sábado, 20 de janeiro de 2024

O COZINHEIRO PORCO

 


Confesso que me esforcei, mas acho que não consegui fazer direito. A minha cozinha estava toda enfumaçada, com picumãs descendo sobre minha cabeça e as paredes bem encardidas. Depois de tanto procrastinar, meti a mão na tinta e dei uma boa caprichada. Mas o fogão continua fumê, esperando por um tio que prometeu usar até uma cavadeira para, segundo ele, remover a crosta de carvão. Maldade dele, porque o meu fogão não é mais fumarento e nem está tão sujo assim.

O meu objetivo aqui nem seria falar do fogão, que está feliz desse jeito meio sujão, mas o assunto seria as paredes, que foram pintadas após anos me implorando por um banho de tinta branca. Sobre o fogão, acho melhor deixá-lo assim mesmo, porque descobri que ‘cozinheiro bom é cozinheiro porco’ e, dessa forma, a cozinha pode ficar ‘mais ou menos, que já tá bom demais.

Você que me lê observe uma coisa. Se um dia for comer na casa de um amigo ou num restaurante e achar a comida deliciosa, é melhor não bisbilhotar a cozinha, porque, com raríssimas exceções, o cozinheiro é um porcão. Há um ditado com alguma lógica, mas pra lá de preconceituoso, que diz: “Quer boa comida, siga os gordos!”. Se é verdade que apenas os gordinhos conhecem o caminho da ‘boa mesa’, não posso afirmar, mas posso afiançar que alguns “porquinhos” são bons quituteiros – o que não exclui a hipótese de que haja “porcões” fazendo comidas horríveis por aí.

Contudo, a recíproca para essa minha tese não é verdadeira. Se “porquinhos” fazem comida boa, não significa que toda comida boa seja exclusividade de “porquinhos”. Pois sabemos por experiência e vivência que há muita gente limpinha, sobretudo mulheres, fazendo comida maravilhosa por aqui, por aí, por lá e acolá.

Quando falo de ‘cozinheiro porco’, eu me refiro apenas e tão somente à lida dele com pratos e panelas e também da falta de zelo com os ingredientes que está usando. Nem ouso falar daqueles que deixam a cozinha para ir ao banheiro e voltam de lá com as “mãos sequinhas”, se é que me entendem.

O ‘cozinheiro porco’ costuma usar muitos panos de prato, que pega limpinhos na gaveta, e os deixa espalhados pelas pias e mesas. Volta e meia ele pega um e põe no ombro e este faz “milagres” na sua mão. Com esse pano ele pega panelas quentes, enxuga conchas e escumadeiras, passa sobre a barra do fogão e, de vez em quando, remove o suor da testa.

A cozinha, todo sabemos, é a arena do cozinheiro, e ali ele é um gladiador bem nutrido e bem armado, que, com boas facas, resolve qualquer parada, desde a desossa de um pernil até a expulsão de um intruso.

E, assim, encerro a crônica que teria como mote a pintura da minha cozinha, mas me ative ao fogão e seu cozinheiro, que talvez seja eu mesmo.

FILIPE


sábado, 6 de janeiro de 2024

MUÇURANA

 


Numa tarde úmida e quente eu andava com meus cães pela redondeza quando, a certa altura, avistei uma pequena criatura atravessando a rua apressadamente. Era uma cobrinha que, abrasada pelo asfalto fumegante, buscava asilo junto ao matagal que margeia a rua. Os cães, curiosamente, não despertaram interesse por aquele réptil, mas eu, sim, e fiz a foto que abre esta crônica. 

Ao retornar do passeio, pesquisei na internet e descobri que aquela “menina” é a ‘muçurana’ – uma cobra do bem que, além de não ser peçonhenta, devora todas as suas “primas”, venenosas ou não, exceto a temível coral-verdadeira. 

O dia seguinte começou com um mormaço. Eu já havia encerrado o chimarrão, terminado as leituras e preces matinais e retomava meu trabalho com sucatas de madeira – mania que adquiri nesta minha incipiente velhice. 

Nota: A descrição a seguir não se recomenda a almas mais sensíveis, porque há nela cenas de desmedida violência. 

