sexta-feira, 18 de junho de 2021

TÉDIO!

Tédio!, é o que sinto nesses tempos tenebrosos e de escassas esperanças. Já chegamos a meio milhão de mortes por covid, grande parte delas evitável, mas o Asmodeu continua negando a ciência e combatendo os protocolos sanitários. Mas não só. Ele ainda dissemina ódio, dividindo a nação, as comunidades, as famílias. O genocida nos trouxe a cizânia e não suporto mais ouvir aquela sua voz cavernosa. Todos os meios de comunicação que não lhe são afetos deveriam “cancelá-lo” de vez, mas não o fazem. Sempre, e em todos os jornais, está aquele vomitório. Da última vez que vi o ’coisa-ruim’, o ‘inominável’ fazia apologia da morte, dizendo que todos devem ter uma arma em casa para se defender. “Eu não durmo sem uma arma”, disse orgulhoso, e completou: “Você não se garante?...”. Bom, quem não se garante é ele que precisa de uma arma para dormir. Imagine o que mais deve passar naquela mente insana numa noite de insônia... 

Mas a besta-fera quer mais, quer a vendeta. Pretende armar seus asseclas e, pior, com apoio da polícia e, pasmem, das Forças Armadas também. Não sei se um policial médio entende isso, mas quanto mais armas nas mãos de civis, mais difícil e arriscada fica uma diligência. Agora eu me pergunto: esse pessoal, que quer fazer a “revolução bolsonarista”, vai usar o arsenal contra quem? Resposta: contra os militares, os mesmos que apoiam o armamento da população! Mas por quê? Porque numa tentativa de golpe de Estado, os milicianos hão de ser combatidos por pelo menos parte das forças de segurança. Numa triste ironia, esses agentes serão vítimas de uma política fratricida antes apoiada por eles próprios. 

Então... O imbecil planaltino, que tanto fala em Deus, mas que tem medo de dormir sem sua garrucha, deveria ler mais a Bíblia. Se lesse, ia encontrar lá no Livro de Samuel a seguinte passagem: Então Saul tomou três mil de seus melhores soldados de todo o Israel e partiu à procura de Davi e seus homens. (...) havia ali uma caverna, e Saul entrou nela para fazer suas necessidades. (...) Então Davi foi com muito cuidado e cortou uma ponta do manto de Saul, sem que este percebesse.” 

Lendo o livro sagrado, talvez o “valentão das milícias” aprenderia que nem o poderoso rei Saul pôde “amarrar o gato” em paz. Em outras palavras, ninguém pode se sentir protegido por ter uma arma ou se acercar de agentes. A literatura é prodiga em histórias de pessoas que foram vítimas de suas próprias armas ou de seus seguranças. Uma arma é muito eficaz para atacar, e não para se defender com ela. Simples: quem ataca surpreende; e quem é surpreendido nem sempre consegue se defender. 

Enfim, fico triste, entediado e desesperançado ao perceber que o Asmodeu não é uma única pessoa, mas uma legião.  São muitos os “asmodeus” que pensam e agem como aquela triste figura, e alguns deles estão no meu entorno. E no seu entorno também, raríssimo leitor. Só espero que você não seja um deles. 

FILIPE 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

MELQUÍADES, O DESERTOR

No começo dos anos oitenta eu prestava serviço militar numa unidade de cavalaria em Juiz de Fora. O presidente da República era João Figueiredo, um general cavalariano de maus modos, tosco, mas nada que se compare ao “Cavalão” que hoje está no posto. Embora vivêssemos os estertores do regime militar, a atmosfera política era bastante tóxica. Gilberto Gil, Caetano Veloso entre outros eram vistos com desconfiança, e Chico Buarque foi tachado de subversivo por um tenente numa palestra.

