sexta-feira, 25 de outubro de 2019

CADÊ A ENXADA?


Bom, não sei se isso é um título que se preze, mas a crônica que se segue também não deverá ser prezada por alguém. E nem por isso o título deixa de ter razão para estar lá em cima.

Visito com relativa frequência uma casa de idosos. Ao me aproximar de cada um, começava sempre com platitudes do tipo: “tá frio”, “tá calor”, “será que vai chover?” “cadê a chuva?” etc. Então decidi inovar, sobretudo com os homens, cuja maioria tem aspecto de gente da roça. Mudei a forma de abordagem para “Cadê a enxada?...”

Até que estava dando certo. O seu Antônio respondeu: “Ih, rapaz, eu não trabalhei na roça, mas meu serviço era ainda mais pesado. Trabalhei numa olaria por mais de trinta anos”.

Trabalhar em olaria, fazer tijolos... Isso não é pra qualquer um. Quando jovem, trabalhei por um ou dois dias na olaria de um tio, e até hoje estou cansado. Aquele tio consumiu a vida nesse árduo trabalho, e se cozinhou juntos às inúmeras caieiras de tijolos por ele queimadas. O fogo era aceso à noite e ele varava madrugadas pondo lenha e calafetando com barro as paredes para que o calor ficasse retido. De muito longe, na mais espessa escuridão, podia-se ver aquele brasido, que era um colosso de tijolos incandescentes. E o hálito ardente daquela fornalha impedia que curiosos se aproximassem impunemente.

Mas, naquele asilo, há quem de fato tenha trabalhado na roça. Um diz: “Vixe, quero saber mais de enxada não, moço!” Outro: “Até que se eles deixassem, eu queria uma enxada para capinar um pouco. Sabe, eu gosto e aqui tem bastante espaço. Eu queria plantar milho, mas acho que não pode, né?...” Ainda outro: “Ih, moço, já trabalhei muito nessa vida. Capinei, sim, mas não só. Até caminhão já dirigi. Mas essa danada da enxada judia da gente!” Um deles não disse que capinou, mas vem com esta: “Não quero, não. A enxada matou meu pai!” Peço a ele que explique, mas não explica nada e repete como um mantra: “A enxada matou meu pai.”

Em outros tempos, o seu Zé, que já partiu, era assim provocado por um funcionário: “Seu Zé, eu comprei uma enxada novinha. Então amanhã você já pode começar a capinar”. Mas o seu Zé ficava uma fera. Dentre impublicáveis impropérios, resmungava: “Eu não vou capinar. Nunca capinei, não sei capinar e ninguém vai me obrigar a capinar.”

Da última vez em que estive no asilo, vi um novato. Era um caboclo já meio roído, mas não tão velho e estava bem vestido. Pensei: “Com este nunca falei, mas vou provocá-lo”. Aproximei-me devagar e disparei: “Olá, tudo bem?” Ele me olhou meio desconfiado e não disse palavra. Mas eu precisava completar o serviço e emendei: “Cadê a enxada?” Dessa vez a coisa não funcionou. “Tá achando que eu sou algum filha da puta?!” “Mas por quê?...”, repliquei. “Eu sou escrivão, sei escrever e nunca tive que usar enxada!” Eu, muito sem graça, respondi: “Ah, então eu sou esse ‘filha da puta’? Porque sempre usei enxada, sou um capinador.”

FILIPE

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

FINITUDE


Ultimamente, tenho pensado bastante na tal da “indesejada das gentes”. Manuel Bandeira tem um belo poema sob o título de “Consoada”, no qual ele assim se refere à morte, que também recebe o epíteto de “iniludível”.  Tenho lembrado de pessoas que partiram há muitos anos, especialmente do meu avô Sebastião.

Vovô era um homem trabalhador. Embora analfabeto, tinha orgulho de saber escrever as iniciais de seu nome: ‘SLL’ (Sebastião Lopes de Lima), que costumava gravar com formão no cocho das porteiras que ajudava meu pai a fazer. Certa vez, ele levantou a barra da calça e me mostrou umas varizes – as veias formavam a letra ‘S’ – e me disse orgulhoso: “Aqui está a letra do meu nome!”

