sexta-feira, 2 de outubro de 2015

DESAMPARO

Artigo enviado ao jornal "A tribuna", edição de hoje.


A oitocentista Amparo, que foi palco de grandes acontecimentos como os movimentos abolicionista e republicano em fins do século XIX, do embate entre constitucionalistas paulistas e as tropas federais de Getúlio em 1932, e até do Congresso Eucarístico de 1944 além de outras efemérides, está cada vez mais reduzida à memória. A Amparo que hoje se vê não passa de um borrão perante a que fora num passado distante. A rica arquitetura com soberbos casarões, as ruas arborizadas, as calçadas de paralelepípedos, os postes de iluminação, o Teatro João Caetano, os cinemas, tudo isso tornou-se apenas uma fotografia desbotada de uma Amparo outrora pujante. Quando ouço Caetano Veloso cantar “da força da grana que ergue e destrói coisas belas” – verso de sua antológica “Sampa” – penso em Amparo. Alguém ergueu esta monumental cidade para, tempos depois, ser espoliada por uma elite avara que, tal como o mitológico Midas, quer transformar tudo em ouro – aquele ‘vil metal’, conforme definem os poetas. E a desdita segue inexoravelmente seu curso. Vejamos.

Há anos que o histórico Museu Bernardino de Campos, um dos mais importantes do estado de São Paulo, encontra-se fechado para reformas. Durante a campanha eleitoral, no final do ano passado, houve um movimento do tipo “agora vai”, mas que não foi. Durante aquela malfazeja “onda azul”, chegaram a iluminar o prédio junto a um pomposo outdoor com logotipo do sempre ‘governador-candidato’, que mais uma vez venceu a eleição com apoio das forças políticas locais. Findas as eleições, findaram-se os ânimos, apagaram-se as luzes e morreram as esperanças. O museu voltou a “dormir”, sonhando ser despertado, talvez quem sabe, na próxima “ventania” eleitoral, quando suas portas abrir-se-ão sorridentes ao agradecido, mas sempre enganado eleitor.

De vez em quando, outras portas são fechadas temporária ou definitivamente. Um posto de saúde, um programa cultural ou uma creche pronta para funcionar, mas ainda inativa, talvez à espera de uma ribalta para iluminar o “benfeitor” num momento oportuno. E tem mais.

Num país em que poucos têm acesso a bons livros, o riquíssimo acervo da Biblioteca Municipal de Amparo ficará indisponível aos sábados, devido a um programa de “contenção de despesas”. Já em São Paulo, apesar da “crise”, o prefeito Fernando Haddad determinou que a Biblioteca Mário de Andrade funcione por vinte e quatro horas, todos os dias.

Não bastassem os inconvenientes e frequentes cortes de árvores, a cobertura asfáltica de centenários paralelepípedos e tantos outros despautérios urbanísticos, a vida cultural de Amparo é afetada e se torna cada vez mais pauperizada. Porém, se há recursos para contratar funcionários comissionados, cujos cargos são questionados pelo Ministério Público e barrados na Justiça, por que não investir mais em cultura?

Amparo, que já teve Carnaval, Festival de Inverno e poderia lançar uma Feira Literária, agora retrocede.  O Festival de Inverno foi mutilado; do Carnaval, poucos se lembram, porque há uns três anos, acabou; a Biblioteca fecha aos sábados; a Feira Literária... Bom, isso é apenas um delírio deste escriba insone, que lamenta ver esta cidade desamparada.


FILIPE


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

MINHAS MANHÃS

O dia nasce prazenteiro. No pé de acerola, a passarada festeja numa babel em que todos, como os mineirinhos, falam ao mesmo tempo e assim se entendem. Eu, que entendo os mineiros, não compreendo nada do que dizem os passarinhos. São os mais variados bicos, idiomas e plumagens. Há também um casal de pombinhas silvestres querendo nidificar nessa árvore. Estes não têm capricho e seu ninho não passa de um amontoado de gravetos. Mas como são belas as juritis! Bebo cada gota desta manhã, que mal começa e já envelhece. Uma brisa sopra levemente, levando com ela minha manhã e a minha inspiração. Ainda há pouco era noite escura.

