sexta-feira, 7 de agosto de 2015

SEM PALAVRAS


“Não tenho palavras para descrever um momento tão belo!”

A frase acima deu título a uma série de imagens das Bodas de Diamante de meus pais postadas por uma irmã em sua página do “feice”. Não, não há mesmo palavras que deem conta disso. Comemorar ‘sessenta anos de comunhão conjugal’ não é para muitos. Os obstáculos vão desde causas naturais, como falecimento, a sociais e culturais, que resultam em separações.

Capítulo à parte, a cerimônia religiosa foi conduzida por sete sacerdotes, dentre eles, três (!) são filhos do casal. A capela de S. José, o Patrono da Família, ficou lotada, com gente de várias partes do país; alguns percorreram mais de mil quilômetros, apenas para participar desse evento. Havia parentes próximos e distantes; e amigos, muitos amigos.
  
Fato raro, que também deve ser registrado, foi a reunião dos “Moura Lima”. Em trinta e cinco anos, desde o nascimento do caçula, esta foi apenas a terceira vez em que se fizeram presentes os treze: papai, mamãe, agora de birote, e seus onze filhos. Uma foto para história da família!

Muito mais do que a “foto oficial” da “família Moura Lima”, há ali algo transcendente, que uma câmera fotográfica jamais pôde captar: a harmonia familiar. E não se pode considerar tal fato um mérito, porque nada fizemos para tão grande merecimento, mas uma graça divina. A nossa família, embora imperfeita como tantas, traz esse traço. Papai costuma dizer, cheio de júbilo: “A minha maior alegria é saber que meus filhos querem bem uns aos outros”, e acrescenta: “É muito triste ver irmãos brigados: às vezes, quando um chega, o outro sai, porque não conseguem permanecer no mesmo espaço”.

Meu pai tem razão. Nós, pelo menos agora, na maturidade, não trocamos xingamentos nem puxões de cabelo. No passado distante, porém... Mas deixemos pra lá esses rasgões, já há bem anos suturados pelo ‘cinto paterno’. Contudo, cada um de nós mantém lá suas manias e “entojamentos”. Caso dividíssemos cotidianamente o mesmo ‘quadrado’, não faríamos inveja a ninguém, nem sequer às famílias mais barraqueiras. Mas, convenhamos, vivendo assim, à distância, seria muita desfaçatez criar ou alimentar picuinhas, não acha?! Mas, parafraseando Caetano Veloso, “de perto, nenhuma família é normal”. E a nossa família não foge a essa regra “caetâneca”.

As noites na varanda de meu pai, durante o tríduo a que se tornara a comemoração das Bodas, foram de festa. Modinhas sertanejas, das mais genuínas, eram entoadas ao som plangente de um violão. Dentre as músicas do repertório sertanejo-raiz, destacaram-se os clássicos: ‘Menino da Porteira’, ‘Índia” e ‘ A Velha Porteira’. Até o saboroso ‘Franguinho na Panela’ – que saiu um pouco cru, porque desafinado – foi por todos degustado. Tudo isso fartamente servido à rega de um chimarrão divino, cuja erva-mate foi trazida por amigos do Sul, também presentes naquele doce mafuá.

A festa, que teve início na sexta-feira, com orações, cantoria e lançamento de livro, foi encerrada no domingo. Uma Celebração na nossa varanda, alguns emocionados depoimentos e o almoço selaram aquele ‘tríduo’, que já deixa saudades.

Nem palavras nem imagens podem exprimir a sublimidade desta “Caná”. Talvez apenas a memória de quem viu e viveu momento tão singular possa contemplar esses santos ‘Mistérios Gozosos’.


FILIPE

sexta-feira, 24 de julho de 2015

AO DOM CIPOLLINI

NOTA: Este texto foi encaminhado ao jornal "A Tribuma" de Amparo, edição de hoje.


Prezado Dom Pedro Carlos Cipollini, em diversas ocasiões ocupei este espaço para lhe fazer cobranças, mas nunca para ressaltar os seus muitos acertos à frente da diocese de Amparo. E por outras tantas, dirigi-me ao senhor através de e-mails, às vezes hostis, confesso. Mas no seu silêncio, com certeza, rezava por mim e pelo seu ministério. 