E naquela manhã plácida e morna, enquanto eu media, riscava e cortava pedaços de tábua, uma cobra passava a poucos palmos de meus pés. Ela deslizava lentamente sobre o gramado, depois alcançou uma área de ladrilho e seguia seu curso. Olhei do lado, procurando um pau para matá-la, mas não encontrei nada adequado. Como ela parecia bastante tranquila, pude me afastar dali para procurar uma “arma” mais eficaz e achei um rodo velho, que me foi de boa serventia. Quebrei aquele rodo, deixando uma parte para servir de gancho e fui à luta com o bicho. 

Aproximei-me sorrateiro e dei uma pancada, acertando-a de raspão, fazendo com que ela se apressasse. Bati outra vez, e desta vez rompi seu abdome, mas ela não desistiu da fuga, arrastando as vísceras em seu trajeto sinuoso. Eu não tinha alternativa porque aquela era uma cobra-coral e possivelmente peçonhenta. A experiência me ensinou que, mesmo confiando no meu Anjo da Guarda, devo ser bastante cauteloso com as serpentes. A prova disso é meu pai, ele um homem de muitas rezas, que certa vez teve de ir ao hospital por ter sido “ofendido” por uma jararaca. 

Como apenas especialistas são capazes de distinguir uma falsa-coral de uma coral-verdadeira, eu,  não sendo especialista em nada, teria que dar cabo daquela desinfeliz. E assim, bato daqui, ela foge para ali; puxo pra cá, ela foge pra lá e, de bordoada em bordoada, continuei a luta. Mas a poucos centímetros à frente dessa arena, há uma casinha com um motor e foi ali que ela entrou e se enroscou. Abri a portinhola e vi uma pequena parte de seu corpo embaixo do motor. Dei uma cutucada e ela se movimentou, levantando a cabeça a uns bons centímetros do solo. Agora ficou fácil pra mim. Com o gancho do que restara do rodo, consegui puxá-la para um lugar seguro e dei fim à sua agonia. 

Confesso minha tristeza por tudo aquilo que fiz. Sempre que posso, evito matar bichinhos. Até as moscas, que tanto me perturbam, tento afugentar pacificamente, e só uso a raquete elétrica quando sou desafiado. Mas com as corais não se brinca porque elas são perigosíssimas e têm poucos predadores, talvez apenas o gambá e a seriema. Como os gambás são implacavelmente mortos por gente ignorante e as seriemas costumam virar guisado por caçadores inescrupulosos, as cobras-corais estão aumentando. 

Numa noite dessas, depois da triste saga da coral, encontrei uma sua ‘parenta’ (talvez muçurana) à porta da cozinha. Agora deu muito certo para essa, que escapou do ‘cabo do rodo’ assim que notou a minha presença. Deu certo para mim também, que, embora preocupado, fui dormir feliz. 

FILIPE


sábado, 23 de dezembro de 2023

SIMEÃO

 


Esse é o meu tio Simeão, mais conhecido por Soadão – um apelido pra lá de esquisito, eu sei, mas ele é gente boa pra caramba.

Então, hoje o tio Simeão faz 71 anos. Idade já bem avançada, mas ocultada pelo vigor físico e a alma sapeca de quem nos faz rir até mesmo de suas trombadas com a vida.

Certa vez, isso aconteceu há muitos e muitos anos, mamãe estando na casa dos pais e já cansada de me sustentar em suas entranhas, resolveu me despachar para a vida. E quando ela me deu à luz, o meu tio Simeão estava todo pimpão, porque naquele dia ele completava nove aninhos. E a partir de então eu passei a ser uma espécie de afilhado desse tio. Tanto é que, sempre que podia, ele me dava presentes no nosso aniversário.

Interessante é que, se antes essa diferença de nove anos era uma enormidade, hoje ela nos é insignificante. Talvez essa pudesse ser a prova mais convincente da relatividade do tempo, que ficaria sempre parado enquanto nós vamos passando por ele. 

Naquele tempo, por vezes o tio me pegava em casa e me levava pra casa dele ainda na véspera do aniversário, e o tão aguardado 23 de dezembro já amanhecia festivo. O almoço, para dezenas de pessoas, começava a ser preparado desde bem cedinho por minha avó e minhas tias e seria servido no começo da tarde, estendendo-se até quase o anoitecer. Comida simples, mas saborosa e farta, não faltando arroz, tutu acebolado, macarronada e carne de porco ou frango. À noitinha eram servidos os doces, invariavelmente arroz doce, doce de leite em pedaços, pé de moleque, doce de mamão em bolotas, mingau de milho verde etc.