Vovô Sebastião cuidava de uma boa porção de terras, uma verdadeira fazendinha. Levantava bem cedo, pegava uma guiada e começava a chamar suas vaquinhas para a ordenha. Com sua inconfundível voz metalizada, ele nomeava uma a uma. Tinha várias, mas lembro do nome de apenas duas:  Açucena e Cocada. Lembro também de alguns bois carreiros: Roxinho e Ouro Fino eram “bois de coice”, aqueles que sustentam o cabeçalho do carro;  as juntas Senado e Escovado, e Tesouro e Sete Ouro eram de “bois de guia”, aqueles que ficam à frente, obedecendo o candeeiro ou tentando passar-lhe os chifres. Da “junta torneira”, que fica no meio, entre os “coiceiros” e a “guia”, eu não lembro os nomes, porque eram os ‘novatos’, que estavam em treinamento. Mais tarde, dando certo, seriam “promovidos” para o “coice” ou para a “guia”. Na sua última aquisição, vovô comprou uma junta bastante desigual: o bonachão Mascote, um boi holandês que curtia a solidão dos brejos, e o endiabrado Coração, um boi preto com um coração branco tatuado na testa, que quase matou meu pai com um coice, quebrando-lhe umas três costelas. Esse danado tentou me acertar diversas vezes. Atravessando um rio, quase passou por cima de mim com o carro e tudo. Consegui me safar a nado, jogando-me na correnteza.

A fazendinha de meu avô era muito bem organizada. Tinha um terreiro cheio de galinhas, vários porcos de engorda, canavial e cafezal. Tinha também um simpático pomarzinho que me oferecia furtivamente deliciosas laranjas e bananas-maçãs. Ah, tinha o Queimado, um cavalo de sela e charrete, que era meu objeto de aventura. Quando ia ao pasto pegá-lo para meu avô, eu aproveitava para dar uns bons galopes. Mas o bicho era manhoso...  Às vezes, estava lá paradinho, pensando na vida, mas quando me via chegando, já dava uma abanada de cabeça e começava a sair de fininho. E não adiantava eu apressar o passo, porque ele sabia que eu não o alcançaria. Eu teria que negociar com ele, conversar mesmo, até que cedesse e resolvesse aceitar o cabresto. Depois disso, era só bamboleio! Encostava o   ‘corcel’ num barranco e, nem bem me ajeitava no seu lombo, ele já saia em disparada.

O sonho de meu avô era instalar confortavelmente a minha avó em sua casa na “rua”, conforme se diz na nossa terra sobre aqueles que moram na cidade. Ele tinha uma casa velha onde passavam fins de semana, mas comprou outra casa. Esta, uma das mais antigas da cidade, foi reformada mantendo-se quase intacta sua arrojada arquitetura. Certo dia, já na casa nova, vovô disse à minha avó: “Luzia, se eu morrer amanhã, não deixarei nenhuma dívida para você. Hoje paguei o resto que estava devendo.” Na manhã seguinte, dia em que eu completava doze anos, vovô partiu. Aos setenta.

FILIPE

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

NOTÍCIAS ESCOLARES


Ao som de “Música Antiga”, um belíssimo programa produzido pela Rádio MEC que o ‘coiso’ pretende fechar, deixo o jornal e começo a dedilhar o teclado do notebook em busca de algo para a postagem de hoje. Na Folha de S. Paulo, uma matéria sob um bem-sucedido programa de alfabetização de adultos me chamou a atenção. Há 45 anos o Colégio Santa Cruz, um dos mais tradicionais do país, oferece gratuitamente aulas, transporte e lanches a um público carente e cada vez mais crescente. Por outro lado, nas escolas oficiais, que são mantidas pelo Estado, o antigo supletivo está deixando de existir por falta de alunos.

Noutro recorte de jornal, este do início da semana, uma notícia trágica: “Professor é esfaqueado por aluno dentro de escola na Grande São Paulo”. Lendo a matéria, soube que o professor dá aulas de geografia, tem 55 anos e estaria em estado grave num hospital da região. O algoz é um rapaz de 14 anos, seu aluno. Segundo a reportagem, o professor é querido, apesar de rígido; o agressor, por sua vez, é tido por estudioso, bem-comportado, um “bom moço”! Fiquei sem entender como um jovem “tão bom” pudesse ser assim tão covarde, tão atroz. Ah, o agressor feriu-se também, talvez querendo ‘empatar o jogo’, mas sem gravidade. Parece que a fúria maior seria contra o professor, porque ele apenas se arranhou com a lâmina.