Certa feita, o senhor me convidou para uma conversa. Fui àquele encontro como quem caminha para o “sinédrio”, devo admitir. Aquela não poderia ser uma prosa de compadres. Estávamos em trincheiras opostas e a artilharia prometia ser pesada. Chegando à Cúria, um amável pastor recebeu sua “cabeçuda” ovelha – conforme se referiu a mim em tom amistoso – e conversamos por um tempo relativamente longo, a julgar pelos inúmeros compromissos de um bispo diocesano. Naquela oportunidade, pude me inteirar dos grandes problemas existentes num episcopado, alguns praticamente insolúveis. 

Dentre minhas tantas implicâncias com o senhor, uma era sobre a venda de bebidas alcoólicas nas quermesses. Na ânsia de ver esse problema resolvido, eu apelava para que se decretasse o banimento do nefasto comércio de “pinga” em todos os festejos de nossa diocese. Mas não me dei conta de que a Igreja é Comunidade. Para melhorar a Igreja, é preciso transformar a Comunidade, e isso não se faz via decreto episcopal. Cada um de nós é responsável pela mudança que queremos, e esse desejo há de ser plural ou não se transforma, jamais.Saí daquele encontro tomado de embevecimento, amado bispo. Vi, diante de mim, não um prelado que ocupa um alto posto na burocracia da Igreja Católica, mas um santo pastor. Um homem que reconhece seus limites e tenta acertar. A partir daquele dia, nunca mais lhe mandei e-mails desairosos e muito menos publiquei algo neste semanário que lhe pudesse ser ofensivo.

A vida do senhor tem passado por mudanças profundas. Recentemente, foi eleito para um importante cargo junto à CNBB. Agora, transferido de Amparo, já toma posse na Diocese de Santo André – uma das mais importantes do país em números de fiéis, além de ter uma bela história em defesa da democracia nos inglórios tempos da ditadura militar. A sua responsabilidade, que já era grande, agigantou-se. Nesta nova seara, espero que o senhor continue exortando o clero a adotar em suas práticas a pouco lembrada Doutrina Social da Igreja. Porque a nossa Igreja não pode fazer concessões aos poderosos, que vivem às custas do suor e das lágrimas dos empobrecidos, mas precisa caminhar com o povo, para que o Reino cresça e floresça para todos. 

Dom Pedro Carlos, tenha certeza de que, seguindo os passos do Papa Francisco e à luz do Evangelho, todos os seus esforços serão plenos de êxito. E para tanto, pode contar minhas preces.

OBS: Minha conversa com D. Pedro foi contemplada em postagem intitulada “Armistício”, publicada neste blog. 

FILIPE

sexta-feira, 10 de julho de 2015

MEU AVÔ SEBASTIÃO

NOTA: Este texto está no novo livro de meu pai.


Sebastião Lopes de Lima, conhecido por Bastião Lope, viveu relativamente pouco, pois falecera aos setenta e, aparentemente, com boa saúde. Desses setenta anos de vida, seguramente sessenta foram de trabalho duro, sem férias, folgando apenas aos domingos e olhe lá... Num sábado, véspera de sua morte, trabalhara até à tardezinha roçando um pastinho onde ficava o Queimado, seu cavalo de cela e charrete. Morrera a caminho da igreja, num domingo, onde assistiria a uma missa matinal.

Vovô Sebastião era famoso por ser homem trabalhador, bem-sucedido e “sistemático”. Muita gente se referia a ele com este adjetivo, não sei se em elogio ou crítica. Eu o admirava e até me esforçava para ser como ele: de poucas palavras, pouco riso, quase turrão, mas respeitado. No entanto, não consegui ser nada do que foi meu avô.

Madrugador, penso ser o vovô Sebastião o único homem que nunca fora despertado pelos raios solares. Quando o sol aparecia no horizonte, o vovô já estava a desdenhá-lo no serviço: tocando gado, carreando, ordenhando as vacas ou capinando. A minha avó Luzia, ao se levantar, já encontrava seu café na chaleira sobre a trempe do fogão a lenha, bem quentinho. Vovô foi muito cuidadoso com sua companheira, sempre a tratando com carinho e mimo. Prova disso é a “casa na rua”, que ele comprou para que ela tivesse mais conforto. Minha avó mudou-se para a “rua” com uma filha, enquanto vovô passava a semana no sítio, cuidando de suas vaquinhas, porcos, galinhas e de um moinho d’água. No sábado à tarde, ele marchava para sua casa na cidade, permanecendo por lá o final de semana. Mas, no amanhecer da segunda-feira já regressava à sua fazendinha.  Quando havia a “bateção” de pasto, minha avó vinha para o sítio com ele a fim de cozinhar para a companheirada. Nessa ocasião, uma dezena de camaradas, todos com foice, chegava bem cedinho no terreiro da “fazenda”, recebia as instruções e partia para o serviço. Em poucos dias, a pequena herdade do Bastião Lope estava limpinha de vassourões, erva-canudos e outros matos que não fossem capim-jaraguá e capim-gordura, que alimentavam o gado. Durante aquele serviço, os roçadores folgavam em cantoria do começo ao fim do dia. Enquanto as foices bailavam pra lá e pra cá, eles contavam piadas, faziam chacotas um do outro e cantavam uma espécie de repente denominado “calango-tango”, em que se trocam versos improvisados. Para começar, era comum alguém cantar: “Eh foicinha regateira, tá com esprito da gerarda!”

