sexta-feira, 24 de setembro de 2021

QUEIMADAS

Quando menino, fiz uma tremenda besteira da qual nunca me esqueço. Na época em que cometi esse “crime”, eu tinha a idade de dez ou onze anos. A história foi assim. Meu pai havia roçado nosso quintal e feito umas coivaras [um amontoado de galhos] para serem queimadas a fim de preparar o solo para o plantio. Ele é quem deveria pôr fogo nas coivaras, e não um menino, que ‘não tem juízo’. 

Antes desse malfeito, eu assistia encantado às queimadas que todos faziam naquele tempo e queria protagonizar uma cena daquelas também. Lembro de um tio, irmão caçula de minha mãe, que botou fogo num roçado no sítio da vizinha tia Badica. Ele pegou uma vara de bambu com um chumaço de pano embebido de querosene, pôs fogo nesse chumaço e semeou as chamas pelo matagal. Eu olhava com orgulho (e inveja) o meu tio: pequeno, um garoto ainda, mas tão poderoso! 

Voltando ao meu caso. Meu pai não estava em casa e eu, querendo adiantar o serviço, peguei uma caixa de fósforo, risquei um palito e tentei pôr fogo nas coivaras. O fogo começou trêmulo, desanimado, chegando a apagar. Eu tive que gastar vários palitos de fósforos para convencer o fogo que aquele era um trabalho sério. Por fim, uma pequena chama se formou. Depois outra e outra e outra, que se uniram e se animaram. Em pouco tempo as labaredas devoraram as minhas coivaras e queriam mais. Então elas começaram a lamber as beiradas do mato que cercava o roçado e, de repente, uma língua de fogo mais comprida e indisciplinada alcançou uma pequena moita de capim, já fora do meu roçado. Foi o suficiente para eu perder o controle da situação e ser dominado pelo danado do fogo. 

Desesperado, usando um pequeno balde com água para apagar o fogo, comecei a gritar, pedindo socorro. Meus irmãos eram muito pequenos e nada poderiam fazer, mas o Zé Alfredo, nosso vizinho, chegou para ajudar. A essa altura, o fogo já estava no terreno da tia Badica, transformando tudo em cinzas. Sem pressa, com muita calma, o Zé Alfredo foi controlando as chamas, até apagar completamente o fogo. Ele usava um galho de folhas verdes, com o qual abafava os focos até dar cabo de todos eles. 

Aprendi a lição e nunca mais eu quis saber de pôr fogo em mato. Envergonhado, tive que ouvir por muito tempo a mofa de minhas vizinhas, as filhas do Antônio Moisés. “Então o fogo pulou?!”, perguntavam. “Pulou, uai!”, eu respondia, tentando mudar de assunto. 

Conto essa história aqui, que é verdadeira, para mostrar que havia uma “cultura do fogo” no meio rural. Aquelas queimadas eram feitas todos os anos no preparo do solo para a plantação, mas eram muito bem controladas. O que acontece atualmente não tem paralelo com o passado. Há um crime ambiental no campo e nas cidades. Nada justifica que desocupados ponham fogo nas margens das estradas, em terrenos urbanos e, muito menos, que incendeiem nossas matas.

FILIPE


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

APANHANDO DE BOLSONARISTA

Quem tem a “fortuna” de conviver comigo já teve o infortúnio de perceber que sou uma pessoa pouco suportável. Talvez por isso meu círculo de amigos seja muito pequeno e sem que eu tenha pretensões de ampliá-lo. Meu cotidiano é bastante monótono e muitas vezes procuro um refúgio para, em voluntária solidão, fazer acertos e reparos em minha maculada alma. Todavia, estando com pessoas com quem tenho afinidade, costumo ficar à vontade para expor pontos de vista. Foi mais ou menos isso que me aconteceu dois dias atrás. 

De manhãzinha, assim que cheguei à escola, um pequeno grupo de colegas começou a falar sobre os malefícios causados por aquela figura abjeta alçada à presidência da República. Havia manifestações de caminhoneiros com obstrução de rodovias etc., e uma amiga estava indignada porque um familiar dela, que também é caminhoneiro, e mesmo sofrendo as agruras socioeconômicas desse desgoverno, defende o ogro. Até esse momento todos falávamos serenamente. No entanto, uma professora chega subitamente, entra na roda e dardeja: “Agora tudo é culpa do Bolsonaro! É só ele?!” Todos a olhamos assombrados, quase sem ter o que dizer, mas lancei um torpedo: “Sim, ele é um capeta!” Eu disse “capeta”, mas não deveria escrever isso  porque meu pai, que costuma ler este blog, deverá me passar um corretivo – não em defesa do ’capeta’ ops!, mas por que não devemos xingar ninguém, nem mesmo aquele ‘coisa-ruim’. 