Eu me vi “na pele” daquele professor. Um homem já esfolado pela vida e pelos anos, tentando realizar um trabalho cada vez mais penoso. A maioria de nossos jovens não se interessa por leitura nem pela escrita, nem por nada que não seja troca de mensagens nas redes sociais ou joguinhos eletrônicos. Mas há coisas muito tenebrosas nessas mídias que ocupam mente e espírito juvenis, e muito mais nocivas do que os inocentes jogos. Melhor não saber.

No Brasil, onde 11 milhões de pessoas com idade de 15 anos ou mais não conseguem ler sequer um bilhete simples, segundo reportagem da Folha, professores são ameaçados, agredidos e até esfaqueados pelos seus próprios alunos. Muito triste!

Acabou o programa da Rádio MEC e acho que a Rádio MEC também acabou. Sem “Música Antiga”, perdi a inspiração e encerro o texto por aqui. Sorte do eventual leitor, porque eu estaria disposto a destilar um balde fel nas linhas seguintes. Eu seria lamurioso, chato, muito além do habitual. Então vou nos poupando dessa neura.

FILIPE

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

OS FRANCISCANOS ESTÃO DE PARTIDA


Publicado na “Tribuna de Amparo”, edição de hoje.

Dia desses, enquanto aguardava na fila de um supermercado, fui despertado da leitura do jornal pelo seguinte diálogo: “Sabia que vão trocar os santos da igreja São Benedito?”, dizia uma senhora à sua amiga, tentando impressioná-la. “Vão, mas não só, porque a igreja nem vai continuar sendo São Benedito. Vão mudar até o nome da paróquia também”, exagerou a outra. “O quê?! Não são apenas os freis?... Se até os santos vão embora, eu também saio de lá”, interveio uma terceira.

Exageros à parte, há dias ouço rumores de que os frades franciscanos estariam deixando a Diocese de Amparo, mas nunca dei crédito a tais notícias, que mais me pareciam boatos. Mas agora parece sério.

Os franciscanos instalaram-se aqui em 1911, há mais de um século, e nestas terras fundaram convento, formaram comunidades, edificaram capelas, evangelizaram e encantaram o povo com sua abnegação e despojamento. Não me parecia crível, porém, que eles nos deixassem justamente neste momento tão difícil, quando os ânimos andam tão acirrados fora e até mesmo dentro da Igreja.

Frei Vanilton e seus dois companheiros, que ora conduzem a Paróquia são Benedito, são formidáveis. Suas homilias são encantatórias porque sucintas e contextualizadas, e as celebrações não cansam a assembleia. Também não se vê nessa tríade nenhum traço de vaidade clerical, algo bastante encontradiço noutras paragens, infelizmente. A sintonia com o bispo diocesano e com o Papa Francisco é outro atributo desses bravos religiosos.

Mas já há certeza. Os nossos freis vão mesmo nos deixar e será em breve. Porque eles hão de singrar outros mares e suas redes deverão ser lançadas em águas ainda mais profundas.

Ah, quão alvissareira seria uma réplica a este artigo sob o título: “Os franciscanos não estão de partida!”  Não custa sonhar.

FILIPE

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

ENCONTRO COM O POETA


Era de manhã, eu ia para o serviço, quando, de repente, eis que cruzo com uma criatura muito fofa. Paro e a fixo por um instante, e tento pará-la. Mas ela tinha pressa e não podia ser interrompida por mim. A rua estava deserta, mas à frente havia uma avenida bastante movimentada, e era para lá que se dirigia apressadamente a desajuizada “criança”. “Por que a pressa?”, quis perguntar mas desisti. E digo logo do que se tratava: um filhotinho de gambá. 

O gambazinho queria arriscar a vida na avenida, mas não permiti. Abri o jornal e lhe fiz acenos para que voltasse, ele quis me desobedecer, mas fui enfático. Então o bichinho deu meia-volta, retornando com indisfarçável mau humor. E assim, fui conduzindo o ‘timbuzinho’ que, de vez em quando, me olhava furibundo. Contudo, manteve-se obediente num trote miúdo que fazia o corpo tremular e o rabinho oscilar, indo até o Jardim Público. Diante do meio-fio – para a diminuta criatura uma “muralha intransponível” – quis desistir, e, mais uma vez o meu jornal entrou em ação. Amedrontado, foi beirando a guia até encontrar uma fenda na qual pôde pôr as patinhas e escalar. Dali para diante, deixei que ele decidisse por si. Entrou num gramado, cruzou a passarela e se embrenhou no mato com muitas árvores. Ufa! 