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Passaram alguns dias desde o início desta crônica. As pombinhas já fizeram o ninho e uma delas está sempre em repouso. Neste momento vejo o casal: ele cofia as penas, enquanto a companheira continua aninhada e vigilante. Um pássaro de outra espécie vem xeretar, mas não há conflito entre eles. De tão amistosos, parecem velhos compadres. Os nubentes talvez não deem conta do perigo que mora embaixo. Espreitam-nos três cães: Pituka, Tokinho e Tiziu, que não se compadecem de bicho de pena. Este último compôs a matilha recentemente. Vagava por uma rodovia, prestes a partir para o ‘Paraíso dos Bichos’ – se é que existe um paraíso para eles. Acredito que sim, porque o Criador não os deixaria no ‘limbo’. No fim dos tempos, todos nós nos encontraremos na ‘Comunhão das Criaturas’. Assim penso, embora esta minha teologia seja tola para os doutos, reconheço e não me importo.

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Volto à crônica. Enquanto o Tiziu duela com a Pituka, observo o ninho das pombinhas. No rádio, uma orquestra, acho que de Viena – se não de Viena, de Berlim. Gosto de citar orquestras germânicas, porque elas parecem agregar sofisticação aos meus textos (!). No pé de acerola, outra orquestra menos sofisticada do ponto de vista humano: bicos, muitos bicos, emitem seus tons e semitons sem necessidade de maestro nem batuta. Aqui dentro, apenas Tokinho e eu. Nem sei se Tokinho está ouvindo as orquestras. Parece mais preocupado em destruir um chinelo, que já foi meu e que Tiziu pegou emprestado para “consertar”, devolvendo-o sem correia. Mas a pombinha continua lá, pensativa, desconfiada de mim e sonhando com dois ‘biquinhos’. E já se foi mais uma manhã.

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Retorno após uns dias. No aparelho, João do Morro & Pé de Serra cantam ‘Prato do Dia’: uma ode à bravura dum pai de família frente a um cafajeste.  Os cães saíram e me deixaram. No rádio, agora é a dupla Duo Guarujá com “Cabecinha no Ombro”. Na aceroleira, uma mãe toda feliz alimenta dois pimpolhos.  Encantadora manhã! Mas, que se vai.

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Estou de volta. Tokinho masca uma coisa preta e redonda parecida com um pastel: meu finado chinelo. Lá fora, um bater de asas me desperta da leitura e um dos filhotes é predado. Não há tempo. O corpinho desfalece e o bico sangra. Ah, Tiziu! Mas o irmãozinho escapa. Vai crescer, emplumar-se e partir.  Poderei observá-lo durante todo o estágio: o primeiro voo cambaleante, o choque com os galhos, a queda... (um alambrado salvando vida!). Deste lado, os caninos da Pituka furiosamente brancos. Do outro lado, olhos arregalados, corpinho trêmulo, asas em desconcerto.

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Finalizo finalmente. No velho ninho, outra pombinha, que trará novos pombinhos. E em tempos de crise, tudo se aproveita, não é juriti? Mas cuidado com o Tiziu! É mais uma manhã que passa, como passam as juritis, seus ninhos mal feitos, seus filhotes e seus tristes cantos. Passam as manhãs, passamos nós. Tudo é tão fugaz... Como a vida, os amores juvenis e os ninhos das juritis.