Mas a mulher “chegou chegando”, como dizem os ‘modernos’, e dominou a banca. Dos que participavam da roda, três se calaram, restando apenas uma amiga e este infortunado, que sou eu. Dedo em riste na nossa direção, ela vociferava: “Vocês são comunistas, petistas e só querem bagunça. Nós não. Somos gente de bem, somos família. Bolsonaro é pela família.” “Sim, Bolsonaro gosta tanto, que já está na quarta família!”, ironizei. Mas a intrépida senhora estava disposta a continuar o entrevero, e tinha energia para isso. Disse (gritando) sobre o progresso que Bolsonaro teria levado ao Nordeste, agora com estradas e muitas outras coisas boas que só ele, mais ninguém, foi capaz de fazer. 

Eu estava apanhando bastante da bolsonarista e tentei me defender, agora atacando: “Você é professora e não conhece a história do Brasil?!” “Conheço, sim. Eu fiz direito, sabia?” “Ah, fez?... Mas não parece. Não sabe o que foi a ditadura militar, endeusada pelo genocida, nem o que foi a tortura, que ele defende...” “Então... você, que sabe muito, venha dar aula pra nós!” Nisso entrava o professor de história, a quem ela abordou para lhe dizer: “Olha, o sabe-tudo ali vai dar aula de história pra nós!!!” O professor não estava entendendo nada do que acontecia (sorte dele), mas ficou um tempinho ali, tentando dar pé do ocorrido. E eu, já agastado com tudo, encerrei com esta: “É um absurdo professor não conhecer a história recente do país. Que futuro terão nossos jovens?...” 

Não sei o que mais aborrece: se esse fla-flu entre “gente de bem” e “gente do bem” ou a indigência intelectual de nossos mestres. 

FILIPE

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

JEFTÉ NO WHATSAPP

Dia desses houve uma discussão bastante acalorada no grupo de whatsapp de minha família. Ah, é preciso destacar uma coisa: o “Irmãos Moura Lima” tem onze membros, o que faz desse grupo um gigante do gênero “irmãos”. Como em qualquer grupo, no nosso há aqueles que publicam industrialmente, há quem pouco aparece e há quem tenta falar e nunca é ouvido. Acho que estou nesta última categoria, porque ninguém dá bola para as minhas mensagens.

Dessa vez, a fervura se deu devido a uma provocação que fiz. O texto bíblico do dia era sobre um personagem emblemático do Antigo Testamento: Jefté.  Lendo aquela passagem bíblica, fiquei confuso: “Como pode um sujeito fazer um pacto com Deus para destruir uma comunidade inteira, no caso a dos amonitas...”

Segundo a Bíblia, Jefté teria sido abençoado por Deus para vencer os amonitas, mas sob a promessa de oferecer em sacrifício a primeira pessoa da qual se acercasse na volta para casa após seu triunfo. Aconteceu que, vitorioso, ele volta para casa todo pimpão, cheio de novidades para contar à sua esposa, servos, sobrinhos, cunhados... (ah, ele devia ter ao menos um cunhado, senão essa história não ficaria boa). O problema é que, chegando à casa, nem sobrinho, servo ou cunhado quis saber de Jefté. Quem partiu a seu encontro, assim que ele foi visto ainda lá no morro, antes de abrir a porteira, foi sua filha. O homem estremeceu, porque teria que cumprir a promessa, e, nesse caso, sacrificaria sua única filha. A história é mais ou menos essa e se alguém quiser detalhes, veja lá na Bíblia; está no ‘Livro dos Juízes’.

Aqui, no entanto, quero escrever sobre meu “perrengue” com a família, porque eu quis dar uma de esperto no grupo ‘Irmãos Moura Lima’, fazendo uma postagem, e me dei mal. “Quero que alguém me explique a passagem bíblica de hoje, pois está escrito que Jetfé [sic] devastou 20 aldeias em nome de Deus”, provoquei e ajuntei: “E vou cobrar isso!”

Já acostumado ao conforto do abandono – ninguém se importa com o que digo nem com meu silêncio –, dessa vez foi diferente. Um irmão me deu um pequeno chacoalhão; depois outro entrou um pouco mais firme: “Você está interpretando com a cabeça de hoje algo que foi escrito há mais de dois mil e quinhentos anos!”. Eu ainda tentava me equilibrar após essa “canelada”, quando veio um disparo mais forte de outro irmão: “Você parece ter preguicite de ler: pega o trecho de um texto e já quer tirar conclusões. Vá à fonte e leia o texto inteiro!”

