sexta-feira, 6 de março de 2015

FANTASMA PEDAGÓGICO

A mídia não divulga, mas a Secretaria Estadual da Educação de São Paulo (SEE-SP) protagoniza, já há muito tempo, algumas mazelas. Vamos a elas:

1) Se feitas as contas o governo federal gasta, a cada três anos, mais de dois bilhões de reais na substituição de livros didáticos em todas as escolas públicas do País. E o que a SEE-SP faz? Desestimula os professores de sua rede a usar o rico material do MEC, exigindo prioridade no material elaborado por ela. Na prática, empurra-nos “goela abaixo” suas apostilas, cujo conteúdo não passou pelo crivo da academia. Diferentemente destas, os preteridos livros do MEC são avaliados e aprovados pelas mais conceituadas universidades do País.

2) Todos os anos a SEE-SP aplica uma prova, denominada SARESP, a alunos concluintes de cada ciclo. Dentre outras finalidades, serve para bonificar professores e funcionários das escolas que se sobressaírem na bendita avaliação. Mas, como as disciplinas avaliadas são apenas Matemática e Português, recai sobre o lombo dos infantes professores da área a incumbência de, “sob aplausos ou vaias”, alavancar sua escola ou pinchá-la ladeira abaixo.

3) Há, neste rico estado de São Paulo, uma categoria de profissionais da educação com diploma universitário contratada em regime de semiescravidão. Esta espécie de “subprofessores”, além de privada de direitos trabalhistas, tem que cumprir quarentena (afastamento sem remuneração) após determinado período de atividade.

4) Por alguma razão, professores convocados para reuniões pedagógicas não recebem “diária”, que deveria ser depositada numa conta do Banco do Brasil (não podendo ser poupança). Quem decidiu transferir sua conta-salário para outra instituição fica alijado do benefício. E não adianta espernear, pois não verá nem cor nem cheiro desses caraminguás, que deverão voltar para o Tesouro Estadual (ou para outro lugar, onde até Deus ignora).

5) Profissionais da educação são frequentemente convocados para reuniões com gente da DE (Diretoria de Ensino, mas que para mim continua sendo “delegacia de ensino” – e com minúscula, para melhor expressar minha fúria!) Nesse departamento, salvo raríssimas e honradíssimas exceções, viceja uma colônia de parasitas, que não faz outra coisa senão tomar café, falar de novela e BBB, além espezinhar a vida de professores. Ah, as reuniões..., e para que servem? Para tentar converter professores a um inovador método de ensino-aprendizagem.

Houve, no século passado, uma gente metida e desocupada desejosa de melhorar o ensino do "povo pobre e oprimido". Para tanto, cismaram de reinventar a “roda da educação”, adotando um método experimental. Esse assunto, que no final do século serviu de vomitório para gerações de estudantes e professores mais lúcidos, foi o “santo graal” para os menos iluminados. Mas, quando todos o sabíamos extinto para todo o sempre, eis que ressurge, do lodo em que estava sepultado, o fantasmagórico zumbi denominado “construtivismo”. E ele já me espreita!


FILIPE                                                                                  

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

VOLUMES MORTOS

Não, eu não conhecia “volume morto”. Conheço, desde sempre, “peso morto” – algo imprestável e que nos atravanca. Alguns “pesos mortos” obstruem o meu caminho, mas melhor não citá-los. Há também arquivo morto, uma seção onde se guardam os documentos antigos, alimento dos historiadores e de ácaros. Ângulo morto eu conheci quando ainda envergava a farda verde-oliva, e se trata de uma região escondida do campo de visão. Quando se está numa elevação no meio da mata e se avista outro morro, o vale escondido compõe o tal ângulo morto. Se há ângulo vivo, não fiquei sabendo, pois os instrutores militares não me apresentaram.