FILIPE

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

PAINEL DA FOLHA

PAINEL DO LEITOR DA FOLHA DE S. PAULO – (texto integral)

26/08 
Em relação à carta do leitor Alessandro Alves de Souza (Painel do Leitor, 25/8), a Secretaria da Educação do Estado esclarece que valorizar a educação é prioridade. Hoje, 98,7% dos alunos com sete anos já sabem ler e escrever, um ano a menos do que a meta nacional. Índices como o Idesp mostram avanços em todos os ciclos de ensino. Nos Anos Iniciais, o crescimento é de 20,2% na comparação entre 2010 e 2014. A política de valorização ainda garante aos docentes oportunidade de evolução funcional como a valorização pelo mérito, que permite reajustes anuais de 10,5% e pagamento de bônus por desempenho.
Valéria Nani, assessora de imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (São Paulo, SP)

28/08
Não é verdadeira a informação dada por Valéria Nani, da Secretaria de Educação de São Paulo, de que os professores paulistas têm "reajuste anual, por mérito, de 10,5%". A prova, que dá acesso a tal promoção, é trianual e essa promoção atende a um número exíguo de docentes. Isso devido a critérios cada vez mais excludentes impostos pela pasta.
Felipe de Moura Lima, professor (Amparo, SP)

30/08
Em relação à carta do leitor Felipe de Moura Lima (Painel do leitor, 28/8), a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo esclarece que a prova de Valorização pelo Mérito possibilita, além de um aumento salarial, um crescimento na carreira dos professores. Feito anualmente, o exame possibilita aumento de 10,5%, concedido aos profissionais aprovados, dentro dos critérios amplamente divulgados. Somente nesta edição, mais de 73 mil docentes da rede estadual farão a prova.
Valéria Nani, assessora de imprensa da Secretaria da Educação do Estado (São Paulo, SP)


31/08
A assessora da Secretaria Estadual da Educação, Valéria Nani, continua desinformando (Painel do Leitor, 30/8). As provas de promoção por mérito são anuais, mas os professores que a fazem com êxito têm de cumprir interstício de três longos anos para um novo certame. Ainda: "critérios amplamente divulgados" não significam necessariamente critérios justos.
Felipe De Moura Lima, professor da rede estadual (Amparo, SP)

                                      
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O leitor deste blog, se é que ainda o tenho, tire suas conclusões. Se o governo do estado de São Paulo, através dos gestores da Secretaria da Educação, mente desavergonhadamente sobre coisa tão banal como evolução funcional, o que dizer de algo mais complexo como verbas, contratos etc. etc. etc.? O pior nessa bagaça é a crise de representatividade. A Folha de S. Paulo publica provocação aos professores, de uma ‘assessora’ do PSDB, e não aparece um líder sindical para replicá-la?! É claro que o PT está irrecuperavelmente bichado, e a CUT sem norte nem leste, mas o sindicato deveria ser mais aguerrido.

Não é à toa que Geraldo Alckmin está cada vez mais pimpão na mídia. Sem Pedra de Tropeço, ele faz e fala o que quer. Durante a mais longa greve na educação paulista, naqueles já distantes meses de março, abril e maio, Alckmin dizia que somente em julho é que negociaria. Julho passou, atravessamos agosto, estamos em setembro e nada. Novidadeira mesmo só sua afirmação, também não rebatida, de que “o PT é uma praga que deve ser exterminada”. Coisas do gênero podem ser ditas no boteco – entre um conhaque, um torresmo e uma cachaça – pelos ébrios. Mas nunca por quem se diz democrata e tem fumos de estadista. Não é, seu Geraldo?