Cedo, às vezes com a relva ainda molhada pelo orvalho, o vovô já chegava com o almoço. Um enorme cesto era posto à sombra de uma árvore e dele se tiravam incontáveis caldeirões de comida. A boia era farta e rica, o que fazia atrair muitos companheiros para seu serviço. Então, cada caboclo pegava seu caldeirão e fazia a refeição sentado sobre o cabo da foice ou numa “almofada” de mato cortado. Vovô não economizava na carne de porco, torresmo, queijo e ovos. Aliás, o queijo frito, uma de suas especialidades, era a iguaria mais apreciada. De sobremesa, rapadura e queijo.
                             
Eu mesmo cheguei a trabalhar para o vovô, catando café embaixo do cafeeiro. Ele me dava uma daquelas latas de “Gordura de Coco Carioca”, de dois litros, para encher. Para cada lata cheia, eu ganhava uma moeda. Às vezes eu ficava uma tarde inteira para encher uma única lata, e me dava uma preguiça... Certa vez, ele me deu a lata vazia e uma moeda, dizendo: “Companheiro meu trabalha já com o ordenado no bolso”. Talvez desconfiasse de que eu não desse conta do serviço, mas, com pagamento antecipado, eu não poderia me esquivar. Então, fui à luta e enchi rapidinho aquela vasilha com os grãos de café. Noutros tempos, era o galinheiro que deveríamos fechar aos sábados, quando ele ia para Guiricema. Às vezes ia o irmão mais velho, o mais novo ou eu mesmo. Certa vez, vovô recompensou-nos com lindos chapéus de palha coloridos.

Outro presente do vovô Sebastião foi a Princesa, uma bezerrinha branquinha e filha de uma vaquinha amarela de nome Cocada. A Princesa nos deu muita alegria, muitas crias e nenhum coice ou chifrada. Seu leite era disputado, pois diziam ser o mais saboroso da fazendinha. O fato é que a Princesa era diferente mesmo. Seu charme, além da docilidade, eram suas cinco tetas, sendo duas geminadas.

Mas, no dia em que eu completava doze anos, vovô Sebastião faleceu. Eu estava na casa de meus avós maternos, quando uma tia me chamou e disse: “O seu avô Bastião Lope morreu!” Lá havia uma festinha, pois um tio, com quem faço aniversário, sempre me levava para festejar com ele. Mas a nossa festa, que ficou sendo a última, acabou para que fôssemos ao velório de meu avô. E desde então, o meu aniversário tornou-se particularmente um dia triste.


FILIPE

sexta-feira, 26 de junho de 2015

OBSESSÃO

Dólar barato, real supervalorizado e exportações minguadas. Fora, Dilma!
Dólar caro, real desvalorizado e nó nas importações. Fora, Dilma!

Governo desonera produtos de linha branca. Fora, Dilma!
Governo cessa isenção de IPI para automóveis. Fora, Dilma!

Preços de mercadorias disparam. Fora, Dilma!
Gôndolas abarrotadas e mercadores enricados. Fora, Dilma!

Crise hídrica no Nordeste e cheias na Bahia. Fora, Dilma!
Seca no Sudeste e torneiras secas em São Paulo. Fora, Dilma!

Falta professor nas escolas municipais e estaduais. Fora, Dilma!
O aluno não sabe ler e seu professor, escrever. Fora, Dilma!

TCU convoca presidente para explicar suas contas. Fora, Dilma!
TCE paulista aprova contas do governador Alckmin em 90 minutos. Fora, Dilma!

O TCU tem desafetos políticos da presidente. Fora, Dilma!
O TCE paulista é composto por aliados do governador. Fora, Dilma!