Havia naquela unidade militar uma sala em cuja porta estava afixada uma plaquinha em que se lia “xadrêz” – assim mesmo: com o desnecessário acento circunflexo. Eu tinha curiosidade de entrar naquela sala, queria ver como era a famosa ‘’cadeia’’. Um dia, na companhia de um colega, entrei lá para fazer alguns reparos como reboco e pintura. Passamos pela porta com a tal plaquinha e à esquerda havia outra porta, de aço e pesadíssima, que dava acesso ao ambiente. Dentro da cela havia outra salinha, muito estreita e escura, denominada solitária, e onde ficava preso político. Como eu não sabia o que era ‘preso político’, não me importei com a tal ‘solitária’ e segui fazendo meu serviço com o soldado Luís Carlos. Rebocamos e começamos a pintar a cela: eu passava cal e ele tinta. Não sei por quê, mas nos desentendemos e começamos uma guerra de tintas, fazendo uma enorme lambança. Quando vi que eu estava perdendo a parada, porque ele me jogava tinta enquanto eu atacava de cal, tentei pegar aquela tinta e jogar na cabeça dele. Com os olhos empapados, abaixei e tateei o balde. Depois vi que não era balde, mas o coturno de alguém. “O que é que vocês estão fazendo?!” Era o major, comandante da unidade, que nos abordou. Não sei de meu colega, mas eu fiquei gelado e sem ter como disfarçar, pensei: “Pintei essa cadeia pra eu ficar nela!...” O major, porém, não me puniu. Disse alguma coisa em desaprovação, sorriu e saiu. Um caso raro de militar sensível, que declinou de seu poder quase imperial, poupando dois soldados bagunceiros, mas trabalhadores. Caso fosse o subcomandante, a “solitária” teria sido nosso destino.

A cadeia, depois de reformada, foi abrigo do protagonista desta crônica: o soldado Melquíades. Esse caboclinho, que veio lá dos cafundós, deveria prestar serviço militar na minha unidade, mas ele não se apresentou. Então uma ‘patrulha’ foi encarregada de encontrá-lo, onde quer que estivesse, e trazê-lo ao quartel, observando a máxima: “ordem dada, missão cumprida”. Essa missão, no entanto, estava difícil de ser cumprida porque o Melquíades embrenhara-se no mato e ninguém o achava. Foram várias tentativas para, enfim, escoltarem-no e o conduzirem àquele xadrez.  Em geral, presos devem ficar isolados, mas eu visitei o Melquíades mais de uma vez. Quando o vi, fiquei pasmo. Mal vestido, talvez sujo – ele estava de pé, com os olhos parados, parecendo um espectro. Chamei-o pelo nome e, embora tentasse evitar contato visual comigo, ele atendeu. Conversamos um pouco. Ele falou de seus dramas, de sua família etc. Eu perguntei se ele sabia rezar. Não, ele não sabia rezar. Então eu escrevi o ‘pai-nosso’ num papel e ele aceitou, mas acho que ele não sabia ler também. Passados uns dias, Melquíades foi expulso do Exército e nunca mais o vi.

FILIPE


sexta-feira, 21 de maio de 2021

QUE TEMPOS!

O celular me acordaria às 4h45min, mas bem antes já estou desperto e desarmo aquela “granada” cujos estilhaços despertariam minha companheira.  

Levanto-me. A fria madrugada vai se despedindo e esquecendo para trás uns restos de escuridão. Gela lá fora, então eu me aqueço com um pouco de chimarrão antes de ir para o trabalho.

Saio exatamente às 6h15min, caminho durante oito minutos e às 6h30min chega meu ônibus. Entro nele e dou uma cédula de cinco reais ao motorista, que me dá sessenta centavos de troco em duas moedas. Passo pela roleta enquanto o ônibus ronca e se arranca e quase me derruba. Cambaleio até um banco e sento nele, mas uma das moedas me escapa e, disfarçadamente, me ponho a procurá-la, em vão. Mesmo enxergando mal com os óculos embaciados devido à máscara, vejo com alívio que perdi a moeda miudinha; a mais gordinha está a salvo.