FILIPE

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O AMIGO INDIGNADO

Por tempos não o via. Ao encontrá-lo, quis falar sobre tudo, conforme nosso velho costume: religião, família, música, o tempo etc. Uma conversa de sempre, amena, com os semblantes serenos.  Mas, desta vez, o assunto começou com ‘política’, e adeus serenidade! De cenho franzido, ele foi logo dizendo: “Não entendi, não pode ser. O que você vê na Dilma para defendê-la assim tão radicalmente?” Eu queria responder, mas ele não permitiu que o interrompesse. Quis continuar, completar seu arrazoado. “Aqui, eu não vejo jornal na Globo. Assisto ao jornal da Bandeirantes e lá há pessoas sérias, mas só apontam sujeiras. O que esse PT faz e o que essa Dilma tem feito...  Até onde vai esse trem, sô? Eu queria que você fosse sensato e não ficasse assim, defendendo essa gente.” “Mas, a mídia domina tudo!...” Tentei, mas fui interrompido e resignei-me a ouvir o amigo indignado. “E tem mais. Você, eu me lembro, sempre defendeu o MST, que só invade e destrói. O que esse pessoal fez de bom até agora? Nada! Olha, eu gosto do seu blog, gosto de ler suas crônicas, mas quando você se mete a escrever sobre política..., dá vontade de nem abrir mais, deixar pra lá.” Aproveitei uma brecha e arrisquei: “Quando escrevo, acho que eu não deveria pensar assim, levo em conta o leitor. Quero que ele continue acessando.”  “Ah, meu caro, você pode até pensar nos outros, mas em mim você não pensa. Senão, não ia ficar escrevendo bobagens, uai! Me desculpe. Às vezes tenho até vontade de postar um comentário, mandar um e-mail, mas penso: ‘vou ofender meu amigo’. Então, deixo pra lá.”

Esse pequeno diálogo com o amigo-leitor foi emblemático, pois ficou subentendido que eu devesse ser mais sutil. Que eu não fosse assim tão explícito na defesa de alguém que, no seu ponto de vista, não faz jus a tal deferência. Na oportunidade que me surgiu disse a ele que, embora eu tivesse lido e gostado da biografia da Dilma, não sou tão devoto dela. Confessei minha dificuldade para votar nos primeiros turnos, o que não ocorreu nos segundos. Em sua reeleição, por exemplo, não havia escolha, pois quem estava no páreo era um cafajeste – um Collor redivivo. Disse-lhe também que entendo suas críticas e lamento os dissabores de outros leitores que, sendo poucos, tendem a desaparecer. Mas...

Dias desses, paguei 70 “pilhas” a um “barnabé” com diploma de doutor para dar uma carimbada nuns documentos. O cara, que não fez outra coisa além do descrito, tentou puxar conversa para... Falar mal da Dilma! Talvez tentasse ser simpático, querendo justificar o honorário ganho em dois ou três minutos de trampo. Disse ele que uma ‘ditadurazinha militar’ não faria mal ao país. O cara é grisalho, já viveu, estudou e vem com esse papo... Apenas afirmei que não há ‘ditadura sem tortura’, ao que me respondeu: “Não, tem que ser uma ditadura moderna!”

Doutra feita, outro doutor, para justificar os 300 “pixulecos” de uma consulta, mediu minha pressão, perguntou sobre minha labuta e, na falta de assunto, arrematou: “Não tem jeito com esse país não. Enquanto esse PT estiver lá, vai ser esse caos!” Caos para quem? Para ele com seus milhões e passando férias na Europa?...

A última. Numa tarde de sábado, passando por um salão com a tevê sintonizada na Globo (aliás, aonde quer que eu vá, só dá Globo. Que saco!), vi aquele ‘Luciano Huck’ – que não conheço, mas sei que tem praia particular (proibida por lei) – anunciando um “0500” para “melhorar o Brasil”. Segundo o solerte apresentador, neste país há muita miséria, injustiça social etc. Mas para acabar com isso é preciso ligar para o ‘0500’, pois somente assim a coisa melhora.

Finalizando, seria bom sabermos que as grandes mídias são patrocinadas pelos grandes bancos, que financiam as grandes campanhas eleitorais. E que a família Setúbal, dona do Itaú e que tem como hobby bater panela na Paulista, deve R$ 19 bilhões ao Fisco (ver “Golpe de Estado”, de Palmério Dória e Milton Severiano, p.19 – Geração Editorial).  

Uma pergunta. Quantos banqueiros foram presos pela Lava-Jato até o momento?  Não, amigo, eu não me engano e continuarei no “front”. Escreverei quixotescamente sobre tudo o que me aflige, pois este é meu último respiro.


FILIPE

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

SEM PALAVRAS


“Não tenho palavras para descrever um momento tão belo!”