Mas esse não é um “encontro com o poeta”, mas um “encontro com a poesia”! Com o poeta foi noutro dia. 

Eu voltava da escola, já bem noite, caminhando pela calçada oposta a um bar quando ouvi: “Professor, quero te dar os parabéns!” Pensei: “Não faço aniversário, não ganhei prêmios, não há por quê...” Mas, para cumprir o protocolo, cruzei a rua até a calçada onde havia umas mezinhas e ‘gente jovem reunida’. “Por que os cumprimentos?”, perguntei. O ‘Poeta’, era ele, me disse: “Gostei muito do que você escreveu.” Fiquei perplexo. Veio-me um filme antigo, de quando mandei algumas notas ao jornal contestando o “Poeta”. Num artigo, chamei-o de “extemporâneo da arcádia” – um xingamento, claro. Mas não. O Poeta referia-se a um texto que escrevi sob o título de “Carta ao Eremita”. Disse ter gostado muito e que levou o texto ao bispo diocesano. “Você já conversou com o bispo? Precisa conhecê-lo. É um dos nossos. Quando viu seu artigo, ele me disse: ‘Olha, que bom que alguém rebateu. Assim, não foi preciso que eu fizesse isso, porque ficaria muito chato’”, finalizou. 

Sem ter como retribuir a ‘mesura’, pensei em falar alguma coisa que pudesse agradar meu interlocutor. Fui com esta: “Olha, também leio seus textos, tenho um livro seu e gosto muito, viu?” Ele me pareceu meio desconcertado, mas achei que a dose foi pequena, fraca mesmo. Então aumentei a carga: “Estamos sem Príncipe dos Poetas. Paulo Bomfim morreu e a cadeira está vazia. Por que você não se candidata?” Ele me respondeu: “Depois de Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Guilherme de Almeida... Sabia que após a morte de Guilherme de Almeida, passaram-se anos até que alguém, no caso, Paulo Bomfim, se apresentasse?... E agora, quem vai ter a ‘cara de pau’ – e eu digo ‘cara de pau’ mesmo – de achar que pode ser ‘Príncipe dos Poetas’?” 

A conversa foi curta, mas saí impressionado com o Poeta, com quem já tive sérias divergências e, contudo, ele sempre me tratou cordialmente. Não menti. Leio suas crônicas e poemas e admiro sua intelectualidade. Como poucos, ele tem domínio da escrita e memória prodigiosa. Confesso que esse encontro me deixou arrependido de um dia já ter brigado com o Poeta. 

FILIPE

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

PEQUENAS VERGONHAS


Nossas vergonhas nem sempre são públicas e muito menos devem ser publicadas. De minha parte, já passei boas vergonhas – algumas até simpáticas. A seguir, devo citar umas três ou quatro, mas o raro leitor não terá sua curiosidade plenamente satisfeita, porque ainda tenho alguma lucidez.

Por exemplo, por um sem-número de vezes, um motorista para, interrompe minha caminhada e minha leitura, e, com um papel na mão, talvez uma nota fiscal, pergunta cheio de aflição: “Por favor, onde fica a rua Humberto Beretta?” “Rua Humberto Beretta...”, fico matutando enquanto o motorista aguarda ansioso. “Olha, eu moro aqui há pouco tempo e não conheço nada na redondeza”. Ou: “Ih, moço, eu não sou daqui!...” Mentira. Moro há dez anos neste pedaço e a Humberto Beretta fica há duas quadras de casa. [Será mesmo?...] Houve uma vez que atendi com toda convicção a um motorista. Mandei-o cruzar a cidade, seguindo sempre à direita até seu destino. Eu tinha tanta certeza e fui tão convincente, que senti até certo orgulho de minha sabedoria. Só uns passos adiante é que me dei conta de que o endereço procurado pelo desditoso motorista ficava a menos de cem metros de sua pergunta.

Outra. Na escola, sempre peguei a fila com a molecada para merendar. Mas houve um tempo que me cansei de ficar na fila. Amparado pelas minhas cãs e alegando a necessidade de me antecipar aos alunos na volta para a sala de aula, cismei de ir direto ao balcão de serviço. Fiz isso por algumas vezes até que uma merendeira recém-chegada me disse: “Professor tem que respeitar a fila!” Fiquei mais envergonhado do que chateado e dali por diante nunca mais furei fila.