Presidente pedala sua bike no Alvorada. Fora, Dilma!
Pedaladas fiscais são praticadas desde FHC. Fora, Dilma!

O HSBC fez acordo para pôr fim às investigações contra seus clientes. Fora, Dilma!
A Operação Zelotes e seus vinte bilhões entram em dormência. Fora Dilma!

A Polícia Federal tem autonomia para investigar petistas. Fora, Dilma!
A Polícia Federal está subordinada ao ministro da Justiça, que é petista. Fora, Dilma!

Lula ganha 300 mil por palestra de uma hora e meia. Fora, Dilma!
FHC cobra 100 mil por palestra. Fora, Dilma!

Aécio dá palestra nos bares de Ipanema por uma dose de uísque. Fora, Dilma!
Zé Serra tenta dar palestra de graça. Fora, Dilma!

O prefeito de Amparo espalha borra asfáltica nos centenários paralelepípedos. Fora, Dilma!
Em Ouro Preto, outro tucano borra as setecentistas ruas de pedras pés de moleque. Fora, Dilma!

Meio milhão na Parada Gay e Marcha das Vadias nas ruas de Sampa. Fora, Dilma!
Imprensa anuncia protestos nas capitais. Fora, Dilma!

O “tucano” Jô Sares entrevista a presidente. Fora, Dilma!
O “petista” Jô Soares se declara anarquista. Fora, Dilma!

Presidente da Odebrecht é preso pela PF. Fora, Dilma!
Odebrecht financiou PT, PSDB e seu dono votou em Aécio. Fora, Dilma!

Eduardo Cunha, rei da oposição, promete shopping de um bilhão. Fora, Dilma!
Congresso aprova aumento nos salários de parlamentares. Fora, Dilma!

Ricos batem panelas Le Creuset de R$ 2.000,00. Fora, Dilma!
Periferia faz marmitaço na laje. Fora, Dilma!

Os ‘companheiros’ renegam princípios fundantes, pondo em xeque conquistas históricas. Fora, Dilma!
Tucano, com ‘síndrome de abstinência’, quer o poder – pelas urnas ou pelas armas. Fora, Dilma!

Bem, amigos... “Veja” no Jornal Nacional... Se liga na Globo, seu bobo. Fora, Dilma!
Fora, a corja de incendiários desaforados! Dilma fica.

FILIPE

sexta-feira, 12 de junho de 2015

BODAS DIAMANTINAS

Papai está indo para os oitenta e cinco; mamãe, recentemente, completou setenta e seis; e em julho próximo, Deus querendo, eles hão de celebrar sessenta anos de casados.  Sessenta anos! Quase não acredito, mas é verdade. Meu Deus, como o tempo passou! Há pouco, bebês brotavam no quarto ao lado e ainda ouço choros cindindo as madrugadas, mas aplacados com o seio materno ou com o paterno mingau de fubá numa mamadeira.

Cena recorrente, aquela: a um tênue gemido se seguia um riscar de fósforos. Papai sempre deixava ao lado da cabeceira de sua cama uma lamparina e uma caixa de fósforos para essas e outras providências. Parece ontem, mas esta memória traz meio século de nossa história. Acesa a lamparina, papai se dirigia à cozinha para preparar, quando não o dito mingau de fubá – que era o menu principal de sua trezena prole –, um chá de erva-doce para aquele rebento chorão.

Nas minhas conversas com o Velho, costumo dizer: “Pai, nós, que já envelhecemos, sabemos que as coisas não funcionam assim (...)”. De certa forma, essa intimidade etária me deixa orgulhoso. A idade, além da velha e surrada experiência, lega-nos algum glamour.

Papai está animado, parece uma criança esperando ansiosa pelo aniversário, que demora para chegar, e em sua página do “feice”, sempre alude ao evento que se aproxima. Ele não diz, mas sinto sua impaciência e quase leio o que pensa: “Tá demorando muito, não chega nunca...”. Calma, pai, estamos quase lá.

Mamãe é uma incógnita e parece alheia a tudo. Quem a vê, pensa isso, mas se engana. Para compreendê-la, é preciso ser iniciado no assunto. Talvez seja necessário fazer um ‘curso intensivo’ com papai e um pequeno ‘estágio’ com mamãe na casa dela. Somente assim se perceberá sua perspicácia e verá que aquele ‘jeito alienado’ é para enganar trouxas. Uma prova disso? Recentemente, enquanto papai conversava com os ‘amigos e amigas’ do “feice”, mamãe disse apontando o indicador para o seu “Cabeça Branca”: “Sei lá que é aquilo. Ele fica cochichando ali...”. Provocada a usar o computador, defendeu-se enfática: “Ih, sei mexer com aquilo não, menino. Eu, não. Não quero e não vou de jeito nenhum!”

