujo
nome de batismo era Libertina. Nesse caso, vai fazer o quê?... Não se discute e
nem precisa explicar por que ‘Tina’ fica bem melhor que ‘Libertina’.
Numa ocasião, uma senhora me
procurou para conversar sobre a Joana D’Arc, sua filha e minha aluna. “Ela não
quer vir mais para a escola, porque as meninas ficam a chamando de Joana e ela
não gosta do nome...”, reclamou. “Mas esse nome é tão bonito!... Agora, se
fosse Sebastiana...”, tentei consolar. “Mas eu me chamo Sebastiana, professor!”,
ela me disse cheia de rubor e de furor. “Mas esse nome é bonito também”, tentei
consertar e continuei: “Se-bas-ti-a-na!!! Quanta sonoridade! Sabia que meu avô
se chamava Sebastião?!” É, o estrago foi grande e não teve mais jeito. Ela se
foi e sua filha nunca mais apareceu.
Tive um vizinho cujo nome não lembro,
mas que poderia ser Nicanor. Pois bem, certa vez procurei o “Nicanor” para
tratar de alguma coisa. Chegando, pedi seu nome e ele me respondeu: Meu nome é
Nicanor, mas pode me chamar de Chula. Todo mundo aqui me conhece por Chula”.
Achei estranho, mas diante daquela exigência eu não tive alternativa.
Tem também o Paulo, um senhor
muito querido que, por ser forte, másculo e ter um vozeirão, deveria ser chamado
de Paulão. Mas não. Na cidade, ninguém conhece o ‘Paulo’ e muito menos o ‘Paulão’.
Agora, se alguém de fora chegar e perguntar quem é o Bruxa, todo mundo sabe.
A minha obstinação em querer
evitar apelidos já me deixou em situação vexatória. Certa vez, rodando pelas
ruas de Mauá com um tio – que todos conhecem pelo apelido e jamais pelo nome –,
cruzamos com um senhor que voltava para casa com umas ferramentas de pedreiro.
Meu tio parou o carro e gritou: “Ô, Manguaça, esse aqui é meu sobrinho e vai
ser seu vizinho”. O homem parou, simpático, conversou conosco e se despediu. No
dia seguinte, fui até o local onde estava começando a construir minha casa e avistei
o meu futuro vizinho. Fui até ele, agora como “velhos conhecidos”, e me adiantei
nos cumprimentos: “Bom dia, seu Manguaça!” “Manguaça, não. Meu nome é Antônio”.
“Uai, o meu tio falou seu nome errado...” “Aquele seu tio não presta, mas quero
que me chame de Antônio”. “Então, seu Antônio, o senhor me desculpe. É que eu
não sabia mesmo”, consertei.
Encontrando meu tio, falei com sobre
o ocorrido, ele deu risada e falou: “Ele é pinguço, sabia não?...”. Mas o seu Antônio
não era pinguço (pelo menos não mais) e eu não sabia o significado da palavra ‘’manguaça’’,
que descobri sem suavidade.
FILIPE
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
O ABACATEIRO
Da latência de uma semente veio a
plantinha, que cresceu em silêncio e sem pressa. Seu caule, antes frágil, magrinho,
foi espichando e se encorpando, tornando-se um tronco robusto e forte. Seus
galhos foram abrindo devagar e outros galhos foram também surgindo e se entrelaçando,
formando uma frondosa copa. E então há uma vastidão de folhas, que se roçam e
sussurram ao sopro de brisa suave ou de ventos furiosos.
O tempo passando, a árvore cada
vez mais exuberante e... nada de frutos! E eu aqui ansiado por um abacate, que
nunca vem. Na última primavera, um cacho
de flores pôde ser observado, depois outro e mais outro. Esperei que das flores
viessem o fruto, mas não foi daquela vez.
Abacateiro, além da tua sombra,
quero teus frutos. Mas se tu não me deres frutos, nada te acontecerá. Machado
algum te ferirá a carne. Permaneça onde estás e fica na paz. Abriga na tua
folhagem a maritaca, o bem-te-vi, o sanhaço e a garrinchinha; abriga também o
tico-tico, a coleirinha, o canário-da-terra e a sabiá. Prometo-te que, enquanto
eu estiver por aqui, tens como presente um futuro bastante seguro. Acredita em
mim e me deseja vida longa, porque tu só tens a ganhar com minha longevidade.
Mas nesta primavera o meu abacateiro
floriu. São milhares de flores. Em cada galho um ramalhete com dezenas delas; e
em cada ramalhete uma miríade de abelhinhas sugando o néctar.
Caro abacateiro, pensando bem, tu
nem precisas dar frutos. Dá-me tua sombra e isso me basta; às abelhas, dá tuas
flores. E assim, não te faço mais cobranças. Tu talvez não saibas, mas há uma
família de abacateiros a poucos metros de ti. Lá em cima, um gigante deu vinte
frutos na última safra. Desta vez, contudo, a florada promete uma centena. Há por
aqui uns parentes teus – ainda pequerruchos,
uns “moleques” – que vão demorar algum tempo para adolescer, florescer e frutificar.
E então, eu tenho um pé de
abacate e dele me orgulho muito. Fico feliz por possuir essa fortuna. Da minha
mesa de trabalho, observo absorto a movimentação: um passarinho chega e outro
também; um sai e o outro vai atrás enquanto dois outros chegam: bicam uma
folha, mudam de galho, cantarolam e desaparecem. Depois outro vem e vai também.