Mas o assunto de hoje deveria ser somente “volume morto”. Da primeira vez que ouvi essa palavra fiquei desconfiado, pensando ser algo ruim. Mas não. É o volume morto da Cantareira que tem matado a sede de muitos paulistas durante esta crise hídrica – ou seca, para não usar essa expressão besta, pretensamente glamorosa. Mas, quando o tal volume morto já começava a morrer, eis que o governo paulista – que não chega a ser um “peso vivo” – descobre, nas suas soturnas explorações, mais um “volumoso defunto”. Com essa nova reserva (meio barrenta, malcheirosa, mas água) e as estivais “águas de fevereiro”, o povo do novo semiárido poderá atravessar o próximo estio – que promete ser penosamente longo –, até que este rico estado resolva investir em reúso, cisternas ou dessalinização, como há tempos já fazem os israelenses.

A informação também tem o seu volume morto, algo quase inacessível. Mas para alcançá-lo, é necessário descer aos abismos, cavoucando sites, jornais impressos, televisivos e radiofônicos. Somente assim pode-se ficar sabendo pormenores do envolvimento de um grande banco (HSBC) em esquema internacional de lavagem de dinheiro. O HSBC é ligado às famílias Safra e Andrade Vieira, que, por sua vez, são ligadas aos grãos-tucanos paulistas. Aquele banco, que tem filial em Genebra, lava qualquer dinheirinho. Seja do rei de Marrocos, narcotraficantes mexicanos ou de brasileiros corruptos. E fica branquinho o danado.

Colunistas da Folha de S. Paulo, dentre os quais Vladimir Safatle e Kenneth Maxwell, informaram recentemente que mais de 500 bilhões de reais passaram pela filial suíça do HSBC num intervalo de tempo inferior a cinco meses. A notícia brotou de um furo no “casco” feito por um funcionário dedo-duro daquela instituição. Muito mais, porém, repousa nos subterrâneos do sistema financeiro internacional. Segundo pesquisadores, a corrupção consome cerca de 5% do PIB mundial. Isso significa que, a cada ano, 1,5 trilhão de dólares vão para o “volume morto” de paraísos fiscais, como o HSBC, ou para bolsos mais modestos, mas nem por isso limpos.

Ainda sobre o HSBC: O Brasil aparece como sendo o nono país que mais operou lavagem naquele banco, com milhares de brasucas envolvidos. Mas nenhum nome foi identificado na mídia, por quê? Temos competentes Ministério Público, Judiciário e TV Globo, que juntos, justa ou injustamente, desancaram uma nuvem de petistas. No entanto, um tumular silêncio cobre a plutocracia tupiniquim afundada nesse lamaçal.

Parafraseando George Orwell no clássico “A Revolução dos Bichos”: “No Brasil, todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”. 


FILIPE  

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

SEBASTIÃO RUFINO

Esse era seu nome, mas era por Tatão Tibúrcio que todos o conhecíamos. Tatão morava na roça, a um quilômetro de nós, numa casinha simples, como a nossa. Ao lado da irmã, Angelina, cuidava da mãezinha, dona Sarminda, sobre quem se dizia ter mais de oitenta anos. Ficou-me a imagem daquela velhinha, negra, magrinha, sempre sentada num caixote. Passados uns tempos, ela adoeceria e se recolheria à sua cama, para eu nunca mais vê-la no seu caixote.

O tempo foi passando e passou dona Sarminda, ficando Tatão e Angelina. Muitas e muitas vezes iríamos ainda àquela casa. De vez em quando dávamos com “os burros n’água”, pois a Angelina não gostava de chateação e costumava não nos atender. Ainda ao longe era possível observá-la à janela, mas ao chegar, já estava bem trancadinha, escondidinha, fingindo ausência. Podíamos esgoelar, que ela não se mexia. Tarde, porém, a compreendo e eu não faria diferente.
 
O Tatão nunca fechava a porta. Todas as tardes, após chegar do roçado, ele passava as horas sentadinho ali, ao lado de Veneno, seu cão, fazendo suas orações. Vendo-nos, abria-se num sorriso e nos convidava a entrar. Chegando, cumpríamos rigorosamente um roteiro por ele traçado: ir direto ao seu quarto, onde havia um oratório, e lá fazer uma prece. Em silêncio, ele nos aguardava com indisfarçável alegria.