Ajeito-me no banco e tento pensar noutras coisas para esquecer a moeda. Como não tenho conseguido ler, aproveito para divagar, meditar ou refletir nesses dez minutos de viagem. Em geral há silêncio, o que muito me apraz porque detesto ouvir falatório logo cedo.

Mas dessa vez não há silêncio. No banco de trás um casal deita falação sobre política, e fala alto, tonitruante. Um diz algo e outro concorda, de forma que vou reproduzir trechos daquela fala sem destacar os personagens, e farei daquilo uma gororoba. Ao serviço.

“Ficam falando mal de nosso presidente, mas ele não tem culpa de nada, meu Deus.” “Isso mesmo. Os chineses criaram o vírus e depois a vacina. Vê se pode?...” “Aí, nós pegamos o vírus e pagamos pela vacina...” “Nosso presidente é muito bom. Eu gosto muito dele e, se dependesse de mim, ele nunca sairia de lá.”  “É, mas vai ter eleição e não sei se vai dar pra ele ganhar, não.” “O Lula tá na frente, mas não vai ganhar.” “Sei não... O povo é burro, não lê nada!” “Ah, mas se o Lula ganhar ele não vai levar, e sabe por quê?” “Por quê?...” “Porque o Boçonaro tem uma ‘peque’. Sabe o que é ‘peque’?” “Não...” “Então... ele tem essa ’peque’ e com ela, ele vai convocar o Exército pra tomar conta do Brasil!” “Ah, que bom. Com o Exército, não tem pra ninguém. Os soldados vão tomar conta da rua e vão acabar com a bandidagem toda.” “Vai mesmo, porque a polícia... coitada da polícia, não consegue fazer nada! Um policial ganha muito pouco e não vai se arriscar pra pegar bandido. Mas o exército, sim, vai pôr tudo no lugar certo. Ah, se vai...” “E o Supremo, será que vai deixar nosso presidente agir?” “Ah, o Supremo é petista, mas o Boçonaro vai dar um jeito naqueles comunistas também. Minha fia, com o Exército não tem pra ninguém! E tem a Marinha também e a outra lá, aquela que tem avião.” “Ah, sei, a Aeronáutica. Ela pode jogar umas bombas nessa gente besta que quiser reagir, né mesmo?...” “É, mas é perigoso eles acertarem a gente aqui, que não tem nada com isso.”

Enfim, minha viagem chega ao fim. Não a deles, que continuam animados com suas lucubrações.  

FILIPE

sexta-feira, 7 de maio de 2021

SAUDADE DA CHUVA

 

Meu Deus, que tempos ingloriamente secos e empoeirados são esses?! Não chove mais como antigamente... Tenho saudade da chuva, do barro no quintal ou na estrada, do cheiro de terra molhada.  Tenho vontade de voltar a sujar os sapatos e depois tirar os sapatos; de pisar descalço na lama e depois limpar os pés no capim molhado. 

Saudade dos tempos de menino quando voltava da escola e pulava nas poças d’água da estrada, que nos molhava e nos sujava. E tinha medo da bronca em casa, e a bronca não faltava e era severa. Saudade da roupa suja e da bronca também. 

Saudade dos tempos de adolescente quando – nós que morávamos na “roça” –  íamos sábado à noite para a “rua”. Saíamos de casa à tardinha sob a ameaça de um temporal, que nunca falhava. Por vezes a chuva nos obrigava a voltar para casa já na metade do caminho. Noutras vezes não chovia enquanto íamos, mas a volta era molhada. Naquele tempo, famílias inteiras desciam pela lamacenta ‘estrada velha’: os “grã-finos” a cavalo ou de charrete; nós, a ralé, a pé. Dentre nós, os pobres, as moçoilas eram bem mais previdentes. Elas iam descalças e levavam os sapatos numa sacolinha plástica. Bem próximo à cidade, paravam na “biquinha”, que era uma fonte à beira da estrada, lavavam os pés para, enfim, se calçarem. 