Esses festejos começaram quando o tio Simeão ficou maiorzinho, podendo trabalhar fora e ganhar algum dinheiro. Pelas minhas lembranças, a nossa primeira festinha foi quando eu fiz seis ou sete anos, sendo ele ainda um rapagote. E assim, o mês de dezembro passou a marcar ‘dois grande eventos’ para mim:  início das férias escolares e a “minha” festa de aniversário.

A nossa última festinha foi quando meu tio fez ‘vinte e um’ e eu ‘doze’. Era uma manhã sorridente, de sol forte e calor intenso, como foi hoje. Eu estava na casa dos avós maternos e aconteciam os preparativos para o almoço, que seria um pequeno banquete como sempre foi nessa data. Havia já bastante gente e ainda mais pessoas estariam por chegar. De repente minha tia Gracinha chega, interrompe tudo, e diz quase sem fôlego: “Gente, o Sebastião Lopes Morreu!” Padrinho do tio Simeão, o vovô Sebastião partiu no dia do nosso aniversário, levando consigo a alegria de uma festa que não chegou a acontecer e que nunca mais se repetiria.

Sou muito grato a esse tio por tudo que ele fez para alegrar minha infância. Enquanto na minha casa ninguém podia fazer festa devido às nossas dificuldades financeiras (pobreza mesmo), o meu aniversário era ansiosamente esperado por todos e ricamente festejado pelo tio, com quem nos jubilávamos.

Cinquenta anos nos separam da nossa última festinha, e esse tempo passou rápido. Só não passou o meu carinho pelo tio Simeão, a quem sou eternamente grato e lhe desejo uma vida longa e feliz.

FILIPE


sábado, 16 de dezembro de 2023

ZÉ ELIAS


 

Esse aí é o José Elias, também conhecido por Zé Elias ou simplesmente Elias. No entanto, costumo chamá-lo de Zé, mesmo – uma maneira mais simpática de nomeá-lo.

Então, esse amigo está fazendo ‘sessenta anos’ hoje, neste 16 de dezembro. Mentira. Não sei a idade do Zé e esqueci o dia de seu aniversário. Sei que ele tem duas datas, mas não me lembro de nenhuma para comemorar. Por via das dúvidas, decidi que o meu amigo faz ‘sessenta anos hoje’. Tem que ser sessenta, porque que ele é uns dois anos mais novo do que eu.

Então, parabéns, Zé! Talvez você nem saiba que hoje é seu aniversário e menos ainda que está virando ‘sessentão’.

Conheci o Zé Elias há mais de quarenta anos, quando fazíamos o primeiro ano do antigo ‘segundo grau’ em Juiz de fora. O ano era 1981. Na ocasião, eu estava no exército, como soldado-recruta, e o meu amigo ainda era pouco mais do que um garoto. Naquela classe formamos um pequeno grupo de estudos com meia dúzia de colegas, dos quais tenho contato com apenas dois (de nome ‘Zé’). Os demais... nunca mais.

Há pessoas que se gabam de ter dezenas, centenas de amigos. Roberto Carlos era mais ambicioso: queria ter “um milhão de amigos”. No meu caso, a coisa é mais modesta. Os meus amigos podem ser enumerados usando-se apenas uma das mãos; com algum esforço, posso usar a outra mão, mas vai sobrar dedo.

O Zé Elias está nessa primeira contagem e eu poderia apontar inúmeros cruzamentos dos nossos caminhos. No entanto, vou me ater à descrição de apenas uma passagem, que já ilustra com boas tintas a nossa amizade.

Naquele longínquo início dos anos oitenta, o meu salário mal dava para pagar um quarto de pensão que eu dividia com uma figura excêntrica, que se dizia poeta. A pensão, que ficava num prédio antigo e descuidado no centro de Juiz de Fora, pertencia à dona Sebastiana. Ali moravam essa senhora, sua filhinha e uma dezena de rapazes que exerciam atividades das mais variadas: pedreiros, taxistas, camelôs, além do poeta e deste escriba.

Certa vez, já era noite, a campainha tocou. A dona Sebastiana atendeu e me chamou: “Tem um moço querendo falar com você.”  “Ô, dona Sebastiana, esse é o Zé Elias, meu amigo. Entra, Zé. Vou jantar daqui a pouco. Você não quer jantar comigo?” “Não obrigado. Eu só vim aqui um pouquinho e já estou de saída”.