Figura de proa de nossa família, mamãe é destaque no segundo livro de papai, que acaba de ser encaminhado à gráfica. Sob cuidadosa e refinada revisão de meu irmão sacramentino, o livro ostenta na capa a imagem de minha mãe. Em suas páginas, com narrativa digna de um ‘Guimarães Rosa do Rio dos Bagres’, papai descreve várias e instigantes passagens da vida de sua companheira de “Lutas e Vitórias” nessa longa e abençoada jornada.

Diamante vem da palavra grega “adamas”, que significa força e eternidade. E as bodas de meus pais são mesmo de diamante! Mas não poderia ser diferente, pois nestas bodas, como naquela diminuta rocha carbônica, há um misto de simplicidade, beleza, dureza, preciosidade e pureza que, juntas, formam uma singular unidade.

Bodas... Sexagésimas e diamantinas bodas!

FILIPE





sexta-feira, 29 de maio de 2015

IDADE PENAL

Artigo publicado no jornal "A Tribuna" de Amparo  

Tal como o articulista que me antecedeu neste espaço, também não sou candidato a nada, e ainda que candidatasse, com certeza não me elegeria. Escasso de talento e fraco de intelecto, reservo-me à triste alternativa de espectador da história. Embora eu assista atônito a esse turbilhão que nos redemoinha e tonteia, torço para que este planeta seja mais habitável e a humanidade mais sã. Além dessa torcida – que se faz vã, reconheço – acrescento alguns resmungos, igualmente vãos, como os que se seguem.

Desde o século passado, na atividade docente, lido com pessoas nos seus melhores anos: dos doze aos dezessete. É nessa faixa etária que cada um constrói (ou destrói) o mundo em que viverá. Nessa idade, é inevitável alguns arroubos, mas é preciso ter preparo para lidar com a situação, pois o universo do adolescente é meio complicado: cheio de mitos e medos. Natural que vivendo assim, tão assombrosamente, periga fazer besteiras. Devagar, bem devagar com essa moçadinha! Mas o problema não são os eventuais rompantes, que deverão ser refreados com necessárias e bem dosadas energia e ternura. É da natureza do jovem “forçar a cerca”. Ao adulto cabe, portanto, “reforçar essa cerca”, impor fronteiras. A fim corroborar meu ponto de vista, proponho a seguinte situação.

Um jovem, menor de idade, afronta um senhor, discutem e partem para as “vias de fato”, atracando-se. O menor leva vantagem na refrega socando aquele senhor, que procura a Justiça. E eis que surge, sem demora e rugindo com o “ECA nos dentes”, alguém para defender aquele “menino”. Pela lei, o infortunado senhor, caso não prove inocência, será severamente punido. Já o “coitadinho”, liberado por ser “criança” e podendo, inclusive, receber alguma indenização por danos físicos e morais.

Mais: o artigo anteriormente publicado diz que, “em números globais, os crimes praticados por menores representam ‘apenas’ dez por cento do total” (grifo meu). A meu juízo, o suficiente para se repensar a maioridade penal. Acrescento: estatísticas conservadoras apontam em ‘um por cento’ a participação de menores em homicídios no país. Como são mais de 50 mil assassinatos a cada ano, quinhentas dessas pobres almas são “despachadas” por menores.

Embora a campanha pelo rebaixamento da maioridade penal tenha se tornado bandeira da direita tapuia, penso que se deva depurá-la de ideologias fascistas e debatê-la com a seriedade necessária. Quando se propõem penas mais severas a menores infratores, diversamente do que bradam os críticos da medida, não se apenarão crianças. Mas jovens, com dezesseis ou dezessete anos, dotados de discernimento e fisicamente capazes. Alguns deles – imersos na criminalidade – desacatam autoridades, agridem pais e mestres, estupram, matam.  

Por essas, penso ser urgente a reforma da legislação, rebaixando-se a idade penal. Não somente devido aos crimes hediondos, que requerem leis próprias, mas à criminalidade em geral. É ponto pacífico que jovens não podem ser trancafiados com adultos. Então, que se faça a reforma prisional, construindo-se “xadrezes temáticos” para atender às necessidades e “vocações” de cada delinquente, conforme a natureza do delito, faixa etária etc.