Nos tempos em que eu frequentava o “ginásio”, também sofria com as chuvas. Se o tempo estava seco, dava para ir de bicicleta, chegando à escola todo empoeirado, mas sem atraso; com chuva, no entanto, era um pouco diferente. A bicicleta ia acumulando barro nos para-lamas até que não conseguia rodar mais. Tudo começava com um barulhinho, que ia aumentando aos poucos até que a coisa encrencava. A roda travava e a bicicleta que me levava teria que ser levada por mim. Às vezes eu tinha paciência, pegava um pedaço de pau e desobstruía a roda, parecendo que ia dar certo. Poucos metros adiante, porém, a ‘magrelona’ pegava pirraça novamente, empacando de vez. 

Certa feita, quando eu voltava da escola depois de uma chuva, a bicicleta negou-se a enfrentar a lama. Acho que nunca falei para ninguém, porque tenho vergonha disso, mas xinguei minha bicicleta de uns nomes feios (longe do papai, é claro, eu xingava e bastante) e a joguei fora. Furioso, dei-lhe um empurrão ribanceira abaixo, e ela obedeceu humilhada. Segui meu caminho, mas quando já estava bem longe, resolvi voltar e pegar minha “companheira” de volta. Pensei: “Coitadinha, ela sempre me foi fiel e não é por um pequeno desentendimento que vou abandoná-la agora”. Voltei e fizemos as pazes. Limpei suas rodas, os para-lamas e voltamos serenos para casa – agora sem exigir nada dela nem ela de mim. 

Hoje não vou mais para os encontros de sábado na praça de minha cidade, não ando a pé na ‘estrada velha’, não vou às aulas no ginásio, não paquero as moçoilas com seus pés descalços e nem sequer tenho bicicleta. Mas tenho muita saudade da chuva. 

FILIPE

sexta-feira, 23 de abril de 2021

AUSÊNCIAS

Eu estava passeando com o Tokinho, meu cãozinho, quando vi aquele homem em sua casa. As mãos impacientes no gradil da varanda pareciam denunciar o atraso de alguém que deveria chegar, e um olhar displicente caía sobre a rua ensolarada, numa seca manhã de outono. Nunca o havia visto, embora há muito o conhecesse de nome e de histórias. Quando ele me avistou e notou que eu o olhava, virou-se disfarçadamente para dentro, como se alguém o chamasse. Mas em casa não havia ninguém além dele. Naquele momento, ele estava só.

Continuei caminhando devagar e parei em frente ao portão, que estava semiaberto. Assim que ele me viu de perto, nós nos cumprimentamos. Então ele deu alguns passos em minha direção e parou.  Nesse momento, eu quis me certificar de que ele fosse o tal senhor que eu conhecia pelo nome de Fiori. “Sou eu mesmo”, ele me respondeu acrescentando os pedaços que faltavam para completar o nome.  “E aquela senhora que sempre fica aí, na varanda?”, perguntei meio temeroso da resposta. “Ah, ela é a minha ‘patroa’, mas agora está na casa da filha. Aqui ela era bem cuidada, mas essa minha filha resolveu levá-la pra passar um tempo lá. Então eu fico aqui, sozinho, mas à noite vou pra lá também”. Após esse início de conversa, o seu Fiori, parecendo ter se afeiçoado a mim, resolveu contar um pouco de sua vida.