A frase acima deu título a uma série de imagens das Bodas de Diamante de meus pais postadas por uma irmã em sua página do “feice”. Não, não há mesmo palavras que deem conta disso. Comemorar ‘sessenta anos de comunhão conjugal’ não é para muitos. Os obstáculos vão desde causas naturais, como falecimento, a sociais e culturais, que resultam em separações.

Capítulo à parte, a cerimônia religiosa foi conduzida por sete sacerdotes, dentre eles, três (!) são filhos do casal. A capela de S. José, o Patrono da Família, ficou lotada, com gente de várias partes do país; alguns percorreram mais de mil quilômetros, apenas para participar desse evento. Havia parentes próximos e distantes; e amigos, muitos amigos.
  
Fato raro, que também deve ser registrado, foi a reunião dos “Moura Lima”. Em trinta e cinco anos, desde o nascimento do caçula, esta foi apenas a terceira vez em que se fizeram presentes os treze: papai, mamãe, agora de birote, e seus onze filhos. Uma foto para história da família!

Muito mais do que a “foto oficial” da “família Moura Lima”, há ali algo transcendente, que uma câmera fotográfica jamais pôde captar: a harmonia familiar. E não se pode considerar tal fato um mérito, porque nada fizemos para tão grande merecimento, mas uma graça divina. A nossa família, embora imperfeita como tantas, traz esse traço. Papai costuma dizer, cheio de júbilo: “A minha maior alegria é saber que meus filhos querem bem uns aos outros”, e acrescenta: “É muito triste ver irmãos brigados: às vezes, quando um chega, o outro sai, porque não conseguem permanecer no mesmo espaço”.

Meu pai tem razão. Nós, pelo menos agora, na maturidade, não trocamos xingamentos nem puxões de cabelo. No passado distante, porém... Mas deixemos pra lá esses rasgões, já há bem anos suturados pelo ‘cinto paterno’. Contudo, cada um de nós mantém lá suas manias e “entojamentos”. Caso dividíssemos cotidianamente o mesmo ‘quadrado’, não faríamos inveja a ninguém, nem sequer às famílias mais barraqueiras. Mas, convenhamos, vivendo assim, à distância, seria muita desfaçatez criar ou alimentar picuinhas, não acha?! Mas, parafraseando Caetano Veloso, “de perto, nenhuma família é normal”. E a nossa família não foge a essa regra “caetâneca”.

As noites na varanda de meu pai, durante o tríduo a que se tornara a comemoração das Bodas, foram de festa. Modinhas sertanejas, das mais genuínas, eram entoadas ao som plangente de um violão. Dentre as músicas do repertório sertanejo-raiz, destacaram-se os clássicos: ‘Menino da Porteira’, ‘Índia” e ‘ A Velha Porteira’. Até o saboroso ‘Franguinho na Panela’ – que saiu um pouco cru, porque desafinado – foi por todos degustado. Tudo isso fartamente servido à rega de um chimarrão divino, cuja erva-mate foi trazida por amigos do Sul, também presentes naquele doce mafuá.

A festa, que teve início na sexta-feira, com orações, cantoria e lançamento de livro, foi encerrada no domingo. Uma Celebração na nossa varanda, alguns emocionados depoimentos e o almoço selaram aquele ‘tríduo’, que já deixa saudades.

Nem palavras nem imagens podem exprimir a sublimidade desta “Caná”. Talvez apenas a memória de quem viu e viveu momento tão singular possa contemplar esses santos ‘Mistérios Gozosos’.


FILIPE

sexta-feira, 24 de julho de 2015

AO DOM CIPOLLINI

NOTA: Este texto foi encaminhado ao jornal "A Tribuma" de Amparo, edição de hoje.


Prezado Dom Pedro Carlos Cipollini, em diversas ocasiões ocupei este espaço para lhe fazer cobranças, mas nunca para ressaltar os seus muitos acertos à frente da diocese de Amparo. E por outras tantas, dirigi-me ao senhor através de e-mails, às vezes hostis, confesso. Mas no seu silêncio, com certeza, rezava por mim e pelo seu ministério. 