Devo confessar que, embora eu rezasse no oratório do Tatão, tinha mais fé nele do que nos seus santos. Para uma criança – ou adulto, principalmente – nada mais abstrato do que a fé. Esta parece estar associada a afeto. E como aquele homem era por nós muito querido, o objeto de sua devoção foi por todos incorporado.

Tatão Tibúrcio tornou-se compadre de meu pai, tendo como afilhado um de meus irmãos, a quem considerava um filho. Certa vez, fomos à sua casa bem de tardinha, e a noite veio trazendo consigo um enorme temporal, com granizo. Todos ficamos atordoados, temendo que telhado e paredes cedessem à fúria do vento. Mas o Tatão não se abalava e, mantendo no colo o afilhado, rezava. A certa hora, pegou uma pedrinha de gelo que escapara das telhas e a deu ao pequeno dizendo: “Se a criança chupar o gelo da chuva, a tempestade para”. E parou mesmo. Mas naquela noite não voltamos para casa. Dormimos amontoados numa esteira que Angelina estendera na sala de chão batido. A irmã mais velha dormiu no quarto da Angelina, e o pequeno com o padrinho, que não teve lá muita sorte não. Lá pelas tantas, o intestino do menino desandou, enlameando cama, padrinho e o sossego de todos. Mas o paciente senhor apenas disse: “Foi barriga mole, coitado”.

Supersticioso, Tatão usava amuleto no peito e cabeça de boi no chiqueiro. Sempre quis saber o que havia dentro daquele patuá, que trazia pendido feito medalha. “Aqui tem uma reza para minha proteção”, ele disse uma vez e me dei por satisfeito. Mas, com a caveira bovina, fui além. Tentava dissuadi-lo daquela crença ancestral, dizendo ser pecado etc., mas quem pecou fui eu. Certa feita, após uma rápida conversa, pensei tê-lo convencido a renunciar a essa “heresia”. Subi na cerca e arranquei do bambu, onde estava espetada a tal caveira, e a lancei no mato. No dia seguinte, meu pai me interpelou: “O compadre Tatão me disse, contrariado, que você tirou a cabeça de boi do chiqueiro dele. Pois trate-se de pô-la onde estava, viu?” Aquele “viu” me deu um calafrio, algo estranho, semelhante à “barriga mole” do menino aí em cima. Pus de volta lá o simpático talismã que, se não salvou os porquinhos do mau-olhado, salvou meu couro.


FILIPE

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

AFLIÇÕES

“Consoladora dos aflitos, rogai por nós!”

“CONSOLATRIXAFFLICTORVMORAPRONOBIS”. Em latim, tal como transcrevo, a inscrição decora lindamente o altar-mor da igreja matriz da Consolação em São Paulo. Mas quem são os aflitos, de quem emana tão pungente súplica?

A igreja estava quase vazia e uns poucos fiéis assistíamos à missa de meio-dia, num sábado. Com habitual e desnecessária pressa, o celebrante melodiava solitariamente todas as preces, inclusive os Salmos. Naquele momento eu me angustiava, pois a execução de um patrício se fazia iminente. Para além dos mares, do outro lado do planeta, em terras da Indonésia, Marco Archer se preparava para receber no peito a bala fatal. O desafortunado homem não tinha lá grandes méritos, mas contra ele não pesava acusação de ser homicida, pedófilo nem ladrão contumaz. Traficara cocaína. Por justiça, deveria ser mesmo trancafiado numa masmorra até que se reabilitasse. Mas sua condenação foi por demais severa, desumana, cruel, ignominiosa.