Mais uma. A minha mais recente vergonha foi na igreja. Era Dia dos Padres e havia uma homenagem ao sacerdote no final da missa. Um senhor pegou um papel, empostou a voz e deitou falação. Houve uma pausa e eu pensei que já tivesse terminado. Estranhei o fato de todo mundo ficar quieto e pensei: “Que chato... Ninguém aplaude?!...” E tomei a inciativa começando a bater palmas sozinho. Me veio um calafrio, mas já era tarde e eu tentei terminar o serviço mal começado. Pus-me de pé e aplaudi com mais vigor. Somente eu, porque o homem ainda não havia terminado a leitura. No final, é claro, houve os esperados aplausos. Desenxabido, fiquei aguardando lá fora. Nisto, veio um senhor, já idoso e muito simpático, e começou a falar comigo sobre a chuva que começava e o animava com seu pomar. A chuva, dizia ele, vai aumentar a produção figos. Eu lhe disse que tenho duas figueiras que nunca deram nem flor. Ele me orientou a podar e adubar. “Ah, posso pôr o adubo ‘FCK’?”, perguntei como alguém que entende muito bem de adubos. Ele: “Bom, esse aí eu não conheço, mas ponha o ‘NPK  20 - 5 - 20’”. Somente mais tarde é que me dei conta de que não existe nada com o nome de ‘FCK’.

FILIPE

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

PATRULHEIROS


O assunto seria outro e eu nem sabia ao certo de que eu trataria na postagem de hoje. Estava propenso a falar de uma tristeza profunda que me abate nestes tempos inglórios, quando nosso horizonte tem sido cada vez mais obscurecido por alguns usurpadores – esses “seres das trevas” ora no Poder. E além disso, sendo já quase sexagenário, descobri que, a partir desta data, terei de trabalhar por mais ‘956 dias’ para requerer aposentadoria. Estou triste por essas e outras coisas, que hão de passar.

Mas, terrificado pelas notícias sempre assombrosas que brotam na tela do computador, tento espairecer, escrevendo bobagens neste blog. E assim aconteceu há duas quinzenas, quando publiquei o texto “Na Sala dos Professores” – uma crônica bem-humorada, mas que despertou inesperada fúria em alguns colegas de trabalho.

Talvez não venha ao caso, mas preciso explicar aos meus “algozes” que ‘crônica’ é algo bem diferente de ‘artigo de opinião’ ou ‘reportagem’. Por tempos considerada um gênero literário menor, de pouco prestígio, foi Rubem Braga quem deu à crônica certa nobreza. Nela, o autor não tem compromisso com a veracidade dos fatos e sua narrativa é livre, quase sempre satírica, irônica e vem lambuzada de humor. Ah, mas é preciso ter senso de humor e alguma argúcia para entrar no ‘clima’. Não tendo uma coisa nem outra, é melhor partir para o noticiário político ou para o jogo de dominó ou, quem sabe ainda, procurar uma pista de ”dança tântrica”. Prestigiada ou não, e pela sua irreverência, a crônica é meu gênero favorito, que leio vorazmente e tento rabiscar algumas.

Mas, talvez por desconhecimento e não por maldade, alguns professores não me entenderam e, de forma velada e cruel, atacaram-me impiedosamente. Tachado de antiético, ridículo e outras belezuras, fiquei estupefato. Contudo, para desgosto daqueles, outros me apoiaram, fazendo-me imerecidos elogios.

Sinal dos tempos, uma ministra, aquela que esteve num pé de goiaba, falando com Jesus, recentemente baixou instrução proibindo publicação de livros infantis em que há estórias de fadas, duendes e bruxas. Pela mente doente daquela senhora, todo o rico fabulário que coloriu a infância de inúmeras gerações deverá ser banido. Sendo assim, Pequeno Polegar, Branca de Neve, A Bela Adormecida e tantas outras eternas obras de referência deverão ir ao fogo que, espera-se não ser eterno.

Censurado ou não, devo continuar publicando minhas crônicas aqui. Convido ao raro leitor, se ainda o tenho, que as leia criticamente. Não tenho intenção de ferir ninguém e, caso alguém se sinta atingido, que use a caixa de comentários. Aproveite-a, também, para apontar meus muitos erros de Língua Pátria, e eu ficarei agradecido por tão generosa intervenção. Mas sem patrulhamento, por favor!

FILIPE