Teorizam-se, à exaustão, sobre as circunstâncias do crime, suas motivações e necessidade ou não da reclusão de certos criminosos. Na ausência de respostas efetivas ao problema, defendo o encarceramento, sem trégua, de quaisquer indivíduos que representem risco à sociedade, não importando se “dimaior” ou “dimenor” – com o devido perdão pelo mau vernáculo.

FILIPE   

sexta-feira, 15 de maio de 2015

ABELHUDO


O Velho estava aperreado. “Coinfeito!”, dizia e repetia para mim e para si enquanto examinava a tela de seu computador. Não é bem isso que ele diz quando está bravo, mas é o que sempre entendi ao longo da vida em delicados e perigosos momentos como aquele. No seu vocabulário, “coinfeito” exprime aborrecimento com alguém que fez “arte” e merece apanhar.

Eu chegava do ranchinho, quando me deparei com o Mano Véio na varanda de casa. Havia chegado naquela tarde e já estava no computador do pai, animado e proseador, enquanto páginas eram abertas e fechadas freneticamente. O pai chegou devagar e o espiou à distância, desconfiado, esticando o pescoço para tentar ver algo na tela. Olhava para mim, para o computador, para o Mano, mas não disse palavra.  Quem falou algo foi o Mano, que deu umas explicações ao Velho. Aliás, este irmão gosta de explicar as coisas e costuma ser bem-informado mesmo – justiça lhe seja feita. Mas, parece que desta vez ele falhou.

“Pai, o computador está infectado por um vírus terrível!” “Mas ele tá funcionando comigo...”  “Não, pai. Tem um vírus e vou limpá-lo para o senhor. Aqui, pai, tá vendo?... Vou dar este comando. Aí, vai aparecer aquele ícone, tá vendo? Então, eu vou inserir...  Pronto, inseri. Agora apareceu uma vassourinha, tá vendo? Esta vassourinha é que vai limpar o seu computador”. “É, tô vendo uma coisa ali, mas parece uma trincha.”  “Então, pai, parece trincha, mas é uma vassoura que varre tudo e deixa limpinho e sem vírus. Vou dar enter e é só aguardar uns minutinhos. Agora eu vou sair para o Corgo Preto. Mas é só reiniciar, que vai ficar uma beleza.”
Aqui, um pequeno parêntese: o nome do simpático arraial é Vilas Boas, embora alguns falem Corgo Preto e quase todos nós, Cor Preto.

O tempo passou, o computador não proseava e o pai me pediu socorro. “O que tá acontecendo aqui? O meu “feice” não entra de jeito nenhum!” “Ih, pai, eu não entendo desse negócio de vírus não. Ele é quem sabe, mas vou ver o que aconteceu.” Posicionei-me diante da máquina, ajeitei a cadeira, dei umas estaladas nos dedos e comecei a mexer no teclado. Havia dito que não entendia nada, mas nesse momento cheguei até mesmo a ficar metido, confesso. A modéstia seria apenas motivo para valorizar meus ‘ricos conhecimentos em computação’. Mas, como a mediocridade é mais forte do que a vaidade, não consegui resolver bulhufas. E o computador engasgou de vez, não acessando a tal da net nem por macumba braba.   Arrisquei: “Que tal a explorer?”  Bingo! A explorerfuncionou, mas muito lenta. “Ah, não. Eu quero o GoogleChrome”, reclamava um magoado papai cheio de razão.

É, a tal vassoura do Mano Véio é boa mesmo. Varreu tudo do computador, não deixando nem o “feice” do papai. Desinstalado nessa varrição, o Google Chrome fora para o lixo. E o pai teria que esperar pela sua reinstalação por longo tempo: atravessaria todo o sábado, o domingo inteiro para, somente na segunda-feira, buscar socorro num especialista de verdade. E assim se fez.

Quando pequeno, há muitos e muitos anos, ouvia mamãe gritar com seu primogênito: “Isto é pra você deixar de serabiúdo!” Eu queria saber o significado daquela palavra, mas, por razões óbvias, tinha medo de perguntar à mãe, se é que me entendem. Mas o moleque era mesmo um ‘mexilhão’: mexia em tudo, um abiúdo.

Engana-se, porém, quem pensa que estou aqui a espinafrar o Mano Véio. Da irmandade, é dos mais generosos e foi graças a ele que o pai se tornou um internauta. Providenciou para o Velho um notebook, a conexão com a internet e agora já está ensinando o pai a usar antivírus.

FILIPE