Certa feita, o senhor me convidou para uma conversa. Fui àquele encontro como quem caminha para o “sinédrio”, devo admitir. Aquela não poderia ser uma prosa de compadres. Estávamos em trincheiras opostas e a artilharia prometia ser pesada. Chegando à Cúria, um amável pastor recebeu sua “cabeçuda” ovelha – conforme se referiu a mim em tom amistoso – e conversamos por um tempo relativamente longo, a julgar pelos inúmeros compromissos de um bispo diocesano. Naquela oportunidade, pude me inteirar dos grandes problemas existentes num episcopado, alguns praticamente insolúveis. 

Dentre minhas tantas implicâncias com o senhor, uma era sobre a venda de bebidas alcoólicas nas quermesses. Na ânsia de ver esse problema resolvido, eu apelava para que se decretasse o banimento do nefasto comércio de “pinga” em todos os festejos de nossa diocese. Mas não me dei conta de que a Igreja é Comunidade. Para melhorar a Igreja, é preciso transformar a Comunidade, e isso não se faz via decreto episcopal. Cada um de nós é responsável pela mudança que queremos, e esse desejo há de ser plural ou não se transforma, jamais.Saí daquele encontro tomado de embevecimento, amado bispo. Vi, diante de mim, não um prelado que ocupa um alto posto na burocracia da Igreja Católica, mas um santo pastor. Um homem que reconhece seus limites e tenta acertar. A partir daquele dia, nunca mais lhe mandei e-mails desairosos e muito menos publiquei algo neste semanário que lhe pudesse ser ofensivo.

A vida do senhor tem passado por mudanças profundas. Recentemente, foi eleito para um importante cargo junto à CNBB. Agora, transferido de Amparo, já toma posse na Diocese de Santo André – uma das mais importantes do país em números de fiéis, além de ter uma bela história em defesa da democracia nos inglórios tempos da ditadura militar. A sua responsabilidade, que já era grande, agigantou-se. Nesta nova seara, espero que o senhor continue exortando o clero a adotar em suas práticas a pouco lembrada Doutrina Social da Igreja. Porque a nossa Igreja não pode fazer concessões aos poderosos, que vivem às custas do suor e das lágrimas dos empobrecidos, mas precisa caminhar com o povo, para que o Reino cresça e floresça para todos. 

Dom Pedro Carlos, tenha certeza de que, seguindo os passos do Papa Francisco e à luz do Evangelho, todos os seus esforços serão plenos de êxito. E para tanto, pode contar minhas preces.

OBS: Minha conversa com D. Pedro foi contemplada em postagem intitulada “Armistício”, publicada neste blog. 

FILIPE

sexta-feira, 10 de julho de 2015

MEU AVÔ SEBASTIÃO

NOTA: Este texto está no novo livro de meu pai.


Sebastião Lopes de Lima, conhecido por Bastião Lope, viveu relativamente pouco, pois falecera aos setenta e, aparentemente, com boa saúde. Desses setenta anos de vida, seguramente sessenta foram de trabalho duro, sem férias, folgando apenas aos domingos e olhe lá... Num sábado, véspera de sua morte, trabalhara até à tardezinha roçando um pastinho onde ficava o Queimado, seu cavalo de cela e charrete. Morrera a caminho da igreja, num domingo, onde assistiria a uma missa matinal.

Vovô Sebastião era famoso por ser homem trabalhador, bem-sucedido e “sistemático”. Muita gente se referia a ele com este adjetivo, não sei se em elogio ou crítica. Eu o admirava e até me esforçava para ser como ele: de poucas palavras, pouco riso, quase turrão, mas respeitado. No entanto, não consegui ser nada do que foi meu avô.