Arrastei meu amigo para a cozinha, torcendo para que ele não aceitasse o convite para jantar, porque, pelas regras, eu não podia oferecer comida dos hóspedes a amigos. Você, que me lê, sabe disso, mas a polidez é uma senhora autoritária e costuma nos obrigar a certas coisas, né?...

Na televisão anunciava-se, para depois da novela, “Morte e Vida Severina”, que eu queria muito assistir. Então pensei: O Zé vai embora, eu pego meu rango e depois assisto a esse musical. Mas que nada... Quando o amigo viu a comida no fogão, mudou de semblante. “Aqui, eu preciso muito trocar uma ideia com você. Vamos descer, depois você volta pra sua janta!”

Desci com o amigo, mas ele parecia não ter nada tão especial pra falar. Saímos do prédio, atravessamos a praça, entramos numa rua, depois noutra e noutra e chegamos a uma lanchonete de nome ‘Elefantinho’. Ali o Zé já pediu algo pra beber e comida. Veio um senhor lanche, que devorei com a voracidade de um andarilho.  

Depois, bem depois (porque sou lento nas ideias), descobri o porquê daquilo tudo. Eu já estava acostumado a comer aquele arroz quebradinho (totó) com miúdos, geralmente cabeça de frango, que a dona Sebastiana fazia com abundância para atender a si e a nós, seus hóspedes. Com ela não havia miséria. A comida era farta e até gostosa porque bem temperada. O que me incomodava era uma coisa: a cabeça do frango costumava chegar ao meu prato ainda com ‘os olhos’. Mas não com bico porque, justiça seja feita, a dona Sebastiana tinha lá os seus asseios.  

Foi assim que descobri por que o meu amigo não quis experimentar a minha janta, resolvendo me levar para lanchar. E a partir de então, foram recorrentes as nossas idas à lanchonete nos fins de semana. No entanto, embora isso muito me agradasse, preocupava-me o fato de eu nunca poder pagar ao menos a minha parte, e o amigo não era assim tão abastado.

Dias atrás, enquanto pensava nesse passado, resolvi rascunhar esta crônica. Enquanto digitava, recebi notificação em uma rede social. Do outro lado estava ele, o Zé Elias. Fiquei abobalhado, porque há tempos a gente não se fala ao telefone nem trocamos mensagens. E o Zé estava curioso, querendo saber como estou, onde estou e disse que quer me visitar.  

É, a vida é permeada de mistérios. Como a amizade!

FILIPE

domingo, 3 de dezembro de 2023

A GALINHA GRÁVIDA

 


Essa menina é muito linda, não é mesmo?... Pois é, dias atrás eu tive a alegria de cuidar dela e de suas colegas – uma dezena de “donzelas solteironas” e de ‘de bem com a vida’. ‘Solteiras’ não por opção ou convicção, mas por imposição. Naquele quintal não há ‘varão’ e elas se contentam apenas com o canto apaixonado de um ‘vizinho seresteiro’.

Ah, o galo... Preciso falar desse “rapaz” também. Fico impressionado com esse sujeito e acho que o raro leitor já deve ter observado como ele é carinhoso com suas amadas. ‘Suas’, porque ele exige uma boa turminha de “esposas”.  O carinho com que um galo trata seu harém é impressionante. Não é à toa que o verbo ‘galantear’ venha de ‘galante’, que se origina de ‘galo’. Então, se um homem quer ser galante de verdade, é preciso aprender com o “galã”.

À galinha que abre esta crônica darei o nome de Pretinha. As galinhas, além de anônimas, são minimalistas. Elas precisam apenas de um pouco de ração ou milho, algumas folhas como salada, água e só. No mais, elas passam o dia curtindo sua curta vida, ciscando e trocando confidências com suas comadres, talvez falando sobre o ovo que mais tarde irão botar e torcendo para que este não seja tão grande.

Então, a Pretinha me chamou a atenção por um detalhe. Enquanto suas colegas estavam perambulando e cantarolando, esta minha amiga não saía do ninho. Na verdade, ela estava em “estado interessante”, isto é, grávida. Quando cheguei para colher os ovos, tive que revirá-la, enfiando as mãos sob sua penugem quente e fofa. Incomodada, a Pretinha reagiu com umas bicadas tão suaves que pareciam carinho. Que dó!