O réu fora condenado à morte e permanecera nessa expectativa ao longo de sofridos dez anos. Quase uma dezena de pedidos de clemência foi enviado àquele país pelas autoridades brasileiras, em vão. Mas os bravos defensores da vida intrauterina calaram-se. Por quê?  Será porque, diferentemente de um embrião humano, um criminoso não tem direito à vida?...  Fere-me os tímpanos o espantoso silêncio desses conservadores. Em tempos de eleição, ouvem-se seus (justos) alaridos contra o aborto. Mas agora, nem sequer um trinado se fazia ouvir. Bico calado! 

Voltando ao celebrante, dele se esperava que nos instasse a rezar ao menos uma Ave-Maria pelo condenado, mas não. Preocupou-se em comentar, ao final da missa, a publicidade de uma faculdade que patrocina o folheto litúrgico. Já em sua homilia, fez questão de criminalizar o movimento Catraca-Livre – que luta pelo fim das tarifas de transporte coletivo – sugerindo sê-lo composto de pessoas que não trabalham. Ainda: acusou um de seus membros de espancar uma senhora num ponto de ônibus durante a manifestação. Quem já participou de movimentos sociais ou procura informar-se com algum critério sobre eles, sabe da existência de infiltrados em quaisquer desses eventos. Mas de quem se instrui apenas lendo a revista “Veja” ou assistindo ao “Jornal Nacional”, fica a impressão de ingenuidade ou de atraso mesmo. Não sei se esse é o caso do nosso pregador, mas para ele deixo o benefício de minha incerteza.

Afinal, o que nos aflige? A mim, aflige-me todo tipo de violência: das ações de trombadinhas à truculência policial; do escárnio dos poderosos à hipocrisia de clérigos; da condescendência aos criminosos à negação da misericórdia. Aflige-me a apatia diante da aflição alheia; diante de quem receberá a pena capital.  A morte moral me aflige.


FILIPE

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

JOAQUIM

Suas companheiras de trabalho chamam-no carinhosamente de “Quim”, mas Joaquim é seu nome. Um nome sólido como o granito e, quando pronunciado, tem a sonoridade de um bumbo.
Homem simples, como seu próprio nome sugere, este paranaense aportou por estas bandas há bem anos. Deixou as rubras terras das araucárias, onde passara infância e mocidade no penoso trabalho da lavoura, para tentar melhor sorte em solo bandeirante. Mas não tem sido fácil sua existência por aqui, pois, se farta é a ocupação, escassa é sua remuneração. Mas o Joaquim não se deixa abalar e todos os dias sobe a colina até o Lar dos Velhos, onde trabalha. Chegando, cumprimenta um e outro, sendo cumprimentado por esse e aquele. São os internos da casa, de quem cuida com zelo filial.
Na sua lida diária, muitas vezes interrompe a refeição para socorrer alguém. “Ih, seu Zé, tem que ser agora, logo na hora do meu almoço?... Não poderia esperar mais um pouco, seu Zé?” Com o habitual sorriso que lhe é típico, diz isso sem que haja ofensa ao velhinho, de quem se tornou íntimo no decorrer dos anos. Com as mãos fortes de ex-lavrador, segura firme a cadeira de rodas e conduz o suplicante seu Zé até o banheiro para o providencial desaperto. Somente após liquidar o problema, na mais imprópria das horas, é que retoma sua refeição - já fria. “Por estes aqui, não tem terror. Já estou acostumado e eles estão em primeiro lugar. Quando eu posso, almoço. Se eu não puder comer agora, como depois. E sempre dá para fazer as duas coisas. Veja como estou fortinho!” – diz jocosamente apontando para sua discreta pança.
Em mais de uma década visitando o Lar dos Velhos, nunca me deparei com o Joaquim emburrado, mal-humorado, resmungão. Ele está constantemente alegre e, o mais importante, sempre ocupado. Dá banho num, põe fralda noutro, leva aquele para o sol, tira aqueloutro do sol..., e assim, aquele incansável guardião vai cumprindo sublimemente sua função da qual faz um sagrado ministério. Dá gosto vê-lo em ação. Na enfermaria, no refeitório ou onde quer que vá, Joaquim arrasta consigo olhares sofridos, mas repletos de admiração, carinho e de um restinho de esperança.
Certa feita, estando Joaquim em férias, um velhinho baixou hospital naquela que seria sua última internação. Na agonizante despedida, o moribundo clamara pela presença do amigo. Por alguma razão, este não fora procurado e a despedida do velhinho se fez vazia, enchendo de tristeza o coração do preterido Joaquim.
Entoam-se loas aos figurões da sociedade. Mormente são eles, os medalhões – na melhor definição machadiana – que colhem os bons frutos numa seara que jamais cultivaram. Nessa galeria de colunáveis, não terão assento os abnegados “Joaquins”. Contudo, mais importante do que ser colunável, é ser coluna. E o Joaquim, mais do que coluna, é um esteio para todos os pequeninos do Lar dos Velhos de Amparo.
Joaquim, você é um gigante!