Madrugador, penso ser o vovô Sebastião o único homem que nunca fora despertado pelos raios solares. Quando o sol aparecia no horizonte, o vovô já estava a desdenhá-lo no serviço: tocando gado, carreando, ordenhando as vacas ou capinando. A minha avó Luzia, ao se levantar, já encontrava seu café na chaleira sobre a trempe do fogão a lenha, bem quentinho. Vovô foi muito cuidadoso com sua companheira, sempre a tratando com carinho e mimo. Prova disso é a “casa na rua”, que ele comprou para que ela tivesse mais conforto. Minha avó mudou-se para a “rua” com uma filha, enquanto vovô passava a semana no sítio, cuidando de suas vaquinhas, porcos, galinhas e de um moinho d’água. No sábado à tarde, ele marchava para sua casa na cidade, permanecendo por lá o final de semana. Mas, no amanhecer da segunda-feira já regressava à sua fazendinha.  Quando havia a “bateção” de pasto, minha avó vinha para o sítio com ele a fim de cozinhar para a companheirada. Nessa ocasião, uma dezena de camaradas, todos com foice, chegava bem cedinho no terreiro da “fazenda”, recebia as instruções e partia para o serviço. Em poucos dias, a pequena herdade do Bastião Lope estava limpinha de vassourões, erva-canudos e outros matos que não fossem capim-jaraguá e capim-gordura, que alimentavam o gado. Durante aquele serviço, os roçadores folgavam em cantoria do começo ao fim do dia. Enquanto as foices bailavam pra lá e pra cá, eles contavam piadas, faziam chacotas um do outro e cantavam uma espécie de repente denominado “calango-tango”, em que se trocam versos improvisados. Para começar, era comum alguém cantar: “Eh foicinha regateira, tá com esprito da gerarda!”

Cedo, às vezes com a relva ainda molhada pelo orvalho, o vovô já chegava com o almoço. Um enorme cesto era posto à sombra de uma árvore e dele se tiravam incontáveis caldeirões de comida. A boia era farta e rica, o que fazia atrair muitos companheiros para seu serviço. Então, cada caboclo pegava seu caldeirão e fazia a refeição sentado sobre o cabo da foice ou numa “almofada” de mato cortado. Vovô não economizava na carne de porco, torresmo, queijo e ovos. Aliás, o queijo frito, uma de suas especialidades, era a iguaria mais apreciada. De sobremesa, rapadura e queijo.
                             
Eu mesmo cheguei a trabalhar para o vovô, catando café embaixo do cafeeiro. Ele me dava uma daquelas latas de “Gordura de Coco Carioca”, de dois litros, para encher. Para cada lata cheia, eu ganhava uma moeda. Às vezes eu ficava uma tarde inteira para encher uma única lata, e me dava uma preguiça... Certa vez, ele me deu a lata vazia e uma moeda, dizendo: “Companheiro meu trabalha já com o ordenado no bolso”. Talvez desconfiasse de que eu não desse conta do serviço, mas, com pagamento antecipado, eu não poderia me esquivar. Então, fui à luta e enchi rapidinho aquela vasilha com os grãos de café. Noutros tempos, era o galinheiro que deveríamos fechar aos sábados, quando ele ia para Guiricema. Às vezes ia o irmão mais velho, o mais novo ou eu mesmo. Certa vez, vovô recompensou-nos com lindos chapéus de palha coloridos.

Outro presente do vovô Sebastião foi a Princesa, uma bezerrinha branquinha e filha de uma vaquinha amarela de nome Cocada. A Princesa nos deu muita alegria, muitas crias e nenhum coice ou chifrada. Seu leite era disputado, pois diziam ser o mais saboroso da fazendinha. O fato é que a Princesa era diferente mesmo. Seu charme, além da docilidade, eram suas cinco tetas, sendo duas geminadas.

Mas, no dia em que eu completava doze anos, vovô Sebastião faleceu. Eu estava na casa de meus avós maternos, quando uma tia me chamou e disse: “O seu avô Bastião Lope morreu!” Lá havia uma festinha, pois um tio, com quem faço aniversário, sempre me levava para festejar com ele. Mas a nossa festa, que ficou sendo a última, acabou para que fôssemos ao velório de meu avô. E desde então, o meu aniversário tornou-se particularmente um dia triste.


FILIPE