“Rapaz, eu moro aqui há mais de 20 anos, mas a vida inteira eu trabalhei no sítio, com um mesmo patrão. Depois eu peguei a danada da ‘maculosa’, que me deixou como morto. Fiquei muitos dias prostrado. Alguém poderia me puxar pela orelha, arrastar e me jogar no rio, que eu não dava conta disso. Eu não prestava para nada, então saí do sítio e vim morar aqui. Depois eu melhorei, graças Deus, e não quis mais saber de trabalhar em sítio. Aqui eu trabalhei muito mais do que lá: fiz essa casa, trabalhei em dois empregos, mas ultimamente eu parei com tudo. Tenho que cuidar da Maria, sabe... Eu gosto daqui, mas fico triste sem ela. Eu choro, sabia?... Tenho que arrumar sempre alguma coisa para fazer, senão fico muito aborrecido. Ela ficava ali, na cadeira dela, quietinha, sem reconhecer as pessoas. O alimento tem que ser na seringa, e precisa de gente com paciência para cuidar dela.  Eu sei que ela sente a minha presença, então gosto de ficar perto dela para que ela não se sinta sozinha.”

Eu ouvi o seu Fiori e ainda quero ouvir mais histórias dele. Após esse breve relato, ele me disse que estava esperando um pedreiro para uns reparos na casa. Então eu me despedi e continuei minha caminhada. A alguns metros acima, eu queria ver outro amigo. Dessa vez, contudo, a casa do seu Benedito, que fica sempre aberta e com várias pessoas na varanda, estava fechada. Então eu não pude ver o seu Benedito e nem o verei mais. Ele não quis esperar a sua festinha de 94 anos, que seria em agosto.

FILIPE

 


sexta-feira, 9 de abril de 2021

O DIÁRIO DE CAROLINA

 


13 de junho de 1958

“...Vesti as crianças e eles foram para a escola. Eu fui catar papel. No frigorífico vi uma mocinha comendo salsichas do lixo.
Você pode arranjar um emprego e levar uma vida reajustada.
Ela perguntou-me se catar papel ganha dinheiro. Afirmei que sim. Ela disse-me que quer um serviço para andar bem bonita. Ela está com 15 anos. Época que achamos o mundo maravilhoso. Época em que a rosa desabrocha. Depois vai caindo pétala por pétala e surgem os espinhos. Uns cançam da vida, suicidam. Outros passam a roubar. (...) Olhei o rosto da mocinha. Está com boqueira.
...Os preços aumentam igual as ondas do mar. Cada qual mais forte. Quem luta com as ondas? Só os tubarões. Mas o tubarão é mais feroz que o racional. É o terrestre. É o atacadista.
A lentilha está a 100 cruzeiros o quilo. Um fato que alegrou-me imensamente. Eu dancei, cantei e pulei. E agradeci o rei dos juízes que é Deus. Foi em janeiro quando as águas invadiu os armazens e estragou os alimentos. Bem feito. Em vez de vender barato, guarda esperando alta dos preços: Vi os homens jogar sacos de arroz dentro do rio. Bacalhau, queijo, doces. Fiquei com inveja dos peixes que não trabalham e passam bem.
Hoje estou lendo. E li o crime do Deputado do Recife, Nei Maranhão. (...) li o jornal para as mulheres da favela ouvir. Elas ficaram revoltadas e começaram a chingar o assassino. E lhe rogar praga. Eu já observei que as pragas dos favelados pegam.
... Os bons eu enalteço, os maus eu critico. Devo reservar as palavras suaves para os operários, para os mendigos, que são escravos da miséria.”


Acima está um fragmento de “QUARTO de DESPEJO – Diário de uma favelada”, obra icônica da mineira de Sacramento, Carolina Maria de Jesus, publicada por Audálio Dantas em 1960. O editor teve a sensibilidade de manter a grafia original da autora, que estudou apenas até o segundo ano primário.

Li “Quarto de Despejo” nesses dias e me veio uma forte lembrança dos tempos em que eu trabalhava nas Lojas Americanas de Juiz de Fora, lá no começo dos anos oitenta. Todos os dias, caminhões carregados encostavam no calçadão e sua mercadoria subia para o depósito por um elevador. À noite, as caixas de papelão desciam para a calçada e uma senhora com suas crianças pegavam aquele material para vender. Na calçada havia também uma caixa plástica onde se depositavam restos de alimentos do restaurante da loja. Bom, não vou descrever essa cena.