FILIPE

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

DE PASSAGEM

“Vamos fazer uns exames? Depois dos cinquenta é preciso monitorar a saúde. Então, vou listar os procedimentos que você deverá realizar para a próxima consulta”. Essas foram as palavras de um médico muito simpático, embora ele não seja cubano. Após a breve entrevista, estendeu-me o formulário seguido de um aperto de mão. “Até mais”, eu disse. “Até”, respondeu o doutor, economizando o ‘mais’.

Foi uma trabalheira danada para, finalmente, eu receber um calhamaço do laboratório com os resultados. Ao conferir um por um fui me animando, porque parecia que eu estava muito bem. Caso fosse um exame de vestibular ou concurso público, eu teria excelente média, com chance de passar entre os primeiros. Mas, há um ‘porém’: em termos de exames médicos, a ‘média’ não faz sentido algum. Você tem que “tira notas boas” em todas as “matérias”, pois não adianta ter colesterol de fazer inveja num atleta olímpico, mas taxa de glicemia pré-tumular.

Alguém aí já se deparou com a palavra “citratúria”?  Pois bem, ela existe e significa uma substância produzida pelo nosso organismo – e eu a tenho de sobra. E “plaqueta”? Essa é uma velha conhecida. Qualquer estudante de ciências, em séries iniciais, sabe do que se trata. Essas pequenas placas compõem o nosso sangue ao lado de leucócitos, hemácias etc. O problema é que as minhas plaquetas estão escassas e o médico está bastante preocupado – mais ainda do que o seu paciente. Agora, se a média fizesse sentido eu estaria ‘tinindo’. O excesso de citratúria supriria com folga o déficit de plaquetas, mas as coisas não funcionam assim. Dessa forma, devo repetir procedimentos, procurar especialistas.

Todos nós temos apreço pela saúde e gostaríamos de conservá-la ad infinitum. Mas a Natureza pensa e age de outra forma. Ela não se importa com nossas preocupações e nem sonha os nossos sonhos. Cada um de nós é peça de uma grande engrenagem; apresentando defeito, é logo descartada e imediatamente substituída.  A Natureza zela pela espécie, apenas; quanto ao indivíduo, despreza-o sem formalidades.

Não, caro leitor, não estou me ocupando destas mal traçadas para fazer autocomiseração e não se apiede de mim. Aparentemente, estou pleno de saúde física e mental. Eu disse mental?... Ah, acho que estou bem dos miolos também. Mas o que gostaria de destacar é que nossa saúde é provisória. Mais dia menos dia, o organismo vai acender luzes amarelas, vermelhas..., até não se acenderem mais luzes. No meu caso, embora eu ainda não chegue a ser uma “árvore de Natal”, uma luzinha está piscando. Se for amarela, tá bom. Caso seja uma luz vermelha, buscarei a serenidade necessária para o desafio que ora se apresenta. Não quero pedir ao meu Senhor que remova do caminho os obstáculos, mas força para transpô-los.