É... apanhei e, em vão, tentei argumentar. Mas aprendi alguma coisa. Aprendi que Jefté não era um “miliciano tosco e covarde” como alguns por aí. Aprendi também que os amonitas não eram uns “anjinhos azuis” como eu supunha, e sim um povo cruel, fruto de uma relação incestuosa de Ló com suas filhas.

Finalmente, aprendi que o Antigo Testamento deve ser lido de forma muito cuidadosa, porque ele não é um livro de fábulas.

FILIPE

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

"ONDE VOU USAR ISSO?"

 

A pergunta que dá título a esta crônica é recorrente em sala de aula. Os “especialistas em educação” amam-na e costumam usá-la para afrontar professores em palestras para lá de enfadonhas.

De volta às aulas presenciais, com a temível ‘variante delta’ no nosso encalço, temos que driblar a situação para evitar a contaminação. Num ambiente bastante precário, muitos alunos não parecem se preocupar com os riscos e se aglomeram. É preciso, a todo momento, pedir que se distanciem, que coloquem a máscara, que ponham a máscara corretamente, e que o nariz, ainda que belo, deve estar coberto...  Um saco!

No meu caso, não bastasse a extrema preocupação com os “bons modos sanitários”, ainda preciso lidar com a fatídica pergunta: “Professor, onde vou usar isso que você está ensinando?” Pela enésima vez, tive que ouvir isso anteontem. Respirei fundo e não respondi de imediato. Naquele momento, lembrei de meu tempo na graduação e de uma aula de álgebra. Sem entender o conteúdo, eu me dirigi ao professor e perguntei muito discretamente onde usaríamos aquilo que era ensinado.  “Primeiro você aprende isso, depois pergunte para que serve”, respondeu secamente o mestre. Aprendi o suficiente para ser aprovado e nunca mais quis perguntar para que serve aquilo, mas imagino (sem ironia) que este teclado que estou usando agora não funcionaria sem recursos de álgebra avançada.

De volta ao aluno, que aguardava uma resposta, perguntei: “O que você pretende fazer na vida, qual profissão quer ter?” O rapazinho gaguejou: “Ah, acho que vou fazer mecatrônica.” “Então, para entrar num curso de mecatrônica, você precisa saber isso.” Mas o rapaz foi além: “Não, eu falo na profissão mesmo. Onde um arquiteto, por exemplo, vai usar o que você está ensinando?” Fiquei enrolado, mas não fugi da arena, e provoquei: “Você já conversou com um arquiteto? Ele faz projetos e provavelmente terá que dominar vários conteúdos. Converse com um arquiteto...”.

Como diria meu pai, eu já estava ‘entojado’ com o aluno e acabei perdendo o equilíbrio. “Quer saber? A escola tem o compromisso de transmitir conhecimentos às gerações, muitos deles milenares. E tem mais. Penso que o conhecimento, a reflexão e o questionamento são indispensáveis para que o ser humano se complete. Doutra forma, seríamos como um boizinho, que apenas precisa comer, fazer cocô e dormir.

Passados uns minutos, fui à carteira do aluno e ele me disse quase em segredo: “Não consigo entender nada disso aqui. Minha cabeça é dura, sou burro!” Fiquei compadecido. Peguei o caderno dele e passei uns probleminhas mais práticos, envolvendo compra, pagamento e troco. Fiquei impressionado com o moleque. No texto, onde eu escrevi ‘400 gramas de mortadela’, ele interpretou como ‘40 por cento de um quilo’; onde estava ‘650 gramas de queijo’ ele dizia ser ‘65 por cento de um quilo’. E assim, interpretou o problema e fez as contas corretamente. Hoje ele me disse que pesquisou sobre a tal ‘mecatrônica’ e descobriu que teria de aprender muita coisa parecida com o que estava sendo ensinado e..., pasme!, ele me pediu aulas extras!

FILIPE

sexta-feira, 30 de julho de 2021

UM MESTRE RIGOROSO

Meu pai já foi professor, mas isso há quase setenta anos. Dentre seus muitos alunos, havia uma menina, que mais tarde veio a se casar com ele. Essa mocinha, hoje minha octogenária mãezinha, deve ter se encantado com o mestre pela sua cultura, honestidade, talvez beleza ou outros bons atributos, mas não pela paciência, que nunca foi o forte de meu pai. É meu pai mesmo quem diz isso, mas em outras palavras. O rigor para com os alunos costumava ser convertido em varadas. Certa vez, após um breve recreio dado aos alunos, muitos tardaram a retornar à sala de aula. Então, uma vara de “vassourão-branco” (eu conheço essa planta) deu o recado. E, não muito tempo depois, uma das premiadas com as lambadas tornaria sua esposa. Hoje, papai e mamãe festejam as Bodas de Ébano (são 66 anos de casados).