Uma galinha, quando grávida, fica nervosa, não aceita comida, não quer papo e afasta quem quer que se aproxime com resmungos e beliscões.  Quem lê isso aqui e já teve galinhas entende dessas coisas. Tanto é que antigamente, “galinha choca” era apelido de gente chata e reclamona, pelo menos lá pelas bandas em que nasci e cresci.

Uma galinha choca para de pôr ovos, emagrece e dá prejuízo ao dono. E para curar o choco de suas galinhas, os caboclos da minha terra usavam métodos bastante desumanos, submetendo o animalzinho a cruéis sessões de tortura. Aqui descrevo algumas maneiras usadas para curá-las.

De início, a galinha era arrancada do ninho, tendo suas asas amarradas uma à outra, o que a impedia de andar e a deixava prostrada. Passados dois ou três dias, caso ainda não estivesse curada, ela seria trancada embaixo de um balaio e ali permaneceria por mais dois ou três dias. Não surtindo o efeito esperado, a coisa ficaria mais séria. O balaio seria levado ao brejo e a galinha, além de trancada, teria de ficar sobre uma poça d’água até que fosse atestada a sua “cura”. Penso que isso seja coisa do passado e que as galinhas de hoje não sofram mais tais atrocidades.

Porque triste é o destino dos animaizinhos, domésticos ou silvestres. O ser humano deveria repensar seu papel na natureza e preservá-la, cuidando melhor de cada vivente.  

Vida longa às galinhas, particularmente a Pretinha, e juízo aos homens – os donos do mundo.

FILIPE


segunda-feira, 20 de novembro de 2023

SERIAM NOVENTA E TRÊS ANOS

 



“Maria, Maria... Vem cá!” 

Enquanto eu preparava o chimarrão e pensava em como começar este texto, mamãe me interrompeu. Cedo ainda, quatro e meia da manhã, voltei ao quarto. Ela insistiu: “Maria... Cadê?...” Eu disse que a Maria vinha mais tarde e que só eu estava ali. Então ela pediu ‘água e comprimido’. “Dois comprimidos!”, ordenou. 

Ontem à noitinha passei um bom tempo ao lado dela, ouvindo suas histórias. Poucos de seus filhos conseguem decifrar aquelas frases. Eu tenho me esforçado bastante e acho que quase consigo. Naquele bate-papo, mamãe me falava “dele”. Dizia que ele estava sumido. Que “agorinha mesmo estava aqui, mas saiu e não sei pra onde foi”. Perguntei quem é. “Marido!”, respondeu de imediato. Eu completei, dizendo que ele deve ter ido a Corgo Preto, porque tem muito serviço pra fazer lá. Ela assentiu desconfiada. 

Desde que papai partiu, mamãe veio para o centro do “palco”. Até parece ter sido essa a intenção dele. Aqui, na nossa família, penso que as atenções se voltavam mais para o pai do que para a mãe – pelo menos de minha parte foi assim e preciso me redimir desse “pecado”. Porém, saindo de cena o Velho, mamãe ganhou um protagonismo que nunca tivera. Digo isso porque, em todas as rodas de conversa, mamãe estava sempre um pouco ao lado. Eu até consigo revê-la, apoiada no batente da porta, tentando participar da prosa até que, um tempo depois e bastante desanimada, recolhia-se ao seu quarto para retomar as intermináveis ‘costuras de mão’. No entanto, muitas vezes, eu me lembro disso também, meu pai, percebendo a situação, dava um salto do sofá onde estava recostado e corria para o quarto a fim de fazer companhia à sua ‘Neguinha’. 

Ninguém mais do que o papai compreendia o universo da mamãe. E por ser tão zeloso de sua Velhinha, seus últimos tempos ao lado dela foram bastante aflitivos. Mamãe estava cada vez mais debilitada e papai tinha pouca esperança da recuperação dela. Foi minha mãe baixar hospital que meu pai quedou-se também, e daquela vez foi tudo de imensa gravidade. Eu, estando aqui para uma visita de rotina, assinei a ficha de internamento dos dois. A impressão era de que papai ficasse poucos dias internado, mas a mamãe não voltaria pra casa. No entanto, mamãe voltou e papai “decidiu ficar”. 

Numa conversa com irmãos, concluímos que talvez papai tivesse esperado um pouco mais para fazer a ‘passagem’ caso alcançasse o estágio de plena lucidez de que mamãe desfruta neste momento. Ela está interagindo conosco como outrora, em seus melhores dias. 