São Paulo, dentre outras virtudes, ‘combateu o bom combate’; de minha parte, porém, fugi da batalha sempre que pude. Mas, agora talvez não haja rota de fuga. Desta ou doutra vez, há que se fazer a travessia – isso é o que há de mais certeiro na vida.

Nesta locomotiva, portando alegria ou tristeza, somos todos passageiros. E em cada estação, uns descem e outros sobem. Estamos de passagem, é bom lembrar, mas o mais importante é que este passeio seja bem alegre.


FILIPE

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

FASCISMO À VISTA

Todos são testemunhas de meu despreparo intelectual para falar de política, religião, história, até mesmo de lavoura. Se eu fosse ganhar a vida como hortelão, estaria, há anos, morando embaixo de uma árvore. A prova disso: plantei uns pés de couve, que antes me pareciam promissores, agora estão a me dar vergonha, tal o estado de penúria em que se encontram.

Para ser minimamente sensato, eu deveria ler e ouvir, apenas. Mas, eis que um teclado, pouco exigente, ostenta sua placidez e eu me atrevo a usá-lo. Portanto, seguem-se umas linhas impregnadas do nada que trago comigo, e do tudo que me atormenta neste momento.

A Comissão Nacional da Verdade acaba de apresentar seu relatório sobre os crimes da ditadura militar. Expôs uma coisa nojenta, tão fétida como a que se tornou conhecida há umas décadas: o dossiê “Brasil: Nunca Mais”. Esses crimes perpetrados pelos militares e por uma casta de civis já deveriam ser do conhecimento de todo brasileiro suficientemente alfabetizado. Mas não são, ­­­­infelizmente.

Estive no Exército, quando a ditadura já “respirava por aparelhos” e ainda assim pude experimentar um pouco de seu fel. O desprezo dos milicos pelos civis era tanto, que havia na caserna o seguinte ditado: “Paisano no quartel é mulher de soldado”.

Claro que não se deve generalizar. Se havia gente fardada “do mal”, havia também “do bem”. Certa ocasião, durante um acampamento, eu estava com uma ferida infeccionada e tinha febre. Meu mal-estar era tão grande, que quase não conseguia caminhar, pressentindo desmaiar a qualquer momento. Deixei meu grupamento e fui até a barraca da enfermaria para pedir um remédio. Ao chegar, alguns oficiais e praças graduados estavam sentados, conversando amenidades. Apresentei-me batendo continência e pedi pelo socorro. Um tenente me expulsou dali, como se expulsam cães abandonados. Tamanha foi minha humilhação, que acho até que sarei. Enquanto me retirava, ouvi algo estranho, parecendo não mais ser conversa de amigos. Soube depois que um subtenente reprovara a atitude de seu superior. Mais tarde, esse homem (pai de um amigo) me disse que teve vontade de disparar contra aquele oficial iníquo.

Registro essa passagem a fim de desfazer a ideia preconceituosa de alguns, de que todo militar é mau.  Da mesma forma, deve-se admitir a existência de ‘bons’ e ‘maus’ em quaisquer “tribos”: de políticos, religiosos, operários, empresários, professores etc.

Mas não há bons na tribo dos fascistas. E eles estão chegando, pregando o ódio, a divisão, a cizânia.  Antes, por burrice, vileza ou por ambas, pediam a anulação da eleição de Dilma ou seu impeachment; agora, eles clamam pelo retorno dos militares, tacham suas vítimas de terroristas e fingem desconhecer o universal “direito de resistência à tirania”. Portanto, quem pegou em armas contra o regime autoritário, fê-lo exercendo esse consagrado direito. Pior é o Estado, que agiu subterraneamente, como agem os bandidos, torturando e exterminando pessoas desarmadas.

Quem defende torturadores e/ou pede a volta dos militares é ignorante ou malvado. Na primeira hipótese, merece alguma comiseração; mas na segunda, não. Deve ser execrado, como se execram os tiranos. Vade-retrocoisa-ruim!

FILIPE