Ao se casar, meu pai parou de lecionar, mas acompanhava as lições dos filhos. De vez em quando, ele chamava um por um e vistoriava os cadernos. A minha irmã mais velha recebia sempre merecidos elogios; meu irmão mais velho, não muito. Enquanto ele checava as lições de alguém, eu ia acertando as lições em atraso, mas não dava tempo e ele não deixava barato.

Muitas vezes, antes de eu entrar na escola, via meu pai ensinando o irmão mais velho a fazer contas. Papai ensinava e depois cobrava. “Bom, eu fiz essa para você, e agora você vai fazer esta para mim. Vamos lá!” Meu irmão, todo encolhidinho, tentava, tentava e nada! Papai ficava nervoso, fazia um “zuerão” danado, mas acabava deixando o menino em paz. Eu ficava de longe, observando o irmão com aquele lápis de ponta rombuda e a outra parte mastigada.

Antes de completar dez anos, terminei o curso primário, mas sem saber fazer “conta de dividir”. Certo dia, peguei um caderno e pedi ao meu pai para me ensinar as tais “contas de dividir”. “Pois não, meu filho. Vamos lá.” Na sala da nossa casa havia uma mesa com duas cadeiras, que seriam quatro, mas o tempo deu cabo de duas e as que restavam já não gozavam de boa saúde. Papai sentou numa cadeira e me apresentou a outra. Pegou o lápis e foi calmo. “Aqui você tem tanto, que dividido por isso vai dar aquilo; depois esse tanto para aquele outro tanto vai dar isso; depois você faz isso aqui mais aquilo ali, que vai dar aquele número lá. Entendeu?” Sem entender bulhufas, murmurei: “Ah, pai, acho que entendi...”. “Bom, só se aprende, fazendo. Agora é você quem vai fazer.” Quando fui tentar fazer a conta, veio à minha mente a imagem do meu irmão com o lápis de ponta rombuda e a outra parte mastigada. Eu pensava no meu irmão e tremia e a conta não saía. Meu pai já se impacientava e aí é que eu não conseguia, mesmo. Meu pai intervinha repetidas vezes: “Esse número dividido por aquele... Quanto dá?” Eu apenas dizia: “Bom... Deixa eu ver...” Meu pai desistiu e eu também.

Queria muito que meu pai desse umas aulas para uma figura notória da República. O dito-cujo afirmou recentemente, sem ficar vermelho, que ‘menos quatro mais cinco dá nove’. Mas meu pai teria que usar a “vara de vassourão-branco” também.

FILIPE


sexta-feira, 16 de julho de 2021

O SAMBA DO MILICO DOIDO

Ninguém me pediu opinião sobre o que se passa no Brasil, como ninguém quer saber o que penso dessa vida nem da outra.  A minha opinião vale tanto quanto um flato do Bozo.

Começando pelo meu vizinho, que tinha um galo que cantava e me encantava nas madrugadas. “Socorro! Socorro! Socorro!”, ele sempre gritava lá de cima de sua árvore. Se não pude socorrer nem o meu amiguinho penado, quem pode contar comigo?... Se o galinho foi depenado e está no além, eu não sei, mas torço para que ele esteja feliz em outro terreiro, cercado de outro harém.

Sobre o presidente, que nunca me encantou, não sei se está mesmo mal das tripas. Caso esteja, não lhe desejo mais sofrimento e muito menos a morte. Quero-o, sim, são e lúcido, mas no banco dos réus, respondendo pelos seus crimes.

Esse parece ser o governo mais militarizado de toda a história da República, e os militares que o compõem revelaram-se incapazes de servir a nação em trajes civis: uns incompetentes e corruptos. Ainda assim, de forma bastante diversa das pessoas mais pensantes, não acho que poderíamos descartar as forças armadas, como alguns países já fizeram. Nosso país tem dimensões continentais e o Estado não se mantém de pé sem uma força armada que lhe dê sustentação. Contudo, não espero nada desses oficiais que emergiram na pandemia, negociando propinas na compra de vacinas. Eles deveriam ser defenestrados das forças armadas e encaminhados a uma prisão. Mas estamos no Brasil, né?...