Ah, como eu gostaria de que em
toda casa houvesse ao menos uma árvore, e essa árvore nem precisaria ser um
abacateiro.
FILIPE
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
POR QUÊ?
Eu assisto a jornais, mas não deveria. A cada notícia, um arrepio de tristeza, indignação ou não sei o quê, apossa-se de mim, e corpo e espírito são aterrados. Então eu deveria me alienar de tudo, ir morar no mato, mas o mato está ficando perigoso também. As matas estão sendo incendiadas.
É fogo na Amazônia, no Pantanal, no
Cerrado e na Caatinga. E tem o fogo das armas de fogo também. Mãos assassinas
de grileiros, garimpeiros, madeireiros, milicianos. E as milícias são custeadas
pelo Estado com altos salários para que nos oprimam mais eficazmente.
Nosso país nunca foi tão
pisoteado por um governante, mas o povo, manso rebanho, está sempre se curvando
àquela “coisa inominável”. A cada investida contra opositores, sobretudo
jornalistas, a popularidade do “tranca-rua” sobe consideravelmente.
Alguém, qualquer um, que se
recusa a usar focinheira e cospe “corona” no rosto das pessoas, deveria ser
repudiado. Eu escrevi ‘focinheira’? Ah, não. Eu queria escrever ‘máscara’, pois
o sujeito em questão é um desmascarado. Por isso é impossível acreditar no que
vejo todos os dias. Gente humilde, trabalhadora e honesta, acreditando que o
“bozo” trabalha pelo Brasil. A ingenuidade dessas pessoas é tão grande, que
chega a escorrer pelas têmporas feito suor.
Aquele homem chegou ao Poder para
subverter a ordem e impor o caos. Quanto mais caos, maior a sua popularidade,
e é exatamente isso que me deixa perplexo. Ele atenta contra a ciência, a arte
e o ensino. E com sanha maligna, facilita o acesso a armas e munições, levando
a população à uma paranoia bélica como nunca visto. Com essa “coisa”, leis são
flexibilizadas ou anuladas via decreto sem que os outros poderes intervenham. E, pior, sem que o Ministério Público
denuncie o malfeitor.
Mandados de buscas e apreensões
são rotineiramente expedidos, mas contra desafetos do Planalto. Contra os
‘’bozos’’ das rachadinhas e rachadões, nada! Esses são intocáveis. Contra eles
não há ação de policiais federais, de promotores e muito menos de juízes. Espero que militares honrados, não milicos,
percebam que no chefe não se confia, e se mexam.
Diariamente, com essa pandemia
ainda se contam mortes às centenas, e os contaminados são muitos milhares. Mas
outra pandemia já nos acomete: o desemprego e a carestia. O Brasil do
agronegócio, que dizem ser o celeiro do mundo, não garante arroz e feijão na
panela do povo a preço justo, e grande contingente de pessoas está desempregada,
sobrevivendo com auxílio emergencial.
Ano que vem tudo muda e penso que
deve haver efervescência social. Mas antes da fervura que se avizinha, fica uma
pergunta: por que pessoas boas podem gostar de gente tão má?...
FILIPE
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
AS IMPRESSÕES DO GODOY
“Nas minhas andanças pelo interior de São Paulo, correndo atrás de
contratos para poder lecionar, acabei indo para a cidade de Amparo. Na escola
em que fui trabalhar, conheci muitas pessoas que, em sua maioria, trataram bem 'o rapaz de Minas'. Pois bem, vou falar um pouco sobre um professor de
Matemática – homem sábio, que usava roupas simples e já meio “surradas”, um
chapéu na cabeça e o jornal enrolado nas mãos – e era justamente o jornal que
lia nas horas vagas a grande fonte de inspiração para as sábias reflexões
proferidas durante os diálogos nos intervalos.
Para trabalhar, eu me deslocava diariamente, de segunda a sexta, entre
as cidades de Monte Sião (MG) e Amparo (SP), fato que chamou a atenção do professor.
Dessa forma, especialmente às sextas-feiras, íamos nós caminhando após a
exaustiva e turbulenta semana de trabalho (situação bem conhecida de quem
atualmente está em sala de aula no Brasil), rumo aos nossos respectivos
destinos: eu à rodoviária e o professor para sua casa, sendo que, não raras
vezes, eu passava em sua residência para tomar um café com sua família. O
caminho proporcionou a construção de uma grande amizade, amizade fundamentada
na lealdade e na oração. Foram muitas as vezes que, ao passarmos diante da Igreja
de Nossa Senhora do Rosário, fazíamos a oração do Ângelus, na qual rezávamos as
Três Ave-Marias e, no final, uma pequena oração pedindo descanso aos mortos.
Esse amigo nos presenteava a cada quinze dias com uma reflexão no seu
Blog. Os assuntos eram variados: desde histórias de seus conterrâneos em Minas
até críticas construtivas a respeito das atividades pastorais realizadas pela
Igreja (pois sempre foi um bom católico), passando obviamente pelos textos
políticos. O amigo, talvez não compreendido pela maioria das pessoas, é repleto
de ideais e não de interesses particulares.
Algumas pessoas conseguem nos humanizar, fazendo-nos enxergar o mundo e
os semelhantes com um olhar fraterno e generoso – não apenas com suas palavras,
mas principalmente com suas ações.
Obrigado, professor.”
O texto acima foi publicado num ‘blog literário’ por Renato
Pires de Godoy, uma das pessoas mais formidáveis que já conheci e de quem tenho
o privilégio de ser amigo.
FILIPE