Carolina Maria de Jesus voltou a ser notícia nesta semana. Desta vez, um jornal publicou matéria em que três de suas netas vivem num “Quarto de Despejo – 2”, assim denominado por elas próprias, tal a penúria em que se encontram.  

Termino com Chico Buarque:
“Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo

FILIPE



sexta-feira, 26 de março de 2021

TURBULÊNCIAS NO PARAÍSO

Dia 20 de março fez um ano que tivemos de mudar às pressas para fora dos “muros da cidade”. A voraz pandemia, que apenas começava, obrigou-nos a essa aventura, que depois se revelou prazerosa. Morar em região montanhosa, cercado de vegetação, ar limpo e brisa noturna não é algo trivial. Aqui há dessas coisas, e há mais: tenho mangueiras que me dão frutos a seu tempo e sombra a todo tempo, e onde quero amarrar uma rede para as tardes preguiçosas.

E tenho bons vizinhos também, cada qual vivendo na quietude de seu canto. Uns criam galinhas, outros cães, outros nada. Não crio galinhas, mas tenho cães que ladram sem parar. Mas a ‘turbulência’ do título não é por conta das matilhas. 

Tempos atrás tive que comparecer a uma DP como testemunha de acusação contra um sujeito que soltava rojões de madrugada por causa de um galo. O simpático garnisé não entendia que o vizinho protestava e continuava sua cantoria apesar dos estrondos. O “fogueteiro” não se deu por vencido e apelou: antes das seis da manhã, uma bomba fez-se ouvir. Como consequência disso, houve boletim de ocorrência, intimação etc. Contudo, voltou a paz para aqueles lados.

Da última vez, embora sem rojões nem boletins, houve um pequeno entrevero entre dois vizinhos, de quem sou amigo. “Meu parente mais próximo é o meu vizinho”, diz a sabedoria popular, e eu costumo levar isso em conta.  Dessa forma, prefiro ficar “de boa” com a vizinhança, sempre evitando qualquer mal-estar.   

Meu vizinho, o protagonista desta crônica, tem muitas galinhas, cuida muito bem delas e não as mata, o que me deixa contente. A vizinha também tem lá as suas galinhas e delas aproveita apenas os ovos. Mas houve entre eles um desacerto, que não sei bem os detalhes. Ela nervosa, ele também; ela dizendo que ele tem muito bicho e que tem vizinho reclamando; ele dizendo que se alguém reclama, que fale com ele etc. Como há “vizinhos reclamando”, eu me vendo nesse torvelinho, quis passar a limpo a minha parte e procurei o rapaz na manhã seguinte. Ele estava lidando com as ‘penosas’ e parecia não querer papo comigo, mas insisti para que viesse conversar.

Ele chegou bastante desconfiado, pôs o balde com o milho no chão, coçou a cabeça e me retribuiu meio a contragosto o bom-dia. “O que está acontecendo?”, perguntei. “Nada”, respondeu. “Nada?!”, insisti. “Me falaram que um vizinho está reclamando de minhas galinhas e eu falei que é pra falar comigo. Foi isso”, respondeu agora de forma satisfatória. “Pois bem, se o vizinho sou eu, não há reclamação alguma. Gosto do senhor e tenho enorme carinho pela vizinha também. E quero deixar claro que sou inocente nessa questão”. Ele desanuviou o semblante e até ensaiou sorrir, mas fechou-se novamente e disse:  “Olha, eu fiquei bravo mesmo, porque não sei quem reclamou e disse que era pra falar comigo. E sabe de uma coisa?... Eu mandei todo mundo tomar no ‘copo’!” “Ah, disso aí não sabia, mas eu não vou tomar no ‘copo’, porque não tenho a ver com isso, né?...”  E assim parece que ficou resolvida a questão. 

FILIPE