Se fosse no Uruguai, Argentina e Chile... Esses países, cada qual a seu modo e a seu tempo, acertaram e continuam acertando as contas com militares criminosos. Lá, volta e meia, um alto oficial vai para a prisão pelos mais variados motivos. No Brasil, não. Todos os que se imiscuíram nas instituições civis, ao invés de sofrerem punição, foram promovidos ou premiados com cargos em ministérios.

As coisas não iam bem para os fardados desde que o ex-ministro da Saúde foi convocado para depor numa CPI. Nunca na história deste país um general da ativa fora intimado a se apresentar a uma comissão de civis para interrogatório. Mas aconteceu e, temeroso de ser preso, o covardão mendigou habeas corpus junto à corte suprema – também de civis. A nota do ministro da Defesa, em tom de ameaça, não tem outra função que não seja um desagravo diante desses acontecimentos. Se a CPI for valente de fato, irá  convocar muitos oficiais, da ativa ou da reserva, porque há muita coisa fétida na banda podre das forças armadas.

De forma trágica, cômica ou ridícula, a República escorrega para um abismo de sandices. Em Brasília, um cabo de polícia teve prerrogativa de comandar uma rodada de negociação com várias pessoas, dentre os quais um coronel; um sargento da reseva ocupava uma chefia no Ministério da Saúde, tendo como auxiliar (subordinado a ele) um coronel. Há tanto rolo nesse governo, que ele parece ser uma nova versão de “O samba do crioulo doido”.

FILIPE

sexta-feira, 2 de julho de 2021

UMA GENGIVITE

Hoje foi um dia de profunda reflexão para mim. Pus-me a pensar no sofrimento que atinge grande parte da população totalmente desassistida. Uma simples gengivite me deixou inoperante por todo o dia e, pelo jeito, terei um final de semana bastante dorido. Essa inflamação começou lenta, mas foi crescendo, crescendo até me dominar por completo. Não consegui dormir nem trabalhar nem ler nem rezar. Dei uma enrolada na patroa, na chefia e nos alunos, mas preciso fazer amanhã tudo que ficou no atraso hoje. O problema é que não consigo ficar em pé por meros cinco minutos sem que mire o horizonte à procura de uma cadeira ou, quem sabe, uma cama para repousar.

Isso, no entanto, me deu uma boa oportunidade para refletir sobre o sofrimento das pessoas. Quanta gente está passando por perrengues muito maiores do que uma ‘’simples gengiva inflamada’’, e sem perspectiva de tratamento... Tem muita gente sofrendo, meu Deus! O que sinto não é nada.

Voltei a um passado não muito distante e me lembrei de quando fui a um asilo e vi uma senhora que chorava feito criança. O que tinha? Dor de dente. A dona do asilo (aquele asilo tinha uma dona) esbravejava com a velhinha. Fiquei indignado com aquilo e defendi a interna, mas a megera disse: “Liga não. Isso é manha dela. Ih, conheço de longa data!...” Saí de lá embasbacado, sem saber o que fazer. Noutro momento, soube que a ‘megera’, de posse de uma mangueira com esguicho, mirou um velhinho e deu-lhe um indesejado banho de água fria. As coisas, porém, mudaram e talvez tenham melhorado, porque aquele “asilo” foi fechado pela Justiça.

Nessa volta ao passado, avancei mais um pouco e cheguei à minha infância, lá na roça de Guiricema. Uma vizinha, a dona Angelina Tibúrcio, uma senhora negra, alta, esguia, e que trabalhava na cozinha e na enxada, sofria com lancinante dor de dente. Então ela pedia minha irmã mais velha, que tinha a idade de uns dez anos, para acompanhá-la até a cidade para arrancar dentes. Era uma longa caminhada, de uns sete quilômetros, em estrada de terra e sob sol quente. Na volta, dona Angelina trazia junto à boca um pano para limpar o sangue que escorria sob o calor do meio-dia.

O dentista da dona Angelina era um senhor branco, alto e muito temido pelo seu boticão. Muita gente saía de lá chorando de dor, dizendo que o homem era muito bruto. Foi da boca ferida da dona Angelina que chegou aos meus ouvidos pela primeira vez a palavra ‘boticão’. “O ‘boticão’ machuca a boca da gente!”, dizia.

Naquele tempo, parece que o ofício do dentista era apenas a ‘extração’. Pelo menos os pobres de minha terra iam ao dentista para arrancar seus mastigantes, e nunca para restaurá-los ou prevenir cáries.  

De minha parte, não posso reclamar porque já tenho agendada uma visita à dentista para a próxima segunda-feira – que me parece uma eternidade. Mas... e os sofredores sem recursos, sem assistência, sem esperança?...

 

FILIPE