Na longa conversa de ontem, mamãe falava do seu “Cabeça Branca”, que hoje faria aniversário. Ah, era assim que ela se referia a ele em momentos de descontração num passado já meio distante. Essa forma, um pouco jocosa e muito carinhosa, era motivo de riso na família e costumava arrancar algumas gargalhadas do Velho. 

Nosso Velhinho não era festeiro, mas com a melhora das finanças, as tardes de seu aniversário passaram a ser festivas. Ele sempre oferecia bolo de abacaxi e refrigerante para quem aparecesse.  

Desta vez, decidi passar o ‘vinte de novembro’ na casa do papai, ao lado da mamãe. Se na tarde de hoje não vai ter bolo nem refrigerante, também não haverá tristeza, porque o aniversariante não permitiria. 

FILIPE


domingo, 5 de novembro de 2023

A CAPTURA

 


A imagem é soberba e sobre ela nada precisaria ser dito ou escrito. No entanto, tentarei tecer algumas linhas – não com o rigor daquelas tecidas pela amiga aí da foto, é claro. 

Tudo isso me fez lembrar Gilberto Gil e seu belíssimo poema intitulado “Oriente”, no qual ele diz que a “aranha vive do que tece”. Da Elis Regina, outro ícone da MPB e em singular interpretação dessa música, ouve-se que a “aranha duvido que tece”. Não sei o que moveu a Elis, mas para mim essa é mais uma prova de sua genialidade. Provavelmente ela tenha ouvido a música uma única vez e já foi para o estúdio gravá-la. Para alguém que não fosse a Pimentinha, mesmo que ensaiasse por vários dias, jamais brilharia.  

Ah, aranhas... Ainda há quem as repila, mas aprendi admirar essas tecelãs silenciosas. Seu trabalho é noturno e engenhoso, e a matéria-prima de seu engenho é uma tênue fibra que brota de seu abdome pela qual, numa espécie de bungee jump, a artesã gangorreia enquanto tece. 

As aranhas sempre me fazem lembrar um camelô que arma sua barraca num ponto privilegiado da cidade. Ali, pacientemente é esperado o “cliente”, que não tarda a aparecer. E neste momento, estou a apenas três metros da “minha aranha”. Como sua tenda fica discretamente num canto da varanda, firmamos um “pacto de paz e de não agressão”. 

Todas as manhãs, contudo, eu a observo furtivamente e noto que sua casa está bem arrumadinha. Caprichosa, durante a noite ela faz faxina e retoca a teia, deixando a sua rede refeita e limpa. Assim ela pode esperar sossegadamente pelo almoço e o jantar, que costumam vir com fartura. 

As aranhas tecelãs têm outras utilidades além de reduzir o número de insetos indesejados e inspirar ‘cronistas marginais’.  Até os beija-flores precisam delas, porque essa teia é a argamassa para se fazerem ninhos seguros e resistentes. Já vi colibri visitando a ‘dona aranha’ e arrancando parte de sua ‘barraca’ sem que ela pudesse defender seu patrimônio. 

Pior sorte teve a tanajura cuja imagem abre esta crônica. Não sei o que aconteceu ali, mas é fato que o aracnídeo, por ser “exigente à mesa”, não faz de toda presa uma refeição. Ontem mesmo encontrei uma pequena barata ferida e decidi doá-la à minha amiga. Com um papel, apanhei a moribunda e a lancei contra a teia, que a reteve. A ‘dona do barraco’ despertou de seu sono, que parecia profundo, e se aproximou desconfiada do provável petisco. Com as patas dianteiras, que ficam a “quilômetros” da boca, ela começou a examinar cuidadosamente cada detalhe da agônica baratinha, que esperneava aterrorizada diante de sua algoz. Saí de perto, deixando-as em paz (ou em guerra) e fui cuidar de meus afazeres. Quando voltei, não havia mais barata na teia e a aranha já estava recolhida aos seus aposentos. Não sei se houve acordo entre elas, mas também não acredito que a aranha tenha sido indulgente com sua “visita”. 

Se a tanajura ou a barata escaparam, acho difícil. O certo é que neste momento a aranha parece feliz e realizada, descansando em seu casulo. Até que reapareça o intruso beija-flor! 

FILIPE